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“Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad mejor”. 9 Salvador Allende Gossens

Essas palavras correspondem ao parágrafo final e considerado o mais emblemático do último discurso que o Presidente da República Dr. Salvador Allende Gossens dirigiu, do seu gabinete presidencial ao povo chileno numa cinzenta manhã de setembro e que, a Rádio Magalhães (VARAS 2008 p.1)10 emissora do Partido Comunista do Chile e a única a transmitir, em um ato de coragem, durante o Golpe de Estado do dia 11 de setembro de 1973, diretamente para os milhares de chilenos que, atônitos e desconcertados, acompanhavam os acontecimentos que se abatiam sobre o país. Uma vez terminada essa simbólica declaração a radio difusora e o país, silenciaram por longos 17 anos. Era a manhã sombria!

Os acontecimentos sociopolíticos desse dia foram estampados nas primeiras páginas da imprensa internacional, difundindo, rapidamente, o nome dessa “longa e estreita faixa de terra”11 - descrição do Chile em relação ao seu formato geográfico, semelhante a uma bainha de espada -, levando sua

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“Saibam vocês que, muito mais cedo que tarde, vão-se abrir as grandes alamedas por onde passe o homem livre para construir uma sociedade melhor”. Trecho fundamental do “Último Discurso do Presidente Salvador Allende”, veiculado pela Radio Magallanes na manhã do 11/09/1073 e as últimas pronunciadas por um governante democraticamente eleito até findada a década dos 90. Após essas palavras, se iniciaria um longo e violento período de 17 anos de repressão. VARAS, José M. La verdadera historia del último discurso de Salvador Allende. Santiago. 2008. Disponível em http://ciperchile.cl/2008/06/26/la-verdadera-historia-del-rescate- del-ultimo-discurso-de-salvador-allende/ acesso em 12/09/2014

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“Larga y angosta faja de tierra”. Descrição do Chile em relação ao seu formato geográfico, semelhante a uma bainha de espada. Góngora Marmolejo, Alonso. Historia de Chile desde su descubrimiento hasta el año 1575. Tomo II. 1862-1.

denominação e sua história aos mais longínquos e insuspeitados territórios, oportunizando inclusive, que habitantes de recônditas regiões se aproximassem, brusca e inesperadamente, de um remoto país, situado nos confins da América do Sul. Uma terra denominada Chile.

Nessa data, o golpe militar liderado pelo General em chefe das Forças Armadas Augusto Pinochet, que contou com apoio dos outros três setores, a saber, Aeronáutica, Marinha e Polícia, depôs o presidente eleito Salvador Allende, dando início a uma longa ditadura.

Foto 1 - "La tercera 13 de septiembre 1973"

"La tercera 13 de septiembre 1973”12

12 La Tercera. Archivo de Fondos y Colecciones. CL MMDH 00000030-000014-000001. Disponível em http://www.archivomuseodelamemoria.cl/index.php/164563;isad acesso em 16/02/2015

A informação noticiosa inserta na imagem exposta propicia refletir acerca das pistas insertas nas entrelinhas dos veículos de comunicação.

Todas as imagens criadas admitem, segundo Lara e Perea, além do impacto emocional que possam produzir uma análise que ponha em evidencia, não só a intencionalidade do realizador, mas os elementos que utilizou para consegui-la, como a composição, a cor, a textura, o movimento, a expressão do gesto, o ritmo, etc (VILLAFAÑE, 2006 p. 25)13.

Desta maneira, refletir sobre a composição dessa imagem noticiosa em questão, de acordo com essa teoria da imagem, servirá de ferramenta para compreendermos os acontecimentos históricos no Chile e seu impacto no mundo. Para o autor,

a imagem é descomposta em seus elementos morfológicos: ponto, linha, plano, textura, cor e forma; dinâmicos: temporalidade, tensão e ritmo; e escalares: dimensão, formato, escala e proporção (VILLAFAÑE apud MAGGIONI, 2011, p.13).

Quer dizer, ao segregar os elementos da referida noticia, possibilitou-se vislumbrar a violência que o ato golpista representou na vida democrática do país. Seguindo os componentes possíveis de uma análise visual, vemos, numa primeira aproximação, a imagem do Palácio de governo em chamas resultado do forte ataque aéreo ao que fora sometido.

A composição da capa do periódico promove à reflexão a respeito da imediata e forte censura imposta sobre os poucos médios comunicativos operantes após o dia 11 de setembro e a incidência desse processo sobre à transmissão da informação.

