2. THEORETICAL BACKGROUND
2.4. Decision-Making in theory
2.4.1. The Decision-Making process for humans
Alvesson e Billing (1997) apontam que os estudos sobre gênero parecem situar-se em torno de três grandes temas: (a) relações de gênero como relações de dominação, desigualdade e opressão (b); a noção de gênero como elemento central para compreensão das relações sociais, instituições e processos; (c) relações de gênero como construções sociais (ALVESSON; BILLING, 1997). Os autores adotam a nomenclatura “estudos de gênero” ao invés de “estudos feministas”, pois acreditam que as relações de gênero devem ser investigadas além de uma visão em prol das mulheres. Assim, os estudos de gênero não teriam por objetivo dar suporte aos interesses das mulheres, mas também lidar com aspectos diversos como, por exemplo, o homem e a masculinidade. No entanto, como apontam os autores, pelo fato do feminismo ser um conceito e uma orientação dominantes nos estudos sobre gênero, é comum encontrar as nomenclaturas sendo usadas como sinônimos.
Dentro desses grandes temas, os autores utilizam-se da distinção proposta por Harding (1987) que posiciona os estudos sobre gênero em três grupos, ainda que essa divisão acabe por atender mais questões didáticas do que representem o campo de estudo que de fato
4 Do original, “gendered individuals”. (GHERARDI, 2005, p.223).
não é tão compartimentalizado: gênero como variável, a visão feminista e o feminismo pós- estruturalista. A partir desses três grupos, os autores se posicionam no que eles denominam de uma perspectiva crítica-interpretativa. Vamos, em seguida, compreender cada uma dessas visões para chegarmos à perspectiva dos autores.
a) Gênero como variável
A abordagem do gênero como variável tem o gênero (sexo) como uma variável que considera a mulher como uma categoria de pesquisa relevante, porém sem problematizá- la. O interesse central é o de comparar mulheres e homens acerca de desigualdades e discriminações, na busca de explicar tais fenômenos. Investiga-se de que maneira e em quais circunstâncias mulheres e homens diferem em termos de orientações subjetivas (psicológicas, éticas, atitudes) e como as estruturas sociais e processos as afetam. Entender o gênero sob essa perspectiva significa se atentar às condições específicas das mulheres e, assim, considerar as possíveis diferenças entre homens e mulheres para entender os diferentes arranjos que se apresentam, como a divisão do trabalho, a diferença na remuneração, os processos de recrutamento e seleção, os estilos de liderança, entre outros. No início dos anos 1970, olhar para a condição da mulher e como essa se diferenciava da condição do homem era uma decorrência lógica para as pesquisas já que as mulheres anteriormente haviam sido mantidas fora do contexto de estudos. Assim, a mulher foi incluída como categoria de análise ainda que gênero fosse abordado de uma maneira simplificada, resumindo-se a estar relacionado a diferenças biológicas de sexo.
Essa abordagem do gênero como variável foi amplamente difundida na literatura denominada “women in management”, que se desenvolveu a partir da década de 1970 em estudos sobre mulheres e as particularidades vivenciadas no contexto organizacional, sendo ainda a corrente predominante no campo até os dias atuais (ALVESSON; BILLING, 1997). As pesquisas geralmente se desenvolvem com metodologias quantitativas, ainda que também existam estudos qualitativos; de qualquer maneira, a objetividade e a neutralidade são pontos centrais nesta abordagem, que considera que a realidade pode ser estudada racionalmente a partir da aplicação rigorosa de procedimentos científicos.
b) A visão feminista
A visão feminista, por sua vez, enfatiza a importância de uma teorização mais abrangente e profunda da situação das mulheres e suas experiências. Gênero é entendido como um princípio organizador da sociedade patriarcal, na qual as relações sociais são estruturadas por diferenças hierárquicas entre homens e mulheres na sociedade. Esta perspectiva pressupõe a existência de experiências ou interesses específicos às mulheres que
diferem radicalmente da maioria dos homens. Assim, essa corrente busca contribuir para a emancipação das mulheres de condições sociais opressivas e, por conseguinte, adota uma visão engajada a estimular e promover mudanças sociais. Por conseguinte, esse corpo de pesquisa procura dar visibilidade às mulheres como figuras ativas na criação de suas próprias vidas, e não como vítimas ou como variáveis em comparação aos homens.
