2.4 Vane testing
2.4.2 Description of test equipment and procedures
As histórias invisíveis do Teatro da Paz apresentadas não encerram, obviamente, as indagações ainda existentes sobre este monumento e o período histórico estudado. Ao contrário. Perscrutar essas invisibilidades deixou pegadas em várias direções, e as fontes apuradas são bastante prolixas para se deixarem emudecer facilmente. No campo da imprensa, por exemplo, a crítica teatral, o jornalismo cultural incipiente e a recepção da atividade artística pelos leitores dos jornais são alguns temas evidentes em aberto. Na área política, podem ser anotados os embates entre os mandachuvas dos jornais pela imposição de verdades, destacando-se as colunas cifradas contendo ataques virulentos de um redator para outro. O teatro, por vezes, esteve no centro desses ataques.
Nos arquivos, as fontes documentais produzidas pela administração provincial sinalizam a existência de ramificações das informações em outras esferas de poder: o Judiciário, por exemplo. Uma história das obras públicas no Pará pela ótica do Judiciário seria um estudo valioso para a compreensão da dinâmica administrativa que transformou processos construtivos em processos litigiosos. Enfim, são algumas possibilidades que se apresentam.
No abrangência deste objeto de pesquisa, vale salientar que o Teatro da Paz, como monumento e patrimônio público, é um campo latente de questionamentos quanto às suas apropriações e transformações físicas e estruturais ao longo do século 20. Há, ainda, a necessidade de pesquisas sobre o teatro nesse período, quando sua existência foi ameaçada pelo abandono e a decadência de suas atividades. Mas não deixou de ser ocupado, ainda que esporadicamente. A própria dinâmica teatral no Pará, em especial em Belém, ou reverberou os silêncios do Teatro da Paz, ou se mostrou independente de sua existência.
O Teatro da Paz foi, por muitas décadas, o único teatro público vinculado à estrutura do governo do Estado, em Belém. Atualmente mais quatro casas de espetáculos construídas pelo governo entre os anos de 1970 e 2000, de estaturas e vocações diferentes, atendem a demanda artística e de eventos na capital.121 Em relação às atividades artísticas,
esses teatros comportam uma gama de manifestações que não encontrariam espaço no Da Paz por suas características físicas e técnicas, por restrições regulamentares e,
121 Não estão sendo considerados os teatros vinculados a instituições privadas nem os auditórios de
principalmente, pelo valor da taxa de locação, considerado alto e inibidor para a produção teatral local. Esses novos teatros ajudaram, a seu tempo, a distribuir as demandas que se voltavam para o Teatro da Paz, sendo um termômetro da dinâmica artística na capital do Pará.
Na verdade, a atividade teatral em Belém nunca se resumiu à existência do teatro-monumento. O chamado teatro nazareno (relativo à quadra festiva do Círio de Nazaré) e as comédias juninas, representados pelos pássaros juninos e cordões de bichos, coexistiram desde o século 19, tendo o seu espaço privilegiado no Largo de Nazaré. As comédias juninas ainda existem, não só na capital como em todo o Pará, tomando os espaços abertos, ruas, terreiros, galpões e também teatros.
Na década de 1940, foram os grupos de teatro estudantil que movimentaram os artistas amadores, quando o Teatro da Paz entrava em decadência. Na década seguinte, a criação do Norte Teatro-Escola do Pará deu um outro sentido à criação cênica em Belém, com a introdução de uma tendência mais universalista do teatro brasileiro. À frente, as professoras de teatro Angelita Silva, Maria Sylvia Nunes e Margarida Schivasappa (que integrara o Teatro do Estudante do Pará), o filósofo Benedito Nunes e o ator e diretor Cláudio Barradas. Estudavam-se as tragédias gregas, as obras de William Shakespeare e os grandes autores brasileiros. Em 1958, a montagem de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, com música original do compositor paraense Waldemar Henrique, a primeira versão musical para este poema, rendeu ao grupo o Primeiro Prêmio Jornal do Comércio de melhor música. Foi um período em que o teatro produzido no Pará começou a ultrapassar as divisas do estado.
