CHAPTER FIVE: REPRESENTATION OF GENDER: A QUANTITATIVE APPROACH
5.3. Description of Addis Zemen
Para as entrevistadas, os serviços da Rebusca representam uma possibilidade de melhoria nas condições de vida em dois sentidos: a curto prazo significa a certeza de preservarem a segurança da prole por estarem aos cuidados de uma instituição em que confiam, garantindo a tranqüilidade para exercerem seu trabalho fora de casa. A longo prazo, representa uma expectativa de um futuro melhor para os filhos, devido à educação formal e não-formal adquirida. A disponibilidade de tempo para trabalharem fora num emprego remunerado garante-lhes renda para aquisição de bens, para a construção da casa própria ou para a manutenção mais satisfatória das despesas familiares, de forma a obterem o sustento do grupo ou, em alguns casos, para a elevação do nível de consumo de modo a alcançar maior conforto material.
Assim, no tocante à educação, foi recorrente no depoimento das mães a percepção da educação como possibilidade de ascensão social. Para elas, os cursos que os filhos podem fazer na Rebusca como informática, inglês, bordado, pintura, etc. e a prática de esportes são possibilidades importantes para os filhos, “para eles terem um preparo melhor para enfrentar o futuro” e, dessa forma, “conseguirem ser mais bem sucedidos”. Tal sucesso é compreendido por elas como “terem empregos melhores, com rendas mais elevadas em relação aos próprios pais”. No estudo de Sarti (1996), com famílias da periferia de São Paulo, a perspectiva da segunda geração “melhorar de vida” a partir da educação também foi recorrente, sendo traduzida em termos de aquisição da casa própria e emprego estável com carteira de trabalho assinada. Possibilidade essa que não poderia ser oferecida pelos pais em virtude das condições financeiras da família, principalmente em se tratando de famílias numerosas:
Ah! eu acho que tem porque lá eles aprendem tanta coisa, sabe? Porque se tivesse assim, na minha altura pra mim pagar pra ensinar pra eles eu não ia ter possibilidade, não, porque três, ensinar pra três é difícil, né? Então, por exemplo, ela faz tricô, bordado, crochê. Essas coisas ali. Então, por exemplo, ali na CASA DE AJUDA29, você tem que pagar por mês tem que pagar 20,00. Aí, no caso como tem que pagar pro menino, pra elas fazer um curso lá qualquer... Aqui pra mim, sei lá, tá sendo fácil, porque muita coisa elas fazem, sabe? (M.M., dona de casa)
Essa mesma opinião é compartilhada nesse outro depoimento quando a informante explicita o quanto considera importante o acesso a outros cursos, além da escola formal30, para colocar à frente os alunos da Rebusca em relação ao demais:
Querer estudar, querer melhorar na vida, querer ser alguém, desejar isso e conseguir vencer as dificuldades que a sociedade impõe pra gente, sabe? Impõe pra eles. (...) Porque aqui (na Rebusca) eles podem conseguir muita coisa que a gente não pode dar pra eles lá fora. Bolsa de estudos, conhecer pessoas que tão interessadas em auxiliar, sabe? Que eles saibam aproveitar, tirando boas notas na escola, se sobressaindo entre os outros alunos e conseguindo passar nos concursos, sabe? (L.C., empregada doméstica)
Pensando-se nesses termos, a discussão de cidadania se mostra relevante a essas análises. Para Sales (1994), uma das formas de cidadania presentes na sociedade brasileira, a “cidadania concedida”, se constituiu em função de um padrão social de subserviência, que fez com que os indivíduos não se mobilizassem em torno da busca de direitos. Assim, a não- mobilização aliada ao modelo patriarcal de gestão governamental favoreceu o não compromisso do Estado em relação a esses direitos, os quais incluem educação de qualidade para todos. Esse formato foi prejudicial para as conquistas sociais, pois, conforme Roberts (1997), as reivindicações saem da esfera do coletivo, voltando-se para a esfera das soluções individuais. Esse modelo se manifesta nas famílias que percebem na Rebusca uma possibilidade de estudo para os filhos, uma forma de melhorarem a sua condição de vida. No entanto, fica claro que não é favor que esperam – nem do Estado, nem de qualquer instituição de caridade – mas de oportunidades adequadas para que seus filhos consigam oportunidades para uma melhor condição social.
29
Nome fictício, para resguardar a identificação do local citado no depoimento.
30
A Rebusca significa, também, um lugar de aprendizado de valores morais tais como honestidade e dignidade, que podem torná-los “homens de bem”, ou seja, pessoas trabalhadoras, não envolvidas em vícios ou negócios ilícitos, conforme mostra o depoimento abaixo:
Ficando longe das drogas, ficando longe da bebida alcoólica. E ali é um... eu falo: gente isso aqui é uma verdadeira, como é que se diz... isso aqui é um lugar que gera pessoas boas. A creche é um lugar onde se trabalha pra poder gerar pessoas boas. (L.C., empregada doméstica)
Sarti (1994) atribui às famílias pobres31 um padrão tradicional de hierarquia e autoridade em que a ordem moral é que ordena e dá sentido ao mundo social. Assim, a questão da norma moral de ser um homem ou uma mulher “de bem” se coloca como compensador à situação socioeconômica de pertencer à classe popular e ser morador da periferia. Para além disso, abre chances para a criação de mecanismos de nivelamento social por meio do aumento de “capacidades”, tanto para elas mesmas quanto para os filhos. Essas capacidades dizem respeito aos aspectos objetivos e subjetivos. Conforme Sen (2000), a restrição de renda monetária e a inadequação de capacidades são noções conceituais diferentes, porém vinculadas, uma vez que a renda é uma forma de obter capacidades. Por sua vez, o aumento das capacidades pode elevar o nível de renda. Assim, continua Sen (2000), melhorar a educação e a saúde aumenta o potencial dos indivíduos para obter renda e, assim, subir o seu nível socioeconômico. Embora neste estudo os conceitos centrais não sejam pobreza e sim cidadania e autonomia, a questão da renda material perpassa o tema, tendo em vista que a instituição em estudo atua no sentido de auxiliar as famílias consideradas por ela como “carentes”. Além do mais, como afirmam Demo (1992) e Oliveira (s.d.), é inegável a relação inversamente proporcional entre pobreza material e exercício da cidadania.
4.5. SER EVANGÉLICA X SER CATÓLICA: Universo permeado por interações e