Na primeira página e, escrito em grandes letras, observam-se três blocos elaborados em cores e dimensões escriturais diferentes. A primeira faixa, com predominância das cores negras e brancas, a escrita “Gigantesca operação “Limpeza” de extremistas”. A designação de extremista faz alusão aos grupos de extrema esquerda participantes da Unidad Popular, doravante

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“Todas las imágenes criadas admiten, según Lara y Perea, además del impacto emocional que puedan producir el análisis que ponga en evidencia no solo la intencionalidad del realizador sino los elementos que ha utilizado para conseguirla como la composición, el color, la textura, el movimiento, la expresión del gesto, el ritmo, etc” (VILLAFAÑE, 2006, p. 25)

UP, que, de acordo com a classificação militar correspondiam ao braço armado do governo de Allende e, portanto, deveriam ser removidos da vida cidadã.

Na segunda faixa e a maior da página, grandes letras em rojo que remetem às cores da UP, os dizeres “Junta Militar tomou o controle” buscam reforçar a ideia de descontrole e caos do governo de Allende, preconizada pelos discursos direitistas da época. De acordo com esse raciocínio se o governo de Allende era o caos e o desconcerto era preciso que a cidadania contasse com uma nova liderança que restaurasse a ordem perdida, que só poderia vir da mão de um novo governo, nesse instante encarnado na figura da Junta Militar.

Na terceira faixa é ultima da página, a impressão em branco sobre fundo verde, surge a frase “FF.AA. Assumiram o dever que a Pátria impõe”. O verde, cor dos uniformes militares serve de pano de fundo para frase com a qual o governo miliar tenciona justificar desrespeito ao governo constitucionalmente eleito e legitimar o governo militar recém-constituído.

Na imagem como um todo e na visão do Palácio de governo fumegante, no particular, se desprende o que o periodista deseja evidenciar: a inesperada e violenta interrupção da vida cidadã.

Esse país do extremo sul de América, de acordo com “Cronologia de la história de Chile” (Villalobos, 2002, p. 430-450), apresenta um processo histórico entrecortado por períodos de desenvolvimento, fortemente vinculados às alterações sociopolíticas e econômicas, nacionais e/ou internacionais, que se têm evidenciado por meio de intensas e periódicas repressões sociais e políticas, resumidas a seguir:

1- Décadas de 1870 a 1940: nessa época, o Chile era considerado “uma gigantesca mina de salitre” (MUJICA, 2011, p. 5) e estava sujeito e definido pelas normas e oscilações do mercado internacional. No fim do século XIX, aconteceram grandes manifestações operárias, sindicais e fronteiriças, que se alastraram durante a quase totalidade da primeira metade do século XX. Em resumo, citamos: a Resolução de limites de fronteiras pendentes com Argentina, Peru e Bolívia, fruto da Guerra do Pacífico 1879-1884, b) a Greve

dos portuários em Valparaiso no ano de 1903; a Greve da carne, em 1905, na capital Santiago; c) em 1906, a Greve Geral de Antofagasta; e em 1907, a Greve Grande de Tarapacá. Forte mobilização que resultado da crise do salitre luchava por melhores pela melhora das condições econômico-sócias dos trabalhadores das salitreiras. A reivindicação culminou em 21 de dezembro de 1907 no massacre da “Escola Santa Maria de Iquique” omitida, por longos anos, dos registros históricos do país. A primeira metade do século XX, concretamente em 05 de setembro de 1938, a “Matança do Seguro Obrero”, manifestação de caráter político, organizado e protagonizado por um grupo de sessenta jovens pertencentes ao Movimento Nacional Socialista criollo (MNS) fuzilados pela policia, após frustrada tentativa de Golpe de estado, tornou-se um dos atos mais cruéis da história do país; 2- Décadas de 1940 e 1950 - Em 1948, ocorreram as perseguições, expulsões e mortes, que fizeram dos sindicalistas, operários, estudantes e simpatizantes do partido comunista o centro das ações repressivas do governo, respaldado pela “Lei de Defesa Permanente da Democracia”. Pela “Lei maldita”14, como ficou conhecida, o

Presidente Gabriel González Videla “declarava a ilegalidade do Partido Comunista, assim como instituía várias restrições às liberdades individuais e de imprensa,” pela qual muitos foram mortos, outros trasladados à Pisagua, uma pequena cidade localizada ao norte do Chile, no meio do deserto de Atacama, instalações que durante a ditadura militar de Augusto Pinochet e, conforme o Provecto Internacional de Derechos Humanos - DDHH, foram conhecidas como “Campo de Prisioneros de Pisagua”. (DDHH 2010 p. 3 )15. No período de

Gonzáles Videla, alguns intelectuais, como Pablo Neruda, passaram a viver “na clandestinidade” (GOIC, C. 2004:1). Após a clandestinidade, o poeta consegue escapar e se exilar no México, onde escreve “Los rios del canto”, uma homenagem aos militantes presos e aos amigos que acompanharam sua aventura social naqueles dias, incluído na coleção de poemas Canto General” publicado em 1950.

