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Como já dissemos, a língua age como um instrumento de interação entre cada usuário

e a sociedade na qual está inserida, assim, a relação entre língua e sociedade é visceral e

inegável.

Os usos lingüísticos variam geograficamente, socialmente e historicamente. Assim, há

três parâmetros: social, geográfico e histórico.

O parâmetro social, no qual ocorrem as variações diástricas, são correlatas aos grupos

sociais. Tais variedades ocorrem num plano vertical, dentro da linguagem de uma

comunidade específica (urbana ou rural). Atentemos para o esquema de Preti (2003, p. 24)

abaixo:

a

c

g

d

e

f

b

h

linguagem

comum

a c e g i

b d f h j etc.

AB – Eixo horizontal das variantes geográficas: falares

urbanos e rurais.

Ab, cd, ef, gh, ij, etc. – Eixos verticais das variantes

socioculturais. Podem ocorrer em qualquer ponto do eixo

geográfico.

Figura Variedade sociocultural 7

O parâmetro geográfico, no qual ocorrem as variações diatópicas, são correlatas aos

lugares. Elas se dão, segundo Preti (2003, p. 24), em um plano horizontal da língua, ou seja,

na concorrência das comunidades lingüísticas. As variedades diatópicas são responsáveis

pelos regionalismos, os quais provêm de dialetos ou falares locais. Observemos a figura

(PRETI, 2003, p. 24) a seguir:

A

B

C

D

ABCD: Limites da comunidade lingüística

Abcdefgh: Falares locais

B

A

Figura Variedade geográfica 8

O parâmetro histórico, no qual ocorrem as variações diacrônicas, são correlatas ao

falante ou ao grupo a que ele pertence. Tais variedades podem ser analisadas de acordo com

categorias como idade, sexo, raça, profissão, posição social, grau de escolaridade, local em

que o falante reside na comunidade etc. De tal forma, a carreira de um profissional da área

jurídica pode vir a determinar amplamente a maneira como ele utiliza a sua língua.

Essas variedades no uso da linguagem podem acarretar conseqüências no modo de as

pessoas se comportarem diante de outro falante. Calvet (2002, p. 72) desenvolve o conceito de

segurança lingüística e insegurança lingüística:

Fala-se de segurança lingüística quando, por razões sociais variadas, os

falantes não se sentem questionados em seu modo de falar, quando consideram sua

norma a norma. Ao contrário, há insegurança lingüística quando os falantes

consideram seu modo de falar pouco valorizador e têm em mente outro modelo,

mais prestigioso, mas que não praticam.

Desse modo, podemos considerar que existem vários modos de dizer a mesma coisa e

há formas mais prestigiosas do que outras. Essas condutas podem ser vistas, ao mesmo tempo,

como um fenômeno lingüístico e social, já que existe uma relação de forças subjetivas que se

refletem diretamente nos falantes da comunidade lingüística.

Além disso, é válido salientarmos que a norma culta é acionada já que se atribui

legitimidade a uma forma, que tem como parâmetros alguns critérios, tais como os de

prestígio, de status social etc.

Para Bourdieu (1990, p. 41 apud Calvet, 2002, p. 107), muito mais que simples

comunicação de sentido, os discursos são signos de riqueza, signos de autoridade. Eles são

emitidos para serem avaliados e obedecidos e, dessa forma, a estrutura social está presente no

discurso. Ou seja, por intermédio da linguagem, podemos reconhecer e diferenciar um

indivíduo de diferentes grupos sociais em uma comunidade lingüística, além de seu grau de

escolaridade, sua nacionalidade e naturalidade, sua condição econômica ou social, fato este

que pode vir a ser usado para discriminar ou estigmatizar o usuário da língua.

