dos EUA no Brasil, a implantação de um modelo social concentrador de terra e de renda e o fim das liberdades democráticas. Representou, também, um duro golpe nos desígnios das forças progressistas de implantar um modelo de sociedade calcado na justiça social.
Sob a insígnia do Brasil Grande - “Ame ou deixe-o” - e utilizando-se ora da repressão física, ora dos atos institucionais, o regime militar provocou uma verdadeira diáspora no seio das forças progressistas. Suas principais lideranças foram exiladas ou simplesmente exterminadas e os Movimentos Sociais tradicionalmente identificados com aqueles partidos foram esfacelados e/ou silenciados. A legislação imposta pelo regime militar enfraqueceu a função dos sindicatos como movimento de contestações, reivindicações e lutas por melhores condições salariais e de emprego.
Eritréia, uma das entrevistadas conta que, em meados dos anos 70, em Belo Horizonte, no bairro Casa Blanca, participou de um grupo de militância juvenil, com vínculo religioso que se chamava: “Caminhando”, inspirada nos versos contestadores da música de Geraldo Vandré, cujo refrão foi recorrentemente entoado nos movimentos contra a ditadura: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Suazilândia, outra entrevistada, viveu a sua adolescência no período militar. A tensão nas ruas, característica desse momento, foi por ela vivenciada em alguns momentos quando a retornava da escola – no centro de Belo Horizonte - para a sua casa. Sem entender direito o que se passava à sua frente, tentava descobrir o que estava acontecendo ao seu redor recorrendo à televisão. Ela insinua que os movimentos de resistência dos jovens universitários, que assistiu na sua adolescência, eram constituídos por jovens de classe média, com maior acesso à informação, indignados com os rumos políticos do país:
No auge da Ditadura Militar, eu tinha entre 13 e 14 anos. Estudava atrás do Parque Municipal, na Alameda Ezequiel Dias. Eu tomava o ônibus para casa perto da Faculdade de Direito da UFMG. Nessa trajetória de sair do parque municipal para pegar o ônibus na Faculdade de Direito, me deparei por diversas vezes com os coletivos dos movimentos sociais, especialmente, o movimento estudantil. Não que eu participasse, pois não sabia muito o que estava acontecendo. Só me lembro de ver os estudantes jogando pedras nos militares. Lembro-me também que o regime massificava muito a jovem guarda para desvirtuar a cabeça do povo. Eu ficava imaginando por que saíam os estudantes da Faculdade de Medicina e iam a
passeata para encontrar com o pessoal do Direito, no início da Avenida João
Pinheiro, justamente na hora em que eu saía da escola. Muitas das vezes tive de sair da escola mais cedo porque as irmãs ficavam sabendo que ia ter passeatas. A escola era confessional. Por isso, elas liberavam os alunos mais cedo, porque certamente iria haver confronto com a polícia, etc. Eu ficava querendo saber o que era aquilo
vendo a televisão. Para mim, os protagonistas daqueles episódios eram os jovens de classe média que compreendiam mais de perto a realidade do Brasil, naquele momento, por causa de suas condições financeiras, sociais e acadêmicas. (Suazilândia, 54 anos – destaques meus)
Eritréia, ao relembrar do período da Ditadura militar, disse que durante os anos de sua adolescência estava começando a constituir sua consciência política e a entender os problemas que o país enfrentava, através de seus professores da 5ª série da escola que estudava. Segundo ela muitos professores encontravam meios de burlar ou forjar situações para discutir criticamente com seu alunado sobre o regime militar e explicar o que estava ocorrendo durante a ditadura.
O dono dessa escola era o seu João, um militar muito severo, na época da ditadura, imagina! Ele era a favor da ditadura e tudo. Eu nem sabia muito ainda
o que significava ditadura, não.Mas, logo após que entrei na escola, fiquei sabendo por intermédio de alguns professores que trancavam a porta para dar aulas pra
gente, sabe! Então, tinha o professor de OSPB que, na realidade, era professor de
história. Ele era fantástico! Falava com a gente de tudo. Tinha também o professor de português que se chamava Valter. O meu sonho era encontrar esses professores depois, sabe? Nunca mais os encontrei. Então, esses professores nos deram noções
sobre o mundo que estávamos vivendo; do que era proibido e tal. Indicavam livros bacanas para a gente ler e tudo. Então, nessa fase, fui tomando um pouco mais de consciência crítica da política que o país estava vivendo. Não, assim, uma informação totalmente, porque eles não podiam nos fornecer muita coisa.
E os meus pais, embora soubessem de alguma coisa, não passavam muita informação, não. Conversavam pouco a respeito disso. Então, foi na escola São Geraldo que eu fui me formando politicamente. (Eritréia, 45 anos – destaques meus)
Apesar de os pais de Eritréia não conversarem muito sobre a ditadura, eles não eram pessoas à parte de tudo e, principalmente, da política. Tanto sua mãe quanto seu pai eram pessoas engajadas nos movimentos populares de bairros e de igreja. Sua mãe era líder na comunidade, instigando os moradores de sua comunidade a se organizarem e a lutarem por melhorias no bairro. A atuação dela, contudo, não acontecia só no âmbito externo de sua residência. As filhas e os filhos também eram estimulados a participar de algum grupo para não ficarem parados em casa. O aprendizado político de Eritréia também se deu no contexto familiar e em movimentos comunitários do bairro, ligados às comunidades eclesiais de base.
Tinha um movimento comunitário no bairro. Um movimento em que seus integrantes eram predominantemente da Igreja, que na época organizava as Comunidades Eclesiais de Base. Era final dos anos 70. E a minha mãe começou a participar. Tinha também o negócio do jornal dos bairros que funcionava em Contagem, que ela participava. E aí ela nos chamou e disse: “tem um movimento aqui, vocês não estão fazendo nada no sábado, fica todo mundo à toa, porque vocês não vão lá pra igreja?”. Daí, nós começamos. Fomos e nunca mais largamos. (Eritréia, 45 anos)
II.III - A crise do Regime Militar, o renascimento dos Movimentos Sociais e o