Choice of Altimetric System
5.1 Decisive Factors
Com a contribuição de W. Penck (1924, 1953 apud ABREU, 1982), a interpretação do relevo foi subsidiada pela noção de interação entre processos endógenos e exógenos responsáveis pelo aspecto da superfície da Terra. Dessa abordagem, ampliam-se os estudos sobre os processos exógenos, que foram identificados como processos geomórficos e como processos e sistemas morfoclimáticos e morfogenéticos, à luz da abordagem, que foi intitulada Geomorfologia Climática, com diversos autores como Büdel (1948), Cholley (1950), Tricart e Cailleux (1965 apud Chrisfofoletti, 1972). A partir da década de 60 do século XX, o termo processos geomorfológicos é empregado para se fazer referência à dinâmica dos processos superficiais, subsuperficiais, físicos ou químicos, que ocorrem, principalmente, na escala espacial de vertentes, porém sem remeter ao conceito processo geomorfológico, associado à abordagem climática.
Diante das possibilidades de conceitos que refletem, até certo ponto, a concepção teórica e o contexto histórico no qual se originaram, acredita-se que o melhor termo seja o de processos geomorfológicos, para fazer referência aos processos exógenos, indiferentemente, das escalas espacial e temporal que se esteja abordando. Esse conceito é, então, concebido nesta Tese como o de referência aos processos externos, em interação e dinâmica com as condições do ambiente (clima, vegetação, solo, litologia, estrutura, topografia, atividades humanas), co-participativos dos processos endógenos.
Na atualidade, sabe-se da variedade de agentes, fatores, mecanismos, condicionantes e processos, que participam e influenciam o aspecto do relevo. As ações de transferência de energia e matéria e os processos que contribuem para as modificações e elaboração das formas de relevo e das vertentes, na interface litosfera, biosfera, hidrosfera e atmosfera, independentemente, dos seus agentes (naturais ou antrópicos), de sua intensidade, frequência e magnitude correspondem a processos geomorfológicos.
De acordo com Casseti (1991, p. 63), entende-se por processo geomorfológico,
[...] todo e qualquer fenômeno responsável por alterações evolutivas das vertentes. São portanto os responsáveis pela esculturação das vertentes, representando a dinâmica externa, envolvendo as seguintes etapas: abrasão, transporte e acumulação.
Nessa definição, o autor destaca os processos físicos e remete à ideia inicial de atuação de processos naturais nas vertentes. Gregory (1992), por outro lado, faz referências aos estudos sobre processos geomorfológicos, destacando os impactos das atividades
humanas sobre esses processos e seus “resultados”, que podem aparecer nas vertentes, nas planícies fluviais e em toda uma bacia hidrográfica. Embora seja uma importante unidade de análise, a vertente compõe e inter-relaciona-se com outras unidades. Assim, pensar processos geomorfológicos não significa restringir-se ao estudo da vertente, mas ao estudo dela em interação com os demais ambientes que a contêm.
Conforme já apresentado anteriormente, a interpretação das formas de relevo apoiava-se no estudo da sua gênese em função dos processos endógenos e exógenos, na escala espacial regional e continental e na escala temporal de milhões e bilhões de anos; portanto, uma gênese concebida à luz de alguns parâmetros da Geologia, da morfogênese, presentes na escola anglo-americana.
Por outro lado, na escola germânica, verificava-se a interpretação das formas de relevo pautada na dinâmica externa, estabelecida na lógica dos sistemas abertos, da dinâmica externa, em que forma é assumida como “produto” dos processos geomórficos.
Com o advento da Tectônica de Placas e da Expansão dos fundos oceânicos, portanto, um pensamento sobre a dinâmica global – Tectônica Global – passou-se a conceber o relevo como expressão material da interação de forças, energias e trocas de materiais. Logo, o relevo é concebido, sob o ponto de vista metafísico, resultante da interação dos ritmos bioclimáticos, eustáticos e tectônicos (KLEIN, 1985). Esse relevo pode ser investigado à luz da morfotectônica, da morfogênese e da morfodinâmica, em ampliação à visão e à concepção apenas das formas de relevo (relevo físico), respeitadas as possibilidades de escala de apreensão do fenômeno e do relevo materializado.
