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Sem dúvida, Rokeach foi bastante influente no estudo dos valores em Psicologia. Entretanto, foi por meio de pesquisas transculturais realizadas por Schwartz e seus colaboradores que aconteceu a revitalização do estudo deste construto, tornando-se, atualmente, um dos temas principais em Psicologia Social (Rohan & Zanna, 2003) e Psicologia Transcultural (Smith & Schwartz, 1997). Desde o final dos anos 1980 o modelo deste autor tem se tornado o referente principal no campo de estudos sobre os valores humanos.

anteriores, principalmente do trabalho de Rokeach (1973). Em seu modelo valorativo os valores são concebidos como atendendo a metas motivacionais, isto é, visam à satisfação de necessidades humanas básicas. Sua proposta, portanto, é mapear os valores em um espaço bidimensional, estruturando-os em diferentes tipos motivacionais. O modelo mais conhecido reúne dez tipos motivacionais. Contudo, quiçá em razão de ser um empreendimento com base fortemente empírica, sem uma teoria sólida e unívoca das necessidades humanas, este número tem variado ao longo dos anos, tendo sido, além dos dez conhecidos, sete (Schwartz, 1990) e onze (Schwartz, 1992, 1994, 2006), e parece haver indicações de que serão mais de uma dúzia e meia, considerando estudos que atualmente vêm sendo levados a cabo por este autor e seus colaboradores. Seja como for, o modelo com dez tipos é o mais conhecido, sendo o que se toma como referência principal neste capítulo.

Originalmente, Schwartz e Bilsksy (1987, 1989) buscavam propor uma tipologia dos valores humanos que primasse por sua universalidade, isto é, eles pretendiam reunir evidências de validade intra e intercultural dos tipos motivacionais (Schwartz, 2006). Sua definição dos valores primou por elementos consensuais, indicando que estes seriam um conjunto de crenças pertencentes a fins desejáveis ou à forma de comportamentos, que independeriam de situações específicas, guiando as ações humanas e sendo ordenados por sua importância com relação a outros valores (Schwartz, 1992, 2006; Schwartz & Bilsky, 1987, 1990). Contudo, apesar de esta definição servir para diferenciar os valores de outros construtos (por exemplo, atitudes, necessidades), ela não esclarece acerca do conteúdo e da estrutura dos valores. Neste sentido, este autor também indica que os valores representam três tipos principais de necessidades (Schwartz, 2006): biológicas (organismo), garantindo a sobrevivência, (2) regulação das interações (social) e (3) bem-estar e sobrevivência grupal (institucional).

Schwartz (1994, 2006) propõe uma estrutura composta por dez tipos motivacionais, nos quais todo e qualquer valor humano encontraria sua representação, independente da cultura. Apresentam-se a seguir os tipos motivacionais com seus respectivos valores específicos ou marcadores entre parênteses:

1. Autodireção. Compreende a busca de independência do pensamento e ação, envolvendo escolhas, criatividade e exploração (por exemplo, criatividade, independente, liberdade).

2. Estimulação. Diz respeito à busca de excitação, novidades e mudanças na vida (por exemplo, ser atrevido, uma vida excitante, uma vida variada),

3. Hedonismo. Este tipo motivacional indica a busca de prazer e gratificação sexual por parte do indivíduo (por exemplo, desfrutar da vida, prazer).

4. Realização. Evidencia a demonstração de sucesso pessoal e competência de acordo com padrões sociais aceitáveis (por exemplo, ambicioso, capaz, obter êxito),

5. Poder. Com este tipo motivacional é sugerida a busca de status social e prestígio, além de controle e/ou domínio sobre pessoas e recursos (por exemplo, autoridade, poder social, riqueza).

6. Segurança. Compreende a busca de segurança, harmonia e estabilidade da sociedade, dos relacionamentos e de si mesmo (por exemplo, ordem social, segurança familiar, segurança nacional).

7. Conformidade. Refere-se a restrições de ações, impulsos e inclinações que violam as expectativas e normas sociais vigentes (por exemplo, autodisciplina, bons modos, obediência).

8. Tradição. Este tipo se traduz pela busca de respeito, compromisso e aceitação de costumes e idéias impostos pela cultura ou religião (por exemplo, devoto, honra aos pais e mais velhos, respeito pela tradição, vida espiritual).

9. Benevolência. Acentuam-se a busca e preservação do bem-estar das pessoas com quem se mantém relações de intimidade (por exemplo, ajudando, honesto, não- rancoroso, ter sentido na vida).

10. Universalismo. Indica a busca da compreensão, tolerância, aceitação e bem-estar de todos, além da proteção e preservação dos recursos naturais (por exemplo, aberto, amizade verdadeira, igualdade, justiça social, protetor do meio ambiente, sabedoria, um mundo em paz, um mundo de beleza).

Procurando que o leitor tenha uma compreensão do todo, elaborou-se a Tabela 4 a seguir, que reúne de forma mais direta e clara os tipos motivacionais, com seus valores específicos representativos e sua fonte, isto é, a origem em termos das necessidades humanas (Schwartz, 2006). É importante assinalar que a adequação dos valores específicos para representar cada um dos tipos motivacionais de valores compreende a hipótese de conteúdo. Neste sentido, checa-se em diversas culturas em que medida cada um destes valores específicos aparece na região definida como correspondendo ao tipo motivacional subjacente (Schwartz & Sagiv, 1995).

Tabela 4. Tipos motivacionais de Schwartz (1994, 2005).

