• No results found

Antes de tratar sobre a sublimação como saída positiva à histérica, que pode lhe trazer ganhos e cura, acredito ser necessário explicitar que nesta constituição psicopatológica, em especifico, há, segundo alguns autores observam, uma dimensão de batalha a favor da superação dos conflitos.

Acerca desta dimensão de batalha, uma dimensão de positividade da histeria, Alonso e Fuks (2004) concordam com as contribuições clínicas de Israël376, ao compreenderem que a histérica: “(...) seria, sobretudo, uma defensora do amor num mundo mercantilista, cheio de objetos de consumo e esvaziado de desejo.”377 E

também, há: “(...) uma generosidade histérica, já que esta não só procura a cura para si, mas também para o meio.”378

Assim, é possível pensar que esta constituição psicopatológica pode trazer à histérica e ao meio, não somente sofrimento, mas alguns ganhos decorrentes desta batalha incessante pelo amor.

Birman (2001) entende que na histeria há um aspecto de positividade que se estabeleceria enquanto um suporte de uma possível perenidade do desejo379. A formação dos sintomas e toda a luta histérica se constituem de modo a não permitir que o desejo evanesça nem no psiquismo da histérica, nem no meio social.

375 HORNSTEIN, Luis. Cura psicanalítica e sublimação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990, p. 79 376 ISRAËL, Lucien. A histérica, o sexo e o médico. São Paulo: Escuta, 1995.

377 ALONSO, Silvia Leonor e FUKS, Mario Pablo. Histeria. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004, p.

223

378 Idem, ibidem.

No que tange ao êxito obtido pela histérica, Mannoni (1994) observou em suas analisandas histéricas que a cura para a patologia poderia ser alcançada quando estas obtinham um sucesso visivelmente reconhecido pelos outros.380 Isto porque, conforme o autor completa: “(...) o sucesso as livrava dos problemas, permitindo-lhes que se identificassem com elas mesmas. Elas são elas, quando têm sucesso.”381

Ainda a respeito do sucesso, encontro em Freud uma interessante definição que pode auxiliar na construção desse raciocínio. Do ponto de vista tópico, em

Psicologia de grupo e análise do ego (1921), o mestre postula que: “há sempre uma

sensação de triunfo quando algo no ego coincide com o ideal do ego.”382

Sendo assim, entendo que à medida que o ego se aproxima da adequação exigente da instância herdeira do complexo de Édipo – o ideal do ego, constituído por identificações – obtém uma sensação de satisfação.

Compreendo também, fazendo uma ligação com o raciocínio de Mannoni (1994) exposto acima, que na histeria, especificamente, esta sensação de triunfo torna-se possível quando obtém êxito em atividades visíveis.

E estas atividades possíveis de trazerem retornos visíveis são em geral, atividades sublimatórias, já que, conforme Laplanche e Pontalis (1992) escrevem: “a pulsão é sublimada na medida em que é derivada para um novo objetivo não sexual e em que visa objetos socialmente valorizados.”383

Sendo assim, mais uma vez acredito estarmos diante da sublimação como destino possível e saudável para a pulsão sexual. A respeito da relação entre a sublimação e a fixação da libido, Freud, apresenta em Moral sexual civilizada e

doença nervosa moderna (1908) a seguinte definição: “a essa capacidade de trocar

seu objetivo sexual original por outro, não mais sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro, chama-se capacidade de sublimação.”384 Assim, Freud

expõe que no processo de sublimação ocorre uma transformação, isto é, o objetivo

380 MANNONI, Octave. As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge

Zahar, 1994, p. 87

381 Idem, ibidem.

382 FREUD, Sigmund (1921). Psicologia de grupo e análise do ego. ESB, vol. XVIII, 1996, p. 141 383 LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins

Fontes, 1992, p. 495

384

FREUD, Sigmund (1908). Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna. ESB, vol. IX, 1996, p. 174

pulsional que antes era sexual, passa a não ser mais sexual, apesar de ainda estarem relacionados.

