1. Norwegian University of Science and Technology
1.2 Department of Marine Technology
A fundamentação teórico-metodológica deste estudo, gestada a partir dos pressupostos da psicologia sócio-histórica, a qual propõe como mediação/articulação as categorias do materialismo histórico dialético, nos permitirá empreendê-lo na modalidade de pesquisa qualitativa. Desta forma, nossa intenção é a de produzir aproximações explicativas acerca do fenômeno estudado, via superação da dicotomia entre aparência/essência, individual/social, objetividade/subjetividade, posto que, para nós, tais pares são indissociáveis e se movimentam na gênese histórica da atividade humano-genérica.
É da máxima importância destacar que as possibilidades e impossibilidades, que podem vir a ser legadas às futuras gerações, sobre o movimento de superação do modo de sentir, pensar e agir a partir das e a respeito das objetivações humanas, são engendradas nas e pelas condições objetivas/subjetivas dos sujeitos, via constituição de síntese individual/particular/universal, acerca dessas mesmas (objetivações).
Na instituição/organização, o sujeito é determinante, ao mesmo tempo em que é determinado no e pelo movimento dialético das forças contraditórias individuais/particulares/universais de constituição recíproca. Em outras palavras, ora o sujeito, como elemento constitutivo da instituição/organização, está, por meio da atividade (trabalho) predominantemente, na posição de constituído por ela, ora, por meio dessa mesma atividade, encontra- se na condição majoritária de constituinte dela.
É mister considerarmos sempre que, embora a atividade seja objetivada pelo sujeito (indivíduo) é, ao mesmo tempo, mediada pela particularidade, na qual esse mesmo sujeito se encontra imerso. E, essa particularidade é impregnada de elementos forjados no percurso histórico da espécie/gênero-humano, isto é, de sua universalidade.
A partir das considerações acima, acreditamos e defendemos a produção do conhecimento como prática compromissada e contributiva para possíveis movimentos de apreensão das mediações sociais, que favorecem a produção da superação, por incorporação, do complexo (objeto/processo/situação) social estudado.
Consideramos que a produção do conhecimento acumulada e disponibilizada sócio historicamente, pode-se constituir como elemento determinante e mediador do modo singular, por meio do qual o sujeito irá concretizar significações e, como tal, será objetivado/determinado e mediatizado na e por sua atividade, via configuração subjetiva. Como González Rey, acreditamos que “La realidad entra en la configuración de los procesos subjetivos, no como una entidad externa que influye sobre ellos desde “afuera”, sino como un sistema que es subjetivado de forma permanente por la acción del sujeto en el.” (2003, p. 39)
Nos “Manuscritos econômicos e filosóficos” de 1844, Marx, discutindo consciência como forma teórica da forma viva que é a realidade social, considerou que:
“(...) embora no presente essa consciência universal seja uma abstração da vida real e oposta a esta como uma inimiga.(...) a atividade de minha consciência universal como tal é minha existência teórica como
um ser social. (...) Acima de tudo, é mister evitar conceber a “sociedade” uma vez mais como uma abstração com que se defronta o indivíduo. O indivíduo é o ser social” (In: Fromm, 1983, p.119 grifos do autor)
Para nós, as transformações qualitativas das instituições/organizações e, conseqüentemente, dos sujeitos delas constituintes e, nelas constituídos, estão implicadas com o processo de produção de conhecimento, posto que esse sustenta/mediatiza a constituição de sentidos e significados sobre o homem e a realidade social, ou seja, sobre todos objetos/processos/situações mediatizados/mediatizantes por ele e dele mesmo [sujeito].
Entendemos que a afirmação de González Rey (2003), ao discutir a epistemologia qualitativa, poderá fundamentar e ratificar nosso posicionamento, a respeito da produção de conhecimento como determinante e favorecedor, ou não, de transformações qualitativas da realidade social (particularidade/universalidade). Assim diz o autor:
“Al reconocer la realidad como determinante del conocimiento, de hecho nos estamos planteando su presencia como parte inseparable del propio proceso de conocer, el cual se desarolla a traves de una relación dialéctica con aquella, donde el aumento de la complejidad de una de las partes conduce necesariamente al aumento de la complejidad en la otra, y produce así nuevas situaciones contradictorias entre el conocimiento y la realidad. A traves de estas contradicciones, el proceso de conocimiento va produciendo nuevas zonas de
sentido sobre lo real, cuya constituición define un conjunto de nuevos retos e interrogaciones para el propio conocimiento.(...) La relación planteada entre realidad y conocimiento expresa una posición materialista dialéctica, dentro de la cual ninguno de los momentos de esta relación llegará a agotarse en el otro, dando lugar progresivamente a nuevas formas cualitativas de relación, donde cada uno de sus
componentes se expresan, a su vez, en niveles cualitativos diferentes.” (2003, p. 14-15. grifo do autor)
Corroboramos com o autor supracitado, e inferimos, a partir do exposto acima, que ao reconhecer a produção de conhecimento como produção determinada pela realidade social, nos aproximamos do par dialético realidade- social/conhecimento-produzido. Assim, por meio do Trabalho (mediação social), uma instância é engendrada com e pela outra, configurando a necessidade de novos momentos produtivos, os quais não serão nem uma ou outra (instância) em separado, mas constituirão intrinsecamente novas versões sobre a realidade social (particularidade/universalidade) e sobre o conhecimento historicamente acumulado.