O foco destas pesquisas recai sobre as mulheres e está em prol das mulheres, afastando-se de comparações entre homens e mulheres, no sentido de que existem elementos que as caracterizam (as mulheres), conferindo-lhes um senso distinto e único de feminilidade. Essa perspectiva é mais abrangente que a anterior – gênero como variável – por considerar que a sociedade está estruturada de acordo com o gênero, e que a ciência também é dominada por pressupostos masculinos; desta maneira, existe um contexto amplo de dominação sobre as mulheres, que atua como pano de fundo dessa abordagem na busca de trazer à tona a consciência de gênero e não necessariamente estabelecer uma verdade (ALVESSON; BILLING, 1997). Incluir as experiências e interesses da mulher nas pesquisas se faz necessário para reduzir o viés do conhecimento nos estudos organizacionais, por exemplo. Ademais, a experiência da mulher pode trazer uma contribuição especial às pesquisas, visto que grupos excluídos podem trazer descrições e interpretações mais adequadas e críticas que vão além do ponto de vista dos grupos privilegiados, no caso, os homens.
Em termos de metodologia, abordagens que dão espaço para experiências pessoais e visões críticas são mais utilizadas, traduzindo-se, portanto, em trabalhos qualitativos em sua maioria. Os estudos, em geral, partem das experiências de discriminação e opressão vivenciadas pelas mulheres. Pesquisas sob esta perspectiva também acabam por adotar visões mais críticas acerca das práticas organizacionais, incluindo, por exemplo, organizações feministas – aquelas direcionadas às necessidades e objetivos das mulheres utilizando-se de princípios considerados feministas (MORGEN, 1994; FOURNIER; KELEMEN, 2001).
c) O feminismo pós-estruturalista
Finalmente, a perspectiva do feminismo pós-estruturalista, refere-se às categorias de gênero e às noções de homem e mulher, masculino e feminino como instáveis, ambíguas e associadas a um contexto (ALVESSON; BILLING, 1997). A linguagem não é apenas um reflexo da realidade, mas é validada dentro de um contexto e em relação a esse contexto. O significado de “mulher”, por exemplo, não é universal, mas varia de acordo com o contexto da linguagem no qual é utilizada.
O pós-estruturalismo é um movimento intelectual que ganhou destaque nas ciências sociais a partir o final da década de 1980. Sua tese central relaciona-se às práticas
sociais que envolvem o significado do sujeito e da subjetividade não apenas mediadas pela linguagem, mas constituídas pela linguagem e por meio da linguagem. Assim, é necessário conhecer a tradição pela qual a linguagem quer ser entendida e desconstruir essa tradição para entender como as pessoas são constituídas nas práticas linguísticas e sociais (GHERARDI, 1995). De acordo com essa visão, o mundo é fragmentado e, desta maneira, as noções analíticas de gênero, raça, classe, homem, mulher são também fragmentadas; qualquer tentativa de generalização acaba por encobrir as variações e as diferenças e é, portanto, questionada. Essa perspectiva, assim, traz certo ceticismo quanto às verdades universais já que adota a diferença e a variação como elementos centrais (ALVESSON; BILLING, 1997).
O feminismo pós-estruturalista enfatiza a arbitrariedade e a vulnerabilidade das construções sociais; assim, gênero, relações de gênero, identidade de gênero são somente compreendidos como fenômenos dinâmicos e indeterminados. Por conseguinte, esta perspectiva não busca estudar os homens e as mulheres, mas os discursos acerca dos homens e das mulheres; não existe uma verdade objetiva que se estabeleça independente do discurso (ALVESSON; BILLING, 1997). Segundo os autores, esta abordagem tem sua versão forte e fraca. A primeira está centrada no discurso como elemento central a ser analisado em termos de sua estrutura para revelar contradições, sentidos implícitos e representações alternativas, como por exemplo, o trabalho de Martin (1990), que analisou o discurso do presidente de uma organização acerca do que a empresa estava fazendo para ajudar as mulheres a lidarem com questões de trabalho e vida pessoal. Tal análise revelou que o discurso em si reprimia os conflitos entre gênero que continuavam fortemente presentes naquele contexto organizacional.
