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Testing in the Cointegration Framework

7. Methodology

7.3 Testing in the Cointegration Framework

A noção de consciência histórica traz na esteira do seu debate algumas polêmicas acesas que temos que levar em conta, ainda que sumariamente, na medida em que é necessário evitar possíveis enganos. É indispensável elaborar algumas ressalvas, tendo em vista que não foram poucos os que já falaram sobre este conceito e isso contribuiu para torná- lo um tanto polissêmico. Em publicação recente, Luis Fernando Cerri (2011) reuniu alguns dos principais autores que discutem essa noção, arrolando algumas características que os distinguem. Acompanhamos a discussão feita por Cerri não com a intenção de caracterizar exaustivamente o modo como os vários autores problematizam a consciência histórica, mas para tentar nos afastar minimamente de alguns aspectos que envolvem a questão.

De acordo com Cerri, o historiador Phillipe Ariès compreende a consciência histórica como um determinado estágio. Para ele, a tomada de consciência da história acontece no momento em que o indivíduo olha para além do seu papel de agente histórico e enxerga sua condição de ser determinado pelo movimento da história. Isso o leva a romper com a dimensão tradicional de sua vida. Essa tomada de consciência é resultado do processo de modernização, o qual provoca a mudança dos indivíduos de seus lugares físicos e culturais, levando-os para uma nova realidade onde as referências antigas não dão conta de orientá-los. (Ibidem, p. 27). Nesta perspectiva, a consciência histórica é um fenômeno recente, tornado possível em decorrência da modernidade ocidental. Ao lado dessa consciência histórica

teríamos, numa posição diametralmente oposta, um tipo de “inconsciência” histórica. (Ibidem,

p. 24-25).

Em contraposição a perspectiva de consciência histórica como um estágio de maturação do pensamento, Cerri aproxima num primeiro momento as reflexões de Rüsen e

Agnes Heller. “Para ambos a consciência histórica não é meta, mas uma das condições da

existência do pensamento: não está restrita a um período da história, a regiões do planeta, a classes sociais ou a indivíduos mais ou menos preparados para a reflexão histórica ou social geral” (Ibidem, p. 27-28).

No decorrer da discussão, Cerri diferencia o pensamento desses autores. Em suma, a noção de consciência histórica em Heller aponta para uma dependência de circunstâncias históricas. Cada estágio6 da consciência histórica está condicionado a determinados momentos históricos. No pensamento de Rüsen também há uma associação de padrões de consciência histórica com determinados momentos históricos. Não obstante, isso não significa que a cada época corresponda um padrão de consciência histórica homogêneo, já que múltiplas articulações da consciência histórica podem estar presentes num mesmo grupo ou até num mesmo indivíduo. Isso porque as gerações de sentido do tempo “relacionam-se muito mais com contextos e situações [...] em que são demandados conforme as características do quadro que nos cerca em momentos específicos”. (Ibidem, p. 100).

O historiador John Lewis Gaddis compõe, por outro lado, uma instigante articulação do que é a consciência histórica. Num primeiro plano, ele destaca a função crucial do passado na vida humana: sem o conhecimento deste, não saberíamos nem mesmo quem, ou o que nós somos (GADDIS, 2003, p. 17). Dessa maneira, a identidade encontra-se na base

do trabalho da consciência histórica e “nos leva, assim como a maturidade, a ter,

simultaneamente, um sentido de nossa própria significância e insignificância” (Ibidem, p. 22). A consciência histórica assemelha-se a uma espécie de visão da paisagem do passado. E esta visão é conquistada com passar do tempo, e tem um sentido de amadurecimento.

Não obstante, ao afirmar que a consciência histórica assemelha-se à maturidade – etapa da vida em que não mais nos percebemos como o centro do mundo – e que ela nos conduz a um sentido de nossa significância e também de insignificância, Gaddis limita o seu campo de atuação. Essa restrição pode ser vislumbrada quando consideramos que as identidades culturais raramente vêm a falar de sua insignificância, uma vez que são construídas para destacar as particularidades de um grupo e com isso afirmar sua grandeza frente ao outro – no mais das vezes desenhado como o avesso do grupo, o diferente, o incivilizado (Cf. HALL, 2006). Essa relação assimétrica que compõe a estratégia de constituição da identidade e da diferença não é considerada por Gaddis. A sua concepção de consciência histórica não comporta a faceta etnocêntrica, inerente à identidade humana (RÜSEN, 2009). Como observou Rüsen, o etnocentrismo permeia de modo quase natural as

estratégias identitárias. “Ele significa simplesmente a distinção entre a esfera da própria vida

como algo familiar da esfera da vida dos outros, que é substancialmente diferente” (RÜSEN, 2009, p.175). Neste sentido, sobressai uma perspectiva indulgente como estratégia para

6 Apesar de utilizar o conceito de estágio Heller não o aplica no sentido de etapas, às quais a humanidade deve

delimitar e qualificar o que é próprio do grupo e para o que estiver além da fronteira é

reservado um olhar de estranheza. Como diz o próprio Rüsen, “os valores positivos moldam a imagem histórica de ‘si mesmo’ e os valores negativos a imagem dos outros” (RÜSEN, 2009,

p.175).

Para Gaddis, o sentido da identidade que é construído pela consciência histórica coletiva aponta para uma perspectiva de humildade, conduzindo os indivíduos para uma sociedade saudável e balanceada, como uma espécie de floresta em equilíbrio ecológico (GADDIS, 2003, p. 148-169). O etnocentrismo estaria fora dessa constituição da identidade, ou pelo menos se encontraria relativizado a tal ponto que fosse aceito por membros do grupo e fora do grupo. Portanto, se pensarmos num indivíduo que não possui um nível de maturidade como a que foi descrita – e sabemos que não são poucos – então, a consequência óbvia a partir do pensamento de Gaddis é que ele não possuiria consciência histórica. Em resumo, a consciência histórica não seria comum a todos.

Para Rüsen, o trabalho da consciência histórica é mais amplo, visto que compreende todo trabalho de atribuição de sentido do tempo. Isso significa dizer que são múltiplos os sentidos e as orientações produzidos pela consciência histórica: na relação entre os grupos, ela pode conduzir à tolerância e também à intolerância, à estabilidade e à instabilidade, à afeição e à animosidade. É também em função desta perspectiva sincrônica que optamos por utilizar a teoria da História de Rüsen, tendo em vista que o padrão da

consciência histórica “varia conforme as circunstâncias sob as quais as orientações históricas

se tornam necessárias na vida prática” (RÜSEN, 2007, p. 47). Como procuraremos deixar claro a seguir, o pensamento desse autor abre um vasto leque de possibilidades para pensarmos o ensino da história a partir da teoria da História.