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Descriptive Statistics of French Salmon Prices

8. Empirical Results for France

8.1 Descriptive Statistics of French Salmon Prices

Um primeiro aspecto a destacar é que a teoria da História de Rüsen tem como ponto de partida uma auto-reflexão. Nesta teoria são identificados os fundamentos da ciência da História a partir do cotidiano do historiador, dos dilemas e inquietações que enfrenta quando escreve História. Em razão disso é que Rüsen chama a sua teoria de uma metateoria, ou seja, uma teoria reflexiva da própria teoria. É um pensar sobre o significado do pensamento histórico. A metateoria não serve diretamente para ser aplicada à pesquisa empírica, uma vez que sua função é refletir sobre a pesquisa, bem como sobre as teorias, conceitos, metodologias etc., que o historiador utiliza para alcançar seus objetivos (RÜSEN,

2001, p. 15-17). Esse esforço de abstração é realizado para tentar fundamentar a ciência da História através de um pensamento que se volta sobre si mesmo.

Em face da multiplicidade que cerca o campo da História, com utilizações de inúmeras matrizes teóricas, metodologias variadas, objetos diversos, Rüsen tenta recompor o que podemos chamar de uma identidade geral da ciência da História, captando o que há de subjacente no trabalho do historiador. Ele decanta essa multiplicidade para tentar perceber e conciliar o que há de transversal neste vasto emaranhado de práticas historiográficas, recortando a unicidade no tecido da pluralidade, ou como ele mesmo diz, passando das árvores isoladas para a floresta. (Ibidem, p. 26).

Para se chegar aos fundamentos mais genéricos e elementares da ciência histórica ele assevera a necessidade de se tomar como ponto de partida o pensamento histórico, ou consciência histórica, que é um pensamento pré-científico a partir do qual a História como ciência se desenvolve.

A consciência histórica é resultado do estar no mundo. Esse estar no mundo cria diversas demandas para o homem, entre as quais se destaca a carência por orientação no tempo. Para que possa viver, o homem precisa entender o mundo do qual ele próprio faz parte; precisa interpretar o mundo em função daquilo que espera e daquilo que efetivamente alcança. Suas tomadas de decisão e o seu agir são intencionais, e dependem exatamente do tipo de interpretação/entendimento que constroem ao longo de suas vidas acerca das experiências passadas.

A dimensão temporal, portanto, se encontra no centro desse trabalho interpretativo. Para saber onde está é imperativo considerar onde já se esteve e aonde se quer chegar. A tarefa de interpretar o mundo, de construir um sentido para a existência, pode ser entendida como uma operação de domar o tempo, de engendrar uma leitura da realidade que será utilizada para que se possa agir intencionalmente e fazer escolhas. É com a finalidade de construir uma orientação temporal – um sentido do tempo - que a consciência histórica se manifesta.

Nesses termos, pode-se notar que a carência por orientação está presente na vida prática dos homens. De fato, tomar conhecimento das experiências passadas é uma prática que se pode observar em todas as sociedades de que se tem notícia.

Ao elaborar a sua teoria da História, Rüsen evoca exatamente essa relação entre História e vida prática, e na esteira dessa discussão aponta para um problema que em muitos casos parece velado pelos historiadores: trata-se das razões que justificam a existência da História enquanto ciência. Afinal, qual é a função da História? Para que tenhamos uma ideia

mais exata da grandeza e dramaticidade do dilema, é importante salientar que a essa questão comparecem implicações como: por que ao longo dos anos universidades de todo o mundo formam milhares de historiadores? Por que os governos de vários países financiam suas pesquisas? O que justifica esse esforço não desprezível?

A resposta a essa inquietante pergunta é respondida por Rüsen de uma maneira profunda, como não poderia ser diferente. A História7 é uma realização específica daquela operação fundamental, da qual falamos a pouco, comum a todos os homens: a orientação no tempo. Para Rüsen, o tempo representa uma ameaça à normalidade das relações humanas, lançando-as para o abismo das incertezas. A experiência mais radical do tempo é a morte. Neste sentido, a História, tal como a consciência histórica, é uma resposta a este desafio: é uma interpretação da experiência ameaçadora do tempo (RÜSEN, 2001, p. 66).

Em virtude da força inexorável do tempo sobre a vida humana é que a orientação

assume um papel crucial. “O homem necessita estabelecer um quadro interpretativo do que

experimenta como mudança de si mesmo e de seu mundo, [...] a fim de poder agir nesse decurso temporal, ou seja, assenhorar-se dele de forma tal que possa realizar as intenções de seu agir.” (Ibidem, p. 58).

O que seria, então, esse quadro interpretativo? Como a consciência histórica desempenha sua função? Para Rüsen, é a narrativa (histórica) que expõe os padrões da consciência histórica – em alguns momentos de sua obra esses conceitos são tomados quase como sinônimos. A narrativa histórica é o construto intelectual que fundamenta o pensamento histórico; é a operação constitutiva da consciência histórica, bem como do conhecimento histórico científico. (Ibidem, p. 61). A orientação é intermediada pela construção narrativa da experiência do tempo, que elabora um sentido da existência do homem.

