Tornar como objeto de estudos a ―aula na graduação em Química‖ implicou a inserção desta pesquisa em uma pesquisa mais ampla, que usa uma metodologia transdisciplinar e que investiga a ―aula na graduação‖. Para tanto, procuramos criar um instrumento que possibilitasse a descrição da diversidade das aulas existentes. Optamos pela elaboração de um questionário capaz de averiguar a percepção de cada professor em relação à sua própria prática de ensino. Este questionário abrange aspectos que vão desde a caracterização do professor (identificação, formação inicial e pós-graduação, tempo docente) até as percepções que estes têm sobre o comportamento dos alunos e as estratégias que empregam nas práticas de ensino. O questionário foi entregue a todos os professores do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Minas Gerias, perfazendo um total de 78 na data de aplicação do mesmo. Preservando a liberdade de participação, tivemos o retorno de 38, os quais foram objeto de análise e, a partir deles, construímos uma primeira tipologia das aulas existentes.
Com relação à escolha dos informantes, o trabalho contou com a colaboração dos professores que fazem parte do corpo docente do Departamento de Química (DQ), inserido no Instituto de Ciências Exatas da UFMG. A escolha se deu em função de o departamento ser o local de trabalho da pesquisadora, da receptividade dos professores deste centro a esta pesquisa e a diversidade das práticas de ensino ali empregadas.
O questionário faz parte do projeto transdisciplinar sobre a aula da UFMG, já referido anteriormente e, antes de ser utilizado efetivamente, passou por um teste de validação. Para nossa pesquisa o questionário foi adaptado (Anexo I), procurando incorporar questões sobre disciplinas exclusivamente práticas lá existentes. Sobre estas
aulas, que utilizam roteiros de atividades práticas, procurou-se compreender o papel do professor e as estratégias metodológicas empregadas.
Esta ferramenta investigou três itens principais: 1. Característica geral dos docentes;
2. Percepção do professor sobre a participação dos estudantes e as estratégias usadas para garantir esta participação;
3. Procedimentos metodológicos utilizados em sala de aula;
O contato com os docentes consistiu em explicar a pesquisa e verificar se estes tinham interesse e disponibilidade para responder o questionário. Alguns professores se mostraram mais acessíveis e aderiram à pesquisa.
O uso deste instrumento permitiu uma primeira aproximação, ainda que superficial, à tipologia das aulas. Para esta análise, consideramos a classificação das aulas em Interativa e Não-Interativa, usando o modelo construído por Mortimer e Scott (2003). Levamos em consideração o relato do professor sobre o comportamento e participação dos estudantes durante as aulas e as estratégias utilizadas para que o estudante participe.
Mortimer e Scott (2003) usam o conceito de abordagem comunicativa, afirmando que este fornece a perspectiva de como o professor trabalha com os estudantes para desenvolver significados na sala de aula. Os autores usam duas dimensões de análise: a primeira pode ser caracterizada como um contínuo entre dois pólos extremos, ou seja, o professor considera o que os estudantes têm a dizer do ponto de vista do próprio estudante (abordagem dialógica) ou o professor considera o que o estudante tem a dizer apenas do ponto de vista da ciência escolar (abordagem de autoridade); a segunda trata da interação ou da participação das pessoas no discurso, podendo ser interativa (quando mais de uma pessoa participa do discurso) ou não- interativa (quando apenas uma pessoa participa).
Combinando estas duas dimensões, os autores usam quatro categorias para codificar a abordagem comunicativa, que são:
Interativa e dialógica (I/D); Interativa e de autoridade (I/A); Não-interativa e dialógica (NI/D); Não-interativa e de autoridade (NI/A)
Na seleção dos professores, devido à natureza das aulas em estudo, usamos apenas a classificação Interativa e Não-Interativa, já que temos somente a opinião do professor sobre a participação dos estudantes e o tipo de estratégia que ele afirma usar para incentivar esta participação. Esta classificação considera os aspectos verbais da aula, ou seja, a interação verbal entre os estudantes e destes como o professor. A avaliação da dimensão ―dialógica/de autoridade‖ demanda a análise do registro das aulas em vídeo.
Aqueles docentes cujos estudantes foram descritos como passivos e pouco envolvidos em sala de aula tiveram suas aulas consideradas como não-interativas, uma vez que a passividade é um sinal de pouca interação verbal entre o professor e os estudantes (MORTIMER e SCOTT, 2002 e 2003). As aulas Interativas estão relacionadas com estudantes cujos professores os consideram atentos e participativos ou que, apesar de passivos, se mostram receptivos às atividades propostas.
Os dados encontrados foram agrupados na Tabela 3, abaixo.
Tabela 3 – Características da aula, segundo professores pesquisados Respostas obtidas Número de
respostas Quanto à participação dos estudantes Interagem 16 Não interagem 22 Quanto às estratégias utilizadas pelos professores Questiona os estudantes e incentiva a participação 14 Não descreveu estratégias
de envolvimento do estudante
24
Na tabela 3, além do dado relativo à interação com os estudantes, é fornecido o número de professores que menciona explicitamente estratégias para incentivar a participação dos mesmos. Podemos perceber que a maioria classifica os estudantes como não participativos e não receptivos ao que o professor propõe. Como já foi mencionado, a passividade apresentada pelos estudantes em sala de aula pode refletir uma falta de interação entre estes e o docente (Mortimer e Scott, 2002).
Além disto, analisando cada um dos questionários, observamos que, entre os que descrevem os estudantes como participativos, nem todos afirmam "fazer perguntas" para garantir o seu envolvimento. Cruzando os dados pudemos notar que, entre os pesquisados, apenas seis professores classificaram os estudantes como ativos e
receptivos e afirmaram usar o diálogo em suas aulas. A seleção de professores cujas aulas foram classificadas como interativas se deu entre estes seis.
