O Grupo Novo de Cinema, constituído por sócios mineiros com o objetivo de fazer cinema em Minas Gerais41, já havia produzido longas-metragens por meio de um convênio firmado entre o Governo de Minas e a Embrafilme, numa tentativa de criar polos para descentralizar a produção cinematográfica nacional. Idolatrada (Paulo Augusto Gomes, 1983) e A dança dos bonecos, filmados inteiramente dentro do Estado, foram realizados neste contexto pelo Grupo.
O projeto de Menino Maluquinho evidencia a continuação desse desejo da produtora de representar a região mineira e sua cultura, além de ressaltar talentos locais e contribuir para o fortalecimento do cinema em Minas Gerais pelo aprimoramento da formação de seus técnicos e artistas.
Vidigal e Ratton montaram então uma equipe mista de profissionais mineiros e
parceiro antigo da dupla e estreou sua câmera BL na produção. Juliana Carvalho, mineira de Juiz de Fora, veio a ser coprodutora executiva do filme. Os chefes da equipe de arte e cenografia eram de fora (Clóvis Bueno e Vera Hamburger) e alguns de seus produtores e assistentes eram de Minas, como Vânia Catani, que posteriormente veio a produzir longas- metragens.
Uma boa parte dos patrocinadores do filme também eram do estado. Governo de Minas Gerais, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Acesita (localizada em Itabira), Cia. São Geraldo de Aviação, Jornal Estado de Minas, Estrela dos Tecidos, Clan (empresa de administração de hoteis) estão entre os órgãos e empresas mineiros que investiram no filme, que custou no total R$ 2 milhões42. É interessante notar que apenas dois dos patrocinadores trabalhavam mais diretamente com o mercado de consumo para crianças: a editora Melhoramentos e a Abril Jovem. E o fato de ter sido “filmado durante o governo de Itamar Franco” não é esquecido no material de divulgação para imprensa, recebendo a menção na página que informa os coprodutores (p. 2). Cabe notar que foi durante o governo deste presidente da República mineiro que ocorreu a sanção da Lei do Audiovisual e do Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro, modificando as relações do Estado com o meio cinematográfico.
No press book do filme, Tarcisio Vidigal conta o resumo da longa pré-produção, memórias que tomavam conta de sua mente ao voltar do set no primeiro dia de filmagem:
[...] penso como foi o início deste sonho. Li o livro, […] produzi um belo filme infantil43, recebi um telefonema de Ziraldo na noite de Natal de 1988, ele queria saber se eu ia mesmo fazer o filme, comprei os direitos, convidei o Helvécio para a direção, a produção foi aprovada pela Embrafilme, a Embrafilme foi extinta, andei pelo Brasil à procura de patrocinadores e financiamentos. Conversei com o Embaixador José Aparecido, ministros, secretários de Estado, presidentes de bancos, presidentes de empresas, gerentes de bancos e amigos. Negociei patrocínios, empréstimos, investimentos, permutas. Usei meu cheque-ouro do Banco do Brasil, viajei muito pela TABA44. (MENINO..., 1995, p. 9)
O cinema brasileiro vivia num panorama tal que, para Vidigal, só o fato de o filme começar a ser filmado é considerado um sonho. O relato evidencia um esforço imenso e paciente do produtor para viabilizar o filme. Sintetiza, nesse sentido, a fragilidade da produção de cinema no Brasil na época e o sacrifício pessoal de Vidigal, que chegou a incluir seu cheque especial para financiar a obra. Em depoimento da época do lançamento, afirma: 42 Em Reais de 1994.
43 Ele se refere a A dança dos bonecos.
(AKSTEIN, 1994, p. 8-A). Símbolo de tanto trabalho, o produtor arremata o relato levantando um troféu um tanto inusitado: “Venci a burocracia – um dos contratos tinha 135 carimbos, 185 rubricas, 80 assinaturas, cinco cópias, registro em três cartórios.” (MENINO..., 1995, p. 9).
Tarcisio Vidigal tem como slogan de seu trabalho a “qualidade” tanto artística quanto técnica. Um bordão que foi bastante repetido desde a década de 1950 para apontar a solução industrial do cinema brasileiro, especialmente entre os envolvidos com os Estúdios Vera Cruz (SÁ NETO, 2004, p. 187-195). O conceito de “qualidade”, entretanto, foi tão repetido quanto pouco definido por seus partidários.