14Ou “La Ley Maldita”: “declaraba la ilegalidad del Partido Comunista, así como un sinfín de restricciones a las libertades individuales y de prensa”.

15 Campamento de Prisioneros de Pisagua. Tarapacá I Región. Relación de campos de detención y tortura in Proyecto Internacional de Derechos Humanos. 2010. Disponivel em

3- Décadas de 1960 e 1970 - Finalmente, em 1964, entre governos democráticos e militares, a crise econômica mundial de 1929, a fixação dos limites na Antártida chilena (1940), o descobrimento de petróleo em Terra do Fogo (1945), o surgimento da Siderúrgica de Huachipato - grande complexo mineiro dedicado à elaboração do Aço, localizado em Talcahuano, província de Concepción -, em 1950, chegou-se ao mandato da democracia cristã do Presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970), governo antecessor ao período do socialista Salvador Allende. Montalva foi líder do partido Democracia Cristã e destacado intelectual, cujo governo se caracterizou, no âmbito interno, pela busca das alterações das estruturas sociais através da Revolução em Liberdade, tema do lema da campanha e do governo. O seu programa preconizava transformações dentro de um modelo democrático social e cristão, cujos eixos fundamentais contemplavam a reforma agrária, a “chilenização do cobre”, a construção de moradias populares e a inclusão no processo educacional, por meio da promoção popular e da participativa da população, fomentadas mediante os centros de vizinhos e os centros de mães. Alguns desses projetos de mudanças seriam posteriormente aprofundados e acelerados, por Salvador Allende. No âmbito externo, estimulou a formação da Associação Latino-americana de Livre Comércio - ALALC e, com menos sucesso, o Pacto Andino16, que seria um “acordo de integração sub-regional, subscrito por um grupo de países do Cone Sul”, ou seja, pelos governos da Colômbia, Bolívia, Chile, Equador e Peru, e que propunha propiciar a união alfandegária por um prazo de 10 anos.

Com o fim de seu mandato, ocorreram as eleições presidenciais. O processo eleitoral no Chile estava “regulamentado pelas leis nacionais e sob a supervisão e controle de organismos nacionais”, as votações processavam-se com tranquilidade e seus resultados eram sempre ratificados pelos organismos do direito. A última revisão da legislação eleitoral tinha estabelecido três inovações de importância: “a proibição de pactos eleitorais em eleições parlamentares e municipais; O reforço das sanções por falta de registo, e “a

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“Acuerdo de Integración Subregional”. Disponível em

http://www.dipublico.com.ar/10598/acuerdo-de-cartagena-pacto-andino-acuerdo-de-integracion- subregional-1969/ Acesso em 06/02/2015

criação de registos eleitorais permanentes”, ou seja, estas alterações legalmente estabeleciam que "o voto era tanto um direito e um dever” (GOMEZ, 1999, p. 55).

Em 1970, de acordo com dados estatísticos, a população total do país era de 9.569.631 habitantes, dos quais 4.723.210 homens e 4.846.421mulheres (CHILE, 2004 p. 36). Nas eleições presidenciais, o quantitativo populacional que concorreu às urnas foi de 3.539.747 votantes e se registraram 31.505 votos nulos ou brancos e 584.984 abstenções. (CHILE, 2004 p. 36) Essas cifras são reveladoras, pois, embora “naquele momento das eleições presidenciais de 1970 a sociedade chilena fosse uma das democracias mais sólidas do Cone Sul latino-americano” (GOMÉZ, 1999, p. 55), após uma campanha altamente politizada e polarizada, a cidadania enfrentou as eleições presidenciais mais divididas e, as mais socialmente engajadas da sua história, conforme nos comenta a estudante Sara, em sua entrevista:

