Distância é aquilo que nos faz dar valor ao que não temos por perto (PENSAMENTOS) A luta pelo enraizamento da coletividade passava pela dificuldade da obtenção dos documentos com tudo o que isso significava em relação ao ingresso à escola e ao acesso a moradia e saúde.
Para a coletividade chilena dos 70, a adaptação concreta e o enraizamento à nova terra foram oportunizados, em boa medida, pela acolhida e receptividade que encontraram na Igreja da Paz que, em acorde com os postulados da instituição, possibilitou-lhes a convivência e solidariedade intergrupal, objetivando, fundamentalmente, a resolução de necessidades comuns entre as quais emprego, moradia e fé.
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Quando Carlos diz “a las malas” quer dizer obter os documentos de forma ilícita.
89O depoente utiliza a expressão “Modelo 19”, numa clara alusão ao nome do documento de residência para estrangeiro no Brasil. A “carteira de identidade para estrangeiros foi criada pelo artigo 35 do Decreto nº. 3010, de 20 de agosto de 1938, e denominada “carteira modelo 19” e substituída pelo “Decreto-Lei Nº 499, de 17 De Março De 1969”. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1965-1988/Del0499.htm Acesso em 15 de outubro de 2015.
90 Modelo 19 Riquelme. Sintetiza a gratidão que o depoente sentiu ao obter a residência definitiva nesse seu novo país, pois Riquelme é o seu sobrenome.
A Igreja, desde a sua fundação, está sob a salvaguarda e direção da Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeo, conhecida também como Scalabrianiana, fundada pelo Beato João Batista Scalabrini91, Bispo de Piacenza, que “impressionado, desde o início do seu episcopado, pelo desenrolar dramático da emigração italiana (...) fez-se apóstolo dos milhões de italianos que abandonavam a própria pátria” e, com a aprovação de Leão XIII, no dia 28 de Novembro de 1887, fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos (Escalabrinianos), “para a assistência religiosa, moral, social e legal dos emigrantes” (SÃO PAULO, 1997 p. 1)92.
Para cumprir com esta finalidade, Dom Scalabrini, fundou também em 1895, um segmento feminino, a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos, que proporcionou grandes frutos, dentro da pregação e ensino catequético aos imigrantes. No Brasil, “o Instituto dos Missionários de São Carlos – ou padres scalabrinianos – chegou a São Paulo no ano de 1904, na cidade de São Bernardo” e, posteriormente, se fixaram na “paroquia Santo Antônio, na Praça do Patriarca” (FRADE, 2007, p .115). Assim, o trabalho dos scalabrinianos esteve, desde a sua fundação, orientado aos imigrantes e, a partir de 1924, sob a tutela da Santa Sé, passará a dar uma atenção especial às tradições italianas.
A Igreja da Paz, localizada na Rua do Glicério 225/245, bairro do Glicério, nasceu no contexto de oferecer apoio aos milhares de imigrantes italianos que a São Paulo chegaram para se inserir no trabalho. O projeto, idealizado pelo Padre Francisco Milini, em 1936, “tinha como finalidade satisfazer um extenso programa pensado pelos Scalabrinianos, para atender às necessidades dos imigrantes italianos em São Paulo”, como registrado na carta do pedido de autorização para a construção, escrita pelo Superior
91 Beato João Batista Scalabrini (1839-1905), Bispo de Piacenza (Itália). Em 1887 sob o lema: Eu era estrangeiro e me acolhestes (Mt 25,35) fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos, também conhecidos como carlistas ou scalabrinianos em 1887. Extremamente piedoso e preocupado com a difusão do evangelho foi definido como Apóstolo do Catecismo pelo Papa Pio IX.
92 SCLABRINI, João Baptista. Biografia. Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Santo Padre. Portal do Vaticano. 1997. Disponível em
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19971109_scalabrini_po.html
Francisco Milini e endereçada ao arcebispo de São Paulo. Nela definem-se, claramente, a assistência espiritual que se outorgará à coletividade italiana, bem como, as divisões que essa construção deveria contemplar de acordo com Frade (2007 p. 117-118) a casa religiosa, a Igreja, a área para atividades socioculturais como teatro, uma escola e o dispensário.93
Depois de obtida a autorização, iniciaram-se as buscas por um grande espaço, haja vista que o objetivo da instituição era não somente ter uma Igreja, senão, também, um espaço no qual se desenvolveram as mais diversas atividades e ações tendentes a possibilitar a inserção dos italianos na sociedade paulista.
Dada à grandiosidade do projeto, era preciso ir um local que albergasse tal complexo, para tanto, arranjaram um terreno de 10 mil metros no Glicério. Essa área, originariamente pertencente ao Brás e posteriormente seccionada em Mooca e Brás, até 1893, funcionava como depósito de lixo de toda a cidade. No entanto, a partir da década de 1920, passou a se considerar um excelente espaço para a localização de indústrias e também de moradias de baixo valor propiciando, assim, que a Igreja da Paz encontrasse o seu espaço operário de trabalho e inserção.
