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5.3 Verifications

5.3.1 Deflection

PARANÁ EM IBIPORÃ:PROFESSORES E DISCIPLINA

No intuito de melhor especificar o perfil dos informantes e contextualizar o ensino de Língua Estrangeira (LE), em Ibiporã, relembramos que todos são professores de língua inglesa, pertencentes do Quadro Próprio do Magistério da Rede Estadual do Paraná e atuantes no ensino Fundamental e Médio. Ressaltamos que, em relação ao tempo de atuação profissional, dois professores atuam entre 20 e 25 anos, seis entre 12 e 18 anos e três exercem a profissão entre 05 e 10. Além disso, todos os professores são portadores do título de especialista.

Entendemos ser importante contextualizar nossa análise, falando sobre o cenário e as condições de atuação desses profissionais. Primeiramente, chamamos a atenção para o fato de todos os professores afirmarem enfrentar muitas dificuldades no seu dia-a-dia de trabalho. Entre elas, encontram-se: a indisciplina, a falta de respeito e o desinteresse, entretanto a falta de material didático destinado ao ensino da língua inglesa foi a dificuldade mais citada e enfatizada. Veja alguns exemplos:

P2: “O grande problema pra gente de língua inglesa é a falta de material. Não tem material didático. Livro, rádio, equipamento, a gente não tem nada”;

P3: “Encontro muito problema, o primeiro é a falta de material, não tem livro, não tem cota de xerox, não tem nada, então as aulas não rendem”;

P4: “Muita indisciplina e falta de material didático”;

P6: “Particularmente, eu não tenho problema de indisciplina, basicamente pra mim, é a falta de livro didático”;

P7: “Um dos maiores problemas é a falta de materiais didáticos”;

P9: “Sim muitos, problemas como falta de material didático, muitos alunos na sala de aula, falta de vontade dos alunos e falta de pré-requisitos”;

P10: “A falta de material também é muito relevante, não há nem mesmo dicionários suficientes para se trabalhar em uma turma, sem livros didáticos”;

P11: “Salas lotadas, falta de material didático, alguns alunos adotam livro outros não, e essa falta de material acaba dificultando”.

Vários professores aproveitaram a oportunidade para relatar a dificuldade de ensinar uma LE, sem ao menos um livro didático de apoio, pois o Governo do Estado do Paraná não fornece livro didático da disciplina de inglês para o Ensino Fundamental II gratuitamente.

No entanto, as denúncias feitas em relação à falta de material se findam nelas mesmas e servem de justificativa para o nível do ensino. Os professores criticam o status quo, mas não assumem essa dificuldade como um compromisso político, de buscar melhoria, via reivindicação coletiva, protestos, organização conjunta para elaboração de material, entre outras possibilidades. Esta postura parece obedecer à lógica da teoria educacional crítico- reprodutivista, na qual se tem a percepção de que a educação reproduz o sistema social em que se insere (SAVIANI, 1985).

Embora reconheçamos a quantidade de atividades que envolvem o trabalho do professor, exigindo dele tempo e dedicação, concluímos que a postura dos professores diante do problema da falta de material didático é passiva, pois há uma tendência em esperar por soluções de outrem.

Os professores manifestaram, ainda, sua desaprovação e criticaram duramente a falta de comprometimento e investimento por parte do Governo do Estado com o ensino de LE. Sentem que a disciplina de língua inglesa não recebe a atenção mínima necessária para a melhoria da qualidade de seu ensino, ficando em desvantagem e sendo desvalorizada em relação às demais. A seguir, são apresentados trechos que comprovam essa indignação dos professores em relação ao descaso com a língua inglesa:

P1: “Há países que trabalham o inglês com seriedade, a pessoa fala fluente duas línguas, não é verdade? E no Brasil? Por que que existe o inglês lá na grade, se ele começa só na 5ª série e não tem material didático eficiente? [...] Os professores não são bem preparados nas universidades para serem professores de inglês. Por que que não é levado a sério as coisas na escola? Por que se colocou lá na grade a disciplina de inglês, se a língua inglesa não recebe o devido valor?” [...] Por que outros países levam tão a sério a educação? E acabam crescendo, acabando com preconceitos e se civilizando cada vez mais, e porque nosso país tem que ficar só no papel?”;

P6: “Eu acho que tem disciplina que é sempre mais valorizada. O inglês é sempre deixado como uma segunda opção, como subconteúdo, falta mais incentivo, começa pelo livro didático, né? A gente tem que trabalhar sem ter o livro didático, é complicado. Alguma coisa errada tem nisso aí, não é possível”. O inglês deveria ser considerado como matéria importante. A língua estrangeira, quando for olhada com respeito, acho que muda o enfoque, acho que a gente ganha mais aulas. Acho que tudo muda”.