Ainda não era estudante da Universidade de Chile, eu ingressei à Universidade após as eleições. Eu já tinha a minha tendência político-partidária definida, mas ainda não era tão engajada nos assuntos políticos como depois seria. Pese a não ter participado diretamente no processo eleitoral daquele ano, me refiro a trabalhar diretamente nas eleições como mais tarde o faria, naquele período acompanhei todo o desenrolar da campanha pelos periódicos, pela televisão e, também, pela minha participação nos comícios. O país vivia uma época de grandes discussões e atividade política, as pessoas participavam ativamente nos eventos político-participativos, semelhantes às manifestações que ocorrem no Viaduto do Chá ou na Praça das Bandeiras aqui em São Paulo. Todos os partidos levavam oradores, e tinham que ser muito carismáticos para manter a atenção dos partidários. Nessas ocasiões também se apresentavam artistas de diversas vertentes musicais que acabavam por se transformar no que aqui se denomina o “showmício”, por esse motivo o número de participantes nesses eventos era numeroso e contava com pessoas de todas as idades. Mas não se tratava só disso. Não, não. Além disso, existiam trabalhos de divulgação a respeito das propostas do candidato que cada um apoiava especificamente se trabalhava na distribuição de panfletos, na propaganda com bandeiras e faixas político-partidárias, a população era muito participativa (SARA, entrevista, 2014).

Houve muitos artistas que, guiados pelas suas afinidades político- partidárias, participavam em mais de uma apresentação por dia e, incluso,

iniciaram suas carreiras artísticas nessas apresentações. Sobre isso, Gustavo, um comerciante aposentado, que se tornou um folclorista, comenta:

Nós tínhamos participado da campanha de Allende, havíamos cantado e também... estivemos no Estádio Nacional... no Estádio Chile e em quase todas as programações de Allende e… desse... e havíamos participado de todos os festivais, e que são pouquíssimos os grupos que participaram em todos, que tenham a bagagem, o conhecimento que nos tivemos (GUSTAVO, entrevista, 2014).

Desse depoimento, infere-se que a população chilena, de uma forma geral, conhecia e acompanhava o processo político do seu país, o desempenho do trabalho político partidário dos candidatos à presidência e dos programas que apresentaram à Nação, quer dizer, existia “uma politização do cotidiano” (SADER, 2013, p. 148).

Uma vez findado todo o processo da campanha, em 04 de setembro, uma população altamente engajada e politicamente ativa manifestou, através de voto livremente emitido, a sua opção por uma mudança no rumo que a Nação tivera até essa época. Essa alternativa evidenciou-se no resultado eleitoral, quando os cômputos apontaram, conforme quadro abaixo, 36,29% dos votos dados foram a favor do candidato Salvador Allende Gossens.

CANDIDATO PARTIDO/COALICIÓN VOTOS %

Salvador Allende Gossens Unidad Popular (UP) 1.075.616 Jorge Alessandri Rodríguez Independiente de derecha 1.036.278 34,9%

Radomiro Tomic Democracia Cristiana 824.849 27,9%

Total votos válidamente

emitidos 2.946.743

Fonte: Diario El Mercurio, 5 de septiembre de 197017

Nesse momento histórico, no Chile, não existia a prática de um segundo turno18 para evitar candidatos vitoriosos sem maioria simples dos votos válidos num primeiro turno, assim, a definição da presidência devia ser resolvida pelo

17http://www.biografiadechile.cl/detalle.php?IdContenido=1633&IdCategoria=96&IdArea=472&Ti

tuloPagina=Historia%20de%20Chile e Diario El Mercurio, 5 de septiembre de 1970 18 Segundo turno: Balotagem

Congresso Nacional. Nesse caso analisado, a eleição propriamente dita, os resultados e a ratificação foram assuntos amplamente noticiados e discutidos pela população em geral a partir dos primeiros instantes em que se conheceram os resultados. A esse respeito Sara nos participa:

Ah! Esse dia, o dia da eleição foi muito agitado. Eu me lembro de que os meus pais foram votar muito cedo. As pessoas acompanharam a votação durante todo o dia e tudo corria muito tranquilo até que ao redor das 16 h as coisas se agitaram. A cada mesa que se fechava... e conforme os meios noticiosos informavam se escutavam gritos a favor de tal o qual candidato. Uma vez terminado o escrutínio geral e confirmado o resultado final, foi uma loucura... nos bairros, considerados pobres, as pessoas saíram as ruas, gritavam. Muitas saíram em carreatas, portavam bandeiras... no entanto, pairava a preocupação porque Allende não tinha obtido a maioria absoluta portanto, para se chegar a presidência, haveria de se negociar alguns pontos do programa de governo e essa negociação... não seria nada fácil (SARA, entrevista, 2014).