93 A pia Sociedade dos Missionários de São Carlos, cuja finalidade principal é a assistência espiritual aos italianos no exterior, desejando realizar esse objetivo na cidade de São Paulo, por meio de seu superior regional, vem humildemente expor a V.Excia. Revma. As suas intenções como: a) A ereção de uma casa religiosa que sirva de residência aos reverendos Padres missionários, os quais serão colocados na direção das obras que a congregação pretende fazer; b) A ereção de uma igreja onde seja organizada a assistência religiosa, não de forma paroquial, mas de ação social católica, sem limite de um território, mas extensiva a todos os elementos da colônia italiana, procurando trazer os italianos à frequência da Santa Missa festiva: para oferecer-lhes cursos especiais (preparados para eles e na nossa língua) de conferências, destinados ao cumprimento do preceito pascal etc. Além disso, os reverendos Padres missionários, os quais serão colocados na direção das obras que a congregação pretende fazer; b) A ereção de uma igreja onde seja organizada a assistência religiosa, não de forma paroquial. Padres terão direito de visitas as várias instituições e associações italianas, fazer nas diversas sedes conferências e instruções, usando como meio de propaganda a imprensa, as estações de rádio e todos aqueles meios que podem ser necessários para chegar à educação moral da consciência e fazer com que também esses indivíduos participem da vida católica, c) Construção de uma sede para uma futura organização da ação católica entre os próprios italianos, com um salão de teatro e todas as repartições exigidas pela vida da associação, d) A fundação de uma escola para meninos, especialmente para oferecer à noite instrução aos nossos compatriotas que necessitem dela, e) Abertura de um dispensário para ajudar as famílias pobres.
De acordo com registros, os trabalhos se iniciaram em 194094, continuaram durante o período da Segunda Guerra Mundial e, em “30 de agosto de 1942, a nave central foi inaugurada pelo arcebispo D. José Gaspar da Fonseca e Silva” (FRADE, G. 2007 p. 118) e, após oito anos de construção, foi finalmente inaugurada em 1946.
A Igreja da Paz responde, arquitetonicamente, ao traçado preponderantemente moderno de forte influencia italiana, onde se destaca à primeira vista o campanário, que apresenta elementos estilísticos do românico e que, posicionado ao lado do evangelho, é independente, tem 4 (quatro) fases, 3 (três) arcos plenos e uma cruz que coroa todo o conjunto arquitetônico. A visão da fotografia traz uma reflexão sobre o enunciado “os templos são réplica da Montanha cósmica e em consequência, constituem a ‘ligação’ por excelência entre o Céu e a Terra” (ELIADE, 2013, p. 40), por isso, para acedermos ao Pai teremos, necessariamente, que subir até o campanário que possibilitará a nossa aproximação às alturas e ao Céu.
O recinto construído em forma de cruz, pé direito alto e longitudinalmente amplo e claro possibilita a recepção e participação de um número considerável de pessoas, assim, ela tem “uma nave central abobadada de maior altura e duas outras naves colaterais mais baixas, de certo modo retomando o esquema basilical” (FRADE, 2007, p. 120). Em relação à fachada, ela é triangular e apresenta uma bela simetria, com cinco arcos plenos, que destacam da sua alvenaria por estarem finalizados em pedra e estão “disposto paralelamente e em altura decrescente em relação ao arco central mais alto (20 metros), transmitem uma sensação de harmonia” e tranquilidade que contrasta com a grande movimentação externa. “A elegância desta fachada, a
94 “A construção iniciou-se solenemente com a presença de D. Duarte em 20 de outubro de 1940, recebendo como madrinhas a Condessa Marina Crespi, Mariângela Matarazzo e Elisabetta Castruccio. Nesta ocasião foi levada para o alicerce já pronto da nova igreja a escultura de Nossa Senhora da Paz, feita pelo escultor Marino del Fávero” (CHIOVATTO, apud FRADE, 200, .p.118) .
sua “sobriedade e beleza” formam, ainda, um pórtico, a galilé que prepara os fiéis para adentrar no recinto sagrado” (FRADE, 2007, p. 121).95
Internamente possui uma nave central com arcos longitudinais que impulsam o olhar para a abside onde se localiza o altar-mor que, em concordância com as instruções do Concilio Vaticano II, foi construído para celebrar a missa “versus populum” e está suspenso sobre dois degraus de 30 cm de altura cada um, de onde o oficiante pode ter uma visão panorâmica da assistência.
O altar-mor serve de referência para algumas instalações que compõem esse espaço reservado à celebração eucarística. A Igreja dispõe de dois oratórios, que observados desde a porta para o altar-mor, revela à direita do oficiante e no mesmo nível, um parlatório ao qual se acede por uma escada caracol de 35 degraus, e à esquerda um segundo oratórios que, apoiado sobre um suporte fixo, se deposita a Bíblia para as leituras do ofertório, do evangelho durante a celebração litúrgica e outras celebrações, ou para comunicar assuntos de interesse da coletividade.
Por último, rodeando o altar mor e na parte superior, encontram-se dois espaços bordeadas por 12 colunas cada um, que albergam, à direita, o órgão e o coral e a esquerda um espaço para um segundo coral, utilizado em ocasiões especiais.
Entre o altar mor e a primeira fileira dos bancos da Igreja há um corredor frontal de 2 metros de largura por 18 metros de comprimento, cuja finalidade é permitir a aproximação e circulação dos fiéis no momento da comunhão, bem como acolher o coral, que ali se concentra para acompanhar a liturgia e os bailarinos, que efetuam seu desempenho de homenagem à Virgem do Carmo, durante a celebração eucarística de julho.
95 Galilé: Pórtico (1) alpendrado ou pórtico (1) com arcadas (3) situado na fachada frontal de igrejas. Também chamada nártex (1 e 2) e paraíso (1) Disponível em
Foto 3 - Altar Mor – Igreja Nossa Senhora da Paz - São Paulo, 2013.
Arquivo particular. Mónica Yokoyama.
A observação da fotografia possibilita constatar as grandiosas dimensões do Altar Mor revelando através do afresco que alcança toda a nave central revela cenas da vida de Jesus tenuamente desenhada. No afresco prevalecem os tons pastel e, em seu centro, em sentido vertical, um “grande crucifixo de seis metros de altura que tem na sua base, sobre um pilar, a escultura moderna de Nossa Senhora da Paz” (FRADE, 2007, p. 122) todo o qual faz de este afresco um convite à reflexão e ao silêncio.