O real não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Guimarães Rosa
Muitos foram os caminhos percorridos no trabalho de campo da presente pesquisa: caminhos do pensamento, caminhos do corpo, caminhos da escrita. E foi durante este percurso que os objetivos do estudo foram se tornando cada vez mais claros e que a pesquisa foi ganhando forma, saindo do papel, com a ajuda das pessoas que fui encontrando nesta trajetória. Foi a partir do trabalho de campo que fui percebendo o quanto a pesquisa se concretiza no caminhar, durante a travessia, a partir de cada escolha tomada durante o
percurso. Por isso, pretendo, aqui, contar como foi esse "caminhar", construído por muitas pernas.
2.3.1 A escolha da região periférica: Cidade Ademar
A região escolhida para a realização da presente pesquisa foi a da Cidade Ademar, que fica na Zona Sul da cidade de São Paulo, e é formada por pequenos bairros, com grandes contrastes sócio-econômicos entre eles, apesar de ser considerada, como um todo, uma região de periferia. Vila Joaniza, Jardim Miriam, Vila Inglesa e Coréia são alguns exemplos de bairros mais pobres pertencentes a esta região, fronteiriça ao município de Diadema.
Segundo informações presentes no site da Subprefeitura da Cidade Ademar12, a região13 começou a ser ocupada na década de 1960, por migrantes vindos de outros Estados brasileiros para trabalhar, principalmente, nas indústrias. Somente em 1997, a região passou a ser administrada por uma subprefeitura própria, sendo que, antes, pertencia à região administrativa de Santo Amaro. De acordo com o site, este é um dos motivos da falta de recursos para investimentos públicos em saúde, educação, transporte e moradia na região.
Esta região é conhecida, em São Paulo, por seus altos índices de violência14 e há uma divisão informal feita por alguns moradores: Cidade Ademar Alta e Cidade Ademar Baixa. Nunca vi nenhum registro oficial sobre esta divisão que, na verdade, separa os bairros das classes mais abastadas, dos bairros que vivem uma situação de alta vulnerabilidade social, havendo uma segregação dos moradores de baixa-renda. É comum ver pessoas que moram nestes bairros, trabalhando nas casas dos moradores dos outros bairros mais abastados da região.
Escolhi realizar meu trabalho de campo nesta região, pois moro em um de seus pequenos bairros, perto destes outros com condições mais precárias e sempre tive interesse em conhecer melhor a situação de vida destes moradores, com os quais tive muito contato durante minha vida. Mesmo assim, apesar da proximidade da minha casa, nunca havia entrado em nenhuma das comunidades. A escolha pela região também surgiu pelo fato de que eu já
12 Informações retiradas do tópico “Histórico” no site da Subprefeitura da Cidade Ademar. Disponível em:
<http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/cidade_ademar/ >. Acesso em: 10.jan.2012
13 O termo "região" é utilizado pelas informações oficiais presentes no site da subprefeitura citado acima. Em
algumas informações, há também a utilização do termo "distrito". No presente estudo, optou-se pelo uso do primeiro termo, "região".
14 A partir de dados divulgados pela segurança pública em 2011o jornal Estado de São Paulo do dia 26 de julho
de 2011 divulgou pesquisa baseada em ocorrências registradas nos departamentos policiais (DP) nos bairros paulistanos. No 2º trimestre desse ano o DP do Jardim Miriam foi o sexto em números de homicídios dolosos na cidade de São Paulo. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/especiais/geografia-do-crime-em-sao- paulo,143380.htm>. Acesso em: 28. fev. 2013
sabia que, antes, ela era considerada como um "bairro dormitório", formado por migrantes. Enfim, o desejo por realizar a pesquisa no local onde moro também vem de uma curiosidade de conhecer mais sua história, como foi formado, e as pessoas que fizeram parte de sua construção.
Mapa 1: Localização da região administrativa Cidade Ademar na cidade de São Paulo.15 2.3.2 Preparando-se para o inesperado: com os pés na rua
Apesar de considerar que o trabalho de campo já se iniciou mesmo sem “ir a campo”, colocar os pés na rua e decidir por onde começar é sempre uma difícil tarefa. Já havia, pelo menos, algumas direções: sabia em qual região periférica da cidade de São Paulo iria desenvolver minha pesquisa e que ela seria feita a partir de narrativas de migrantes, moradores de comunidades desta região, vivendo em situação de pobreza. Também imaginava formas de encontrá-los: iria a serviços públicos no bairro, como o CRAS (Centro de
15 Mapa retirado do site da Prefeitura de São Paulo. Disponível em:
<http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/subprefeituras/mapa/index.php?p=14894>. Acesso em: 10.mar.2013
Referência de Assistência Social) e outros serviços de Assistência Social; bares; Igrejas; entre outras redes sociais presentes no local e que se configuram como espaços de convívio ou serviços geralmente procurados por estas pessoas. Às pessoas que aceitassem participar da pesquisa, também pediria indicações de outros possíveis participantes.
Estes eram os planos e, como ocorre em trabalhos qualitativos, os planos nos orientam e o previsível é que haverá imprevistos. Assim, os preparos para colocar os pés na rua foram muitos e também muitas foram as inseguranças: não saber se o trabalho vai dar “certo”; se as pessoas aceitarão conversar comigo ou não; se eu iria “atrapalhar” as pessoas e as instituições com a minha pesquisa; e se a pesquisa faria sentido para as pessoas com quem conversaria.
