6 Parte práctica
6.4 Descripción de las sesiones
ideias, mas em um sentimento associado à maneira como a ideia foi gerada na mente, isso não significa que não haja crenças infundadas ou ilegítimas; e, mais, que crenças são graduadas pelo grau de evidência apresentada pela experiência.
Podemos, reflete Hume, estabelecer raciocínios causais que podem ser levados pela imaginação a voos inteiramente especulativos, de causas a efeitos puramente imaginados sem com isso encontrar uma vez sequer amparo na experiência. Raciocínios que envolvam a existência ou fato têm de, necessariamente, ampararem-se no registro de fatos ou objetos presentes na memória ou nos sentidos, para que a crença tenha algum amparo ou fundamento
(5.7). A crença, portanto, “relativa a fatos ou à existência efetiva de coisas deriva exclusivamente de algum objeto presente à memória ou aos sentidos e de uma conjunção habitual entre esse objeto e algum outro” (5.8). Sem esses ingredientes, não há amparo no que sustentar alguma crença.
Se perguntássemos ao transeunte, de nosso exemplo anterior, por que ele acredita que pedindo licença às pessoas que obstruem seu caminho ele alcançará êxito, ao mesmo tempo que duvida da força do pensamento de fazer desaparecer cada uma delas? Responderia que em situações semelhantes não apenas presenciou, como ouviu a esse respeito, e ele mesmo muitas vezes, quando questionado, cedeu espaço para outros passarem, assim como pediu a pessoas que abrissem caminho para ele passar, obtendo resposta positiva, podendo dessa forma prosseguir em seus passos. Além disso, que duvida do poder do pensamento de fazer desaparecer àquelas pessoas porque nunca, em toda a sua vida, presenciou ou ouviu alguém que tenha obtido resultado ao menos semelhante a esse.
Consideremos, agora, que os raciocínios experimentais, ou relativos a questões de fato e existência, não geram o mesmo tipo de certeza resultante das demonstrações a priori. Que a soma dos ângulos internos de um quadrado seja trezentos e sessenta graus independe do tamanho de seus lados, e nem precisamos verificar se tenha existido em parte alguma qualquer quadrado, pois o resultado será este e nunca outro. Contudo, não é assim quando raciocinamos acerca de questões de fato ou existência, pois nelas apenas podemos alcançar graus de certeza, ou melhor designado, dizemos probabilidade maior ou menor de determinado evento vir a acontecer. Portanto, quando raciocinamos acerca de eventos ou objetos por inferências indutivas, nossos argumentos serão sempre prováveis (4.19) e nunca demonstrativamente certos. Hume divide assim nossos argumentos “em demonstrativos, provas e probabilidades, entendendo por provas aqueles argumentos a partir da experiência que não deixam margem para dúvida ou oposição” (Seção 6, nota 1). Comecemos pelas probabilidades.
Apesar de nossas inferências indutivas tomarem como pressuposto que “o futuro irá assemelhar-se ao passado” (4.21), e que, portanto, o curso da natureza segue certa regularidade, Hume lembra que “[n]em todas as causas estão conjugadas a seus efeitos usuais com a mesma uniformidade” (8.12). E não precisa muita atenção para observar que de certas causas seguem-se efeitos de modo mais uniforme e regular que de outras causas, cujos efeitos se seguem com menor constância, ou grande irregularidade (6.4). Observamos, sem exceção, que a chuva é sempre a queda, desde as nuvens, de gostas de água; e, de modo semelhante, galhos ou pedras, quando arremessados para o alto, voltam e caem, e assim ocorre com todos
os objetos de natureza similar. Portanto, inferimos semelhante efeito de uma pessoa que se precipite do alto de uma torre, esperando que ela caia, em vez de flutuar, a não ser que esteja presa ou sustentada por alguma corda ou equipamento imperceptível. Contudo, há causas cujos efeitos guardam pouca ou nenhuma constância observada. Que o mergulho em águas frias, numa madrugada igualmente fria, pode resfriar o banhista uma ou outra vez, é provável, mas não todas. Ao contemplar as disposições, número, altura e formações que as nuvens apresentam ao meio dia de amanhã, não podemos esperar com total confiança que ao meio dia do dia seguinte elas apresentem as mesmas disposições, número, altura e formações das que foram observadas no dia anterior.
