CEBs e, logo em seguida, incorporou-se ao movimento popular de bairro. Ela começou em 1980, quando tinha por volta de seus 17 ou 18 anos de idade. O certo foi que: “começou depois da adolescência”.
Conforme foi relatado no capítulo anterior, Eritréia passou a freqüentar o grupo de jovens da Igreja, cujo nome era “Caminhando”, influenciada por sua mãe. A partir desse grupo a sua incorporação a outros movimentos, inclusive no Partido dos Trabalhadores – PT e no Movimento Negro foi simultânea e progressiva, uma vez que as organizações estavam se consolidando:
Na verdade, eu entrei no final dos anos 80. (...) Foi na realidade por escala porque ocorreu assim. Eu entrei na igreja. Da igreja para o partido. Do partido para o movimento de negro. Virou um circulo porque estava tudo muito ligado. Na época, o PT estava surgindo. O Movimento Negro também estava numa fase de surgimento e tudo. Então, uma coisa foi puxando a outra. Entrei na CEB. (Eritréia, 45 anos)
Segundo a entrevistada a participação na CEB foi muito importante para a sua formação e para a comunidade. Esta última acabou por se beneficiar de uma agente social motivada e envolvida com as benfeitorias do bairro. Este envolvimento durou desde a fase da juventude de Eritréia até sua fase adulta, como ela mesma relatou: “eu participei da igreja, da CEB. Lá no Caetano, que era a Comunidade Eclesial de Base, participei até 1986. Nessa época eu já tava com mais de 20 anos”.
Foi nesse espaço da Igreja que Eritréia se formou como líder comunitária, passando a intervir mais em sua comunidade por meio da Associação do bairro. Um dos problemas que conseguiu resolver, reunida com outras pessoas, foi o fechamento de uma pedreira que inviabilizava a livre circulação na região:
No bairro tinha uma pedreira que quando davam onze horas, batia uma campainha para avisar que a gente não podia atravessar porque ia estourar a pedreira. (...) Até que um dia, já estava moça, a gente fez uma luta no bairro e
fechou a danada da pedreira. (Eritréia, 45 anos – destaques meus)
Eritréia procura, a princípio, explicar sua atuação como líder como algo comum a qualquer moradora ou morador da comunidade. Porém, à medida que mencionava o que fazia, destacando que estava sempre na linha de frente, admite sua vontade e jeito para liderar, para ordenar:
Olha, geralmente, no meu bairro, a gente acaba assumindo mesmo é a liderança. Eu é que ajudava a coordenar as reuniões. Fazia os encontros. Olhava local e preparava as Atas e fazia o jornalzinho Até faixa eu fazia. No bairro, sempre fui
linha de frente, assim. Puxava reunião. Marcava reunião. Chamava as pessoas.
Sugeria quem iria organizar as faixas. Juntava as letras de músicas para cantar, quando fazíamos os atos, manifestações, passeatas, etc. Eu pintava as faixas lá em cima da laje lá de casa. Pintávamos eu e minha irmã. Mudava as letras de música de Roberto Carlos para poder colocar letra de música revolucionária. Então, assim, eu sempre tive essa coisa de liderar. E acabou que estou neste caminho, desde que
entrei estive sempre na linha de frente. E eu sempre fui muito determinada. Sempre achava que estava fazendo pouco, que tinha que fazer mais. Que podia melhorar. Ser melhor na vida e melhor com as pessoas. (Eritréia, 45 anos –
destaques meus)
Ao discorrer sobre o seu envolvimento com os Movimentos Sociais revelou que o plano coletivo se sobrepunha ao individual. Embora esses dois sempre estivessem fundidos como opção e modo de vida, sem que de fato tivesse a clareza dessa fusão. Eritréia chegou a cogitar quais seriam suas possibilidades, caso enveredasse mais para o plano individual. Com certeza, uma delas seria ter obtido mais tempo de escolaridade e qualificação. Mas, isso não lhe seria suficiente. Eritréia acreditava que ao se dedicar mais ao coletivo poderia viabilizar a
construção de um mundo diferente e melhor, como revelam suas crenças ao participar dos Movimentos Sociais:
Eu acho que sempre coloquei muito o coletivo como prioridade. Talvez, se tivesse colocado o individual na frente, podia até está em outra condição melhor. Podia ter estudado mais cedo. Podia ter me formando mais cedo. Podia
ter me candidatado, porque já fui várias vezes sondadas pra ser candidata. Mas
nunca dei conta de achar que era uma coisa só pra mim, entendeu? Ah, eu quero
isso, eu quero aquilo. Não! O meu único objetivo político era de mudança, de
acreditar num mundo melhor para se viver, mais humano, mais fraterno e tal.
