2. Theory Chapter
2.2. Der Derian’s six paradigms of Diplomacy
As endemias rurais – ancilostomíase, malária e doença de Chagas – cujo combate era bandeira do movimento pela reforma da saúde e pelo saneamento rural, não apareciam com frequência nos relatórios produzidos pelo governo estadual, pois a malária477 não era considerada problema de saúde pública e a doença de Chagas era inclusive “desconhecida” no Rio Grande do Sul. Belisário Penna, arauto do movimento pelo saneamento rural, afirmou, em publicação de 1918, que a ancilostomíase era rara no estado, pois dificilmente se encontravam pessoas descalças.478 A verminose, porém, começou a figurar com certa regularidade nos relatórios a partir do final da década de 1910, quando o governo estadual e a Fundação Rockefeller iniciaram os contatos para combater, conjuntamente, a moléstia que começava a “se tornar sensível em alguns municípios”.479
Segundo estudo sobre o estado sanitário do Rio Grande do Sul, publicado por Euclydes de Castro Carvalho, em 1927, a existência da ancilostomíase no Rio Grande do Sul fora confirmada pelo médico Olinto de Oliveira ainda no século XIX, em 1898, quando este verificou um grande número de crianças infectadas oriundas de diversas regiões do estado nas enfermarias da Santa Casa de Misericórdia de Posto Alegre. Ainda segundo o estudo de Carvalho, a população gaúcha sofria com várias espécies de verminoses, mas a ancilostomíase se sobressaía por sua frequência e gravidade.480 Contudo, nenhuma ação de combate à doença foi realizada pelo governo estadual até 1920.481 Como vimos, a doença não figurava entre as que mais preocuparam o governo estadual durante a República Velha, ou estava entre as maiores causadoras de morte no estado. Para exemplificar, em 1921, apenas seis óbitos no estado foram atribuídos à doença, de um total de 23.322, o que correspondia a 0,025%. 482
Mas a gravidade da doença não estava em seu número de óbitos, como destacou o Secretário do Interior e Exterior, Protásio Alves, em 1919:
A ancylostomose, molestia que pouco ou nada figura nas estatisticas demographo-sanitarias, que conheço, do Brasil vem desde algum tempo preoccupando os governos dos estados. No registro geral de obitos aqui no
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Na década de 1930, porém, a malária passou a ser endêmica em regiões específicas do estado (ALVES, 2011, p. 105).
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PENNA, Belisário. Minas e Rio Grande do Sul: Estado da Doença, Estado da Saúde. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 1918, p. 15 (COC/Fiocruz).
479 Introdução, 1919 (AHRS, SIE.3 – 031/032).
480 CARVALHO, Euclydes de Castro. O Estado Sanitario do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Livraria do
Globo, 1927, p. 218-219 (Biblioteca da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, doravante BUNISINOS).
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Conforme dados disponíveis nos Relatórios da Diretoria de Higiene do Rio Grande do Sul (SIE.3).
