3 Historisk bakgrunn
3.3 De tre argumentene og demokratisering under Mubarak
A relação entre decoro e caráter foi problematizada ainda na antiguidade. Comparece na defi- nição apresentada por Vitrúvio justamente para o preceito, e tomou proporções interessantes a partir do século XVI. Regulado pelo decor, um dos seis preceitos fundamentais da arquitetu- ra definidos no primeiro dos Dez livros de Arquitetura (Ordinatio, Dispositio, Eurythmia, Sym-
metria, Decor, Distributio), o caráter da arquitetura depende necessariamente dos elementos
e proporções que conformam o aspecto de seu corpo. Os exemplos utilizados por Vitrúvio são da arquitetura religiosa. Conforme o éthos da divindade, o aspecto do templo deve convir:
O decoro [decor] consiste na perfeição formal de uma obra, efetivado ao se utilizar com competência elementos justos e apropriados. Realiza-o seguindo uma regra – em grego thematismoi – ou segundo um costume ou conforme a natureza. Seguir-se-á uma regra quando forem erguidos edifícios a céu aber- to, privados de teto, em honra de Júpiter Fulminante, do Céu, do Sol e da Lua; de fato as manifestações destas divindades são visíveis aos nossos olhos a céu aberto e à luz do sol. A Minerva, a Marte e Hércules devem ser dedicados templos dóricos, porque, conforme seu caráter viril, em honra destes deuses convém que se ergam edifícios privados de ornamentos. Em honra de Vênus, de Flora, de Prosérpina [...] templos construídos segundo a ordem coríntia evidenciarão guardar as características apropriadas, porque, conforme a de- licadeza destas divindades, obras com certa graça, floridas e ornadas com folhas e volutas acentuam o caráter decoroso que lhes convém. [...]64
Vitrúvio prossegue na explicação do preceito, sendo que, dos seis princípios fundamentais supracitados, o decor é contemplado, de longe, com a maior e mais minuciosa definição. Ao exemplificar o segundo dos três modos (statione, consuetudine, natura), com que se perfaz (perficere) o decoro65, ou seja, segundo o “costume” (consuetudo), Vitrúvio exalta a necessá-
64 VITRUVIO. De Architectura, L. I, § 5, p. 28-29.
65 O uso do verbo perficere por Vitrúvio ilumina os sentidos de “aperfeiçoamento” e também de estar
resguardado o “aspecto correto [perfeito, emendado] da obra” (“emendatus operis aspectus”), quando então “é perfeito” (“Is perficitur”) – como conjugação da voz passiva ou particípio passado (perfectus) do verbo perficere, ou seja, o que se apresenta terminantemente feito e acabado, “perfeito”, portanto, além da conotação adjetiva – o decoro: “Decor autem est emendatus operis aspectus probatis rebus
compositi cum auctoritate. Is perficitur statione, quod graece temathismos dicitur, seu consuetudine aut natura”. Cf. VITRUVIO. De Architectura. L. I, § 5. (grifo nosso). Para uma análise radical do verbo perficere, cf. SARAIVA, Antonio. Dicionário latino português. Rio de Janeiro: Garnier, 2000. (ed. fac-
símile de 1927), p. 870-871: “Perficio, is, feci, fectum, ficere (de per + facio): Fazer inteiramente, acabar, terminar, perfazer; fabricar (com arte) [...] aperfeiçoar”, etc. Freqüentemente, o verbo é traduzido por termos que, embora gramaticalmente coerentes, deixam perder sentidos bastante aportunos para o aprofundamento dos conceitos na arquitetura. Por exemplo, a boa tradução do De Architectura, efetiva-
ria correspondência entre o interior do edifício e seu vestíbulo:
O decoro é expresso através do costume quando para edifícios de interiores suntuosos [magnificis] forem construídos também vestíbulos convenientes e elegantes. Porque se interiores de aspecto elegante tiverem ingressos humil- des e desonestos não se respeitou o decoro66.