Começo por um local que sentia como mais familiar, apesar de ainda não o conhecer, para tentar realizar uma parte do meu trabalho de campo: o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) de referência para a região, que também fica perto da minha casa. Era um começo menos desconhecido para mim, por conta do estágio que já havia realizado em um CRAS de um município da Grande São Paulo, no qual desenvolvi um grupo de conversa sobre migração junto com os usuários e que, como já apresentei no início deste texto, contribuiu muito para a construção da minha temática de pesquisa. Sabia que, no CRAS, poderia encontrar migrantes vivendo em situação de pobreza, já que ele é um serviço destinado a "pessoas em situação de vulnerabilidade social" (BRASIL, 2006).
Fui, então, ao CRAS, levando comigo a carta de apresentação da pesquisa, um resumo do meu projeto, o roteiro de conversas com os participantes e minhas conversas imaginárias de apresentação do meu estudo para os funcionários do local. Fiz duas visitas ao CRAS para apresentar o meu estudo e para pedir permissão para realizar parte do meu trabalho de campo com os usuários deste serviço.
Na primeira visita, conversei com uma assistente social que se interessou pelo tema, mas pediu para que eu voltasse outro dia para conversar com a coordenadora responsável pelo local. Na segunda visita, a coordenadora estava ocupada e conversei com outra assistente social, que disse que seria difícil conseguir permissão para realizar minha pesquisa naquele CRAS, pois receberam instruções da coordenadoria dos CRAS da Zona Sul, para não aceitarem pesquisas dentro do serviço e nem conversas com seus usuários. Assim, não foi possível realizar parte do meu estudo no CRAS, mas estas duas pequenas visitas já suscitaram algumas reflexões a respeito do meu tema de pesquisa.
2.3.3 Rede de indicações: ganhando novos parceiros de pesquisa
Depois da ida ao CRAS, enfim, consegui entrar em contato com pessoas para participar do estudo, a partir de indicações feitas por uma conhecida, que mora na mesma região. Através de suas indicações, consegui conversar com os dois primeiros participantes do presente estudo: Leandro16, que é o guarda que trabalha em sua rua, que ela sabia que tinha vindo de algum lugar do Nordeste, e com quem eu já tinha um pouco de contato; e Maria Nascimento, que já havia trabalhado como empregada doméstica em sua casa há algum tempo atrás e com quem eu tive muito contato e relação de amizade. Os outros três participantes - Nilda, Valdívio e Dora - foram indicados por Maria, que acabou se tornando minha "co- pesquisadora", sempre procurando pessoas que poderiam se interessar em participar da pesquisa e me ajudando a dar os próximos passos, dando sugestões e muitos conselhos.
Assim, a pesquisa foi realizada com cinco participantes, no formato de conversas, sendo que uma delas ocorreu no local de trabalho do participante e as outras quatro foram feitas nas casas dos participantes. Todos moram na região da Cidade Ademar, em comunidades e nasceram em cidades do Nordeste, em que moravam na zona rural. As conversas foram gravadas, com a devida permissão dos narradores, que leram a Carta de Apresentação17 da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido18. Foram realizadas as transcrições das narrativas, que foram entregues aos participantes, junto com um CD com a conversa gravada.
Quando percebi, graças às pessoas com quem entrei em contato, a pesquisa já deixava de engatinhar, começando a caminhar com suas próprias pernas, espalhando-se para fora do papel. A partir desta rede de indicações, o trabalho de campo ganhou fluidez e, agora, eu não estava só fazendo “entrevistas”, estava fazendo visitas a novos amigos que fui conhecendo pelo caminho.
2.3.4 Busca pelas redes sociais de apoio: dando contorno à pesquisa
Durante o caminhar da pesquisa, com a intenção de conhecer melhor as redes sociais de apoio apontadas pelos participantes em suas narrativas, acabei indo conhecer o Centro Social Dr. Bezerra de Menezes, ligado a um centro espírita da região e que foi citado por
16
Foram utilizados os nomes reais dos participantes, com a devida permissão de cada um deles, que escolheram como deveriam ser identificados no presente estudo: alguns preferiram utilizar seus apelidos, outros seus nomes completos.
17 A Carta de Apresentação pode ser conferida no Apêndice II.
Maria e Nilda. Pensei que esta também poderia ser uma maneira de conversar com mais pessoas para a pesquisa. Fui muito bem recebida pelos funcionários da instituição, que me explicaram como ela funcionava, oferecendo atendimentos médicos, odontológicos, cestas básicas e remédios para moradores de algumas das comunidades da região. Apesar da hospitalidade, mais uma vez, assim como ocorreu no CRAS, não consegui permissão para realizar parte do estudo neste serviço, pois eles estavam com dificuldade para administrar estágios e pesquisas ali realizados, devido à falta de funcionários e excesso de trabalho.
À princípio, eu também havia planejado, junto com a Maria, acompanhar o Valdívio, seu marido, a um dos bares que ele freqüenta na região, para conversar sobre minha pesquisa com mais pessoas, mas depois de algum tempo, Maria achou melhor que eu não fosse, pois não achava que seria um ambiente bom para realizar a pesquisa. Acabei seguindo seu conselho e não fui ao bar com o Valdívio.
Após estas tentativas de conhecer algumas redes sociais de apoio indicadas pelos participantes, em reuniões de orientação, revendo os objetivos do presente estudo, ficou claro que eu não precisava ir até as redes apontadas para conhecê-las melhor, já que o objetivo era identificar quais são estas redes a partir das narrativas dos participantes da pesquisa. Além disso, como já foi discutido anteriormente, as redes não se configuram, necessariamente, como lugares físicos, como instituições ou locais de convivência, elas são, antes de tudo, formadas por pessoas.
Assim, foi no caminhar do trabalho de campo que os objetivos da presente pesquisa foram ficando cada vez mais claros e que ela foi se concretizando, levada adiante não apenas por mim, mas pelas pessoas que fui encontrando no meio do caminho e que me ajudaram a fazer os contornos de meu estudo, que já não era mais meu, mas de todos que contribuíram nesta trajetória.