Rio Grande ella concorre com a parcella de 9 casos483; no boletim da cidade
do Rio de Janeiro, do anno passado, organisado pela Directoria Geral de Saude Publica, ella não vem especificada e no de São Paulo, até 22 de dezembro, figura nas cidades a que se refere o boletim do serviço sanitario (S. Paulo, Santos, Campinas, Ribeirão Preto), com 47 casos fataes apenas, sendo o maior numero occorrido em Santos (37). Neste boletim registram-se 6.574 de grippe, 1.084 de tuberculose, 122 de escarlatina, 75 de diphteria- crup, 98 de febre tiphoide; entretanto taes entidades morbidas não têm sido objecto de cogitações e providencias directas que tem provocado a ancylostomose. A explicação do facto está na relativa facilidade de
combater o mal e na profunda perturbação que ella produz nos organismos individual e social. Em recente mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado de Santa Catharina o seu digno Governador diz: “Para mim, problema sobre todos capital, sem cuja solução teremos de assistir impotentes á derrocada dos nossos esforços em prol da prosperidade do Estado é o que diz respeito á saude das populações ruraes, dominadas por um mal implacavel, definhando dia a dia, retrogradando de geração em geração, aphaticas, inertes, inaproveitaveis pela acção depressiva do impaludismo e da uncinariose [ancilostomíase]”. É a repetição mutatis mutandis do que têm dito, em suas mensagens, os chefes de Estado do Amazonas, do Pará, Piauhy, Pernambuco, do Rio, Minas Geraes, S. Paulo e Santa Catharina em
varios documentos identicos anteriores ao do corrente anno.484
As palavras do médico e então Secretário do Interior e Exterior revelam o alcance da preocupação com esta endemia rural, cuja necessidade de combate era enfaticamente apontada pelos defensores do movimento pelo saneamento rural, como vimos na primeira parte deste estudo. O ideário nacionalista do “saneamento dos sertões” penetrara, assim, também no Rio Grande do Sul. A ancilostomíase, doença considerada “evitável”, produzia, segundo Protásio Alves, perturbação nos organismos individual e social e era apontada como responsável pelo definhamento e apatia das populações rurais do país, que “dominadas por um mal implacável, definhavam dia a dia, retrogradando de geração em geração, apáticas, inertes e inaproveitáveis”. O seu combate era imprescindível para que os “esforços em prol da prosperidade do Estado” não fossem em vão. O governo do Rio Grande do Sul unia-se aos governos de outros estados, como São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina, preocupados com a doença e os problemas que esta acarretava.
No mesmo relatório de 1919, Protásio Alves afirmava que, autorizado por Borges de Medeiros, Presidente do Estado, havia pedido ao médico Carlos Penafiel, então Deputado à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, que ouvisse o representante da Fundação
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Os nove casos de óbitos atribuídos à ancilostomíase no estado estavam distribuídos da seguinte forma: cinco em São Leopoldo, um em Montenegro, dois em Camaquã e um em São Francisco de Paula (Relatório da Diretoria de Higiene, 1919 – AHRS, SIE.3 – 031/032).
Rockefeller no Brasil, Lewis Hackett, sobre a possibilidade de acordo para realizar o combate ao “mal da terra” e ações de profilaxia rural, pois era
Conhecedor da Fundação Rockefeller, que, bem organisada, para dar combate ao mal, conta em seu pessoal 556 medicos, estendendo a sua acção a diversos paizes da Europa, da Asia e da America, exercendo-a já efficazmente no Distrito Federal e estados do Rio, São Paulo, Paraná, Santa Catharina e Minas Geraes, de accordo e com a cooperação dos respectivos governos [...].485
Como resultado do contato entre Carlos Penafiel e Lewis Hackett, o representante da International Health Board no Brasil veio ao Rio Grande do Sul em junho de 1919 para tratar diretamente com o governo estadual sobre as possibilidades de cooperação. Quando esteve em Porto Alegre, Hackett conheceu a cidade acompanhado de jovens médicos e obteve um acordo satisfatório – “a satisfactory arrangement” – com o governo estadual.486 A Fundação realizaria o survey, para determinar a extensão e a gravidade da doença no estado e, à luz das descobertas, estabeleceria cooperação com o governo estadual se o combate à ancilostomíase fosse entendido como necessário.487
A partir da visita de Hackett, ficou acertado que a Fundação realizaria o survey – levantamento preliminar da ancilostomíase no estado – , arcando com praticamente todos os custos desta atividade. O estado se responsabilizaria por uma pequena parcela das despesas, que caberia “na verba inscrita na lei de orçamento ‘rubrica Hygiene’”488.
Segundo informações obtidas por Protásio Alves durante a visita de Hackett, o survey – chamado no relatório do governo estadual de “geographia medica regional” – seria realizado da seguinte maneira: uma delegação da Fundação, acompanhada de um médico funcionário do estado ou do município, instalaria o laboratório, cujo material seria fornecido pela Fundação. O laboratório seria instalado em uma sala, que poderia ser da própria intendência
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Introdução, 1919;AHRS, SIE.3 – 031/032).