Alguns autores, como Rodhe (1966, 1996 apud SUERTERGARAY, 1997), Peloggia (1998) consideram pertinente, também, o conceito de tecnogênico para a abordagem das formas resultantes da ação humana, quando responsável pela aceleração ou desencadeamento de processos geomorfológicos.
Ao adotar esse conceito, destaca-se o papel do homem no processo de contínua elaboração das formas, mas não se deve pensar que, somente agora, o agente humano passou a existir. O que mudou foi sua capacidade, técnica e científica, de promover modificações nos mecanismos de funcionamento do sistema responsável pelas micro e mesoformas.
[...] o conjunto de processos desencadeados a partir de intervenções humanas são equivalentes àqueles ligados à dinâmica original dos sistemas de vertente, uma vez que as leis da natureza são sempre as mesmas. Entretanto, aos processos erosivos induzidos pelos homens associa-se, na grande maioria dos casos, uma intensidade mais acentuada, razão pela qual o conjunto desses processos é chamado de erosão acelerada.
É possível verificar que Colangelo (1997) considera o tempo uma escala e não um processo evolutivo. Percebe-se, ainda, a mesma consideração de sistema complexo, no qual estabilidade e equilíbrio devem ser entendidos como na discussão de Lichty e Schumm (1972), Summerfield (1994). Esse enfoque está muito presente na Geomorfologia experimental, a qual se ocupa “do estudo da estrutura funcional dos processos erosivos atuais e, consequentemente, da participação destes na evolução dos sistemas de vertente” (COLANGELO, 1997, p. 51). Nessa abordagem, ressalta-se a intervenção humana sobre a dinâmica geomórfica erosiva natural.
Em função dessa abordagem sobre os processos atuais e a intervenção do homem sobre o ambiente, verifica-se, também, uma discussão sobre relevo a partir de diferentes significados: o relevo na análise geográfica, o relevo como recurso natural imaterial e o relevo como importante subsídio ao planejamento e gestão ambiental (VENTURI, 2008). Essa discussão é verificada entre outros trabalhos, como em Carvalho (1986), Carvalho (2002), Suertegaray (2000), Bertolini (2006), Oliveira e Nunes (2008) e se estende como perspectiva de abordagem para o ensino de Geomorfologia na escola básica.
Nesta Tese, faz-se também distinção entre processos morfogenéticos e morfodinâmicos. O primeiro, de acordo com Suetergaray (2005), compreende a abordagem do relevo pela sua evolução e gênese, enquanto o segundo pela dinâmica dos processos atuais.
REPRESENTAÇÃO ESPACIAL
A representação espacial implica em lidar com as contradições inerentes à própria natureza da percepção: o único e o múltiplo; a parte e o todo; o idêntico e o diferente; o mesmo e o outro; o aqui e o alhures.
(Pino, 1996)
De acordo com Guedes ([s.d.], p. 12 apud ARAÚJO, 1999, p. 79) a Geometria originou-se da “relação dialética entre vida ativa e pensamento abstrato” e das necessidades dos homens. Ao observar a natureza, ao produzir seus próprios instrumentos, o homem deu seus primeiros passos em direção à abstração de imagens e de relações espaciais (VIANA, 2000).
Assim como o aprendizado de qualquer conhecimento, o de Geometria, especificamente, o de conceitos geométricos, deve ser contínuo e pode ser iniciado, ainda, quando criança, pela compreensão intuitiva do espaço para, depois, atingir elaborações mais abstratas até alcançar o entendimento das relações espaciais (PIAGET e INHELDER, 1993). Experiências que possibilitam desenvolver habilidades como a observação, a descrição, a comparação, dentre outras, são importantes e tornam possíveis aos aprendizes alcançar níveis superiores de pensamento geométrico (ARAÚJO, 1999).
As formas podem ser vistas, percebidas e apreciadas pelas pessoas, mas, assim como aconteceu na história da humanidade, não é apenas pela observação delas que se podem construir os conceitos geométricos: é necessário conhecer, também, uma rede de conceitos, geralmente apreendidos na escola, para saber geometria (VIANA, 2000).