Para analisar as características de cada tipo de aula, através do acompanhamento das mesmas, selecionamos 03 professores cujas aulas foram classificadas como interativas e dois como não interativas. Para esta seleção usamos um segundo instrumento, empregado pela UFMG para que os estudantes, ao final de cada semestre letivo, avaliem as aulas/professores que tiveram naquele semestre.
Este instrumento combina catorze questões referentes ao próprio estudante, em um processo de auto-avaliação e outras doze questões referentes à avaliação do professor. Os estudantes respondem a um questionário para cada uma das disciplinas cursadas. No anexo II encontra-se a resultado da avaliação de uma disciplina ofertada no segundo semestre de 2009, com apenas cinco estudantes. Esta disciplina foi escolhida aleatoriamente e o nome foi retirado do documento em anexo. As questões referentes ao professor e/ou disciplina são:
1 – Seu contato com o professor foi suficiente para avaliá-lo? 2 – Pontualidade
3 – Assiduidade
4 – Domínio do conteúdo programático 5 – Cumprimento do programa proposto
6 – Capacidade de transmissão do conhecimento 7 – Relacionamento com os alunos
8 – Interesse em contribuir para a aprendizagem dos estudantes 9 – Disponibilidade do professor fora da sala de aula (mediante agendamento)
10 – Postura profissional e ética adequada?
11 – Você recomendaria a um colega fazer essa disciplina/ atividade com esse professor?
12 – Você gostaria de fazer outra disciplina/atividade com esse professor? Para entendermos como os estudantes avaliam cada um dos professores do Departamento de Química, usamos a avaliação de quatro semestres consecutivos. Todos os professores do departamento foram incluídos neste processo e, por uma questão de quantificação das notas, usamos, principalmente, as questões 11 e 12, que dão uma ideia mais global da avaliação dos estudantes sobre o professor. As demais serviram para excluir uma quantidade não relevante de casos nos quais havia conflito de resultado, mostrando que o estudante pode não ter dado a devida atenção ao instrumento de avaliação.
Consideramos que este instrumento, embora nos semestres analisados tenha sido respondido de forma não espontânea, é legítimo, já que mostra uma variação significativa entre os professores e não mostra resultados discrepantes de um semestre para outro, para um mesmo professor. A quantificação feita mostrou, entre os vários professores investigados do Departamento de Química, uma variação de 97,58% até 31,31% de aceitação, como média de quatro semestres consecutivos.
Os semestres considerados para a avaliação foram os dos anos de 2005 e 2006. Esta opção se deu em função de que no início de 2008 precisávamos selecionar os professores participantes e fazer os contatos necessários, seguindo o trâmite exigido pelo conselho de ética e também pelo fato de os dados de 2007 não estarem ainda disponíveis. Por meio destas avaliações selecionamos os professores melhor avaliados pelos estudantes, na média dos quatro semestres considerados.
De posse do resultado das avaliações dos estudantes, observamos que, entre os professores participantes da primeira etapa da pesquisa, ou seja, os que responderam ao questionário que classificava as aulas como interativas e não interativas, aqueles cujas aulas foram classificadas como interativas foram, de maneira geral, melhor avaliados. Para manter uma melhor distribuição entre os diferentes setores do Departamento de Química, selecionamos três professores entre os quatro melhor avaliados.
Quanto aos professores não interativos, selecionamos dois professores do grupo dos quatro melhor avaliados. Para isto consideramos a disponibilidade em participar, a pequena diferença de avaliação entre os demais e a distribuição dos selecionados entre os diferentes setores. É importante ressaltar que, apesar de serem bem avaliados, a quantificação de notas apresentou uma pequena diferença entre os classificados como interativos e os não interativos selecionados.
O critério adotado em nosso trabalho para a escolha dos professores considerou a avaliação dos estudantes. Porém, esta avaliação é muito mais do que uma indicação feita pelos estudantes do que seria um ―bom‖ professor. André (1992) faz críticas aos critérios de escolha usados em pesquisas qualitativas envolvendo a escola. Segundo ela,
Analisando as pesquisas verificamos que alguns pesquisadores recorrem à indicação de supervisores, diretores ou de técnicos das Delegacias de Ensino (Coelho, 1989); outros consultam os alunos (Cunha, 1988) ou se valem do índice de aprovação do professor (Kramer e André, 1984); e outros ainda combinam essas várias formas (André e Mediano, 1986; Libâneo, 1984). As críticas feitas aos critérios utilizados dizem respeito à possibilidade de legitimação, por
parte do pesquisador, de escolhas que se baseiam em modelos de competência muito questionáveis ou mesmo em preferências pessoais ao se aceitar, por exemplo, a indicação de diretores ou de técnicos da Secretaria de Educação ou ainda dos alunos. Mesmo no caso em que a definição dos alfabetizadores bem-sucedidos foi o índice de aprovação do ano anterior, podem-se levantar questões sobre os critérios de avaliação do professor ou sobre o que ele considera um aluno alfabetizado. (ANDRÉ, 1992, p. 36)
Julgamos que o questionário institucional de avaliação das aulas, nos quatro semestres considerados, é um instrumento legítimo, tendo em vista que buscamos identificar tanto a tipologia de aulas existentes no Departamento de Química da UFMG quanto as estratégias usadas por professores dos diferentes tipos de aula e que os tornam bem sucedidos do ponto de vista dos estudantes. A observação de que a aceitação/rejeição de um professor nos diferentes semestres analisados se repete e que os estudantes diferem sensivelmente as práticas de um e de outro professor reforçam a legitimidade deste instrumento.