Vidigal afirma: “Nossa preocupação, sempre, foi com a qualidade. Como produtor, é a qualidade dos filmes que faço que me interessa. Eu sempre dizia para o Helvécio, não aceite mais ou menos da produção. Ou se faz bem, ou não se faz” (MENINO..., p. 10). Embora ele não deixe claro exatamente quais são os critérios para a qualidade, é possível depreender alguns pelas escolhas de produção e pelas falas.
Juliana Carvalho dá algumas pistas: “o esforço da produção acho que agora se vê na tela, através da qualidade técnica da imagem, cenografia, som. Procuramos dar ao filme tudo o que ele merecia.” Isso porque, segundo Juliana,
o pensamento da produção não era o de se preocupar em fazer apenas o mais barato, o mais cômodo. Não queríamos que a história se adaptasse ao orçamento, mas fazíamos o impossível para nos adaptarmos à história. Corajosamente, investimos em grandes cenas e ações. Quando não tínhamos os recursos, tentávamos obtê-los. (MALUQUINHO..., 1994, p. 10)
Ela diz, por exemplo, que o balão da cena foi “o melhor e mais bonito do país”, vindo de São Paulo. O esforço da produção se revela, assim, na busca por apuro técnico, na atenção aos detalhes e acabamento e na aposta em cenas de ação um tanto dispendiosas, como as aéreas do avião e do balão, tentando combater um estigma da época de que cinema brasileiro é mal feito.
O padrão técnico americano é almejado pela produção. Os ajustes finais do som e sua transcrição ótica foram realizados em Nova Iorque, em Dolby stereo. Corroborando o cuidado com essa questão, Helvécio Ratton acredita que isso deva ser uma prerrogativa do cinema nacional, que precisa procurar “modelo próprio, que alie boas histórias, uma forma de narrar clara e comunicativa e qualidade técnica impecável” (BARROS, 1995, p. 2).
produzido, com ótimo acabamento técnico e cenas realmente primorosas pelo que representam de esforço de produção. Há cenas com trem, balão, cachorro subindo em árvore” (MERTEN, 1995a, p. D2).
Qualidade técnica vista como essencial também para a exportação da fita. A primeira exibição pública do filme ocorreu no mercado do Festival de Berlim, para onde Tarcisio rumou com a primeira cópia – nem Helvécio Ratton a tinha visto ainda. Com os contatos feitos durante o Festival, o filme foi vendido pelo menos para cinco países: Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia e Coreia (SIMÕES, 1995, p. 8A), começando bem sua carreira.
3.4 De criança em criança...
A RioFilme, distribuidora pública carioca criada em 1991 e voltada para a comercialização de filmes brasileiros em salas de cinema, foi a responsável pela distribuição de Menino maluquinho 1. Vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo, atuou como uma espécie de “órgão cultural do cinema” (GATTI, 2005, p. 161), distribuindo também filmes de pouco apelo comercial. Essa característica foi importante para o cinema brasileiro na época, que se encontrava em situação bastante frágil pela parca produção, pelo pouco contato com o público em salas de exibição e por um certo descrédito disseminado na sociedade em geral. A empresa contava a experiência de ex-funcionários da Embrafilme e, em 1995, já se encontrava num momento de consolidação no mercado (GATTI, 2005, p. 179). O filme foi lançado durante as férias escolares, época preferencial de estreia de filmes do gênero, em 7 de julho de 1995. De acordo com a classificação de Silva (2010),
Menino maluquinho 1 teve uma distribuição de filme médio. Procurou acumular espectadores
ao longo de um extenso período de tempo com um número razoável de cópias. Estreou em cerca de 30 salas em 12 cidades - incluindo 9 capitais de estados da federação45.
O filme atingiu marcas surpreendentes pelo período de tempo que permaneceu em cartaz, pelo número de ingressos vendidos e pelo número de cidades por que passou. Logo na primeira semana, já superou as expectativas. A RioFilme esperava de 40 a 45 mil 45 Segundo a tabela de programação fornecida pela RioFilme para esta pesquisa, o filme estreou simultaneamente em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Brasília, Porto Alegre, São Paulo, Osasco, Maceió, Curitiba, Rio de Janeiro, Niterói, Natal e Belém.