No início da década de 1960, o Norte Teatro-Escola foi absorvido pela Universidade Federal do Pará, quando criado o Serviço de Teatro Universitário (atual Escola de Teatro e Dança da UFPA), estimulando a formação de atores em nível técnico. Nesse período foram encenados, entre outros, os espetáculos O Quase Ministro, de Machado de Assis, dirigido por Maria Sylvia Nunes, Hamlet, de Shakespeare, com direção de Amir Haddad, Sarapalha, de Guimarães Rosa, e Quarto de Empregada, de Roberto Freire, com direção de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. Haddad foi professor do curso de formação de atores de 1961 a 1964. Moura foi um dos fundadores do Serviço de Teatro e
também professor de dicção. Como historiador, estudou os pássaros juninos e cordões de bichos e de pássaros do Pará.122
As novas gerações de atores e diretores formados pela Escola de Teatro e Dança da UFPA fomentaram um movimento nos anos de 1970, responsável pela efervescência do teatro amador do Pará, com encenações que primavam pela experimentação. Vários grupos surgiram no período, como o Experiência, o Cena Aberta e o Gruta, para citar alguns, que se apresentavam em espaços alternativos, como o anfiteatro da Praça da República e escolas, e no tradicional Teatro São Cristóvão (hoje em ruínas), o lugar de referência dos cordões de bichos e grupos de pássaros juninos.
Os grupos paraenses participaram ativamente de festivais nacionais de artes cênicas ou de projetos de circulação nacional incentivados pelo governo federal, como o Projeto Mambembão. Simultaneamente, os grupos se organizavam, reivindicando do governo incentivos para sua produção, o que passava, entre outras pontos, pela garantia de maior acessibilidade ao Teatro da Paz para ensaios e apresentações, na falta de um espaço cênico que pudesse comportar essa demanda.
Por isso, por toda a década de 1970 a criação de um teatro experimental tornou-se uma pauta política de primeira ordem na área cultural, provocando manifestações públicas, além de debates e tensões entre a classe artística e o Estado. Até que em 1979 foi inaugurado o Teatro Experimental do Pará Waldemar Henrique, em prédio neoclássico onde funcionara a Associação Comercial do Pará e que também está situado na Praça da República, em lado oposto ao Teatro da Paz. O projeto de adaptação cênica foi realizada pelo arquiteto Luiz Carlos Ripper, que criou uma espécie de caixa de brinquedos. Entre os anos de 1980 e 2000, foram criados, ainda, os Teatros Margarida Schivasappa, Gasômetro e Maria Sylvia Nunes, em lugares distintos da cidade e com características estruturais e funcionais diferentes.
Atualmente, o que se observa em Belém é uma gradual adesão dos grupos à ideia de terem seu próprio espaço cênico, revitalizando, assim, os casarões do centro histórico (Cidade Velha e Campina), sobretudo os porões. Uma postura de independência, sinalizando outras buscas experimentais e estéticas para o ato de criação artística e também
122 Os cordões e pássaros são, resumidamente, manifestações folclóricas cênicas que misturam o melodrama e
as cenas cômicas ligeiras em dramaturgias tecidas sobre pássaros encantados e bichos dos mais diversos, também encantados, como leão, onça, veado, rinoceronte, camarão, entre outros. Ver MOURA, Carlos Eugênio M. O Teatro que o Povo Cria – cordão de pássaros, cordão de bichos, pássaros juninos do Pará. Belém: Secult, 1997.
uma alternativa para as disputas reeditadas entre os grupos e o Estado em relação ao uso dos teatros públicos.