O preceito da correspondência entre as partes interna e externa de um edifício foi uma ques- tão importante para a arquitetura religiosa, principalmente a partir do século XVI. Vários arqui- tetos e tratadistas também consideraram o problema, mais polêmico no âmbito religioso por envolver questões de índole ética mas também simbólica, culminantes ambas na conforma- ção do aspecto mais adequado da arquitetura.
Assim como autorizara Vitrúvio, o costume de se dedicar gêneros convenientes ao caráter da divindade foi assimilado, obviamente, pelos autores cristãos, quando vincularam o gênero, o caráter das ordens à destinação, virtude e orago das igrejas. Matheus do Couto, tratadista português do século XVII, definiu assim a conveniência das Ordens: “Sobre a Coluna Toscana […] Esta Coluna hé a mais humilde de molduras q há […]. A obra Toscana toda hé forte, e se- não deve por senão debaixo de todas as ordens, quando as haja, hûa sobre a outra. […] Este genero Toscano, temos dito q’ he o mais firme e forte, e assi foi necessario hevello p.ª se acco- modar nas Fortalezas, muralhas, Portas da cidade, e nas fabricas nobres, onde haja de haver outros generos” (p. 7-10); “Da ordem Dorica”. Os antigos dedicarão este genero Dorico, à Jupiter, Marte, Hercules, eaalguas outras deidades Robustas. Porem Serlio quer q’ esta obra depois q’ N. Sôr [Nosso Senhor] veyo ao Mundo se dedique aquelles Santos que padecerão pela sua Fé”. (p. 10); “Da ordem Ionica”, “[…] E quando se houver de edificar Templo, havendo de ser á Santo, que seja aquelle q’ participe de vida robusta, e branda. E havendo de ser á Santa, q seja aquella que o veyo a ser depois de Matrona” (p. 14-15); “Da ordem Corinthia”, “Este genero Corinthio foy inventado em hua Cidade chamada Corintho, no Poloponeso, he mais rica e ornada q’ as outras, e as colunas mais sahidas, e estriadas […]. Esta Ordem quer
da por Antonio Corso e Elisa Romano, que utilizo aqui, apresenta para o dito verbo o termo “realizzata” (a concordância de gênero feminino é com a tradução do termo latino “decor” pelo italiano “convenien-
za”). A tradução certamente se justifica pela finalidade da obra, destinada à divulgação do tratado no
meio disciplinar da Arquitetura. Todavia, exige do leitor a consciência do contexto retórico em que o tratado se insere, a fim de não permitir que os substantivos “realidade”, “realismo”, bem como seus derivados, gerem entendimentos estranhos ao contexto.
66 VITRUVIO. De Architectura, L. I, § 6, p. 28-31. Continuando a explicar a perfeição pelo “costume”,
Vitrúvio afirma a necessidade de se ter os devidos ornamentos mantidos em seus gêneros originais, não sendo aconselhável transportar elementos de um gênero a outro, o que comprometeria o decoro.
Serlio, e com muita razão, q’ pois o Capitel foy dirivado de húa Virgem […] q’ se edifique á Vir- gem N Sr.ª e havendo de ser a Santos, ou Santas, q seja áquelles q guardarão, e tiverão vida virginal. E havendo de ser em Edificios, seja em Mostr.ºs [mosteiros] q guardem esta virtude. E sendo em edificios de particulares, seja aquellas pessoas de vida honesta e casta”(p. 19-20); “Da Ordem Composita. A Ordem Compozita foy invenção dos Antigos Romanos; alguns lhe chamavão Latina, e outros Italica. Esta Ordem compuzerão da Ionica, e Corinthia, meterão no Capitel as voltas do iônico com os ovos, eo mais tomarão do Capitel Corinthio. Nesta Ordem poderemos variar, eainda q’ Vitr.º não trata della, contudo chegandonos sempre aos seus textos; havendose de fazer as Ordês todas juntas em algúa fabrica; a primr.ª eade fundam.tº há de ser a Toscana por mais solida: a2.ª a Dorica; a 3.ª a Ionica: a 4.ª a Corinthia:a 5.ª esta Compozita; de modo q’ esta hade ser sobre todas; epoderemos enriquecer os seus membros de obra de talha, mais q’ os das Ordens passadas” (p. 22-23)67 (FIG. 10).
