3.2 Resultater fra den kvalitative delen
3.2.1 Den fysiske smerten
A brisa do mar: (produção nº 10)
Os povos que habitam as encostas do mar são cheios de segredos. Por isso, vemos a aproximação da brisa do mar que traz muitos mistérios em suas águas negras. Com estes ventos o volume das águas cresce, mostrando seu poder, revelando a força espiritual do mar. Mas, tais mistérios também têm seu brilho, sua luz. Muitas estrelas enfeitam o mar, demonstrando a alegria e a irreverência que ele possui. Há, no entanto, um mistério ainda maior: este mar é gerado por uma energia mítica que habita o seio do oceano na forma de uma grande cápsula esverdeada. Que segredos tal energia pode revelar sobre os povos deste mar? Vamos esperar que esta brisa forme algumas ondas para tentar descobrir.Para tanto, as acompanharemos do alto mar até a praia.
As ondas em alto mar: (produções 4, 5, 7, 9, 11, 15 e 16; respectivamente)
Em alto mar, as ondas são minúsculas e acontecem somente por condução dos ventos que passeiam rumo ao continente. Neste local longínquo, isolado, encontramos muitos barcos de pesca. O primeiro (amarelo), tem tonalidade forte, mas melancólica, deve estar a pescar desejos e ilusões. Já o segundo, todo verde incandescente, pesca uma sociedade subterrânea que nunca fora vista por ninguém, mas por muitos foi sonhada. No terceiro barco, a cor azul-marinho denota a pesca da própria imagem que o barqueiro realiza, buscando capturar a si mesmo em eterna busca. Já mais adiante, encontramos barcos carregados de peixes e corações sonhadores. As ondas então vão se intensificando e mostrando uma paisagem de contradições, onde sob o mar podemos ver um mundo semi-árido, com vegetação de cacto e chão pedregoso. Mar e Sertão se
encontram, então, em um só lugar. Ao continuar avançando as correntes marinhas parecem preparadas para arrebentar e dar nascimento a novas ondas. O que será que estas ondas poderão nos revelar sobre os povos do mar para além de seus barcos de pesca?
As ondas na zona de
arrebentação: (produções nº 03 e 12)
Com a passagem mais intensa da brisa, as águas se agitam. Inicia-se o fenômeno físico das ondas. É neste momento de sua formação que as ondas são mais intensas, pois os sentimentos fortes empurram toda a apatia para baixo, causando um choque de conceitos. Disto resulta o nascedouro da onda, repleto de cores que se misturam, rompendo a lógica instituída. Nesta onda, pessoas constroem suas vidas e as ensinam aos outros. Já na superfície, barcos passeiam em uma tranqüilidade aparente, buscando harmonizar todos os fluxos cotidianos e inconstantes de suas vidas. Mas, que podem os fluxos nos dizer destes povos? Vamos continuar no balanço das ondas para descobrir.
As ondas na zona de surf: (produções nº 01 e 06)
Nesta zona, o constante fluxo do prazer mantém a crista das ondas em elevação, formando uma paisagem bela,
excelente para o lazer. Ao longo desta zona encontramos barcos a passeio. Os ventos são prazerosos e revelam as novidades. Pássaros negros, simbolizando a força, conduzem o percurso até o continente. E ao chegar ao continente o que se poderá de novo encontrar? Vamos sobre ele nos espraiar para buscar indícios.
As ondas na zona de espraiamento: (produções nº 02, 13 e 14)
Como em toda zona de espraiamento, é nela que a onda se espalha pela praia, fertilizando-a, disseminando nela diversas formas de entender a vida dos habitantes do mar. A semente deixada por estas ondas eclode nas heterogêneas experiências destes povos, desembocando no caos do cotidiano. Nele encontramos casas simples, mas aconchegantes e locais de encontro como as escolas e pousadas. Estas ondas, no entanto, também deixaram algumas sementes mais desconhecidas. Através delas, nasceu um sol furioso, de vermelho radiante. Suas chamas fritam qualquer forma de padronização possível, gerando um bravio encontro entre o caos e a harmonia. Assim, junto ao doce azul do mar temos pessoas inquietas que andam, carros e bicicletas que se movimentam, estranhos transeuntes que chegam ao povoado e ... ainda mais alguns mistérios. Sim, também foram deixadas a beira da praia mais algumas sementes de mistério; como as figuras de alguns animais em chamas, bem como as dunas cheias de encanto que produzem seus estranhos sons, e ainda, as rainhas do mar que passeiam pelas profundezas das águas, guiando a vida dos habitantes que ali perto moram, fazendo-os sonhar à noite com as mais belas imagens do oceano. Mas, que sonhos tem as pessoas que vivem neste
lugar? Que filosofias podem criar para se expressar, organizar produzir? Vamos acompanhar o retorno da brisa para buscar entender.