(Eritréia, 45 anos – destaques meus)
II.IV.II – Zâmbia A entrevistada, desde jovem, demonstra determinação em busca de melhorias não só para a sua vida mas para a sua comunidade. Em seu relato diz ter participado da Associação de bairro e desenvolveu trabalhos para melhorá-lo: “então eu trabalhei pelo Morro das Flores, nas várias lutas e com associação de moradores”.
Pode-se dizer que parte do seu aprendizado político deveu-se ao exemplo de militância da mãe:
Minha mãe era uma figura muito interessante. Eu me lembro que a gente subia
morro e descia morro, ali no Aglomerado Morro das Flores, pra construir a discussão sobre água, luz, esgoto, asfaltamento de beco, sobre tudo. Se você pegar o povo mais velho ali da região, todos eles nos conhecem. E conhecem bem. Quem
não se lembra de mim, lembra da minha mãe lá do Morro das Flores, Jardim
América e Ventosa. (Zâmbia, 50 anos – destaques meus)
Zâmbia teve a militância coletiva como prioridade de vida. Sua família também, segundo ela. Por isso, optaram por militar dia após dia, ao invés de estudar e trilhar outros rumos.
A gente era referência pelo trabalho que construía. Trabalhava durante o sol, sim, trabalhava durante o dia e a noite com o pessoal da juventude. Por isso que a gente não fez curso universitário, pois só militava. E eram todos os quatro. A gente pensava só em militar. (Zâmbia, 50 anos)
Paralelo à atuação na Associação de Bairro, Zâmbia participou também do grupo de jovens da Igreja Católica. Foram nesses grupos que tanto a família de Zâmbia quanto ela própria passou a militar em prol das causas sociais, buscando uma articulação entre os bairros da cidade para desenvolver ações em conjunto. Ela sonhava em conseguir uma articulação entre todos os bairros para trabalhar com a juventude da periferia:
Participei do movimento do bairro, das associações de moradores, da igreja. Foi
através da igreja inclusive que a gente começou participar dos movimentos sociais. A gente queria fazer uma articulação na cidade inteira. Tinha um outro
pessoal na região do Caetano Furquim. Às vezes falava com o pessoal que
tomaríamos conta de Belo Horizonte, se trabalhássemos com a juventude da cidade. E nosso grupo sempre trabalhou com a periferia mesmo. E fomos
crescendo ali fazendo tudo isso. Articulávamos entre o Jardim América, a
Cabana do Pai Tomáz, naquela região de Nova Cintra e Ventosa. Articulávamos
na hora. Foi tanto que conheci um monte de gente da região, porque a ação que o grupo se envolvia era bem articulada. Conseguimos fazer, em 1983, o Congresso
Nacional da Juventude Trabalhadora que foi um congresso fantástico. Minas Gerais teve o maior número de participação e tudo. Nós tomamos conta de Belo Horizonte. Foi um negócio fantástico. Tinha uma mulher que se chamava Maria
Flóripes, você já deve ter ouvido falar no nome dela. Era como se fosse uma mãe para nós. Então ela veio ao Congresso para nos assessorar. Noutro dia, falou comigo assim: “eu fico muito feliz de vocês estarem aqui, porque eu fui embora, pensando: será que eles vão voltar amanhã de manhã? A juventude é o futuro mesmo. E vocês voltaram todos no mesmo horário.” A gente se envolvia muito com a participação
social e política em nome da cidade. (Zâmbia, 50 anos – destaques meus)
A busca por uma articulação constante entre as comunidades da região oeste, conseguindo reunir um grande número de pessoas para participar do Congresso Nacional da Juventude Trabalhadora, foi o segundo acontecimento “fantástico” na vida de Zâmbia, depois que ela conseguiu reunir 1000 trabalhadores numa greve sindical. O seu desejo de envolver-se social e politicamente em prol de benfeitorias e transformações de sua comunidade, da região e da cidade podem ser considerados como ações relevantes na sua trajetória.
II. IV.III – Namíbia