486Em carta à mãe, Hackett comenta sua vinda ao estado: “It was bitterly cold and there was practically no food
to be obtained. It was mainly through the cattle country of the state of Rio Grande, a region of broad rolling plains and cowboys, called in Brazil, gauchos. Eventually we arrived in Porto Alegre, the greatest city of South Brazil and the third in the country. There we were taken in hand again by a group of young doctors and saw all the sights. We went to a big barbecue on the ranch of one of the men, where they cut down a steer and roasted him by a great bonfire. Later the gauchos roped and mounted wild horses for our entertainment. On another occasion we visited a vineyard and vinery, for Rio Grande is like California a good deal, and is noted for its fruit and agriculture. I made a satisfactory arrangement there also with the Government and then statted for home by boat. The consul in Porto Alegre turned out to be an old friend of – I had known him in Costa Rica in the old days. We stopped in on the way home at the city of Rio Grande where the Swift people have an enormous meat packing house” (Hackett to mother, July 23, 1919 – RAC, RF, RG Special Collection, Lewis Hackett, Series 1.3 – Correspondence, Box 8C, Folder 1918-1919). Grifos do autor.
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Report on Work for the Relief and Control of Hookworm Disease in Brazil for the quarter ending September 30, 1920 (RAC, RF, RG 5, Series 3, Sub-Series 305H – Brazil, Box 112, Folder 1437).
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do município onde as atividades fossem realizadas, e seriam então procurados “os centros de zonas onde houvesse a moléstia”. Pelo uso de projeções luminosas e “outros meios de atração”, a população seria reunida e seriam distribuídos recipientes (latinhas) para a coleta de amostras destinadas ao exame microscópico. No dia seguinte, as amostras seriam recolhidas, submetidas a exame e, verificada a doença, o indivíduo receberia o medicamento – óleo de quenopódio –, que deveria ser ingerido “sob as vistas do pessoal”. Provavelmente reproduzindo o que ouvira de Hackett, Protásio Alves afirmava que “não se dá em regra uma cura definitiva com a 1ª applicação, mas os resultados obtidos são de tal ordem que dispensam depois qualquer propaganda”489. Depois de determinadas as “zonas convenientes”, poderiam ser estabelecidos postos de tratamento, ou seja, postos de demonstração do método intensivo.
As despesas com cada posto, que poderia atender a mais de um município, variavam de quarenta a sessenta contos e poderiam ser custeadas, segundo o Secretário do Interior e Exterior, pelo estado, pelos municípios, pela União e pela Fundação. A participação da União poderia ser solicitada, como vimos, através do Serviço de Profilaxia Rural (1918) e, posteriormente, da Diretoria de Saneamento e Profilaxia Rural do Departamento Nacional de Saúde Pública (1920), mas com perda de autonomia por parte dos estados solicitantes do auxílio do governo federal. Protásio Alves afirmava que, para a possível criação de dois postos em 1920, seria “dispensado o auxílio da União”.490
Somente após a visita de Lewis Hackett ao estado, quando as condições e os termos básicos da possível cooperação entre a International Health Board e o governo do Rio Grande do Sul já haviam sido estabelecidos, o Diretor de Higiene do Estado, Ricardo Machado, enviou um comunicado oficial a Hackett convidando a Fundação para realizar atividades no estado. O convite, datado de 23 de julho de 1919, se resumia a uma frase: “By authorization of the Secretary of State for the Interior, I have the pleasure of inviting you to make a Survey of the State in accordance with the plans outlined in your conversation with the Secretary”.491 O governo estadual convidava, assim, a Fundação a realizar o survey no estado, mas nada era mencionado sobre a instalação de postos de demonstração do método intensivo de combate à ancilostomíase.
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Introdução, 1919 (AHRS, SIE.3 – 031/032).
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Introdução, 1919 (AHRS, SIE.3 – 031/032). Segundo Protásio Alves, além de combater a ancilostomíase, os postos também poderiam realizar atividades relativas à profilaxia da malária, o que, segundo ele, era inútil no caso do Rio Grande do Sul.
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Report on Work for the Relief and Control of Hookworm Disease in Brazil for the quarter ending September 30, 1919 – Appendix no. I – Invitation from the Government of the State of Rio Grande do Sul (RAC, RF, RG 5, Series 3, Sub-Series 305H – Brazil, Box 112, Folder 1435).
