7 Guidelines on the output from the emergency preparedness system
7.1 Description of the presently applied Operational Emergency
7.1.4 ARGOS system
Com cobertura nos três blocos de informação, a mensagem de ano novo do Presidente da República realiza a leitura das circunstâncias sublinhando “dificuldades” como a pobreza, o desemprego e a exclusão, problemas incontornáveis e duradouros
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(“os tempos que atravessamos são de grandes dificuldades. Seria faltar à verdade afirmar que essas dificuldades vão desaparecer no ano que agora começa”, RTP1, dia 2; TVI, dia 1; “a partir do segundo semestre de 2010 já ninguém pode negar que o país atravessa uma situação de grave crise económica e financeira, a qual tem efeitos negativos no plano social”, SIC, dia 1). O Jornal da Noite reelabora, deixando explícito o agente em falta no discurso do Presidente, quando o pivot indica que Cavaco Silva “sublinha que o facto de o governo ter reconhecido os problemas ajudará o país a mudar de rumo”. A oposição é tornada explícita, num “acerto de contas” que pressupõe que as circunstâncias se alinharam com a leitura da realidade do Presidente (“Agora, o Presidente da República faz o acerto de contas com o governo”, SIC). Também na TVI é explícito o destinatário dos “recados” do Presidente (“O Presidente da República alerta que a crise não vai acabar este ano e deixa alguns recados ao governo”, pivot, TVI).
O “combate ao desemprego e à pobreza” são assim apresentados como objetivos (“considero essencial que 2011 fique marcado pela firmeza no combate ao desemprego e à pobreza”, RTP/SIC/TVI). No entanto, este “combate” não é atribuído às responsabilidades do Estado ou do executivo, mas justaposto à sua “palavra de maior apreço” no elogio a “um povo com tamanha generosidade” que permitiu a mobilização para a ajuda noutras situações no passado. No final do discurso, o Presidente voltaria a negar responsabilidades exclusivas do Estado na providência social ao indicar uma lista dos “que mais precisam” para referir que “a luta para que estes portugueses não sejam abandonados não é monopólio de ninguém, pois constitui responsabilidade de todos”.
Ao nível político, os objetivos serão antes alcançados por uma “mudança de rumo” que requer “não iludir a realidade” e adotar uma atitude “responsável” (“Não iludir a realidade é um sinal positivo e uma atitude responsável, pois representa o primeiro passo para mudar de rumo e corrigir a trajetória”, RTP1/SIC/TVI). A crítica ao curso de ação do executivo de José Sócrates encontra-se implícita na necessidade de uma “mudança de rumo”. Valores como a “responsabilidade” e a “verdade” encontram-se ausentes no “rumo” atual, que para o Presidente “ilude a realidade”. Persistir no mesmo curso de ação e negar as dificuldades seria “faltar à verdade”
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(“Seria faltar à verdade afirmar que essas dificuldades vão desaparecer no ano que agora começa”, RTP1/SIC), contra os “princípios da ética republicana” e uma ameaça à coesão social (“Pretender fugir aos sacrifícios é uma atitude que não se coaduna nem com os mais elementares princípios da ética republicana, nem com o valor fundamental da coesão social”, RTP1/TVI).
Não existem no discurso do Presidente ou no enquadramento fornecido pelos media, alternativas ou outras formas de “ser responsável” – o argumento apresentado é uma “realidade” e “evidência” a ser reconhecida por todos (“Aquilo que para alguns era já uma evidência, para a qual na devida altura alertaram os portugueses, foi finalmente reconhecida por todos, a começar pelos decisores políticos”, SIC).
A mudança de rumo requer a “união dos portugueses” e uma justa distribuição dos sacrifícios (“A coesão social é um elemento chave da coesão nacional. É imprescindível que estejamos unidos para enfrentar as dificuldades que atravessamos e que, repito, não desaparecerão em 2011”, SIC; “É sobretudo nos tempos mais adversos que os sacrifícios têm de ser repartidos de uma forma justa por todos, sem exceções ou privilégios”, RTP1). Na SIC e na TVI é ainda referido no final da notícia, e apenas por referência da VO, que a mensagem da Presidência inclui propostas como o aumento da produção de bens e serviços e da competitividade, contra a “produção estrangeira” (“o futuro do país passa pelo aumento de produção de bens e serviços que concorram com a produção estrangeira”, VO, SIC; “Cavaco Silva aponta como caminhos para a saída da crise o aumento da produção de bens e serviços, o reforço da competitividade das empresas e a redução do endividamento externo do país”, VO, TVI). Estas referências estão ausentes na cobertura da RTP1. Os três blocos de informação excluem, nos segmentos analisados, referências a uma sociedade civil ativa que estiveram presentes no discurso do Presidente da República (“É também exemplar o modo como os portugueses participaram nas campanhas lançadas pela sociedade civil com vista à recolha de produtos alimentares e bens de primeira necessidade”; “ao voluntariado jovem quero, como Presidente da República, deixar uma palavra do meu maior apreço”, Cavaco Silva, mensagem de ano novo do Presidente de 2011). Excluídas estas referências dos três blocos de informação, os “portugueses” permanecem como atores maioritariamente passivos, objeto da ação política. Por outro lado, a
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caraterização de propostas alternativas como uma “ilusão da realidade” fundamenta- se por recurso a um quadro normativo, ou de valores que poderiam do mesmo modo legitimar outros cursos de ação. Mas delimita, na sua generalidade, o quadro de ação geral do que é considerado “verdade”. O discurso, como editado no Jornal da Noite, inclui ainda alusões históricas:
A nossa história teve momentos tão ou mais difíceis do que estes. Durante várias décadas perdemos até a independência, mas soubemos reconquistá-la. Atravessámos situações financeiras muito graves. E hoje, todos temos de reconhecer, possuímos uma vida melhor do que todas as gerações que nos precederam. Portugal é atualmente um país mais justo, mais desenvolvido e mais livre do que foi ao longo de toda a sua história. (Cavaco Silva, SIC)
A utilização da primeira pessoa do plural (“A nossa história”) contribui para a articulação do apelo à “união” sobre a construção de significado numa identidade com base numa história partilhada – um exemplo de linguagem relacional que implica o estabelecimento de uma relação com o espetador. Esta é uma dimensão sempre presente nos blocos de informação, por exemplo, logo pelo posicionamento do pivot (Hartley e Montgomery, 1985: 233), que tal como o Presidente, faz a sua exposição olhando diretamente para a câmara, ou para o espetador. A utilização da primeira pessoa no plural reforça esta relação, procurando reduzir a distância entre orador e o ouvinte, este último diretamente implicado numa narrativa histórica comum. As dificuldades presentes são relativizadas em função de um passado comum, admitindo apenas uma leitura – apesar dos sacrifícios pedidos, “todos temos de reconhecer” que nos encontramos melhor.