A brisa do continente: (produção nº 08)
Todo processo de criação é cíclico, ele se retroalimenta da realidade existente para produzir uma nova. Assim, a brisa dá de volta ao oceano tudo que o tempo lhe trouxe. Soprando do continente para o mar, retorna agora com todos os segredos trazidos, com suas atividades, seus lazeres, seus sofreres ... reconstituindo a paisagem. Presente, passado e futuro se produzem mutuamente, deixando como última imagem um isolado cenário paradisíaco com um coqueiro, nuvens, céu e sol. E então, onde serão respondidas as precedentes indagações? ... bem, vamos começar pela tentativa de perceber suas linhas e entrelinhas...
2.2.2 – Linhas e entrelinhas: análises plásticas x povos do mar
No processo em que a onda acima referida se forma podemos dizer que são muitas as contribuições que ela traz para se pensar a grande maré dos Povos do Mar.
Movidas por muitas lógicas do pensar, as linhas em análise foram pintadas transversalizando diversas lógicas do saber/ pensar/ agir humano.
A brisa do mar inicia o processo de movimentação física do cenário, motivando visões míticas sobre o papel do mar na existência humana. Ao mesmo tempo, ela está intimamente ligada à brisa que encerra este mesmo processo, ou seja, a brisa continental. Isto se dá porque os primeiros ventos, anunciadores do mistério, destacam-se por abrir uma janela que discute novas relações entre o mar e seus moradores, tais como; mito, espiritualidade. Enquanto que as brisas finais trazem o tempo e seu entendimento de
passado/ presente/ futuro em interação valoriza um processo histórico ativo no qual seus sujeitos são protagonistas. As idéias levantadas pelo movimento destas brisas já são, com certeza, bons indícios para que se possa adiante analisar o mar e suas relações simbólicas na comunidade de Tatajuba.
Além das brisas, o cenário analisado é formado por ondas que representam diferentes papéis na compreensão da subjetividade dos povos do mar. Primeiramente, as ondas em alto mar evidenciam a existência do trabalho da pesca - importante categoria para esta comunidade – mas, ao mesmo tempo, possibilita uma nova visão sobre este conceito, no qual enfatizam-se os sentimentos, emoções e intuições que o homem do mar pesca ao mergulhar neste exercício diário. Assim, potencializam-se outras interpretações sobre categorias já conhecidas entre povos do mar.
As correntes suaves do alto mar se transformam em turbilhão quando chegam a Zona de Arrebentação, expressando os sentimentos dos povos do mar. Seus principais medos, suas angústias com o ambiente costeiro e também seus amores por ele.
Na zona de surf , é possível pensar a comunidade em sua dimensão de lazer com o mar. O mar enquanto elemento de prazer, de diversão; enquanto parceiro de aventuras, de construção de laços familiares que podem trazer sentimentos bons e ruins. Mar que pode inspirar todos à fortuna e à ruína. Mar que mata e faz nascer. A continuidade das ondas na zona de surf simboliza a cadência destes sentimentos, sua variação como em uma composição musical, com cristas mais intensas e outras menos expressivas. Assim, pensa- se Tatajuba enquanto elemento produzido também por afetividades entre os sujeitos e o mar, o mar e a comunidade e os nativos entre si.
Já a zona de arrebentação, identificada na maioria das produções, tem-se o resultado dos diversos processos culturais que compõem Tatajuba hoje. O caos do cotidiano, bem como o que está para além dele, explode na praia mostrando os muitos processos culturais em que Tatajuba se encontra imersa hoje, tais como: turismo, pesca, escola, coral de música erudita, rivalidades locais, crescimento urbano, relação com a natureza, mitologias da
história do presente, lutas coletivas e pessoais. Todos estes aspectos arrebentam na praia de Tatajuba e compõem a diversidade de possibilidades para responder ao conceito de Povos do mar demandado nesta atividade.
Desta forma, entendo que ao passear por estes diferentes fios de análise, encontro nas produções artísticas do grupo bons indícios para iniciar a discussão do conceito em questão, considerando que alguns pontos importantes se colocam em destaque desde já, como: a heterogeneidade de fontes e formas para pensar o mar e sua influência na vida das pessoas, o importante papel da pesca na produção deste conceito – o que me instiga a pensar suas fronteiras -, a mitologia como importante referência para compreender o conceito de Povos do Mar na comunidade – o que suplanta a lógica óbvia -, a composição de um cotidiano diverso, a ligação forte do grupo pesquisador como o ambiente natural da comunidade em questão.