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Description of the current UAQIFS

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4 Guidelines on the output from the UAQIFS for the Castellon area,

4.1 Description of the current UAQIFS

O presente trabalho propõe-se a uma análise dos discursos presentes na cobertura sobre o programa de financiamento externo português nos três blocos de informação em horário nobre nos canais generalistas portugueses (RTP1, SIC e TVI). A perspetiva teórica-metodológica é informada pela Análise Crítica do Discurso (CDA), como descrita no segundo capítulo (Capítulo 2, p.42). O discurso é aqui entendido como uma forma de produção semiótica que se apropria e recontextualiza diferentes elementos de estruturas e práticas sociais, em função de uma interpretação particular da realidade. Inserido no âmbito de uma prática social, a interação constitui um momento de negociação entre interlocutores sobre os significados que partilham sobre o mundo. É na interação que as estruturas sociais são tematizadas, reproduzidas e transformadas. O discurso constitui-se assim como ação, um modo de agir sobre o mundo. No caso do jornalismo, são utilizadas na composição estruturas dos géneros reportagem e notícia, articuladas com termos e expressões provenientes de outros campos, como o económico. As relações entre os diferentes atores, práticas e contextos são reproduzidas sobre padrões e regularidades que assim adquirem relativa permanência como estruturas discursivas.

Sobre este entendimento, o recurso ao modelo de análise de argumentação proposto por Fairclough e Fairclough (2012) permite relacionar as propostas avançadas pelos diferentes atores com as razões apresentadas a favor ou contra determinado curso de ação (Capítulo 2, p.46). Ou de outro modo, mediante uma determinada leitura das circunstâncias, um ator coloca um determinado objetivo como desejável, propondo um conjunto de meios considerados necessários ou suficientes para o concretizar. O plano normativo encontra-se presente nos valores e normas que informam a leitura das circunstâncias, a escolha de meios e objetivos da ação. O modelo assume o discurso político como maioritariamente argumentativo no sentido em que se pretende demonstrar a racionalidade do curso de ação escolhido,

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apresentando razões para a ação. Ao mesmo tempo, o modelo prevê a colocação de contra-argumentos que poderão, em desacordo, tematizar e problematizar qualquer elemento de um argumento.

Diferentes valores são utilizados ainda no sentido de legitimar as propostas para a ação. A esfera pública, onde se incluem os meios de comunicação social, constitui-se aqui como espaço de legitimação das propostas para a ação política (Capítulo 2, p.44). Como subsistemas situados entre as esferas política e económica por um lado, e a sociedade civil pelo outro, os meios de comunicação social possuem relativa autonomia para a seleção e enquadramento de diferentes vozes entre o conjunto de opiniões publicadas, contribuindo deste modo para estabelecer um quadro normativo de políticas consideradas racionais. Os meios de comunicação social poderão assim contribuir tanto para a aparência do consenso entre especialistas, como para a promoção de pontos de vista alternativos. Será tanto na delimitação de agendas como na seleção atores, ou na edição e repetição de estruturas discursivas particulares do discurso desses atores que os meios de comunicação social contribuirão para o estabelecimento dos parâmetros das propostas consideradas adequadas, ou racionais num dado contexto. Os elementos apropriados e rearticulados no discurso não poderão, no entanto, ser dissociados dos modelos e ideias desenvolvidas em complexos de organizações consideradas de prestígio na produção de conhecimento58. No plano das políticas económicas, instituições como o FMI e a UE estabelecem orientações a serem contextualizadas no âmbito de práticas de governação. Valores e normas são adaptados a contextos nacionais sobre conjuntos de pressuposições acerca do funcionamento dos mercados, do papel do Estado ou, por exemplo, sobre as funções e objetivos de sistemas de segurança social. Os meios de comunicação social serão centrais nestes processos de localização, contribuindo para a articulação de pressupostos com pretensão de validade universal com leituras específicas dos contextos nacionais.

a) Objeto de análise

O discurso na cobertura dos blocos de informação em horário nobre nos canais de televisão generalistas (RTP1, SIC e TVI) sobre o programa de financiamento externo

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português decorrido entre 2011 e 2014, constitui o objeto de análise para o presente estudo. Em primeiro lugar, pretende-se identificar os principais intervenientes na cobertura – quem são os atores, quais as vozes selecionadas pelos meios de comunicação social para contribuírem para a definição da narrativa. O discurso político mediatizado é aqui entendido como um produto institucional, resultante da relação entre os diversos atores com os meios de comunicação social (Schudson, 2002: 251) – uma relação pautada por períodos de aproximação, de oposição e de complementaridade (Gurevitch, Coleman e Blumler, 2009: 165).