Alguns indicadores que podem vir a comprovar esse fato e a opinião dos professores serão descritos a seguir.

Em primeiro lugar, a LE não faz parte da Base Nacional Comum da Matriz Curricular, ou seja, encontra-se na Parte Diversificada, que é atualmente composta apenas pelas disciplinas de Filosofia, Sociologia e Língua Estrangeira Moderna. Portanto, por fazer parte da Parte Diversificada, a disciplina está sujeita a alterações a qualquer momento. Consequentemente, a LE também dispõe de carga horária semanal extremamente reduzida – 2 horas/aulas – e, ainda, é uma das únicas disciplinas que não dispõe de livro didático gratuito.

Em segundo lugar, não existe nenhuma política que vise valorizar e colocar a disciplina em posição de destaque, demonstrando a importância de seu estudo, como há para outras disciplinas. A título de exemplificação, podemos citar:

Olimpíada de Matemática, Olimpíada de Astronomia e Astronáutica, Concursos de Redação, entre outras.

Outro aspecto que vem reforçar a sensação de descaso em relação à LE é o fato de a disciplina não fazer parte das avaliações externas que buscam aferir a qualidade do ensino Fundamental e Médio da escola pública, quais sejam: Prova Brasil e ENEM. A não testagem da LE revela a pouca importância a ela atribuída por parte das autoridades responsáveis pelo acompanhamento da qualidade do ensino nestas esferas.

Retomando o exposto pelos professores, parte deles relatou tentativas para suprimento da carência de material didático, como: elaboração de apostilas para os alunos adquirirem a cópia ou ainda adoção de um livro para que fosse comprado ou xerocado pelos alunos. Porém, até então, muitas dessas tentativas foram frustradas, porque apenas alguns alunos adquirem, o restante dos alunos permanece sem livro, ou por falta de condições financeiras ou porque os pais não se dispõem a investir na educação do filho, acabando por dificultar ainda mais o trabalho do professor. Vejamos algumas narrativas de professores:

P8: “A gente tem que “sucatear” material, tem que pedir ajuda, fazer recortes de livros mais antigos e se virar”;

P10: “Só na 5ª série que a gente elaborou um caderno pedagógico no PDE e estamos usando”; P11: “[...] alguns alunos adotam livro outros não, e essa falta de material acaba dificultando”.

Complementando a análise, a partir das falas, percebemos que há a identificação do problema, os professores apresentam críticas, e alguns até buscam resolver/superar os problemas identificados. Contudo, as críticas ainda ficam restritas a sua escola e aos parceiros, não sendo tomadas medidas de socialização das dificuldades, como manifestos, discussão com a comunidade, até mesmo poupando os estudantes do debate.

A falta de material didático compromete o processo de ensino/aprendizagem da língua, pois várias escolas não têm condições de fornecer nem mesmo uma cota de cópias ao professor para reprodução de textos e atividades. Ou seja, o professor acaba sendo obrigado a planejar e ministrar suas aulas, em plena era moderna, à base de quadro e giz.

Entretanto, é importante lembrar que alguns professores se mostraram muito gratos à instalação das TVs multimídia nas salas de aula, que vieram a contribuir para a diversificação das aulas. No entanto, ainda não são todos que se sentem aptos a manusear essa nova tecnologia disponível em sala de aula.

P1: “Esse ano nós tivemos um grande avanço que foram as TVs, é uma ferramenta que diversificou a sua aula”;

P3: “eu tenho muita dificuldade na língua inglesa, de ter material diferente pra poder chamar a atenção, [...] apesar da TV pendrive estar aí e estar auxiliando bastante. Eu estou usando bastante a TV pendrive, mas o material é pouco e o tempo pra ser pesquisado é pouco”;

P4: “[...] a TV pendrive é uma maneira a mais de dar aula [...] apesar de que eu ainda tenho muita dificuldade”.