Temos variável lingüística no momento em que duas formas diferenciadas permitem

nos referirmos a uma mesma “coisa”, ou, ainda, quando dois significantes têm, em comum, o

mesmo significado e as diferenças entre os dois possuem um caráter estilístico ou social. Um

exemplo de variável lingüística, utilizado por Calvet (2002, p. 103), é: toalete, reservado,

banheiro, latrina wc ou sanitário. Para se determinar a que função corresponde tais variáveis,

poderíamos utilizar diversos critérios como, por exemplo, o da faixa etária. Ou seja, o juízo de

que os jovens provavelmente, e supostamente, usariam banheiro, os adultos wc, enquanto os

idosos, reservado. Pelo critério das classes sociais, imaginaríamos que a classe social de

maior poder aquisitivo utilizaria, preferencialmente, o termo toalete, enquanto a mais

desfavorecida, latrina. Porém, na utilização desses critérios, o uso é sempre presumido, já que

um falante ou um grupo de falantes pode utilizar qualquer uma dessas variáveis justamente

para infringir a norma.

No caso da apreciação pelo critério, temos a utilização involuntária e inconsciente da

variável lingüística, enquanto, no segundo caso, o uso é consciente e voluntário, e merece

uma apreciação social.

A variação lingüística pode ser decomposta em variação social e variação estilística

(LABOV apud LUCCHESI, 2002, p. 67). A variação social diz respeito às diferenças

observáveis nas falas das diferentes camadas sociais (alta, média, operária etc.), enquanto a

estilística faz referência à variação que é observada no falante de acordo com a situação na

qual ele se encontra (espontânea, formal etc.).

ostenta maior prestígio. Ele reflete um nível cultural que todos os falantes querem alcançar. O

dialeto social culto prende-se mais às regras da gramática tradicional, confundindo-se até com

a própria norma culta da língua, daí ser muito mais conservador. Ele costuma ser utilizado em

situações mais formais e seus usuários são escolarizados. A linguagem do nível culto é

artificial e conservadora.

O dialeto culto opõe-se ao dialeto ou nível popular, o qual é mais passível de sofrer

alterações provenientes da linguagem popular. Esse dialeto conta com o desprestígio sicial. O

nível normal atua como intermediário entre o nível culto e o popular.

c

Padrão lingüístico

Maior prestígio

Situações mais formais

Falantes cultos

Literatura e linguagem escrita

Culto Sintaxe mais complexa

DIALETOS Vocabulário mais amplo

SOCIAIS Vocabulário técnico

Maior ligação com a gramática e com a língua dos

escritores

etc.

Comum

Subpadrão lingüístico

Menor prestígio

Situações menos formais

Falantes do povo menos cultos

Popular Linguagem escrita popular

Simplificação sintática

Vocabulário mais restrito

Gíria, linguagem obscena

Fora dos padrões da gramática tradicional

etc.

O ambiente, ou fator situacional, no qual ocorre o ato comunicacional também pode

influenciar o nível da linguagem, ou seja, a situação criada pela ocasião, lugar e tempo nos

quais a comunicação se dá, e, além disso, o vínculo que reuniu o falante e o ouvinte naquele

momento.

Inseridas no nível culto da linguagem, podemos encontrar algumas vertentes

interessantes:

A linguagem técnica e científica é uma modalidade próxima do nível culto, já que se

ampara na gramaticalidade para imprimir imagem de precisão, rigor e neutralidade ao seu

discurso. Os vocábulos utilizados nessa linguagem podem ou não ser idênticos aos da

linguagem comum, mas, neste caso, deverão ter um sentido monossêmico e preciso.

A variante de linguagem burocrática é notada pelo uso da norma culta, de

perífrases, do jargão, de expressões excessivamente técnicas, de formalidades de tratamento e

pela ausência de espontaneidade e de gírias. Se a burocratização no uso da linguagem tiver

como intuito torná-la ininteligível para alguns, gera obscuridade e contraria uma função

primordial da linguagem que é a da comunicação. (MEDEIROS; TOMASI, 2004, p. 29 e 30)

O nível normal da linguagem seria o que se desvia das formalidades e dos

rebuscamentos lingüísticos. É exemplo dele o estilo de texto utilizado pelos jornalistas.

A linguagem popular é uma variante cujo maior objetivo é a comunicação clara e

eficaz da mensagem. Por isso, tende a ser mais informal e espontânea. Essa linguagem é

considerada desprestigiada e estigmatizada.