A inclusão dos diferentes atores por bloco de informação será considerada ao nível da frequência com que são referidos e do número de vezes que têm voz ativa. Será assim possível verificar a reprodução de hierarquias de privilégio reproduzidas no acesso aos meios de comunicação social (Davis, 1985; Eldridge, 2000). Serão aqui ainda considerados quais os atores com voz ativa nos blocos de informação, que atores são apenas referidos ou citados, e quais os excluídos.

Interessa aqui ainda o modo como os atores são representados e contextualizados, quando existe contraopinião ou informação contrária; que atores são particularizados (“O Presidente foi a Pequim”) e quais são referidos de modo genérico (“Os trabalhadores fizeram greve”). Como são classificadas as ações dos diferentes atores no discurso jornalístico, a quem é atribuída a agência, quais os contextos e enquadramentos para a ação e que avaliações se encontram subjacentes. O inventário sócio semântico de Theo van Leeuwen (2008) providencia aqui algumas orientações.

Pretende-se depois identificar as estruturas discursivas de relativa permanência, focando as premissas e encadeamentos lógicos que caraterizam a argumentação utilizada pelos diferentes atores – quais os elementos recontextualizados no discurso ao nível da leitura das circunstâncias, que valores se encontram subjacentes às diferentes propostas para a ação, e quais os meios que se pretendem ativar em função de que objetivos. Interessa aqui reconhecer as propostas dominantes, ou que aparentam reunir o consenso na cobertura dos blocos de informação, distinguindo-as das propostas apresentadas como alternativas; quais os

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discursos e argumentos com espaço para fundamentação, e quais os que são apresentados a par de informação contrária.

Levando em conta o papel mediador dos meios de comunicação social, para além dos processos de seleção, será ainda relevante perceber que elementos discursivos são apropriados pelo discurso jornalístico a partir dos discursos mediatizados. Quais as interpretações do contexto que se encontram pressupostas no discurso jornalístico, e quais as estruturas discursivas de relativa permanência. Serão assim necessárias comparações ao nível sincrónico (ou entre os três blocos de informação) e ao nível diacrónico (entre diferentes momentos de análise).

Período Principais temas

2011

1 a 23 de janeiro Debate sobre o recurso a um programa de financiamento / Campanhas para as eleições presidenciais

2º 16 a 31 de maio Assinatura do acordo com a troika / Primeiras transferências de fundos / Campanhas para as eleições legislativas

2014

1 a 15 de janeiro Debate sobre o OE 2014 / Constitucionalidade de medidas de austeridade / Expectativa do final do programa

4º 11 a 24 de maio Conclusão do programa / Campanhas para as eleições europeias

Tabela 2: Os quatro momentos de análise.

Foram selecionados quatro momentos de análise, em 2011 e 2014, no início e fim do programa de financiamento externo (Tabela 2). Em 2011 foram selecionados os primeiros 23 dias de janeiro, que coincidem com as campanhas para as eleições presidenciais de onde resultou o segundo mandato de Aníbal Cavaco Silva. Anterior ao início do programa de financiamento, este período foi marcado nos blocos de informação pelo debate sobre o recurso ao programa de financiamento externo, que foi também tema de campanha. O segundo momento corresponde a maio do mesmo ano, desde o dia anterior à assinatura do memorando ao final do mês, quando são conhecidas as principais linhas do programa. Em 2014, o terceiro período corresponde aos primeiros quinze dias de janeiro, quando a constitucionalidade de novas medidas de austeridade esteve em debate. O quarto momento de análise corresponde ao período da conclusão do programa a 17 de maio de 2014, que coincidiu com as campanhas para as eleições europeias. A escolha destes períodos não esgota obviamente o quadro possível de análise. O primeiro período de análise inclui 159

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notícias, tal como o segundo. O terceiro período de análise inclui 138 notícias e o último, 123.