Tipo motivacional Exemplos de valores Fontes

Autodireção Criatividade; Curiosidade; Liberdade

Organismo; Interação Estimulação Ousadia; Vida variada; Vida excitante Organismo

Hedonismo Prazer; Apreciar a vida Organismo

Realização Bem Ambicioso sucedido; Capaz; Interação; Grupo

Poder Poder social; Autoridade;

Riqueza Interação; Grupo

Segurança Segurança nacional; Ordem social; Limpo Organismo; Interação; Grupo

Conformidade Bons modos; Obediente; Honra os pais e os mais velhos

Interação

Tradição Humilde; Devoto Grupo

Benevolência Prestativo; Honesto; Não rancoroso Organismo; Interação; Grupo

Universalismo Tolerância; Justiça social; Igualdade; Proteção do meio ambiente

Grupo; Organismo

De acordo com o que estabelece esta teoria, há inter-relações estreitas entre os tipos motivacionais (hipótese da estrutura). Neste sentido, Schwartz (1992) afirma que, ao agir tomando um dos valores como meta, suas consequências práticas, psicológicas e/ou sociais podem ser compatíveis ou conflitantes com algum outro valor. Portanto, tal modelo propõe uma organização estrutural e dinâmica dos tipos motivacionais, coerente com o exposto na Figura 1.

Figura 1. Estrutura dos tipos motivacionais (Adaptado de Schwartz, 2006, p. 142).

De acordo com a teoria deste autor, os padrões de conflitos e compatibilidades entre os tipos motivacionais podem ser deduzidos da proximidade que eles ocupam no espaço bidimensional. Neste caso, tipos adjacentes indicariam maior compatibilidade, evidenciando conflito a partir de seu afastamento, com a oposição no espaço revelando maior conflito. Por exemplo, os seguintes pares de tipos motivacionais são considerados compatíveis: poder / realização, realização / hedonismo, hedonismo / estimulação, estimulação / autodireção, autodireção / universalismo, universalismo / benevolência, benevolência / conformidade, conformidade / tradição, tradição / segurança, segurança / poder e segurança / conformidade.

Esta estrutura também apresenta dimensões bipolares de ordem superior. A dimensão localizada no eixo horizontal seria formada pela oposição entre abertura à

mudança (compatibilidade entre os tipos motivacionais autodireção e estimulação), que enfatiza a independência e o favorecimento da mudança, e a conservação (compatibilidade entre os tipos tradição, conformidade e segurança), que acentua a estabilidade pessoal, a submissão e a manutenção das tradições. A segunda dimensão, na vertical, é composta pela oposição de autotranscedência (compatibilidade entre universalismo e benevolência), que enfatiza a superação dos próprios interesses em função do bem-estar dos outros, e a autopromoção (poder e realização), que focaliza a busca de poder e sucesso pessoais.

A teoria dos valores de Schwartz e seus colaboradores (Schwartz, 1992, 1994, 2006; Schwartz & Bilsky, 1987, 1989) é, provavelmente, a que possui maior impacto no mundo acadêmico, servindo como referência principal dos estudos em Psicologia Social e áreas afins. Certamente ela representou uma contribuição importante para a temática, operacionalizando e testando algumas das ideias de Rokeach (1973), a exemplo das hipóteses de conteúdo e estrutura, que este autor tratou superficialmente, indicando existirem dois tipos de valores (instrumentais e terminais), cada um representado por 18 valores específicos. Schwartz (2006) apresentou uma proposta elegante, indicando dez tipos motivacionais, além de sugerir relações estruturais entre eles; propôs ainda a própria noção de tipos motivacionais, definindo-a como uma variável latente, com múltiplos indicadores (valores específicos), amenizando o aspecto técnico do erro de medida quando um único indicador é tido em conta. Some-se a estas contribuições seu esforço em reunir pesquisadores dos cinco continentes, os quais têm ajudado com evidências que parecem sugerir a qualidade de seu modelo.

Apesar do anteriormente comentado, como todo empreendimento científico, o modelo de Schwartz (1992, 2006) não está isento de críticas por parte de diversos autores (Gouveia, 1998; Molpeceres, 1994; Waege, Billiet & Pleysier, 2000). Estas têm

tido lugar, sobretudo, em razão da falta de uma base teórica subjacente à origem dos valores, repercutindo, por exemplo, na indeterminação do número de tipos motivacionais, na seleção de valores específicos para representá-los e na ausência de explicação consistente acerca das compatibilidades e conflitos dos valores. Por certo, Gouveia (2003) critica a ideia de conflitos dos valores, pois esta não é compatível com a concepção do desejável, própria dos valores, e que talvez tenha se originado como resultado deste autor não contar com um modelo explícito acerca da natureza humana. Ressalta-se, ainda, a não inclusão de dimensões valorativas que parecem essenciais quando os valores são pensados como representações cognitivas das necessidades; este é o caso, por exemplo, da subfunção existência (Gouveia & cols., 2011). Por fim, pesquisadores independentes têm encontrado alguma dificuldade em corroborar sua estrutura valorativa, sugerindo por vezes um modelo mais reduzido, contendo seis a oito tipos motivacionais de valores (Perrinjaquet, Furrer, Marguerat, Usunier & Cestre, 2007).

Em razão dos aspectos anteriormente comentados, procurando contar com um modelo teórico axiomatizado que tivesse em conta contribuições prévias, mas pudesse ser maximamente parcimonioso, Gouveia e seus colaboradores propuseram a Teoria funcionalista dos valores humanos (Gouveia, 1998, 2003; Gouveia & cols., 2008, 2009, 2010, 2011). Como previamente foi comentado, a ênfase desta tese é em relação a esta teoria, procurando testá-la nos contexto intra (Brasil) e intercultural (Alemanha, Argentina, Brasil, Colômbia, Espanha, Filipinas, Honduras, Inglaterra, Israel, México, Nova Zelândia e Peru). Neste sentido, demanda-se considerá-la mais detidamente no capítulo a seguir.