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GRACIAS VIDA

6.5 Atención a la diversidad

E embora ninguém senão um insensato ou louco jamais pretendesse pôr em questão a autoridade da experiência ou rejeitar essa grande condutora da vida humana, pode-se certamente permitir a um filósofo que sua curiosidade seja ampla o bastante para pelo menos levá-lo a examinar o princípio da natureza humana que outorga à experiência essa enorme autoridade e nos faz tirar proveito dessa semelhança que a natureza estabeleceu entre os diversos objetos. (4.20)

Como vimos, apesar de não encontrarmos para a inferência indutiva, a saber, nos objetos ou eventos envolvidos na relação de causalidade, qualquer impressão que apoie a ideia de conexão necessária entre a causa e seu efeito correlato, contudo, Hume atribui à transição habitual da imaginação a impressão original para tal ideia. Nesse sentido, é inegável que a experiência seja a “grande condutora da vida”, pois o hábito decorre desta certa regularidade no curso dos eventos naturais observada com tanta frequência por nós. Por isso, também, é que

da experiência podemos extrair certas regras sobre a prática da agricultura, de modo que a sabedoria do agricultor quanto ao seu ofício depende desta “certa uniformidade na operação do sol, da chuva e da terra no que tange à produção de vegetais, e porque a experiência ensina ao velho praticante as regras que governam e dirigem essa operação” (8.9). Por aí se vê que, diz Hume, a “única utilidade imediata de todas as ciências é ensinar-nos como controlar e regular acontecimentos futuros pelas suas causas” (7.29), dada a expectativa de ocorrência semelhante na produção de efeitos, partindo-se da observação de conjunção constantemente semelhante no passado.

O hábito é este princípio não derivado da razão, mas de uma instância instintiva ou natural, que nos permite inferir eventos ou objetos que não estão presentes nem aos sentidos e nem à memória. Sem este princípio, estaríamos incapacitados para operacionalizar inferências indutivas, essenciais à “sobrevivência de nossa espécie e à direção de nossa conduta, em todas as situações e ocorrências da vida humana” (5.21). Desde o ajuste da força necessária para, por exemplo, conduzirmos com as mãos o alimento do prato à boca ao uso do fogo para o preparo de refeições, assim como a decisão de tomar um caminho diferente para chegar ao destino por antecipar algum perigo adiante. Numa palavra, “ajustar meios a fins ou de empregar nossos poderes naturais seja para produzir o que é bom, seja para evitar o que é mau” (idem). Na ausência desse princípio, portanto, “[p]ôr-se-ia de imediato um fim a toda ação, bem como à parte principal da especulação” (5.6).

Todos os nossos raciocínios indutivos, aqueles que dependem das relações causais estabelecidas a posteriori, Hume os enquadra entre os mecanismos instintivos, senão o mais importante, dos quais depende a conduta, e portanto, a sobrevivência entre os animais, humanos ou não humanos (9.6). E a coisa é tão grave que, sem ele, não seríamos capazes de distinguir entre as ideias amparadas pela evidência empírica das que são meras fantasias da imaginação (5.12). Esta atividade depende de um sentimento, que é a crença, ou uma particular concepção da imaginação cujas ideias resultantes, para Hume, por este mecanismo, são por nós escolhidas, em vez das meras invenções ficcionais da imaginação, para a tomada de decisão nas ações (idem). Portanto, as decisões que para a devida condução de nossas vidas são consideras as mais ajuizadas, ou refletidas, a hipótese de ausência do princípio do hábito implicaria também ausência da capacidade de tomada de decisão acertada no que tange a conduta da vida. Vemos, dessa forma, a importância central de um mecanismo natural no ser humano, que não encontra amparo em raciocínios ou argumentos, mas que, por outro lado, é o fundamento de todos os raciocínios sobre questões de fato e existência. Esta operação da mente, diz Hume,

pela qual inferimos efeitos semelhantes de causas semelhantes e vice-versa é tão essencial à subsistência de todas as criaturas humanas, não é provável que ela pudesse ser confiada às falazes deduções de nossa razão – que é lenta em suas operações, não está presente em nenhum grau durante os primeiros anos da infância, e, na melhor das hipóteses, revela-se extremamente sujeita a erros e equívocos em todas as épocas e períodos da vida humana. Está mais de acordo com a costumeira sabedoria da natureza que uma atividade mental tão necessária seja garantida por meio de algum instinto ou tendência mecânica, capaz de mostrar-se infalível em suas operações, de manifestar-se desde o primeiro aparecimento de vida e do pensamento, e de proceder independentemente de todas as laboriosas deduções do entendimento. (5.22)

Para Hume, sua filosofia é cética, pois não está encarregada de provocar aferradas certezas quanto às conclusões de seus raciocínios ou convicções inabaláveis sobre os poderes de nossas faculdades intelectuais e seu alcance. Mas retira, isto sim, de seus argumentos conclusões “que trazem revelações relativas à fraqueza e estreita limitação da razão e capacidade humanas” (7.28). Essas conclusões, naturalmente, são acompanhadas de certo grau de dúvida e hesitações (12.20, 23, 25) que, a depender desta graduação, esses “princípios filosóficos de dúvida e incerteza” (12.2) podem pender para um dos lados: desde a sabedoria daquele que reconhece haver “em geral, um grau de dúvida, cautela e modéstia que, em todos os tipos de exame e decisão, deve sempre acompanhar o verdadeiro raciocinador” (12.24); como também ao extremo de “levar suas dúvidas tão longe a ponto de aniquilar não só toda a especulação, mas também toda a ação” (5.2; também 1.14). Veremos, no Capítulo a seguir, que o grau excessivo da dúvida cética pode levar o inquiridor a uma tal recusa das crenças, atraindo inapelavelmente para si a triste condição de inviabilizar a própria vida, conquanto fosse algum dia capaz de embargar, por essa manobra suspensiva, a natureza humana.