Já no início de agosto, Lewis Hackett escreveu ao Diretor da International Health Board, Wickliffe Rose, comentando o convite do estado do Rio Grande do Sul:
I amy [sic] add that this invitation is particularly gratifying to me, since the above State has consistently refused to accept the co-operation of the Federal Government in its public health affairs. The Public Health Service is, therefore, inclined to congratulate us on the opportunity which we have succeeded in obtaining in the far South for a public health survey, to be followed – without doubt – by demonstration, although the invitation intentionally omits any discussion as to what action may arise out of the survey.492
Segundo Hackett, o convite do governo estadual gaúcho lhe era “particularmente gratificante” porque a Fundação atuaria, desta forma, em um estado que se recusava a cooperar com o governo federal em questões referentes à saúde pública. Hackett estava seguro de que o survey seria seguido pela instalação de postos de demonstração do método intensivo, apesar de o convite “intencionalmente” omitir qualquer discussão sobre que ações poderiam ocorrer a partir do levantamento preliminar da situação da ancilostomíase no Rio Grande do Sul.
O Rio Grande do Sul, como já destacamos no terceiro capítulo, era percebido pela Fundação como um estado importante no contexto nacional.493 Em relatório de 1920, Wickliffe Rose afirmava, após visita ao país, que a IHB deveria concentrar os principais esforços no que se referia à saúde pública nos estados que eram estratégicos: São Paulo, Rio Grande do Sul e Pernambuco, este último de menor importância. O Rio Grande do Sul que aparece na documentação produzida pela Fundação era composto por uma população formada por pessoas independentes, ativas e robustas – destaque para o elemento europeu494 –;
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Hackett to Rose, August 1, 1919 (RAC, RF, RG 5, Series 1, Sub-Series 2 – Project, Box 78, Folder 1110). 493Durante a República Velha, o estado ocupou papel importante nos cenários político e econômico, juntamente com os estados de Minas Gerais e de São Paulo. Em 1920, por exemplo, os estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo respondiam por mais da metade da produção agrária e industrial do país, excluindo-se o Distrito Federal. Além disso, os três estados detinham, juntos, mais da metade da renda recolhida pelos 20 estados da Federação. O Rio Grande do Sul ocupava, em 1920, o terceiro lugar no valor de arrecadações estaduais. Mais informações sobre o Rio Grande do Sul no contexto nacional durante a Primeira República podem ser encontradas em LOVE, Joseph L. O Regionalismo Gaúcho e as Origens da Revolução de 1930. São Paulo: Perspectiva, 1975. Capítulo 5.
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Em relatório de 1920, a colonização do Rio Grande do Sul e a presença do elemento europeu eram assim destacadas: “The settlers are divided into the old ‘gaucho’ families and the European element. The older element is the gaucho – a cross of Paulista bandeirantes, Guarani Indian and some Spanish and occasional negro blood, which is in effect a white race, and eighth or sixteenth mestiço. The European element, less characteristically pastoral and land-holding, are principally Germans and Italians, and have contributed very greatly to the commercial and industrial life of the state. In 1915 a third of the population was in European colonies, which occupied a ninth of the state area (Annual Report for Brazil, January 1st to December 31st, 1920 – RAC, RF, RG 5, Series 3, Sub-Series 305H – Brazil, Box 112, Folder 1438).
governado por um homem capaz (Borges de Medeiros) cujo poder era supremo495 e que possuía reputação de “bom pagador” entre os estrangeiros496. Assim, o estado possuía o “certo porte econômico” e uma situação política que possibilitava a realização de ações na área da saúde pública, condições que, segundo Lina Faria, poderiam facilitar os acordos de cooperação entre a Fundação e um estado brasileiro.497
Talvez seja interessante mencionar também, no contexto de nossa discussão, que o Rio Grande do Sul recebeu, durante a República Velha, vultosos investimentos norte-americanos em setores como transporte ferroviário e frigoríficos.498
Tendo recebido do Diretor de Higiene do Rio Grande do Sul, em julho de 1919, o convite para a realização do survey, o Fundação só iniciaria o trabalho, de fato, no ano seguinte.
4.3 MAPEANDO A ANCILOSTOMÍASE NO RIO GRANDE DO SUL: O SURVEY DE