Cristianizados, esses gêneros de arquitetura adequados aos caracteres e oragos consti- tuem um bom parâmetro para o juízo decoroso da arquitetura religiosa pós-tridentina, mas não chegam a representar uma regra infalível da invenção. Por exemplo, a capela franciscana de Mariana apresenta pilastras muito simples na fachada, com capitéis que se afeiçoam ao gênero dórico, enquanto a mesma devoção, em Vila Rica, emulou capitéis jônicos. O que demonstra que outros fatores circunstancia- vam a eleição de modelos e proporções, e não apenas o caráter absoluto do gênero, como definiram os tratadistas.
A conveniência dos “Aparatos de Glória”. Um
exemplo ilustra bem todas essas discussões. Delongada a fábrica entre a primeira metade do século XVI até principalmente a segunda
67 Cf. MATHEUS DO COUTO. Tractado de Architectura [1631], L. II, Cap. 10º, p. 38, p. 7-23 passim
(grifo nosso).
Figura 10 – Os Gêneros ou Ordens de Colunas, segundo Vignola. Fonte: <http:/www.jornallivre. com.br/images_enviadas/arquitetura-do-renas- cimentocol.jpg>.
metade do século XVII, quando se executaram as decorações em estuque e as pinturas dos forros, a Igreja maior dos jesuítas – Il Gesù – terminou autorizada como um dos modelos mais importantes para a arquitetura religiosa dos séculos XVII e XVIII (FIG. 11 e 12).
Procurando alcançar os resultados mais convenientes, os padres da companhia e os artistas envolvidos na construção e na ornamentação do templo dialogaram, então, durante decê- nios, em termos de conformidade, decoro e adequação. Dentre outros assuntos, como qual planta e fachada seriam as mais adequadas, a acomodação de capelas e altares laterais, a conveniência de forro de teto liso na nave em detrimento do abobadado (para se assegurar efeitos acústicos eficazes para a prédica68), falou-se também em “conformidade” da arquitetu-
68 Apesar das recomendações adequadas à prédica, que sinalizavam a comodidade e a aptidão de for-
ros de teto lisos, um dos principais “mecenas” de Il Gesù, Alessandro Farnese, requereu do início ao fim uma cobertura abobadada; provavelmente, segundo Giovanni Sale, pela sintonia de suas idéias com
ra ao “modo nostro”69 (jesuíta) de construir, em conformidade à piedade, à missão e à razão de ser dos jesuítas – tudo para a “maior Glória de Deus” (ad maiorem Gloriam Dei). O padre jesuíta Pietro Pirri esclarece que os jesuítas começaram a falar de um modo nostro ao final dos tempos de Santo Ignácio, significando com isso “um tipo especial de igrejas e de habita- ções concebidas em relação aos objetivos, usos e ministérios particulares da Companhia”, de modo que se “adequassem perfeitamente ao escopo aos quais deveriam servir”70. O principal arquiteto responsável por essa fábrica era Giovani Tristano, porque, à exceção dele, decla- ravam, não havia quem soubesse ordenar as coisas ao modo jesuíta71. Um dos efeitos de tal compreensão pode ser aferido pelo fato de que, após 1580, quando foi chamado a Roma para diversas fábricas, outro arquiteto, o padre Giuseppe Valeriani, estaria empenhado na com- posição de uma espécie de “manual próprio da arquitetura jesuítica”. Esta obra, infelizmente inacabada e incógnita, seria muito útil à Companhia na construção e ornamentação decorosa de templos e altares, conforme os costumes dos jesuítas72.
