Pode-se dizer que a violência doméstica (VD) contra crianças deixa marcas como uma espécie de tatuagem, que mesmo se busque extinguir esse desenho através do laser, a cicatriz perdurará. As marcas da violência doméstica são muitas vezes carregadas durante a vida inteira de uma pessoa, o que acarreta profundo sofrimento para ela e para as pessoas com que ela interage. O que pode ser considerado como mais devastador é que a criança vitima de violência doméstica tem grandes possibilidades de se tornar um adulto com dificuldade de relacionar-se com outras pessoas, além de diferentes consequências psicológicas e físicas. Ou seja, é um problema que afeta o individuo em todas as áreas de sua vida e que se não for tratado pode causar doenças graves como câncer, doenças cardíacas e pulmonares.
A violência doméstica contra criança toma grandes proporções ao levar a suas vítimas a quadros traumáticos, como: lacerações, abrasões, queimaduras, hematomas, inchaços, fraturas, disfunção sexual, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada; sintomas psicológicos, como depressão, ansiedade, prejuízo cognitivo, hiperatividade; problemas sociais, como incapacidade de se relacionar, baixo desempenho escolar.
Nesse contexto, é possível deduzir a urgência da formação de professores e até mesmo da formação da sociedade como um todo na prevenção e combate a esse fenômeno que pode tornar-se devastador na vida de uma criança.
De acordo com Ferrari (2002), no caso da violência doméstica física na infância e adolescência, as consequências podem ser a curto e em longo prazo:
Consequências em curto prazo:
a) Problemas físicos; b) dificuldades no desenvolvimento das relações de apego e afeto: desenvolver reações de isolamento e distanciamento e resistência ao apego; problemas como depressão e redução da autoestima; distúrbios de comportamento tanto por assumir um padrão similar ao dos pais,
tornando-se agressivos, como apresentar pouca desenvoltura social ou reação inadequada ao estresse; c) modificação no desenvolvimento cognitivo, na linguagem e no rendimento escolar.
Consequências em longo prazo:
a) Consequências físicas; b) pais abusadores, mais tarde; c) comportamento delinquencial e comportamentos suicidas na adolescência, gerando assim mais problemas emocionais, como depressão, ansiedade; d) comportamento criminal violento, mais tarde.
Em relação ao caso de violência sexual, Ferrari (2002) revela que de 60% a 80% das vítimas apresentam alguns distúrbios:
Consequências imediatas:
a) Efeitos físicos: distúrbios do sono (17 a 20%); alterações de hábitos alimentares (5 a 20%); gravidez (1 a 11%);
b) Efeitos psicológicos mais habituais: medo (40 a 80%); hostilidade perante o sexo do agressor (13 a 5%); culpa (25 a 64%); depressão (em torno de 25%); baixa autoestima (cerca de 58%); conduta sexual anormal - masturbação compulsiva, exibicionismo (27 a 40%); angústias, agressões, condutas antissociais; sentimentos de estigmatizarão.;
c) Efeitos sociais mais comuns: dificuldades escolares; discussões familiares frequentes; fuga (33% a 50%); delinquência, prostituição.
Consequências em longo prazo: fobias, pânico, personalidade antissocial; depressão com ideias de suicídio, tentativa ou suicídio levado a cabo; isolamento; ansiedade, tensão e dificuldades alimentares; dificuldade de relacionamento com pessoas do sexo do agressor (amigos, pais, filhos e companheiros); distúrbios sexuais; drogatização e alcoolismo.
Um dos motivos que leva muitos professores a deixarem de realizar a notificação de violência doméstica é o total desconhecimento das consequências e impactos, em algumas vezes, até destrutivo desse fenômeno na vida de uma criança.
Para Inoue e Ristum (2006), a criança que é testemunha ou vítima de violência no ambiente doméstico tem propensão a apresentar um repertório de estratégias inadequadas, como desenvolver estratégias agressivas para lidar com possíveis contrariedades e formar,
assim, um conjunto de respostas ao estresse e às contrariedades. Comportando-se dessa forma, geralmente, são rejeitados ou hostilizados por colegas e docentes. Diante dessa rejeição e hostilidade o estresse aumenta, atingindo, consequentemente, o processo de aprendizagem e de estabelecimento das relações sociais, diminuindo, assim, a possibilidade de a criança revelar a violência sofrida.
Como se pode constatar, a violência gera problemas sociais, emocionais, psicológicos e cognitivos durante toda a vida, podendo acarretar também comportamentos prejudiciais à saúde. Trata-se também de uma violação dos direitos das crianças e dos adolescentes que compromete assim a sua condição de cidadãos. Mas como fica a questão da garantia dos direitos à vítima?
O Brasil não dispõe de uma legislação que possa garantir o exercício dos direitos das vítimas de violência (KAMIMURA, 2009). De acordo com a pesquisadora, mesmo a vítima, correndo riscos e ameaças de morte, se não confirmar os episódios em um procedimento judicial, dificilmente terá êxito na inserção em programa de proteção. Crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica não dispõem de garantias de proteção, nem de reabilitação, na forma de cuidados médico, psicológico, social, jurídico, nem da não repetição da violência.
Nesse caso, como não existe garantia de proteção, fica evidente que muitos professores encontram dificuldades em notificar a violência doméstica que seus alunos sofrem devido ao risco de se tornarem novamente vítimas pela família. Não existe a garantia da não repetição do dano, não existe garantia de que essa criança nunca mais será socada, chutada, queimada ou arremessada do outro lado da sala por um familiar descontrolado.
Isso denota a fragilidade institucional em relação à rede de proteção. Não existe garantia de segurança para a vítima e muito menos para os denunciantes da violência doméstica.
Até pouco tempo, a violência doméstica era considerada como algo natural pela família e pela sociedade; só mais recentemente, foi reconhecida como atentado aos direitos da criança. Por isso, é necessário o resgate histórico por meio do qual se torna viável identificar as transformações, ao longo do tempo, do conceito de violência doméstica contra crianças e adolescentes, possibilitando condições adequadas de formas de atendimento e prevenção.