Conforme explicitado no capítulo destinado à metapsicologia, aquela que tem como destino psíquico a histeria, não conseguiu superar satisfatoriamente seu complexo de Édipo e por isso, não conseguiu aceder à feminilidade, ficando fixada na fase fálica (além da fase oral), com a lógica preponderante de que o sujeito ou é fálico ou é castrado.
Mayer (1989) desenvolve esse raciocínio escrevendo que a histérica, em sua psicossexualidade é: “(...) uma menina ferida em seu narcisismo, pois considera o fato de não ter pênis como resultado de uma castração, seja como for que a imagine.”358 E, deste modo, pode vivenciar “(...) o horror de encarnar um ser
356 FREUD, Sigmund (1909). Cinco lições de psicanálise. ESB, vol. XI, Rio de Janeiro: Imago, 1996,
p. 61
357 HORNSTEIN, Luis. Cura psicanalítica e sublimação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990, p. 40 358 MAYER, Hugo. Histeria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, p. 42
monstruoso a quem a mãe não deu o pênis que todos possuem (...)”359 ou, por outro
lado, pode acreditar, “(...) com desespero que teve pensamentos ou atos ‘maus’, pelos quais lhe ‘tiraram’ o pênis (...).”360 Diante desta fantasia, ela tenderá a sentir-se
inferior e por isso, poderá recorrer a compensação desta inferioridade e também a dissimular a ausência do objeto fálico.
Sendo assim, a histérica fica aprisionada na inveja do pênis e, portanto, no sentimento de inferioridade decorrente deste entendimento. De acordo com Birman (1997): “(...) a histeria indica o fracasso da feminilização do desejo, pela sua colagem nas falácias enganosas de ter o falo.”361
Deste modo, a fim de mascarar este fracasso, que para ela corresponde à inferioridade, a histérica recorre a um lugar de completude, a sustentação constante da falicidade.
Acerca da inveja do pênis, Freud – mesmo em um período anterior às proposições psicanalíticas a respeito do complexo de Édipo positivo e negativo – escreve uma interessante definição em As transformações do instinto exemplificadas
no erotismo anal (1917). A partir de suas observações clínicas, percebe que nos
casos de neurose que acomete as mulheres há, no cerne do conflito, um desejo reprimido de posse de um pênis e de acordo com sua compreensão:
Chamamos a esse desejo ‘inveja do pênis’ e incluímo-lo no complexo de castração. Infortúnios casuais na vida de tal mulher, infortúnios que são freqüentemente o resultado de uma disposição bastante masculina, reativaram esse desejo infantil e, através do fluxo retrospectivo da libido, tornaram-no o principal veículo dos seus sintomas neuróticos.362
Assim, Freud postula que a mulher, cujo destino psíquico é o da neurose histérica, permanece aprisionada na inveja do pênis e os infortúnios ocorridos em sua vida podem facilitar-lhe ficar presa nas malhas desta inveja.
359 MAYER, Hugo. Histeria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, p. 42 360 Idem, ibidem
361 BIRMAN, Joel. Se eu te amo, cuide-se. In: BERLINCK, Manoel. Histeria. São Paulo: Escuta, 1997,
p. 131
362 FREUD, Sigmund (1917). As transformações do instinto exemplificadas no erotismo anal. ESB,
Em Feminilidade (1933[1932]), o mestre postula que um dos efeitos desta inveja, pode ser representado pela “(...) vaidade física das mulheres, de vez que elas não podem fugir à necessidade de valorizar seus encantos, do modo mais evidente, como uma tardia compensação por sua inferioridade sexual original.”363
Assim como a vaidade feminina pode surgir como compensação tardia da inveja do pênis, a mulher também poderá encontrar outras soluções possíveis para superar esse aprisionamento na inveja.
Uma das formas, aliás a principal para Freud, é quando a inveja do pênis é superada pelo desejo de um bebê. Em um trabalho posterior a este de 1917, em
Feminilidade (1933[1932]), ele postula que: “a situação feminina só se estabelece se o desejo do pênis for substituído pelo desejo de um bebê, isto é, se um bebê assume o lugar do pênis (...).”364
Uma outra forma de superar a inveja do pênis, de acordo com a teoria freudiana, é por meio da realização de uma atividade profissional. De acordo com o mestre:
O desejo de ter o pênis tão almejado pode, apesar de tudo finalmente contribuir para os motivos que levam uma mulher à análise, e o que ela racionalmente pode esperar da análise — capacidade de exercer uma profissão intelectual, por exemplo — amiúde pode ser identificado como uma modificação
sublimada desse desejo reprimido.365
Assim, conforme Freud mesmo entende, por meio da análise, a mulher pode encontrar uma saída para superação da inveja do pênis, pela via do reconhecimento social.