O índice de votos Allendista de 36,29% dos votos contra os 35,79% de Alessandri era altamente significativo. Salvador Allende já havia concorrido à Presidência em três oportunidades, a saber, em 1952, 1958 e 1964, porém, só agora em 1970, o candidato da “Unidad Popular” (UP)19 obtinha um resultado

que lhe possibilitava alcançar o mais alto cargo da República. Contudo, e embora essa cifra refletir a vontade de uma grande parcela do povo, “a pequena diferença de votos” [...] “fazia com que o Congresso Nacional fosse obrigado a ratificar definitivamente o presidente eleito” (ROMANO, 2011, p. 43)20, uma vez que, nenhum candidato tinha obtido uma franca maioria dos

votos, “fazia com que o Congresso Nacional fosse obrigado a ratificar definitivamente o presidente eleito” (Ibid:397), uma vez que, nenhum candidato tinha obtido uma franca maioria dos votos.

À vontade cidadã tinha-se manifestado, porém, ainda era preciso que, e parafraseando a Casais, a Unidade Popular (UP), ultrapassasse a última

19 Conjunto de partidos que apoiavam o candidato Salvador Allende entre os quais: Partido Radical, Partido Socialista, Partido Comunista, o Movimiento de Acción Popular Unitario, el Partido de Izquierda Radical y la Acción Popular Independiente y la CUT – Central Única de Trabajadores, y en 1973, la Izquierda Cristiana y el MAPU Obrero y Campesino (escisión del MAPU).

barreira direitista, que se concretizou em 22 de outubro, através da tentativa de sequestro seguida de morte do Comandante Supremo do Exercito René Schneider, cujo objetivo:

era provocar uma intervenção militar que impedisse o Congresso de homologar a vitória de Allende” [...] a repercussão de tais fatos gerou uma espécie de união nacional em repudio a tais ações trazendo o clima necessário à confirmação da vitória de Allende (ROMANO, 2011, p.43).

Para ser empossado na presidência, foi necessário assinar, em 24 de outubro, o “Estatuto de garantías constitucionales”, ou seja, o Pacto de Garantias Constitucionais, um conjunto de medidas que visavam resguardar a sociedade chilena, frente a um governo de linha marxista. Mediante essa assinatura, Allende comprometia-se a respeitar plenamente o estado de direito, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, o direito e a liberdade de expressão, de organização e de reunião de todos os grupos e tendências políticas, a conservar e respeitar o caráter pluralista e democrático da educação e a preservar a estrutura orgânica das forças armadas (GAUDICHAUD, (1970-1973)21, como requerido pela Democracia Cristã.

Conforme a narração do locutor oficial do Congresso Nacional iniciou-se, em 24 de outubro, às 10h39, a votação que definiria o novo presidente do país para o período 1970-1974 cujo resultado revelou: pelo senador Salvador Allende, 153 votos, pelo Sr. Jorge Alessandri, 35 votos. Com essa eleição, o Congresso Pleno proclama como Presidente da República o cidadão Salvador Allende Gossens e finaliza a sessão. Uma vez terminada a votação, Salvador Allende assumiu definitivamente o cargo de Presidente da República, transformando-se, assim no primeiro Chefe de Estado socialista marxista democraticamente eleito na América Latina e no mundo.

A votação no Congresso, bem como o resultado da Sessão, foi difundida à nação através de transmissão direta pela totalidade das estações de rádio e televisão e, no dia seguinte, foi publicado na imprensa, nacional e internacional, cujos títulos das matérias jornalísticas, podiam-se aperceber as tendências

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(Gaudichaud. F., Cronología de la Unidad Popular y del “poder popular”(1970-1973) Franck Gaudichaud ( [email protected])

politicas e os interesses defendidos por cada veiculo de comunicação. É preciso considerar que a imprensa “tem interesses peculiares, pertence a pessoas cujos interesses estão ligados a um complexo econômico, politico e institucional” (Abramo apud Camargo, 2012, p. 275) e, que como tal, deve-se inferir, nessas publicações, a informação encoberta que a posição do periódico transmite aos leitores.

Em busca de uma compreensão apropriada desses postulados, nos apoiaremos na observação e análise de duas manchetes do jornal “El Mercurio”, publicadas em 05 de setembro. Para um exame crítico mais apropriado, é necessário registrar que esse periódico tem se mostrado, desde as suas origens, vinculado aos ideais da direita chilena uma vez que, “Os grupos econômicos de comunicação Edwads (El Mercurio) e Consorcio Jornalístico de Chile S.A.. (COPESA) se consolidaram como corporações