Podemos perceber as condições que a narrativa tem de cumprir para ser considerada uma narrativa histórica, portanto, qualificada para exercer essa função de orientação, quando Rüsen isola artificialmente os seus componentes – conteúdo, estrutura e função.

O primeiro elemento são as lembranças, que reúnem as experiências ou acontecimentos do tempo passado. Este é o conteúdo empírico ao qual a narrativa histórica se refere. As lembranças precisam ser articuladas no interior de uma estrutura que conecte passado, presente e futuro. É dentro de uma representação da continuidade que o passado é articulado de modo a dar sentido às experiências, sendo esta articulação, portanto, a segunda

especificação da narrativa. Ademais, o construto narrativo deve ser engendrado de tal forma a convencer os destinatários acerca das mudanças e permanências no tempo.

A narrativa histórica, enquanto constituição de sentido sobre a experiência do tempo, no final das contas, tem a ver com a constituição da identidade – terceiro elemento integrante da narrativa. (Ibidem, p. 56-67). Em suma, a narrativa histórica é composta de uma tríplice operação, a qual se dá a partir de uma articulação entre as experiências lembradas e a representação de um fluxo temporal que incide na constituição das identidades dos seus receptores. (ASSIS, 2004, p.67-68). Nas palavras de Jörn Rüsen, é por intermédio da narrativa

histórica que “são formuladas representações da continuidade da evolução temporal dos

homens e de seu mundo, instituidoras de identidade, por meio da memória, e inseridas, como determinação de sentido, no quadro de orientação da vida prática humana.” (RÜSEN, 2001, p. 67). Em outro momento, ele nos diz que: “[...] em sua vida em sociedade, os sujeitos têm de se orientar historicamente e têm que formar sua identidade para viver – melhor: para poder agir intencionalmente.” (Idem, 2007, p. 87).

Segundo Arthur Assis, as identidades postas em funcionamento pela consciência histórica “informam os sujeitos humanos acerca de quem eles são, por recurso ao passado que e em que eles foram e, com isso, fixam as possibilidades de seu vir a ser. Por causa desse

desempenho, identidades se colocam na base efetiva da orientação do agir”. (ASSIS, 2004, p.

33). Nota-se que a constituição de identidade é uma demanda da ação humana, um autêntico fenômeno do mundo vital.

Luis Fernando Cerri também assinala que são questões de fundo identitário que estão na base da consciência histórica. Ela coloca em movimento a definição da identidade coletiva e pessoal (CERRI, 2011, p. 13).

O espaço que a consciência histórica ocupa nas relações humanas pode ser percebido por diversos elementos, mas principalmente (e provavelmente aquele do qual os demais derivam) é a identidade coletiva, ou seja, tudo aquilo que possibilita que digamos nós (e eles). [...] Em suma, a consciência histórica constitui a parte preponderante da resposta à pergunta: quem somos nós? (Ibidem, p. 41).

O saber elaborado cientificamente pelos historiadores tem como ponto de partida a mesma racionalidade que caracteriza a produção da narrativa histórica, descrita acima. Desse modo, a História tem uma relação umbilical com a consciência histórica, uma vez que decorre dela. É importante assinalar que a consciência histórica encontra-se no âmbito da vida prática, ou seja, as orientações no tempo são construídas para dar conta de problemas

cotidianos. Então, é na vida prática que Rüsen enxerga o fundamento existencial da História e é a partir dela que desenvolve seus argumentos.

É pertinente deixar claro que ele não concede aos historiadores o monopólio da produção de sentido e significado do tempo. A própria utilização do adjetivo histórica não

deve remeter única e exclusivamente ao trabalho dos historiadores porque “não se limita à

ciência da história, mas designa igualmente as operações elementares e gerais da consciência histórica humana.” (RÜSEN, 2001, p. 11-12). Como assevera também Luis Fernando Cerri, história é toda produção de conhecimento em função do tempo, da qual participam indivíduos e coletividades. (CERRI, 2011, p. 28).

Compreendemos que a busca por orientação no tempo não existe por conta do trabalho dos historiadores – embora seja excitada em muitos casos por meio deste. Ao contrário, o ofício dos historiadores existe porque há uma carência de orientação inerente ao homem. Tendo as operações genéricas e elementares da consciência histórica como elemento central é que Jörn Rüsen desenvolve sua teoria:

Para se saber o que significa conhecer historicamente de modo científico, é preciso esclarecer o que significa pensar historicamente. Tenciono, pois, analisar os processos mentais genéricos e elementares da interpretação do mundo e de si mesmos pelos homens, nos quais se constitui o que se pode chamar de consciência histórica. Buscar-se-á identificar, nesses processos, os momentos em que a história como ciência está “inserida”. (RÜSEN, 2001, p.55).