ALUNO É um paciente recente. Tem de 8 para 9 anos, é aluno do 3º ano do Ensino
Fundamental. É um menino alegre, receptivo, conversador e demonstra estar confortável no espaço da internação. Presta atenção à televisão e ao game-boy ao mesmo tempo. Durante a entrevista inicial, reclama que não encontra a tecla do "Pausar" no jogo e assim perde para a máquina. Há 3 dias no hospital, ao dar entrada foi direto para a internação.
O diagnóstico é de Leucemia, com necessidade ainda de algumas explicitações; dessa forma, mesmo sem febre e dor ainda segue em
internação. Existe também pendência quanto à condução do tratamento em sua residência, que não oferece condições de salubridade ao acompanhamento quimioterápico.
MÃE É muito reservada em sua conversa inicial com a professora, mas cordial
com a situação. A professora explica o que é a EMAE, se concorda com que seu filho estude no hospital e se autoriza falarmos com a escola de origem. Ela responde que sim, demonstra entender a conversação, mas não lembra a data de nascimento do filho, diz que está muito nervosa e que podemos perguntar o nome da escola e outras coisas para o seu marido, tão logo ele venha com a roupa: : "Cheguei aqui com esta roupa, meu filho já vestiu a do
hospital, eu tomei banho, mas não tenho troca. Meu marido vai trazer."
O menino prontamente responde às perguntas da professora. Soletra o nome da escola e especifica que a sua escola é estadual. A mãe assume o diálogo quando é para dar o nome do local onde moram e diz que está próximo de uma favela.
ESCOLA DE
ORIGEM
A professora conversa com a coordenadora da escola de origem. Bastante colaborativa, salienta que julga necessário o hospital saber que a casa do aluno não é de alvenaria, que as condições sociais do ambiente não são das melhores e pelo que ela conhece do tratamento passa essa informação como forma de colaborar. A professora hospitalar agradece e diz que transmitirá as informações para a assistente social e equipe de saúde. A coordenadora diz ainda que está assumindo a escola por aqueles tempos, que sabe da internação do aluno, pois seu irmão havia dado a informação, mas que não conhece a situação escolar do aluno. Faz perguntas sobre como ele se encontra e conversam sobre o tempo e modo do tratamento.
Terminada a conversa, ficou ajustado que a Escola Hospitalar vai enviar periodicamente os relatórios dos estudos no hospital e os atestados de presença hospitalar. Por outro lado, a Escola de Origem remeterá o planejamento anual, tão logo este esteja formalizado. Em função do tratamento e da doença, ficou combinada uma conversa bimestral sobre os encaminhamentos das atividades.
SITUAÇÃO DE
ENSINO
A professora bate na porta, entra no quarto e pergunta se o aluno vai estudar. Este afasta o olho do game-boy e diz que sim. Professora e mãe, antes da aula, higienizam as mãos, põem luvas e avental de restrição de contato e higienizam com álcool a mesa do quarto, os materiais de estudo e
os acomodam na cama para a aula.
Antes do início da aula, a mãe pergunta se pode descer para falar com a Assistente Social. A professora pergunta para o aluno se pode. Este responde que sim.
Mãe e professora retiram as luvas, higienizam as mãos, retiram o avental de proteção de contato, vão até o posto de enfermagem e solicitam a permissão da saída materna do quarto. Autorizada a saída, a professora dirige-se novamente ao quarto, higieniza as mãos, põe luvas, avental e dá início à aula.
A professora (P) solicita que o aluno (A) escreva seu nome e data na folha de estudo e explica que depois vai enviar o material para a escola. O aluno tem letra legível, escreve com traços firmes, pergunta o dia e compõe o solicitado.
P. O que você gosta mais de estudar na escola?
A. Matemática. P. Você faz problemas na sua escola? A. Sempre.
O aluno tem dificuldade de articular sons e usa um aparelho ortodôntico preso ao céu da boca. A professora tem uma relativa dificuldade em entender o que ele responde. Em alguns pontos da aula, solicita que repita a fala. Nessa situação, ele olha para a professora e repete pausadamente. Demonstra que já viveu essa situação anteriormente.