Inicialmente, o caráter dos templos jesuítas deveria representar uma honrosa simplicidade, honesta e conveniente ao decoro da Companhia. Com as intenções reformistas, intensifica- das tanto pela luta contra o avanço do protestantismo quanto pelas repercussões do saque de Roma, em 1527, e também, já na segunda metade do século XVI, pelas regulações do Con-
um “decoro à antiga”. Cf. SALE, Giovanne. Pauperismo Architettonico e architettura gesuitica; dalla chiesa ad aula al Gesù di Roma; saggio introduttivo di Sandro Benedetti. Milano: Jaca Book. 2001, p. 86. No mesmo estudo, ao comentar a fundação da igreja, Sale discute a participação do cardeal Ales- sandro Farnese e de como, apesar de sua importância no processo, com ele também as obras cami- nharam lentas, “sobretudo – cita Sale – porque o cardeal possuía as suas idéias acerca da ‘grandeza’ e do ‘decoro’ da obra, e além disso da orientação da igreja no contexto urbano. Ele desejava orientar perfeitamente o edifício em harmonia com o desenvolvimento da praça defronte”. Idem, Ibidem, p. 60.
69 Desenvolvendo o “modo nostro” de construir (dos jesuítas), Giovanne Sale adverte que a expressão
não se refere tanto a um estilo formal (“partido formal” é a expressão utilizada por Sale), mas antes a aspectos de ordem funcional e organizacional, econômica e construtiva que a companhia desempe- nhava na fábrica de um edifício. Em nota a este parágrafo, no momento em que escrevia sobre estilo formal, Sale reclamou sobre o decoro, dizendo que os jesuítas o consideravam, subordinado, todavia, a uma exigência de “sobriedade”: “Anche se ciò no si significa indifferenza dei gesuiti verso questioni
di decoro nella costruzione degli edifici, ma semplicemente che questo aspetto deve essere sottoposto alla regola della sobrietà, che si addice a poverti che hanno scelto di vivere in povertà”. Cf. SALE, Gio-
vanne. Pauperismo Architettonico e architettura gesuitica, p. 42, nota 42.
70 Cf. PIRRI, Pietro. Giovanni Tristano e i primordi della architettura gesuitica. Roma: Institutum histori-
cum S. J., 1955. Appendice di documenti, p. 160.
71 Cf. PIRRI, op. cit., p. 214.
72 O título da obra era “Librum da ea arte (architetturae) conscribeat, quem Societati magno usui ad
cílio de Trento73, as discussões da Companhia incorporaram outros argumentos, igualmente decorosos, de conformidade e conveniência. Pelo menos em Roma, as igrejas dos Jesuítas deveriam dar a parecer não apenas o caráter e a dignidade da Companhia, comitente da obra, mas também, ou necessariamente, o esplendor e a majestade de Deus e da Santíssima Trin- dade, sua razão primeira e última. Assim se deu tanto com Il Gesù74, aperfeiçoada, entre ou- tros, por Gaulli, quanto com a Capella di Sant’Ignazio, ornamentada em sua nave pelo famoso teto em perspectiva de Andrea Pozzo. Como seria possível conciliar o rigor e a simplicidade da Companhia de Jesus, o compromisso de resignação, a impermanência da vida missioná- ria, catequizadora e mendicante, a solicitude e o desprendimento material determinantes de sua formação, com a suntuosidade, a magnificência e a riqueza requeridas para os novos templos pós-tridentinos?