Mas se a vida artística de Belém não dependeu exclusivamente do Teatro da Paz, tampouco se pode dizer que existiu indiferença em relação a ele. Como um monumento, vivendo as turbulências de cada momento, sempre instigou reações e reflexões. Por exemplo, nas três últimas décadas, a própria vocação operística do teatro passou a ser indagada, uma vez que sua pauta vinha sendo ocupada, substancialmente, por outro tipo de produção, como espetáculos de teatro e dança, shows, concertos musicais, eventos políticos e comerciais, e até cerimônias de formatura. Mas a memória de ter sido criado para ser um teatro lírico abria questionamentos: Por que um teatro de ópera em uma cidade que não produzia ópera? E por que ópera, esse produto cultural da elite? A isto se contrapondo o conceito de popular – ou o espetáculo de gosto popular, ou os ingressos a preços populares. Ao que se seguiam outras indagações sobre a funcionalidade do teatro, seus usos e a acessibilidade a ele, não mais sobre sua imagem.
Em 1985, depois de muitas décadas, uma montagem operística foi ouvida no Teatro da Paz: O Guarani, de Carlos Gomes.123 Outras seriam encenadas na década de
1990, novamente obras de Carlos Gomes: Fosca, em 1998, e O Escravo, em 1999, contando com elenco internacional e participação de cantores locais. A partir de 2002, com a reabertura do teatro após dois anos fechado para reforma, passou a ser realizado, anualmente, o Festival de Ópera do Theatro da Paz, atual Festival Internacional de Ópera da Amazônia. Este retorno à ópera, mas não exclusivamente a ela, reforçou a tradição do ensino da música no Pará, incluindo o canto lírico, promovido por instituições como o centenário Conservatório Carlos Gomes, criado em 1896 pelo governo do Estado para prestigiar o maestro que lhe emprestou o nome, e a Escola de Música da UFPA. Nessas mesmas instituições são formados os músicos integrantes da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, fundada em dezembro de 1996. As montagens operísticas também passaram a mobilizar o trabalho de atores, técnicos, cenógrafos e bailarinos da capital.
Em 1989, um movimento articulado entre engenheiros, a Câmara Municipal de Belém e entidades vinculadas à defesa do patrimônio histórico conseguiu aprovar um projeto de lei que redirecionava o trânsito na Praça da República. O tráfego intenso, inclusive de veículos pesados, na frente do teatro e a poucos metros de sua fachada provocava vibrações em sua estrutura, concorrendo para a destruição parcial dos elementos
decorativos. O que se tentava evitar era um dano maior que isso: a ruína do prédio feito de pedra, areia e cal.124 O sentido do trânsito foi desviado para o entorno da praça, e a rua em
frente ao teatro, isolada. Cerca de dez anos depois, um calçamento foi providenciado pela Prefeitura Municipal de Belém para consolidar este isolamento.
Assim se vê que, de tempos em tempos, o Teatro da Paz instiga reflexões sobre a sua condição de monumento e patrimônio público. As próprias intervenções feitas em sua estrutura a partir da década de 1960 foram incidentes sobre a necessidade de modernizá-lo e equipá-lo. Como as duas lajes de concreto armado que foram construídas na parte posterior da edificação, subdividindo o pé direito em dois pisos intermediários para abrigar camarins, a administração e outros serviços. Uma das lajes, contudo, invadia a área das coxias, criando um desnível entre elas e o palco, de modo que foi necessário criar alguns degraus nas laterais do palco para a movimentação dos artistas. Como esse elemento mostrou-se inconveniente ao longo dos anos, provocando acidentes entre os desavisados, foi recortado apenas na área do palco, na última reforma.
Outros exemplos podem ser citados: a cor da fachada do teatro que mudou várias vezes (sépia, cinza, rosa e sépia de novo) e mais recentemente sua estrutura foi adaptada para a acessibilidade de cadeirantes, com a inclusão de um elevador até o primeiro pavimento, onde uma frisa também foi adaptada os portadores de deficiência física.
Finalmente, o Teatro da Paz não existe por si. Sua permanência no tecido urbano, entre desmazelos, intervenções e melhoramentos, é uma condição do sentido que a sociedade renovadamente lhe atribui e uma garantia das convenções internacionais de preservação do patrimônio histórico e cultural, das quais o Brasil é signatário, adequando-as à sua política interna. Ele é, afinal, um bem tombado, um patrimônio nacional.
124 Cf. Artigo “A salvação do Teatro da Paz”, do engenheiro civil Nagib Charone Filho, em O Liberal, 18 de