Destes exemplos destacamos que do número de casos observados depende a probabilidade de ocorrência futura de uma causa que se apresente semelhante àquela observada no passado. Portanto, a relação entre causas semelhantes passadas com as que temos presentemente diante de nós para inferirmos efeitos futuros é diretamente proporcional ao número de casos observados. Dessa forma, explica Hume:
Há, com certeza, uma probabilidade decorrente de um número superior de casos favoráveis a uma das partes, e, à medida que cresce essa superioridade, ultrapassando o número de casos contrários, a probabilidade aumenta proporcionalmente, gerando um grau ainda mais elevado de crença ou assentimento em relação à parte em que observamos essa superioridade. (6.2)
É preciso considerar que há uma graduação na probabilidade, da qual depende proporcionalmente correlata graduação da crença quanto a ocorrência ou não do efeito esperado. Assim, a mente considera, pela experiência, i. é, pelos casos observados que a memória tem presente, o número de casos favoráveis (que se espera acontecer) com o número de casos desfavoráveis (os que não são esperados), relacionando-os com o acontecimento presente aos sentidos. Para melhor compreendermos esse argumento, voltemos a considerar o nosso transeunte que é impedido de continuar seu trajeto pela calçada em razão de um aglomerado de pessoas, mas, agora, apresentando a ele um problema mais complexo.
Nosso transeunte, nesta sorte, se vê embargado de seguir caminho não mais porque algumas pessoas fecham a calçada, mas porque as duas únicas vias, e calçadas, que levam a seu destino estão completamente fechadas por aglomerados de pessoas. Informam-lhe que, na primeira via, há um isolamento policial, em decorrência de um grave crime ocorrido há cerca de duas horas atrás, e, na segunda, de pessoas protestando por uma causa que ele desconhece.
Se considerarmos sua decisão, que será apresentada com base em sua experiência29, temos de nos perguntar: por que ele depositou maior confiança de que conseguiria seguir caminho por uma e não outra via?
Podemos seguir assim suas ponderações. Daquilo que sua experiência lhe ensina sobre cercos policiais, a probabilidade de alguém conseguir passar é muito pequena, posto que do grande número de pessoas que costumeiramente se aglomeram para aproximar-se daquela região guardada pelos policiais, apenas familiares da vítima ou pessoas ligadas à investigação conseguem romper o cerco e passar. E esse número de pessoas comparado com os que desejam romper o cerco é muito pequeno. Quanto à outra rua que está tomada pelo protesto, entretanto, sua mente é levada a observar que, daquilo que sua memória lhe apresenta do passado, indivíduos conseguiam adentrar grupos de pessoas protestando em quase todas as vezes e alcançar o outro lado sem embargo. Contudo, os protestantes não deixavam veículos seguir caminho, com exceção de ambulâncias e veículos de socorro em geral. Diante desse cenário, por estar à pé, sua mente calcula que o número de casos de pessoas andando que conseguiram atravessar algum cerco policial é enormemente menor daqueles que não conseguiram, assim como o número de casos de pessoas que conseguiram seguir caminhada por entre multidão em protesto é imensamente maior do que daquelas que não conseguiram. Dessa forma, nosso transeunte é levado pelo cálculo dos números de casos àquela via que lhe apresentava maior probabilidade de êxito, inferindo daí com maior confiança que a via tomada pelo protesto seria a melhor escolha para chegar ao seu destino.
Nosso transeunte tomou uma decisão sábia, pois graduou sua expectativa de êxito na experiência, e assim sua crença foi amparada pelo grau de evidência ponderada nas circunstâncias. Hume considera que o sábio “dosa sua crença em proporção à evidência” (10.4). Isso porque, diz ele, “[e]mbora a experiência seja nosso único guia ao raciocinarmos sobre questões de fato, é preciso reconhecer que esse guia não é totalmente infalível, mas pode, em alguns casos, levar-nos a erro” (10.3). E dado que, como vimos, os efeitos não estão conjugados às causas com o mesmo grau de regularidade, também não devemos esperar que “todos os efeitos seguem-se com igual certeza de suas supostas causas” (idem). Há que se estabelecer
29“[S]e não partirmos de algum fato, presente à memória ou aos sentidos, nossos raciocínios serão puramente
hipotéticos, e, por melhor que os elos individuais pudessem estar conectados uns aos outros, a cadeia de inferências, como um todo, nada teria que lhe desse sustentação, e jamais poderíamos, por meio dela, chegar ao conhecimento da existência efetiva de qualquer coisa. Se lhe pergunto por que acredita em algum fato
particular que está relatando, você terá de fornecer-me alguma razão, e essa razão será algum outro fato conectado com o primeiro.”(5.7) (Itálico nosso.)
aquela gradação de evidência para afiná-la com nossa gradação de confiança no evento esperado, a saber, ao objeto da inferência.