O programa de financiamento externo fez parte da agenda diária nos três blocos de informação em todos os períodos analisados. A saliência do tema em horário nobre foi assim elevada. A tabela seguinte apresenta os totais de notícias e tempo analisado para os quatro períodos.

1 a 23 de Janeiro de 2011 16 a 31 de Maio de 2011 1 a 15 de Janeiro de 2014 11 a 24 de Maio de 2014 noticias tempo noticias tempo noticias tempo noticias tempo

RTP1 65 01:53 61 02:11 44 01:27 35 01:43

SIC 46 01:32 46 02:04 42 01:44 44 02:38

TVI 48 01:28 52 01:34 52 01:37 44 01:20

Total 159 04:53 159 05:49 138 04:48 123 05:41

Tabela 3: Número de notícias e tempo de análise em cada período, por canal. b) Procedimentos de análise

Os blocos de informação dos primeiros seis meses de 2011 e de 2014 foram gravados na íntegra em suporte digital, recorrendo por exemplo a vídeos disponibilizados online. Para cada um dos períodos de análise, foi criado um registo para os blocos de informação incluídos, assinalando para cada notícia a data, hora e minuto em que foi emitida, a posição no alinhamento e uma breve descrição. Durante este processo foram marcadas as notícias relevantes59 para a análise de cada período, procedendo-se à sua transcrição completa. Cada notícia é habitualmente constituída pela introdução realizada pelo pivot, seguida de um segmento previamente gravado e editado. Foram também considerados diretos. Não foram incluídos os comentários em estúdio, dada a sua extensão.

A análise dos textos decorreu sobre várias fases, correspondendo a primeira à contabilização dos atores. Foi aqui considerada a frase como unidade de análise, sendo registadas todas as ocorrências de referências a atores, tanto individuais (e.g. “Passos Coelho”, “Primeiro-Ministro”) como organizações (e.g. “Partido Socialista”, “FMI”), e categorias (p/expo “reformados”, “funcionários públicos”). Foram contabilizados ainda

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Os critérios utilizados para a seleção de notícias em cada período, bem como a dimensão da amostra por número de notícias e tempo de emissão serão aspetos descritos no início da análise de cada período.

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todos os segmentos de fala, ou de voz ativa por cada ator. Não foram consideradas referências ao próprio nas intervenções dos atores. Entendido o discurso de jornalistas, pivot e Voz-Off (VO) como produto institucional, não são identificados jornalistas.

A uma segunda fase correspondeu a identificação dos principais argumentos, atendendo às categorias definidas em Fairclough e Fairclough (2012). A leitura repetida das transcrições e comparação com outros exemplos de análise de discurso, a par da investigação em outras fontes de informação online, na imprensa e documentos oficiais foram aqui essenciais.

As principais linhas de argumentação foram identificadas na verificação de padrões e regularidades no discurso dos diferentes atores. Elementos recorrentes ao nível da leitura das circunstâncias permitem uma primeira colocação dos atores no campo político em relação ao tema em estudo (onde é situado o “problema” para os diferentes atores?). A partir daqui as propostas para ação e respetivos objetivos são comparados. Que objetivos se pretendem realizar e quais os meios propostos como necessários ou suficientes? Quais os valores que se encontram subjacentes, ou que se pretendem concretizar? Que normas servem de critérios de sucesso?). Cada proposta para a ação implicará um posicionamento em relação a outros atores e as suas propostas (que relações estão implicadas? Que alternativas são valorizadas, desvalorizadas ou excluídas?). Os contra-argumentos são identificados nas relações dialéticas entre as diferentes propostas para a ação.

A análise assenta, em cada período, na comparação entre os três blocos de informação, identificando que elementos tiveram ênfase na cobertura, que as leituras foram apresentadas como consensuais, quais são e quem defende as alternativas. Quem são os atores sistematicamente excluídos, quais os que têm maior presença nos blocos de informação? Que discursos são apropriados pelos media no enquadramento e na construção de uma narrativa própria? E não menos importante, qual o espaço que existe nos blocos de informação para a expressão de opiniões públicas para além dos meios institucionais, e como funciona esta inclusão?

119 It sounds as if she's essentially saying to the Greeks and others in Europe, you've had a nice time and now it's payback time. "That's right." She nods calmly. " Yeah."

– entrevista a Christine Lagarde, The Guardian, 25 maio 2012

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