3.3 Wave models
3.3.4 Depth-Induced breaking
O objeto de análise deste estudo é o silêncio entendido como gerador de sentidos na trilha sonora do cinema. Se, como dito anteriormente, consideramos que toda linguagem verbal ou sonora carrega em si aspectos de subjetividade, é notório que o silêncio se apresenta como uma linguagem ainda mais aberta e subjetiva. Mesmo que haja em todo discurso a presença daquele não dito, a presença implícita do que foi omitido e que, juntamente com o dito, exprime sentidos, essa linguagem do que é presente, do que é expresso por meio de sons, é claramente mais objetiva e explícita do que o silêncio. O silêncio é plástico, é um caminho aberto para múltiplas interpretações. Como defende Orlandi (2007, p. 47), “é a incompletude que produz a possibilidade do múltiplo, base da polissemia. E é o silêncio que preside essa possibilidade”.
Como compreender então essa multiplicidade de caminhos interpretativos gerada pelo silêncio?
O “esquema elementar da comunicação” (ORLANDI, 2013, p. 20) prevê um sistema objetivo de transmissão de mensagem. Um emissor transmite uma mensagem a respeito de um referente, por meio de um código, que será decodificado por um receptor, que compreenderá aquilo que foi transmitido. Esse esquema, porém, não considera o lugar da subjetividade nesse processo de comunicação, com base em aspectos muitas vezes abstratos, mas que influenciam no processo de geração de sentido.
Em contraposição a esse esquema, deve-se conceber que toda recepção é uma interpretação de uma mensagem transmitida, assim como essa mensagem
3. Metodologia
49
transmitida é gerada a partir de uma interpretação feita pelo emissor a respeito de uma realidade observada. A música, como qualquer forma de linguagem, evoca sentidos com base em códigos interpretativos compreendidos e compartilhados por determinado grupo. Seus significados são construídos historicamente por meio de associações construídas espontaneamente (BAUER; GASKELL, 2003, p. 371) ao longo do tempo pelo hábito, ou por convenções simbólicas definidas em tratados e teorias. A história, os conhecimentos prévios, a classe social de cada um desses participantes do processo, o lugar de fala ou a posição intelectual ou hierárquica do emissor, dentre vários outros aspectos, influenciarão na formação do sentido. Então:
Podemos dizer que o sentido não existe em si mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico [...]. As palavras não têm um sentido nelas mesmas, elas derivam seus sentidos das formações discursivas em que se inscrevem (ORLANDI, 2013, pp. 42-43).
O ponto de partida da Análise de Conteúdo é a mensagem. Toda mensagem expressa necessariamente um significado – objetivo, denotativo – e um sentido, que se baseia na representação social do objeto, levando em consideração o lugar de interpretação de quem dá o sentido. Baseia-se na “busca descritiva, analítica e interpretativa do sentido que um indivíduo (ou diferentes grupos) atribui às mensagens verbais ou simbólicas" (FRANCO, 2005, p. 15, grifo do autor).
Toda análise é uma interpretação, não o reconhecimento e a descrição de uma realidade objetiva. A Análise de Conteúdo propõe-se a ser uma forma de investigação mais profunda do que uma análise meramente descritiva. Porém, é necessário que o analista concilie a condição de sujeito, inserido na história e na cultura, com uma possível neutralidade interpretativa.
Por isso é necessário introduzir-se um dispositivo teórico que possa intervir na relação do analista com os objetos simbólicos que analisa, produzindo um deslocamento em sua relação de sujeito com a interpretação: esse deslocamento vai permitir que ele trabalhe no entremeio da descrição com a interpretação (ORLANDI, 2013, pp. 60-61).
Então, para que o processo interpretativo seja válido e razoável e a análise não seja mera leitura subjetiva do objeto de estudo, faz-se necessária a cuidadosa elaboração de dispositivos de análise. Essa elaboração se faz a partir do constante diálogo entre a teoria e a análise de dados disponíveis.
O processo de Análise de Conteúdo inicia-se com a coleta de dados feita a partir da ideia de responder a uma pergunta do investigador: Aonde pretendo chegar? O que eu quero saber? E, a partir disso, que materiais devem ser analisados e de que
maneira? O material é submetido a uma primeira análise, e uma descrição objetiva a seu respeito é levantada. Em seguida, inicia-se o processo de constante comparação entre dados obtidos e os pressupostos teóricos.
Um dado sobre um conteúdo de uma mensagem (escrita, falada e/ou figurativa) é sem sentido até que seja relacionado a outros dados. O vínculo entre eles é representado por alguma forma de teoria. Assim, toda Análise de Conteúdo implica comparações. (FRANCO, 2005, p. 26)
A partir disso, com base nessas constantes comparações, são feitas as inferências. Segundo Franco (p. 26), produzir inferências de maneira lógica é o que confere relevância teórica ao processo de Análise de Conteúdo. É o que dá sentido a um dado levantado.
Se a descrição (a enumeração das características do texto, resumida após um tratamento inicial) é a primeira etapa necessária e se a interpretação (a significação concedida a essas características) é a última fase, a inferência é o procedimento intermediário que vai permitir a passagem, explícita e controlada, da descrição à interpretação (pp. 25-26, grifo do autor).
Feitas as inferências, formuladas hipóteses, o analista encontrará princípios organizatórios para agrupar os elementos observados. São assim criadas categorias de análise. As categorias podem ser definidas a priori ou a posteriori.
Categorias definidas a priori são criadas a partir de teorias, com base nas respostas que o analista pretende obter. Cria-se um quadro de possíveis respostas (conceitos), e o que não se encaixa em nenhum deles é descartado. A limitação desse procedimento baseia-se no fato de que ele tende a tornar a análise fechada, ignorando as nuances do discurso. Porém, confere à análise um caráter bastante objetivo.
Por outro lado, as categorias definidas a posteriori surgem a partir das respostas obtidas. A partir das interpretações das respostas, vão se agrupando os dados obtidos por semelhanças e contrastes (convergências e divergências) e se construindo as categorias, os códigos de interpretação. Esse procedimento exige um tempo muito maior no processo de investigação e confere obstáculos à objetividade da criação das categorias e análise do objeto.
Então, definido o problema de pesquisa, estabelecido o referencial teórico em que a pesquisa se baseia, coletado o material a ser analisado, criadas as inferências e hipóteses a serem comprovadas, serão agrupados os objetos de análise em categorias. Essa é a proposta da Análise de Conteúdo.
Em um segundo momento, objetivando uma análise das prováveis intenções da utilização dos silêncios, recorro aos princípios e métodos da Análise de Discurso,
3. Metodologia
51
segundo a visão de Orlandi (2013). “A Análise de Discurso visa fazer compreender como um objeto simbólico produz sentido” (ORLANDI, 2013, p. 26). Como método ela propõe inicialmente um processo de dessuperficialização do corpus, com base na percepção de quem diz, como diz, em que circunstância é dito, etc., determinado discurso, para compreender de que maneira esse discurso se materializa. Um segundo momento necessário é o entendimento de que o que é dito poderia ser dito de inúmeras outras maneiras, caso fosse afetado por diferentes memórias discursivas26. Dessa forma, o corpus bruto é convertido em um objeto teórico, produzido por uma primeira abordagem analítica, que desmistifica a impressão de realidade objetiva do objeto analisado.
A partir disso, inicia-se o processo de análise do objeto discursivo. Essa análise faz-se a partir do constante ir e vir entre os fundamentos teóricos da consulta ao corpus e a reflexão. Nesse processo vão sendo encontrados os vestígios de significação presentes em cada objeto que é analisado. Aí acontece o processo discursivo.