Denzin (apud FLICK, 2009b, p. 207) afirma que a observação participante combina métodos como a análise de documentos, a entrevista, a participação e a observação diretas, a introspecção. Mas o que realmente caracteriza a observação participante numa pesquisa qualitativa é a inserção do pesquisador no meio observado, a partir de uma perspectiva de membro, ao ponto de influenciar e ser influenciado por aquilo/aqueles que observa (FLICK, 2009b, p. 207) e sem julgar os eventos a partir de sua ótica pessoal, mas com base na relativização, como enfatizam estas palavras de Erickson (2004, p. 14-15):
O etnógrafo está consciente de possibilidades humanamente disponíveis para organizar a interação social que está sendo observada. Portanto, observação etnográfica é inerentemente crítica, mas não negativa, necessariamente. [...] Sua posição é aquela do realismo crítico. [...] o observador participativo tenta continuamente ser simultaneamente um estranho e um amigo no ambiente do campo.
Assim, procurei assumir o papel de pesquisadora insider, especialmente por também ser professora de Ensino Médio em escola pública. Esse meu papel social contribuiu não só para que minha entrada em campo se desse de forma tranquila, mas também para que eu desenvolvesse o senso de relativização em relação a minha própria prática pedagógica, para que eu visse as relações estabelecidas numa sala de aula de forma um pouco diferente da que eu vejo quando estou no papel de professora e não de pesquisadora.
Também desenvolvi novo olhar sobre o aluno, pois eu sempre me sentava entre eles para observar as aulas. Nesses momentos, pude entender um pouco mais do universo dos adolescentes que, como eu, mas com objetivos diferentes, estão sentados durante o tempo da aula na posição de observadores. Essa posição passiva deve ser revista pela escola, pois os jovens precisam ser levados a assumir o papel de protagonistas na construção do conhecimento, na aprendizagem, na avaliação e na autoavaliação, mas, especialmente, no papel de cidadão crítico e consciente.
Durante as observações, pude perceber que, em determinados momentos, minha presença alterava significativamente o ambiente da sala de aula. Por vezes, eu causava um certo tumulto até me apresentar para a classe. Outras vezes, percebia um aumento da fala monitorada dos professores. Também observei que alguns alunos assumiram uma postura um pouco mais questionadora em relação aos professores. Como acompanhei o desenvolvimento de alguns projetos, percebi mais envolvimento e interesse dos alunos nessas atividades do que nas aulas propriamente ditas.
É importante frisar que eu gravava tudo o que podia em áudio e anotava as informações mais importantes numa caderneta para que eu pudesse selecionar posteriormente os dados para a análise. Com relação ao procedimento de obtenção de dados em observações de campo, Flick (2009b, p. 208-209) aconselha que é importante determinar se serão feitas anotações de campo ou se serão usadas fichas estruturadas de protocolo.
Por um lado, o uso de fichas de protocolo torna o trabalho de observação mais objetivo, pois elas definem concretamente atividades e situações a serem documentadas. Por outro lado, essas fichas limitam a percepção de dados da realidade em observação. De todo modo, optando-se pelas fichas ou pelas notas de campo, “nem todos os aspectos de uma situação podem ser compreendidos (e
anotados) ao mesmo tempo” (FLICK, 2009b, p. 208). Por essa razão, decidi fazer notas de campo.
Nesta pesquisa, procurei seguir as três fases da observação participante descritas por Spradley (apud FLICK, 2009b, p. 208), a saber:
1. observação descritiva: fase de apreensão da complexidade do campo “para desenvolver questões de pesquisa e linhas de visão mais concretas”;
2. observação focalizada: fase de coleta de informações restritas aos “processos e problemas que forem os mais essenciais para a questão de pesquisa”;
3. observação seletiva: fase final de coleta de dados para “encontrar mais indícios e exemplos para os tipos de práticas e processos descobertos na segunda etapa”.
A fase de observação descritiva iniciou-se em setembro de 2009 e foi definida a partir das agendas a mim apresentadas pelos professores colaboradores. Sendo assim, foi eleito um dia na semana para que eu comparecesse às aulas de Matemática e de Sociologia – as quartas-feiras –, e às aulas de Língua Portuguesa eu poderia comparecer a qualquer momento, mas optei por assisti-las nas segundas- feiras.
Essa foi uma fase de adaptação à escola, observação das rotinas, aplicação de questionários, elaboração e organização das questões de pesquisa e das metas para as próximas fases de observação.
Na fase focalizada, além de tomar notas das aulas dos colaboradores, busquei visitar a escola em outros momentos para observar a estrutura, o funcionamento e a gerência de tudo o que acontecia no seu interior. Também participei de coordenações, conversei informalmente com alguns professores e com membros da Direção e doei uma caixa de livros paradidáticos para a biblioteca da escola, momento em que aproveitei para obter informações sobre a utilização daquele espaço por alunos e professores. Todos os procedimentos foram tomados em busca de informações mais precisas para responder às questões e atender os objetivos da pesquisa.
Na fase final de geração de dados, a observação seletiva, em março de 2010, fizemos um grupo focal, eu e os professores colaboradores, e solicitei a eles que me entregassem um memorial de leitor/escritor nesse mesmo dia. Depois, fui convidada pelos colaboradores a observar o planejamento do Aulão Multidisciplinar, um projeto da escola que engloba quase todos os professores de todas as disciplinas do turno vespertino.
Nesse evento, que ocorre mensalmente, os professores trabalham suas disciplinas de acordo com um tema votado por todos e preparam tudo com antecedência, discutem, opinam e o espaço é aberto para concordâncias e discordâncias acerca de todos os passos do Aulão. Estive presente com gravador de áudio e me foi permitido filmar a coordenação e o Aulão. Infelizmente não foi possível, por falta de espaço, apresentar uma análise do Aulão nesta tese.
Essa fase foi um complemento importante para a pesquisa, pois pude confirmar alguns aspectos observados na segunda etapa e complementar a observação sobre aspectos mais gerais do trabalho dos professores para o efetivo desenvolvimento dos letramentos, como atividades interdisciplinares e multidisciplinares promovidas pela escola à luz do que preconizam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e como esse trabalho é organizado coletivamente.