Segundo Hannah Arendt (2010), os homens não nascem para morrer, mas sim para começar. A autora coloca, então, que uma capacidade de realizar milagres deve ser incluída na gama das habilidades humanas, e é o exercício dessa capacidade que confere às atividades humanas duas das características mais essenciais de nossa existência, que correspondem à fé e à esperança.
O fato de o homem ser capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável. E isso, mais uma vez, só é possível porque cada homem é único, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo. Desse alguém que é singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele não havia ninguém. (ARENDT, 2010, p. 223)
De acordo com Martins (1998a), as pessoas, mesmo nas situações mais extremas, têm capacidade de dar sentido à realidade, de compartilhar significados. Por isso, os significados são reinventados continuamente pelos sujeitos ao invés de serem copiados. O homem, portanto, é também sujeito de ação e criação e não só de repetição e é a partir de cenas cotidianas, de acontecimentos cotidianos que podemos vê-lo em ação, tentando dar sentido à realidade em que vive.
Gonçalves Filho (2007) também fala sobre esse poder de ressignificar situações, rompendo com o entendimento inercial, ao que dá o nome de resignação. Para ele, só é possível compreender a resignação das pessoas "pobres" como um poder a partir de conversas com elas, verificando, assim, que abominam o rebaixamento, a situação em que se encontram e que lutam diariamente para sobreviver e resistir a ela:
As massas são constituídas por homens, mulheres, crianças. As massas são pessoas embrutecidas e aviltadas pela servidão, mas nem por isso menos capazes de raciocinar, de aprender, de amar e de agir, nos estreitos limites de liberdade que não lhes puderam ser roubados. (MELLO, 1989, p. 15)
Michel de Certeau (2008), ao estudar como os consumidores fazem uso, no dia-a-dia, dos produtos culturais que não foram fabricados por eles, refuta a idéia predominante de que eles recebem os bens culturais de maneira passiva. Coloca que há, então, uma pluralidade da cultura, já que, a partir da análise das práticas cotidianas, é possível perceber que não há
somente uma cultura passada linearmente por quem produz para quem consome, não há somente uniformização e obediência, há também inventividade, criação. As pessoas inventam "maneiras de fazer" diferentes das que foram passadas para que elas seguissem. Assim, para o autor, há, no cotidiano, espaço para a disciplina, mas também para a antidisciplina, para a subversão. Os chamados "dominados", os mais "fracos", os "carentes", portanto, não podem ser tidos como passivos.
Como ilustração disto, Certeau (2008) dá o exemplo dos indígenas da América do Sul que foram cristianizados à força pelos espanhóis. De fora, os índios pareciam se submeter totalmente e se conformar com as expectativas do conquistador, mas, na verdade, faziam, nas palavras do autor, uma "bricolagem" com e na economia cultural dominante, fazendo funcionar as suas leis e suas representações, mas em um outro registro, dentro de suas próprias tradições. Para o autor, esta "maneira de fazer", esta "bricolagem" consiste no que ele denominou de a "arte do fraco", a que corresponde a "politização das práticas", quando se aproveitam as oportunidades que as circunstâncias oferecem, dando-se golpes em território alheio (SATO; OLIVEIRA, 2008). São as táticas, conceito desenvolvido por Certeau (2008) em contraposição às estratégias.
As táticas são "maneiras de fazer" daqueles que, em situações de desigualdade de poder, de desigualdade política, têm que ter astúcia para sobreviver, fazendo o que é possível naquele momento. A astúcia, aqui, não é compreendida como "esperteza" e "malícia", como comumente empregada em nosso vocabulário: ela corresponde a estas criações, a estas "maneiras de fazer" dos "fracos", a estas "táticas". Nestas táticas, não há um lugar próprio para o planejamento das ações, sendo preciso “se virar” no espaço que é do outro, tentando criar caminhos possíveis. Já nas estratégias, há um lugar próprio, no qual a pessoa pode planejar suas ações.
Segundo Certeau (2008), as táticas operam golpe por golpe, lance por lance, aproveitando as "ocasiões" e delas dependendo. São determinadas pela ausência de poder, enquanto as estratégias são organizadas pelo postulado de um poder. As táticas apontam para uma habilidosa utilização do tempo, das ocasiões. A tática é a astúcia dos mais fracos. Mas, apesar disso, como nos alerta Sato e Oliveira (2008), é preciso reconhecer que há limites nessas formas astuciosas de lidar com um ambiente sobre o qual se tem muito pouco poder e ínfima margem de controle para interferir.
A passividade atribuída às pessoas "pobres", ou melhor, às pessoas em situação de denegação de direitos, e a visão de que são totalmente submissas, alienadas e sem a
capacidade de "aproveitar" as oportunidades que lhes são dadas fazem parte, como já foi visto anteriormente, das estratégias de dominação utilizadas pelos discursos ideológicos correntes em nossa sociedade. Carregando diariamente o peso destes estigmas, estas pessoas têm suas vozes interrompidas na cidade, sendo negado a elas o direito de agir e o reconhecimento da capacidade humana de começar.
Assim, suas lutas cotidianas são vistas como destituídas de poder. Mas, estando perto destas pessoas, escutando suas histórias e suas reflexões, fica visível que não há passividade: há inquietação, indignação, superação de imprevistos, luta e esperança. Mello (1988), em seu estudo com mulheres migrantes vivendo em São Paulo, coloca:
Porque nenhuma das mulheres, que me ajudaram a alinhavar esta narrativa das suas narrativas, permitir-me-ia supor que elas são cegas ou surdas aos conflitos que dilaceram suas vidas, nem mesmo supor que apenas vivam os conflitos e não reflitam sobre eles, que não saibam onde localizá-los. [...] A leitura atenta dos depoimentos permite entrever o trabalho da reflexão e a recusa do papel passivo de simples reagente ao destino ou à fatalidade. [...] Essa forma de calar-se frente à autoridade, já é, embora não o saibam, um modo político de atuação, a defesa do grupo social ao qual todos pertencem, para o pior e para o melhor. Que outras ocultas reservas de rebeldia, é lícito perguntar, não estarão prontas a procurar modos políticos mais evidentes de expressão? (MELLO, 1988, p. 187-189)
Assim, ninguém é totalmente passivo diante dos acontecimentos diários, ninguém se submete sem fazer algum ajuste, alguma criação. Segundo Gonçalves Filho (2007), as pessoas politicamente feridas reagem sempre, a não ser quando mortas, sendo, portanto, indevido tratá-las como "dominadas", "humilhadas", entre outras nomenclaturas que as destituam ainda mais de poder: os protestos variam em "eficácia e lucidez", mas as pessoas reagem sempre. Como, então, tornar estes começos em atos políticos de luta por direitos? Que esta inquietação acompanhe o decorrer da leitura deste estudo.