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Masters of War é uma canção dirigida, desde a primeira frase (“Venham,

senhores da guerra”), aos grandes líderes no conturbado cenário político dos anos 1960, como permite fazer crer sua ancoragem, como será discutido adiante. O

enunciador/narrador acusa os políticos de serem os responsáveis pelas guerras, fundamentando o texto na oposição fundamental entre dominação x liberdade.

Com cerca de quatro minutos e meio de duração, a letra de Masters of War é bastante longa, compondo-se de oito estrofes de oito versos cada uma. O texto é cantado quase sem interrupções instrumentais, tornando-a quase um manifesto contra a guerra operada pelos “senhores da guerra”, como os denomina o enunciador.

A ancoragem da canção estabelece as pessoas (os políticos) em alguns locais (escritórios, aviões, mundo) em uma data (a presente, isto é, do ano em que a canção foi veiculada, 1963) dentro da enunciação, provocando um forte efeito de realidade.

A debreagem enunciativa causa um grande efeito de subjetividade e de aproximação entre o enunciador e o enunciatário. Por estar na primeira pessoa, ela instaura um “eu” no aqui e no agora. Como esse eu está presente no enunciado, ele a torna uma enunciação-enunciada. Isto significa que além do narrador se dirigir ao narratário, ele também participa da narração, o que trará desdobramentos para esta análise.

Na primeira estrofe, os senhores da guerra são caracterizados como burocratas que tomam decisões que afetam as pessoas sem saírem de seus escritórios, atrás dos quais se escondem e de onde comandam a construção de “grandes armas”, “aviões da morte” e “todas as bombas”. De maneira contundente, o enunciador afirma poder enxergar “através de suas máscaras”, apresentando o tema do desmascaramento, querendo dizer que não tem ilusões sobre o verdadeiro papel e a verdadeira responsabilidade deles na organização das guerras.

A letra avança com a condenação e o desmascaramento dos “senhores da guerra”, que se limitam a “criar para a destruição”, além de “brincar com o mundo” do narrador, figurativizando o serviço militar e a convocação dos jovens para a guerra: “Vocês colocam uma arma em minha mão e se escondem da minha vista, e se viram e correm para longe quando as rajadas de balas voam”.

Na terceira estrofe, o narrador canta que eles “mentem e enganam”, papel semelhante ao de Judas. Novamente, o narrador retoma o tema do desmascaramento dos políticos nas seguintes figuras: “Eu enxergo através de seus olhos e eu enxergo através de sua mente”. Estes versos são sucedidos por “como vejo através das águas que correm pelo meu esgoto”, em uma figura que reforça o tema das ações – consideradas pelo enunciador/narrador – como sujas. O caráter pacifista da canção, apesar das negativas

de Dylan (conferir p.22), se revela quando o enunciador refuta a crença de que “uma guerra mundial pode ser vencida”, como querem fazer crer os políticos.

A acusação continua ao aludir ao tema da covardia dos “senhores da guerra”, figurativizado nos jovens de que se serve o exército, enquanto ficam a salvo das balas mortais, como pode ser visto na quarta estrofe (“Vocês aprontam os gatilhos para os outros atirarem”, “Vocês se escondem em suas mansões”, etc.).

A estrofe seguinte traz palavras duras contra os “senhores da guerra”, responsáveis por lançar “o pior dos medos”, ou seja, o “medo de trazer crianças para o mundo”: “Vocês não valem o sangue que corre pelas suas veias”, figura que remete ao tema da dignidade, qualidade que falta aos políticos. Isto reforça a visão negativa do narrador em relação aos “senhores da guerra”, causando um efeito de sentido de depreciação e desprezo em suas figuras.

A sexta estrofe marca o reconhecimento, por parte do narrador, de que ele talvez seja “jovem” e “inculto”, figuras da inexperiência e da falta de conhecimento; contudo, em que pese a imaturidade, ele afirma que “nem Jesus jamais poderia perdoar o que vocês fazem”. Este verso implica em uma história imaginada pelo narrador: se submetidos a julgamento perante Jesus, os “senhores da guerra” não seriam perdoados. Ele dimensiona a ação de seus adversários de maneira tão negativa que o perdão divino, uma característica estendida a todos os seres humanos, se torna ausente, tão graves são os pecados dos “senhores da guerra”.

