Este trabalho teve como objetivo principal a inventariação do património geomorfológico
do litoral continental, nomeadamente as costas baixas onde predomina a acumulação
sedimentar. Os resultados obtidos poderão dar um contributo para o inventário nacional do
património geológico. De um modo geral foram concluídos com sucesso.
A importância da inventariação do património geológico, nomeadamente a concretização
deste trabalho, é possibilitar a implementação de estratégias de geoconservação eficazes nos
geossítios geomorfológicos de valor científico, de âmbito nacional.
Pela complexidade da metodologia utilizada na inventariação do património
geomorfológico, e como a área em estudo é de elevadas dimensões, surgiram ao longo do
trabalho várias limitações. Apesar da profunda pesquisa bibliográfica efetuada é impossível ter
conhecimento de toda a bibliografia que possa existir acerca da geomorfologia dos setores de
costa baixa, assim como há bibliografia que não temos acesso. Por outro lado, podem existir
locais com valor científico, mas que ainda não foram estudados, pelo que, pela metodologia
aplicada não foram selecionados como potenciais geossítios. Por vezes, também o número de
publicações científicas existentes nem sempre são verdadeiramente representativas da
importância científica dos locais, na medida em que, os docentes e investigadores tendem a
estudar os locais próximos das instituições/ centros de investigação.
Também a impossibilidade de realizar trabalho de campo e reconhecimento da área em
estudo, pela falta de apoios financeiros, constituiu uma limitação. Contudo, como a
geomorfologia do local pode ser avaliada e caraterizada através de fotografias aéreas e da
cartografia existente, o rigor científico, ainda com um intervalo de erro, não é posto em causa no
processo de inventariação. Assim, a possibilidade de realizar trabalho de campo e o seu
reconhecimento constituiria uma mais-valia. Também a própria metodologia adotada não requer
obrigatoriamente deslocamento ao local, pelo que esta limitação facilmente foi contornada.
Por último, a inexistência de cartografia geomorfológica e a impossibilidade de aceder à
cartografia geológica, às escalas 1: 200 000 e 1: 50 000, da área em estudo, constitui uma
limitação, uma vez que, esta informação foi condicionada e, apenas contornada, quando descrita
em trabalhos científicos.
Inventariação do Património Geomorfológico do Litoral de Portugal Continental: Costas Baixas
148
De referir também que, a subjetividade é inerente a todo o processo de inventariação,
desde os critérios adotados para a avaliação qualitativa dos setores de costa baixa (nível de
antropização e conhecimento geomorfológico/ excecionalidade) e na seleção dos geossítios
(ponderações atribuídas para cada critério científico, avaliação numérica de cada critério para
cada potencial geossítio e justificação). No entanto, como a avaliação foi efetuada apenas por
um avaliador, esta subjetividade torna-se reduzida.
Assim, a metodologia utilizada neste trabalho, já proposta por PEREIRA (2006), foi
adaptada à área em estudo e partiu de todos os setores de costa baixa existentes. A estes foi
aplicada uma avaliação qualitativa, através de dois critérios fundamentais: o nível de
antropização, que é altamente destrutível das geoformas que se pretende avaliar, e o
conhecimento geomorfológico existente do setor, aliado à sua excecionalidade. Por último, a
avaliação dos potenciais geossítios, através de critérios com valor científico (conhecimento
científico,
representatividade,
integridade,
diversidade
geomorfológica,
raridade/
excecionalidade), cada qual com o mesmo valor de ponderação (20%) para tornar esta avaliação
mais equitativa. De realçar que, a aplicação de uma metodologia a todos os setores de costa
baixa até a obtenção dos geossítios, torna esta avaliação mais objetiva, do que aquela que até
então era aplicada.
Como tal, da inventariação do património geomorfológico das costas baixas em Portugal
Continental resultaram 12 geossítios, 5 correspondentes a praias (arenosas, rochosas ou que
constituem plataformas rochosas), 3 restingas, 2 baías e 2 ilhas-barreira, com um elevado valor
científico. Para tornar a designação dos geossítios mais apelativa, uma vez que, os nomes
inicialmente correspondiam aos limites do setor, tornou-se crucial a simplificação dos mesmos.
Assim, desta inventariação é então possível destacar qual a praia no litoral continental
que apresenta o registo mais completo de antigos níveis de praia escalonados no maciço
rochoso (Praia Rochosa de Montedor), onde existe uma maior diversidade de tipos de dunas que
se encontram bem preservados (Campo Dunar da Restinga Norte de Aveiro e o Campo Dunar de
Mira a Quiaios), o único exemplo nacional de uma baía delimitada por duas arribas (Baía de São
Martinho do Porto) e a que se encontra delimitada por dois tômbolos em resultado do
assoreamento das ribeiras (Baía de Peniche). Segue-se as geoformas residuais distintas e
excecionais, em dunas consolidadas, quer de origem eólica (Duna Consolidada de Magoito),
como de origem marítima (Restinga de Vila Nova de Milfontes), e qual a geoforma que
149
atualmente, pela sua localização privilegiada, está em acreção (Restinga de Troia). Também foi
identificado qual o setor que constitui um bom indicador da evolução da linha de costa (Praia de
Armação de Pêra a Galé) e as geoformas que resultam de uma dinâmica distinta pelas marés
(ilhas da Barreta e da Armona). Por último, a Praia da Amoreira, que teve origem a partir do
abatimento e consequente formação do graben, entre o mar e o bordo ocidental do Fosso de
Aljezur, que pela sua evolução geomorfológica conjuga depósitos sedimentares (campos
dunares) e afloramentos rochosos do paleozóico, dobrados e cortados na horizontal, expostos na
plataforma de abrasão marinha atual, o que torna este setor num exemplo nacional raro.
Como a área em estudo contém geoformas de elevada dimensão, todos os geossítios
são do tipo “área”, no entanto a delimitação dos mesmos neste trabalho correspondem a limites
presumíveis. Isto é, esta etapa não faz parte da metodologia de inventariação do património
geomorfológico, mas sim da estratégia de Avaliação e Gestão dos geossítios.
Como futuro trabalho seria interessante dar continuidade à estratégia de
geoconservação, nomeadamente a quantificação, classificação, conservação, valorização e
divulgação. Por último, alertar as entidades competentes, nomeadamente as instituições de
Conservação da Natureza, para a monitorização destes geossítios, de modo a garantir a
salvaguarda destes locais de elevado valor científico.
O fato da área em estudo apresentar uma elevada ocupação antrópica e estar sujeita a
uma forte pressão turística, este inventário deveria ser uma mais-valia nas instituições
competentes pelo ordenamento do território, não só pela importância científica destes locais,
como também pelo desenvolvimento sustentável inerente, dado que se trata de locais de
interesse público.
Em suma, todos os objetivos foram atingidos, foi identificado o património
geomorfológico existente no litoral de Portugal Continental, assim como, a presente dissertação
constitui uma ferramenta de aplicabilidade a uma determinada área, para obter o inventário do
possível património geomorfológico existente.
In document
Dokument 15:4 (2019–2020)
(sider 94-117)