Em dado momento da marcha histórica, o homem produziu conhecimento a partir de concepções que, para compreender a realidade social, cindiam o mundo, o ser humano e o resultado de sua atividade Trabalho, em produção simplificada, de partes desconexas e não inter-relacionáveis entre si, isto é, ocultando o processo de produção da mesma e as implicações dos determinantes desse e nesse processo. Assim, a realidade social pode ser investigada como “coisa” em si mesma (Ding na sich), como entidade reificada.
Ora, se a concepção dominante, de produção de conhecimento, ainda insiste em atomizar os fenômenos do gênero humano e impede a compreensão de tais fenômenos, no movimento de constituição recíproca de seus condicionantes, não nos deve causar espanto se, ao aproximarmo-nos dos sujeitos, em lócus particular da produção humana, percebamo-lo, não apenas como
reprodutor, mas também como produtor de novas versões fragmentárias sobre si mesmo e sobre a realidade social.
Deste modo, temos diminuído cada vez mais o acesso às possibilidades de superação dos aspectos alienantes, que impedem a transformação dessa mesma realidade, bem como de si próprio (autoprodução) de forma não- alienada.
Ainda que nos encontremos diante de situação similar à descrita acima, afirmamos que, malgrado a concepção dominante e “quase” hegemônica, na produção do conhecimento científico, ser a que contribui para a fragmentação do sujeito e de sua produção, afirmamos que há espaços relativos de possibilidade para a emergência do novo, via superação por incorporação.
Cabe-nos a tarefa de, por meio de nossa atividade (trabalho), enquanto produzirmos conhecimento, por sucessivas aproximações explicativas da essência dos fenômenos, disponibilizá-lo para mediação e, se possível, como instrumento mediador da superação do modo de sentir, pensar e agir implicados com o fenômeno estudado, sobretudo aos sujeitos que venham de alguma forma a participar desse processo de produção.
Como Leontiev defendemos a produção de estudos nos quais não se extraiam da atividade humana, elementos psíquicos para se investigar a parte, mas que introduzam “(...) unidades de análise que portem em si mesmas o reflexo
psíquico na sua indissociabilidade com os elementos da actividade humana que o engendram e são mediatizados por ele.” (1978, p.11, grifos nossos)
Ao explicitar o desvelamento, máximo possível, dos múltiplos elementos determinantes da e na produção em questão, no contexto
institucional/organizacional, podemos nos aproximar do modo singular de como o sujeito sente, pensa e age, na particularidade estudada, sobre o assunto em questão, como também podemos inferir quais aspectos humano-genéricos (universais) são articulados na e pela mediação constitutiva desse modo.
Consideramos que também podemos, por meio da análise das significações do sujeito escolhido, ter acesso a dados referentes e reveladores da qualidade desse espaço como favorecedor ou não da “atividade escolha”, como atividade constituinte e mediadora da e na historicidade humana.
Como González Rey (2003), defendemos que:
“La realidad, [da qual o sujeito é parte], no es algo pasivo en relación con el conocimiento, con mucha frecuencia (...) nos olvidamos de que la realidad también es activa, y no se subordina pasivamente al curso de nuestra construcción, sino que la contradice en su majestosa riqueza, dentro el cual se desarrolla y reconstruye permanentemente el conocimiento, aun cuando (...) no quiere confrontarse con aquella en el afán de perpetuarse en alguna de sus formas institucionalizadas historicamente.” (p. 16)
Acreditamos que no espaço escolar são incontáveis e, muitas vezes, não acessíveis à simples observação, as mediações sociais presentificadas nas atividades dos sujeitos, em momentos considerados como favoráveis ou não à atividade escolha.
Considerando, segundo a possibilidade de nosso alcance, os elementos multideterminantes dessa instituição/organização, buscamos nos apropriar, por meio da observação, identificação, registro e entrevistas semi- estruturadas, informações que entendemos ser, potencialmente, impregnadas da e implicadas na constituição de sentidos e significados dos sujeitos acerca de
espaços/momentos/situações escolares favoráveis ou não à atividade escolha, mais especificamente à escolha profissional.
Empreendemos este estudo, com o fito de ultrapassarmos a aparência do objeto/processo/situação problematizado e de nos aproximarmos explicativamente da gênese do modo constitutivo/constituinte de sentidos e significados sobre objeto de estudo.