Em suas contribuições clínicas, Manonni (1987) complementa que, em sua experiência clínica, as histéricas que tiveram acesso à superação de sua patologia, o fizeram por meio da realização de uma profissão que lhe trouxeram reconhecimento. Nas palavras do autor: “(...) na minha limitada experiência, as
363 FREUD, Sigmund (1933[1932]). Feminilidade. ESB, vol. XXII, 1996, p. 131 364 Idem, p. 128
histéricas que se curaram conseguiram isso graças a um sucesso visível, que os outros pudessem reconhecer.”366
Desta forma, o desejo de um pênis – que funda a inveja do pênis – pode ser transformado em identificação. De acordo com Dolto (1996), para a menina, as mulheres: “(...) somente são valorizadas como objeto de identificação se ligadas, e se se interessam igualmente pela menina, a fim de permitir-lhe ter acesso ao seu poder.”367 E mais, Dolto (1996) amplia esta ligação da menina não somente a
pessoas, mas a atividades, em suas palavras: “essa ligação exigida pela criança nem sempre é a ligação a uma pessoa, mas pode ser a ligação a uma atividade pragmática que ela ama e na qual poderia perfeitamente ser bem-sucedida.”368
A explicação posterior que esta autora oferece a respeito deste objeto de identificação construído pela menina é a de que: “trata-se para a menina de uma ligação narcísica invejada de poder fálico ativo que, através da imitação dos adultos, lhe proporciona sensações eróticas (...).”369 Assim, de acordo com esta autora, a
menina, observa nas mulheres mais velhas aquilo que lhes dá “poder”. Esta atividade de “poder” torna-se referencial para que a menina também busque o reconhecimento do outro desta forma, a partir da constituição de suas identificações. Deste modo, entendo que esta atividade pragmática que pode trazer reconhecimento à menina é a atividade sublimatória, que se dará a partir das identificações.
Freud, em O ego e o id (1923) ressalta que na atividade sublimatória o que ocorre é o seguinte: “(...) o ego trata com as primeiras catexias objetais do id (e certamente com as posteriores, também), retirando a libido delas para si próprio e ligando-as à alteração do ego produzida por meio da identificação.”370 Deste modo,
Freud esclarece que o ego transformado pela identificação, pode realizar a tarefa de retirar catexias do id. E ele complementa expondo que nesse processo: “a transformação [de libido erótica]371 em libido do ego naturalmente envolve um
366 MANNONI, Octave. As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1994, p. 87
367 DOLTO, Françoise. Sexualidade feminina. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 75 368 Idem, ibidem
369 Idem, ibidem
370 FREUD, Sigmund (1923). O ego e o id. ESB, vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 58 371 Interpolação do autor
abandono de objetivos sexuais, uma dessexualização. De qualquer modo, isto lança luz sobre uma importante função do ego em sua relação com Eros.”372
Assim, acredito que Freud evidencia que há uma tarefa de Eros em realizar essa transformação de libido erótica em libido dessexualizada no ego, que por sua vez, passou por alterações decorrentes da identificação. É inclusive por essa razão, por ser a identificação uma condição sine qua non para esta atividade, que podemos conceber que a sublimação não é possível onde há idealização.
A este respeito, o psicanalista Luis Hornstein (1990) escreve que, a partir de sua concepção da obra freudiana, a sublimação: “(...) está associada com um deslocamento para o alto, enquanto que a idealização é tomada como uma mistificação, quer se trate de uma supervalorização perversa ou do abandono da atividade crítica, em benefício de outro ou de uma ideologia.”373
Assim, entendo que a atividade sublimatória não está disponível, como saída às estruturas mentais mais graves, pois supõe que o sujeito deva ter resolvido – pelo menos de modo minimamente satisfatório – o complexo de Édipo e ter realizado as identificações necessárias para não correr o risco de idealizar, sem crítica, o objeto em que se investe, a partir de seu próprio narcisismo.
Ainda sobre a diferença entre a idealização e a identificação, Hornstein (1990) comenta que: “é preciso ressaltar a oposição entre a idealização, com seu caráter maciço, cuja instância é o ego ideal, e os ideais, que se liberam da onipotência e implicam a aceitação da castração no registro identificatório, e também a de uma dimensão de temporalidade.”374
Deste modo, é possível compreender que o sujeito que se utiliza do movimento de idealização, maciçamente, não tenha acedido à castração (como no caso das psicoses) ou a tenha aceitado parcialmente (como no caso das perversões). Ao passo que, a constituição de ideais endereçados a si dependem da aceitação da castração no registro identificatório, além da aceitação da vigência de uma certa temporalidade.
Hornstein complementa ainda suas contribuições expondo que: “a sublimação, em troca, é pensada como a melhor transação, e uma das saídas mais
372 FREUD, Sigmund (1923). O ego e o id. ESB, vol. XIX, Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 58 373 HORNSTEIN, Luis. Cura psicanalítica e sublimação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990, p. 79 374 Idem, p. 81
desejáveis da cura. Ela implica uma realização dos ideais, enquanto que a idealização está a serviço de uma certa renegação.”375
Deste modo, este autor considera que, por meio da sublimação, que somente é possível por ter havido identificação, o sujeito pode buscar a cura. A seguir trataremos um pouco mais detalhadamente a respeito do que Hornstein entende por cura e por essa melhor transação na busca da realização dos ideais.