A versão fraca, por sua vez, enfatiza a linguagem relacionada ao mundo social e não a linguagem como sendo o mundo social: “Existe algo lá fora, além do uso da linguagem.” (ALVESSON; BILLING, 1997, p.42, tradução nossa). Os discursos são entendidos como narrativas inseridas em um contexto, que compreendem a experiência do sujeito, podendo ser descritas e interpretadas de diferentes maneiras. Essas noções são construções linguísticas que precisam ser desconstruídas para que a complexidade e a diversidade possam ser reveladas. Nesta perspectiva, o foco é na diferença e nas variações, abandonando-se noção de verdade como algo generalizante. Questões como ‘o que define o masculino e o feminino em certo contexto?’, ‘o que está por trás das noções de gênero?’ são exemplos de questionamentos nessa perspectiva na qual a linguagem cumpre um papel central de criar sentidos e realidades que estão não somente limitadas historicamente, mas também contextualizadas localmente (ALVESSON; BILLING, 1997).
d) A perspectiva dos autores
A partir dessas três visões, os autores posicionam-se no que eles denominaram de perspectiva crítica-interpretativa cuja característica é a combinação das diferentes perspectivas apresentadas.
Quanto à abordagem epistemológica, ela se aproxima do pós-estruturalismo e se afasta da pesquisa positivista, considerando que certo grau de objetividade é possível. Ao invés de se evitarem as generalizações, elas são contextualizadas localmente para buscar tanto a diferença e a fragmentação, como também padrões comuns por meio de análises interpretativas que olham as ideias, as compreensões e aspectos mais sutis. A linguagem é assumida como ambígua e carrega um significado dependente de um contexto; está, portanto, relacionada a uma realidade, representa uma realidade e precisa ser tratada com cuidado para que se entendam os significados compartilhados. No entanto, de acordo com a perspectiva proposta pelos autores, a linguagem é mais um elemento da pesquisa, mas não é o único ou o mais importante elemento do processo de pesquisa.
Quanto ao engajamento político, os autores entendem que a pesquisa contribui para revelar e lançar luz às questões relacionadas ao gênero, assumindo assim um caráter emancipatório, mas sem o compromisso primeiro de estimular ou promover mudanças sociais que privilegiem certo grupo: assim, está em uma posição intermediária entre total engajamento e nenhum posicionamento político. Em oposição às tradições feministas que buscam descrever a verdadeira natureza da sociedade patriarcal, a visão crítica-interpretativa questiona se existe uma descrição adequada dessa sociedade multifacetada. Assim, evitam-se simplificações e apropriações de visões tendenciosas (somente de um lado) acerca das estruturas assimétricas de poder. Assume-se que as relações de gênero variam consideravelmente entre sociedades, culturas e outras macro-categorias como classe, grupos étnicos, idade ou país. A pesquisa precisa de atentar a essas variações, mas isso não significa a busca aprofundada da diferença e da variação proposta pelo pós-estruturalismo.
O quadro a seguir consolida as perspectivas apresentadas por Alvesson e Billing e indica o posicionamento dos autores.
Concepção de conhecimento Comprometimento Verdade absoluta, validação de teorias e hipóteses Verdade posicionada Evitam-se “verdades”, espaço para a desconstrução Engajamento
Político Perspectiva feminista
Comprometimento cético, questionável VISÃO CRÍTICA- INTERPRETATIVA Perspectiva feminista pós estruturalista Comprometimento
contido, mais leve Gênero como variável
Quadro 2 – Comparação das perspectivas.
Fonte: Adaptado de Alvesson e Billing, 1997, p. 45.
A partir da perspectiva crítica-interpretativa, Alvesson e Billing partem para o estudo das organizações e das relações de gênero que perfazem o universo organizacional considerando oposições, ambiguidades e variações locais, contribuindo para o entendimento das organizações como entidades complexas. Os autores posicionam-se entre a ausência total do gênero nas pesquisas e a visão feminista que só considera um lado da experiência: o das mulheres.