É uma hipótese, apenas, mas me parece pertinente reconhecer aqui que se ajuizou entre duas interpretações do decoro, igualmente competentes. Uma delas visava um decoro de confor- midade à ordem comitente da obra; a outra, um decoro de conformidade à representação triunfal, maravilhosa e eloqüente de Deus, bem adequada esta às finalidades propagandistas tridentinas – universalidade, autoridade e dignidade eternas da Igreja Romana, magnificência, esplendor, aparato e glória – aspectos que os novos templos deveriam proporcionar. Embora a moderação dos juízos tenha resultado na suntuosidade interior do templo, no caso para- digmático de Il Gesù, a imprescindível necessidade de se manifestar a dignidade e o caráter humilde da Companhia também foi satisfeita. E isto ficou a cargo não da simplicidade ou da humildade decorativa, mas de um estrito e rigoroso programa iconográfico apto a evidenciar não apenas a história da Companhia e seu caráter, como também passagens relevantes da vida de Jesus Cristo; modelo ético de vida santificada, imitado e decantado não apenas, mas principalmente, pelos jesuítas75. Ordenando e magnificando esses discursos das imagens,
73 Quem comenta essas causas das transformações no contexto católico e jesuítico é ACKERMAN, Ja-
mes. La chiesa del Gesù alla luce dell’architettura religiosa contemporanea. In: WITTKOWER, Rudolf; JAFFE, Irma (org.). Architettura e arte dei gesuiti. Milano: Electa, 1992, p. 20. (Documenti di architet- tura).
74 A planta de Il Gesù se caracteriza por uma nave única, com capelas laterais em toda extensão da
nave. O transepto é alargado e culmina também em duas capelas de maiores proporções que as laterais da nave, insinuando sutilmente os braços da cruz. A capela-mor possui arremate em forma de ábside. O cruzamento entre nave e transepto é coroado por uma majestosa cúpula, cujo tambor e pendentes estão ricamente adornados e pintados. Ordens duplas de pilastras coríntias colossais estruturam toda a nave, arrematadas por um entablamento monumental que se desenvolve da portada ao transepto.
75 Sobre a rica iconografia ornamental de Il Gesù, forros e altares, cf. especialmente o estudo de HIB-
BARD, Howard. Ut picturae sermones: le prime decorazioni dipinte al Gesù. In: WITTKOWER, Rudolf; JAFFE, Irma (org.), op cit., p. 30-43.
das pinturas, alegorias e esculturas, a arquitetura do edifício resultou numa riqueza conjuntu- ral conveniente à revelação de um reino em tudo sublime; eloqüente e afetivo o bastante para comover, por meios efetivamente materiais, os sentidos exteriores tão caros às finalidades agonísticas, teológicas e retóricas das reformas religiosas, e também ao caráter sensível e patético dos Exercícios inacianos.
Alguns documentos da Companhia publicados evidenciam a pertinência da hipótese. Num dos sermões de Gian Paolo Oliva – Superior Geral da Companhia a partir de 1664 e amigo particular de Gian Lorenzo Bernini –, encontram-se passagens reveladoras desse pensamen- to em que o caráter dos templos deveria ser orientado, rica e suntuosamente76, em direção a adequada correspondência à glória, à magnificência e “ao infinito mérito da Trindade”:
Estas [as igrejas], como unicamente dedicadas a Deus, não podem, de qual- quer modo, ou com a majestade ou com a riqueza, assim de muros como de ornato, conformar-se ao infinito mérito da Trindade. Onde nelas tanto Ignácio, nosso Pai, quanto Nós todos, seus Filhinhos, procuramos corresponder à
grandeza da eterna Onipotência com aqueles aparatos de Glórias, que podemos maiores77.
A primeira parte da citação repete uma tópica já utilizada pelo arquiteto Pietro Cataneo para justificar a devida conveniência da riqueza e da magnificência proporcionada à “honra de Deus”. O modelo a ser imitado, autorizadíssimo na teologia e na arte cristã, é o Templo de Salomão:
Tudo aquilo que foi dito [sobre a riqueza, grandeza e ornato do Templo de Salomão] seja para a confusão daqueles que dizem que os muitos gastos e riquezas dos templos estão sem proveito e perdidos, não considerando que aquilo que se faz em honra de Deus não se pode fazer tão magnífico e per- feito quanto seria conveniente78.