A dificuldade de falta de material didático, mencionada pelos professores, revelou-se diretamente relacionada às expectativas que eles têm em relação aos programas de formação contínua ofertados pela SEED- PR. Em outras palavras, ao serem questionados sobre suas expectativas em relação aos programas de formação contínua, o discurso dos professores foi unívoco, ou seja, houve uma total convergência de ideias. Esperam que os programas de formação contínua venham contribuir para melhoria de sua prática em sala de aula, através de sugestões de atividades, de ideias inovadoras para o ensino de LE, de orientações metodológicas, fornecendo material de apoio e trazendo novidades em geral, como a utilização de novas tecnologias.

P1: “que trouxessem algo que vá realmente modificar”;

P2: “Tinham que servir pra ajudar a gente a preparar aula, dando opções de trabalho em sala de aula, trazendo material de apoio, dando sugestões de trabalho, visando melhorar a aula, a aprendizagem do aluno”;

P3: “Eu queria que me ensinasse a lidar com os alunos, que me trouxessem atividades novas, que me ensinasse alguma coisa sobre a língua inglesa”;

P4: “Que mostrassem uma maneira diferente de trabalhar”;

P8: “Eu gostaria que nos apoiassem de forma mais prática, para que pudéssemos motivar mais os alunos [...] que nos dessem ideias de como melhorar, pois muitas vezes, eles põem aquele monte de teoria no papel, mas você não sabe como desenvolver aquilo ali [...] mais coisas novas, poderiam surgir, por exemplo, exercícios com a utilização de ferramentas, como o computador”; P11: “Que ele seja mais direcionado para o trabalho em sala de aula, e que tenha melhores materiais”;

O discurso dos professores revela que eles estão preocupados com a parte técnica/operacional do ensino, dando demonstrações de que lhes falta a denominada “competência técnica”. Por isso, os professores buscam nos programas de formação contínua sugestões de atividades, materiais e recursos metodológicos que venham a contribuir para o aprimoramento da sua

performance em sala de aula. Mesmo porque a visão do que seja um bom

professor, para o grupo dos entrevistados, está relacionada à habilidade de propor atividades diferenciadas, de diversificar a aula, de chamar a atenção e motivar os alunos.

P1: “sou uma professora que procuro me atualizar, que procura ler teoria, procurar novas técnicas, ensinar de formas diferentes, procurar novas metodologias”;

P2: “procuro trazer assuntos novos, atuais, busco atividades variadas na internet, trabalho bastante com música, então eu tento diversificar a aula.”;

P3: “Boa, boa, boa eu não sou. [...] não tenho muita criatividade, sou mais tradicional. Pela falta de recursos, você acaba sendo mais tradicional [...] a quantidade de alunos também em sala de aula dificulta você ficar fazendo trabalhos diferenciados”;

P4: “Pelas aulas que a gente prepara, pelas atividades, mesmo não tendo material, livro didático de apoio. Então, pelas aulas, pelo esforço”;

P6: “Ter a atenção dos alunos, consegue despertar o interesse pela matéria e consegue ter um bom relacionamento com os alunos”;

P7: “Busco sanar as minhas necessidades em sala de aula, eu tento atender meus alunos da melhor maneira”;

P9: “Estou sempre atrás dos alunos, para que eles se interessem, sempre buscando coisas novas para apresentar em sala de aula, para tentar motivar e despertar o interesse”;

P10: “Às vezes, a gente fica muito frustrada pela falta de interesse dos alunos, isso é o principal, parece que estamos “vendendo uma mercadoria que eles não têm interesse em comprar””;

P11: “Eu sou, pelos resultados que tenho em sala de aula, pela busca de materiais, que acaba prendendo a atenção do aluno”;

P12: “Bom relacionamento com os alunos”.

Por terem essa concepção de que um bom professor é aquele que cativa a atenção dos alunos mediante atividades diversificadas e interessantes, é exatamente isso que eles buscam nos programas de formação, pois a intenção é ser um bom profissional.