Na penúltima estrofe, o destinador tenta apelar para uma crise de consciência dos “senhores da guerra”: “Será que seu dinheiro é mesmo tão forte? Ele poderia comprar o seu perdão?”. No entanto, conclui e lança um julgamento, reforçando o fato de nem Jesus perdoá-los, que “todo o dinheiro do mundo não comprará de volta sua alma”, em que a sanção é negativa.

A oitava e última estrofe encera a canção com uma ferocidade poucas vezes vista na música popular. O enunciador/destinador diz esperar que os senhores da guerra morram, afirmando que seguirá o caixão deles e assistirá até que eles fiquem debaixo da terra, tematizando o ódio e a vingança, figurativizados em “ficarei de pé sobre seus túmulos, até ter certeza que vocês estão mortos”.

Assim, no que se refere à sintaxe do nível fundamental, pode-se dizer que há a afirmação da dominação, quando o narrador se refere à violência com que os “senhores da guerra” conduzem sua visão de mundo e sua política, depois a negação da

dominação, quando o narrador sanciona negativamente os “senhores da guerra” e por fim a afirmação da liberdade, quando os senhores da guerra estão mortos e enterrados.

No nível de superfície, o desejo dos “senhores da guerra” é a própria guerra (objeto-valor). O enunciado de estado indica que o destinatário está em conjunção com o objeto-valor, como foi observado durante toda a canção.

Masters of War é um texto complexo, que põe em cena mais um destinatário –

neste caso, o narrador. O objeto-valor deste destinatário é a paz, em oposição ao objeto- valor dos “senhores da guerra”. No entanto, como o objeto-valor é o “fim último de um sujeito” (FIORIN, 2001, p.29), é preciso observar o percurso do narrador/destinatário para obter a paz. Trata-se, portanto, de identificar primeiro o objeto-modal, “aquele necessário para se obter outro objeto” (FIORIN, 2001, p.29).

Existe aqui um movimento sofisticado nesta canção no que se refere à obtenção do objeto-valor. Como existem dois sujeitos – o narrador/enunciador e o senhores da guerra/enunciatário – possuem objetos-valores conflitantes – a paz e a guerra, respectivamente –, para que um entre em conjunção com seu objeto-valor, ele precisa que o outro entre em disjunção com seu objeto-valor correspondente.

No caso do enunciatário “senhores da guerra”, o enunciado de estado indica que ele está em conjunção com seu objeto-valor, a guerra. Para que o enunciador, o narrador, alcance seu objeto-valor, ele precisa primeiro obter a morte do enunciatário/senhores da guerra, morte esta que vem a ser o objeto-modal do narrador/enunciador. A partir do momento em que ele obtiver a morte dos senhores da guerra, ele poderá atingir seu último fim, ou seja, a paz, seu objeto-valor.

Para que isto aconteça, é necessário observar de que modo se dá essa transformação no percurso do narrador/destinador e do senhores da guerra/destinatário.

No primeiro caso, o narrador/destinador tem uma visão positiva do narrador/destinatário e uma competência de saber, o que caracteriza essa manipulação como de sedução, levando o narrador/destinatário a alterar sua competência para

querer-fazer. A performance se dá quando ele, que estava em disjunção com a paz,

entra em conjunção com seu objeto-valor, sendo sancionado positivamente.

No segundo caso, o narrador/destinador tem uma visão negativa do senhores da guerra/destinatário, sempre ameaçando-os, o que caracteriza esta manipulação como de

intimidação (BARROS, 1990, p.38). O narrador/destinador tem a competência do saber

e sanciona negativamente os senhores da guerra/destinatário, que terminam seu percurso em disjunção com seu objeto-valor.

Retomando a oposição fundamental de Masters of War, fica claro que a dominação é vista como disfórica, enquanto a liberdade possui um valor eufórico – em que pese certa violência para obtê-la, às custas da morte dos políticos que devastam o mundo e semeiam o pânico com suas guerras.