P. Vou escrever um problema.
Enquanto escrevo, falo com você. Ok! Quando não entender é só perguntar. Com o dedo, faz o sentido de positivo.
A. Sorri e responde afirmativamente ao sinal.
P. Você tem irmão? A. Sim. Dois.
P. Quem é o mais velho? A. Eric
P. Escreve no papel ( Erick) e pergunta se está certo.
A. Não, o nome dele não tem “ K “. Tem “ K “ o nome da minha irmã.
P. Como é o nome da sua irmã? A.Kelly.
P. Quantos anos eles têm? A.O Eric tem 12 e a Kelly, 5.
P. Professora propõe o problema: A professora do Eric solicitou que ele lesse um livro. O Livro tem 68 páginas e o Eric já leu 16.
A. Quantas páginas falta ele ler?
P. Como você sabe o que vou perguntar?
A. Só podia ser isso, não é? P. Muito bem. Então pode responder. A. Onde?
P. Que tal escrever : Resposta
Ele fica em silêncio. Fecha e abre as mãos. Conta nos dedos e propõe.
A. R= 58.
P. Como podemos saber se está certo? A. Eu peguei o 68 e tirei os ...Ih! Só tirei 10.
P. O que podemos fazer? A. Tenho que tirar as outras 6.
Nova pausa e diz: Não sei se dá 52 ou 42.
P. Como faz na sua escola? A. Tiro novamente. Sabe, mas é
muito que tem de tirar. Se era conta eu escrevia, mas é problema.
P. Como assim? A. Em problemas a gente não
escreve e em conta, sim. P. Será que não podemos escrever aí? A. Você pergunta para minha
professora se pode? P. Pergunto, mas até eu telefonar,
podemos escrever.
A. Escreve 68 – 10 = 58 – 6 = 52.
Para escrever “ falta “ na resposta, soletra várias vezes e procura no texto do problema onde está escrito. Apontando com o dedo, exclama: “ é f “
P. Posso fazer outro problema? A. Pode.
P. Você conhece muitos números? A. Sei. Tenho um caderno que escrevo os números, estou quase chegando ao mil. Sei também mais que mil.
P. O caderno é da escola? A. Não, é meu, eu faço os
números e as contas.
A mãe retorna e diz que ainda não tem data para alta. Senta-se e observa a aula em silêncio.
P. Quem escreve as contas. A. Eu
P. Gostaria de ver seu caderno. A. Peço para alguém trazer aqui. Você tem um caderno para eu fazer os números aqui?
P. Neste quarto só podemos trazer folhas, como estas. Mas quando sair daqui, pode ter outro caderno.
A. Então deixa as folhas para eu fazer os números.
P. Perfeito. E pergunta: Qual é o nome de um tio que vai sempre a sua casa.
A. Pedro. P. Compõe o problema: Pedro dá 177
reais ao Eric. O Eric distribui 12 para o Pedro e 15 para a Kely
A. Tem outro “ L” .
P. Perfeito. O que você acha que eu vou perguntar aqui.
A. Com quanto dinheiro o Eric ficou.
Ele fica em silêncio e diz: Aqui é melhor escrever.
P. Por que? A. É tira do tira. E é muito
dinheiro. P. O que você acha: quando precisa
escreve e quando não, resolve somente colocando o resultado?
A. É isso que estou fazendo
Novamente procura no texto a palavra “ ficou “ e transcreve para a resposta.
P. Podemos parar, não acha? A. Você volta amanhã.
P. Sim. A. Então não precisa deixar a folha
dos números, traz amanhã. Hoje estou cansado.
A professora e mãe conversam sobre a próxima aula e sobre a atividade que o aluno acabou de desenvolver.
CONHECI-