76 Francis Haskell comenta um tratado de 1611 – La peinture spirituele –, dedicado ao padre Claudio Ac-
quaviva pelo jesuíta francês Louis Richeome, no qual fica evidente como, no início do século XVI, pelo menos parte dos jesuítas “atacava com energia qualquer tentativa de criar efeitos de esplendores ricos e suntuosos”. Cf. HASKELL, Francis. Il ruolo dei mecenati: mutamenti nel barocco. In: WITTKOWER, Rudolf; JAFFE, Irma (org.), op cit., p. 46.
77 “[...] Queste, come unicamente dedicate à Dio, non possono in alcun modo, ò con la maestà ó con
la richezza si de’ muri come dell’arredo, conformarsi all’infinito merito dela Trinità. Onde in esse tanto Ignatio nostro Padre, quanto tutti Noi suoi Figliuoli procuriamo di correspondere con quegli apparati di Glorie, che possiamo maggiori”. OLIVA, Gian Paolo. Sermoni domestici. Parte prima. Appendice. In:
WITTKOWER, Rudolf; JAFFE, Irma (org.), op cit., p. 51. (grifo nosso).
78 CATANEO, Pietro. I qvattro primi libri d’architettura. L. III, Capitolo primo: “Come il principal tempio
della cità, volendo servare il decoro della religione Cristiana, si convenga fare à crociera & a similitudine di un bem proporzionato corpo humano, col suo disegno”, fl. 36 v.
O referido trecho está na parte final do primeiro capítulo do Livro terceiro de Cataneo, de- dicado a desenvolver a forma e as qualidades de um templo em que se quisesse “observar o decoro da religião cristã”, aspecto já comentado na introdução. O título do capítulo escla- rece: “Como o principal templo da cidade, devendo-se observar o decoro da religião cristã,
convém ser feito à forma de cruz e à similitude de um corpo humano bem proporcionado, com o seu desenho”. Na primeira parte, Cataneo se dedica a justificar e autorizar o símbolo
da cruz latina para a planta, recorrendo inclusive a exemplos pagãos; na segunda, discorre sobre vários elementos, partes e ornatos do Templo de Salomão, ilustrando-o com elogios à grandeza da fábrica, ao esplendor das proporções e ao uso de materiais nobilíssimos, como o ouro, a prata e pedras preciosas79. No segundo capítulo, Cataneo continua a desenvolver aspectos, eleições e juízos capazes de aperfeiçoar e servir ao decoro das igrejas, argumentos importantes para a compreensão das tópicas que autorizaram a distinção característica entre o interior e o exterior desses edifícios. O argumento está aplicado aos templos dedicados a Jesus, estendido aos dos demais santos por analogia. Então, assim como a alma é superior e mais rica do que o corpo – até mesmo em Cristo, o corpo humano mais perfeito então vivido –, não apenas uma única ordem seria apta a efetivar o caráter conveniente às várias partes do corpo do edifício:
Esta parte de fora [o frontispício] é feita da mais forte, robusta e durável or- dem, tendendo ao Dórico, que não é o seu interior, o que é muito convenien- te, porque quanto às partes exteriores, Jesus Cristo nosso redentor, ao qual, como se diz, se deve dedicar o principal templo da cidade, quis se mostrar puro e simples em seu nascimento assim como ainda na vida, e depois na morte foi mais do que qualquer outro constante e forte. Sendo portanto o inte- rior desse templo de ordem Coríntia, se demonstra muito mais nobre do que a parte de fora, que é Dórica, assim ainda sem comparação foi mais nobre a alma e a divindade, parte interior de Jesus Cristo, que o corpo, sua parte exterior [...] ainda a alma de cada santo, e assim de cada bom cristão, é muito mais nobre que o corpo. Poder-se-ia fazer o seu interior de ordem Jônica, e ainda da Compósita, que cada uma destas, por ser mais nobre que a Dórica, ficaria bem dispor. É de se considerar ainda que as colunas ou pilastras ou membros semelhantes exteriores de qualquer templo, ou outra fábrica, será