O mestre segue ainda com seu raciocínio, especificando o que ocorre quando a pulsão não é sublimada. Em suas palavras:

Contrastando com essa motilidade [pulsional, existente na

sublimação] 385, na qual reside seu valor para a civilização, o

instinto sexual é passível também de fixar-se de uma forma particularmente obstinada, que o inutiliza e o leva algumas vezes a degenerar-se até as chamadas anormalidades.386

Assim, Freud postula que a sublimação é a forma de obter satisfação sexual, porém por uma outra via. Entretanto, o mestre atenta para a fixação da libido, como característica patológica que impede a satisfação sexual.

Ainda neste mesmo trabalho, Freud expõe que a capacidade de sublimação dependerá da constituição psíquica de cada sujeito. Em suas palavras:

O vigor original do instinto sexual provavelmente varia com o indivíduo, o que sem dúvida também acontece com a parcela do instinto suscetível de sublimação. Parece-nos que a constituição inata de cada indivíduo é que irá decidir primeiramente qual parte do seu instinto sexual será possível sublimar e utilizar.387

Assim, Freud postula que, dependendo da constituição psíquica do sujeito, a satisfação das pulsões sexuais poderão ser mais ou menos sublimadas.

A respeito da sublimação para as mulheres, Kehl (1998) escreve que:

(...) a sublimação, também nas mulheres, passaria pela intervenção da função paterna388 de um modo que possibilitasse a identificação, o ‘recurso estruturante’ à sua potência. Sem essa manobra, na qual o pai está implicado, a mulher fica condenada à infantilidade de suas pretensões

385 Colchetes meus 386

FREUD, Sigmund (1908). Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna. ESB, vol. IX, 1996, p. 174

387 Idem, ibidem

388 Conforme o Dicionário enciclopédico de Psicanálise, de Pierre Kaufmann, p. 334, este é um

conceito proposto por Lacan onde “ele propõe a explicação da função paterna como instauradora da lei simbólica (...).”

edípicas sempre insuficientemente recalcadas; ou pior ainda, à fantasia de uma masculinidade que (...), permanece fixada ao desejo de obter não um falo, mas um pênis.389

Desta forma, é possível compreender que a sublimação pode permitir à mulher o reconhecimento de sua potência. Porém, de uma potência que a desliga da lógica infantil regida pela inveja do pênis e propicia a identificação com seus próprios recursos.

Isto porque, conforme Mannoni escreve: “A identificação com o pai, que separa da pregnância das imagos maternas, não se resolve na perda com a qual em geral conotam (...) as atividades simbólicas e sublimatórias.”390 E, este psicanalista

complementa escrevendo que “uma atividade sublimatória (...) não tem sentido fora do endereçamento a um outro (...).”391

Sendo assim, compreende-se que as atividades sublimatórias na histeria estão relacionadas com as identificações do sujeito e visam obter o reconhecimento do outro, como substituto das figuras edipianas. Hornstein enfatiza que “na sublimação a obra é necessária (...)”392, pois por meio dela o sujeito pode responder

a seus próprios ideais, porém, buscando o reconhecimento do outro.

A respeito deste endereçamento da obra ao outro, Green (1982) oferece a compreensão de que: “a necessidade de ser da obra de arte que implica seu reconhecimento por uma terceira pessoa sempre presente através de sua ausência, mesmo se a obra nunca for impressa, exposta ou ouvida, faz de seu destinatário a própria condição de sua existência.”393 Deste modo, entende-se que a obra sempre

parte das identificações narcísicas do sujeito, porém é entregue ao mundo externo, é endereçada a outro que não ao próprio sujeito, mesmo que ela nunca seja exposta.

389 KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino. Rio de Janeiro: Imago, 1998, p. 267

390 MANNONI, Octave. As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge

Zahar, 1994, p. 77

391 Idem, ibidem

392 HORNSTEIN, Luis. Cura psicanalítica e sublimação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990, p. 90 393 GREEN, André (1982). A reserva do incriável. In: GREEN, André. O desligamento

– Psicanálise, Antropologia e Literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1994, p. 246

Por esta via, o sujeito criativo, pode “(...) auto-investir-se e reinvestir a realidade (...)”394, permitindo a integração do ego a partir de suas identificações, bem

como a busca por transformações. E estas transformações egóicas, a partir dos ganhos obtidos com a atividade sublimatória, podem propiciar a cura, segundo Hornstein mesmo considera. A seguir, veremos mais detalhadamente o que ocorre neste processo.