Como vimos no início desta seção 1.13, Hume diferencia argumentos do tipo prova daqueles do tipo probabilidade. Mas não devemos confundir provas com demonstrações, pois a certeza obtida pela demonstração é de natureza diversa das provas, pois basta dizer que em todos os raciocínios indutivos “[t]udo que é pode não ser” (12.28), estando suas conclusões passíveis de negação. Assim, tanto argumentos denominados provas, como aqueles denominados probabilidade, estão na mesma esfera dos raciocínios indutivos, e portanto submetidos às mesmas regras. Contudo, Hume quer por “provas” (10.4) destacar aqueles argumentos empíricos cujas conclusões apoiam-se na observação de casos cotidianos que guardam uma relação de causa e efeito em total regularidade possível, como a observada na queda de galhos das árvores, gotas de chuva ou pedras atiradas ao alto. O grau de certeza, nesses casos, é o mais elevado que se pode esperar em questões de fato ou existência, pois não se verificou casos opostos. Contudo, há graus menores de confiança, na medida em que o número de casos opostos, ou não esperados, aumenta. Quando se pondera os casos favoráveis, ou esperados, dos opostos, “considerando qual lado se apoia no maior número de experimentos, inclinando-se para esse lado com dúvida e hesitação, e, ao formar finalmente um juízo, a evidência não excede o que propriamente se denomina probabilidade” (idem). Na probabilidade, ponderamos o grau de evidência proporcionalmente à superioridade de casos observados com relação a seus opostos. O cálculo, então, fica assim: considerando, por exemplo, que
[u]ma centena de casos ou experimentos, de um lado, e cinquenta, de outro, proporcionam uma expectativa indiferenciada de qualquer dos dois acontecimentos, ao passo que cem experimentos uniformes com apenas um contraditório geram justificadamente um grau bastante forte de confiança. Devemos, em ambos os casos, ponderar os experimentos opostos, quando eles se opõem, e subtrair o número menor do maior, para saber o grau exato da evidência mais forte. (10.4)
Quanto a esse tipo de certeza, a indutiva, não podemos ir além do que a experiência nos autoriza, e assim dosar nossas crenças pelo grau de evidência apresentada em cada circunstância; e que esse grau de evidência depende da prova ou probabilidade. Por esta última não temos muito a fazer senão da subtração entre os casos favoráveis e opostos ficar com aquele que apresentar, quando houver, superioridade numérica, a saber, o resto da diferença entre os
casos observados em oposição. Nesta medida, a crença, não decorre do conteúdo das inferências, ou das ideias. Nem tampouco sustenta-se pelas faculdades da razão ou do entendimento. Como vimos, a natureza da crença não está nos raciocínios, mas numa transição costumeira ocorrida na mente; ou numa maneira particular da imaginação conceber o objeto da inferência; ou, ainda, num sentimento associado ao objeto concebido pela imaginação. Quanto a saber por que surge esse sentimento, para além da explicação do mecanismo psicológico operado pelo hábito, confessa Hume, sua filosofia não pode ir adiante, a não ser constatar que a
[c]onfluência de diversas ponderações em um único acontecimento particular engendra de imediato, por um inexplicável dispositivo da natureza, o sentimento de crença e dá a esse acontecimento uma vantagem sobre seu antagonista, que está respaldado por um número menor de ponderações e retorna com menor frequência à mente. Se admitirmos que a crença nada mais é que uma concepção de um objeto dotada de mais força e firmeza do que a que acompanha as meras ficções da imaginação, essa operação pode, talvez, ser em certa medida explicada. A confluência dessas diversas ponderações ou rápidas percepções (...) em uma palavra, engendra aquela confiança ou certeza que constitui a própria natureza da crença e opinião. (6.3)
1.14 Quem é louco ou insensato o suficiente para questionar a experiência como