Vale a pena, por fim, discutir algumas estratégias utilizadas pelo narrador neste texto. Uma delas é a intertextualidade. Ao apresentar as figuras de Jesus e de Judas, ele tematiza a questão do perdão, emitindo um juízo negativo sobre o enunciatário, ao afirmar que ele não seria perdoado sequer por Cristo.

Esta simbolização141 está inscrita ao longo da canção, começando na terceira estrofe, ao comparar os “senhores da guerra” com Judas, retomando o tema na sexta estrofe, quando emite um juízo negativo ao argumentar que Jesus não poderia perdoá- los, tal como fez com Judas. Dessa forma, não há piedade, compaixão nem perdão do enunciador para com o enunciatário.

Original Tradução

Come you masters of war You that build the big guns You that build the death planes You that build all the bombs You that hide behind walls You that hide behind desks I just want you to know I can see through your masks

You that never done nothin' But build to destroy

You play with my world Like it's your little toy You put a gun in my hand And you hide from my eyes And you turn and run farther When the fast bullets fly

Venham senhores da guerra

Vocês que constroem as grandes armas Vocês que constroem os aviões da morte Vocês que constroem todas as bombas Vocês que se escondem atrás das paredes Vocês que se escondem atrás das mesas Eu só quero que vocês saibam

Que eu enxergo através de suas mascaras

Vocês que nunca fizeram nada A não ser criar para a destruição Vocês brincam com meu mundo Como se fosse seu pequeno brinquedo Vocês colocam uma arma em minha mão E se escondem da minha vista

E voltam e correm para longe Quando as rajadas de balas voam

141

Like Judas of old You lie and deceive A world war can be won You want me to believe But I see through your eyes And I see through your brain Like I see through the water That runs down my drain

You fasten the triggers For the others to fire

Then you set back and watch When the death count gets higher You hide in your mansion

As young people's blood Flows out of their bodies And is buried in the mud

You've thrown the worst fear That can ever be hurled Fear to bring children Into the world

For threatening my baby Unborn and unnamed You ain't worth the blood That runs in your veins

How much do I know To talk out of turn

You might say that I'm young You might say I'm unlearned But there's one thing I know

Como um Judas do passado Vocês mentem e enganam

Que uma guerra mundial pode ser ganha Vocês querem que eu acredite

Mas eu vejo através de seus olhos E eu vejo através de suas mentes Como vejo através das águas Que correm pelo meu esgoto

Vocês puxam os gatilhos Para que os outros atirarem Depois se afastam e assistem

Enquanto a contagem dos mortos aumenta Vocês se escondem em suas mansões Enquanto o sangue dos jovens

Jorra de seus corpos E se enterra na lama

Vocês disseminaram o pior dos medos Que poderia ser lançado

Medo de trazer crianças Para este mundo

Por ameaçarem meu filho Ainda por nascer e sem nome Vocês não valem o sangue Que corre em suas veias

O quanto sei eu

Para falar antes da hora?

Você pode dizer que sou jovem Você pode dizer que sou ignorante Mas há uma coisa que eu sei

Though I'm younger than you Even Jesus would never Forgive what you do

Let me ask you one question Is your money that good Will it buy you forgiveness Do you think that it could I think you will find

When your death takes its toll All the money you made Will never buy back your soul

And I hope that you die And your death'll come soon I will follow your casket In the pale afternoon

And I'll watch while you're lowered Down to your deathbed

And I'll stand o'er your grave 'Til I'm sure that you're dead

Embora eu seja mais jovem que vocês Nem Jesus jamais poderia

Perdoar o que vocês fazem

Permitam-me fazer uma pergunta Será que seu dinheiro é mesmo bom? Poderia comprar seu perdão?

Vocês acreditam mesmo? Acho que descobrirão

No dia em que a morte vier lhes cobrar Que todo o dinheiro do mundo

Não comprará de volta suas almas

E eu espero que vocês morram E que sua morte chegue logo Seguirei seu caixão

Na tarde pálida

E assistirei quando forem baixados A seus leitos de morte

E ficarei de pé sobre seus túmulos Até ter certeza que estão mortos