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Outra publicação que deu visibilidade e, ao mesmo tempo, produziu e projetou o estado de Minas Gerais como símbolo de crescimento e renovação foi a Revista do Ensino184 em sua edição n. 23 de outubro de 1927. Publicada como edição comemorativa do primeiro centenário do ensino primário no Brasil, desde a capa (Figura 12 seguinte) já podemos antever os objetivos que os editores pretendiam divulgar pelos diversos elementos simbólicos que contém. Em seu centro observamos o retrato de Dom Pedro I ostentando, acima de sua cabeça, uma estrela reluzente com intenso brilho. A fotografia é envolvida por uma moldura redonda enfeitada ao seu redor com ramos de café que sustentam ao seu lado esquerdo, do lado de cima, os símbolos do Império e, do lado de baixo, a inscrição 1º Centenário do ensino

primário no Brasil; do lado direito acima está o símbolo da República e, logo abaixo, está

182 Otávio Dulci (2005) afirma que a atenção à superação do atraso regional foi um impulso para o

desenvolvimento mineiro. Os diagnósticos pessimistas se faziam por contraposição à imagem do desenvolvimento econômico de outros estados, como São Paulo, e por contraste a um passado colonial rico e de prestígio ligado ao ciclo da mineração (DULCI, 2005).

183 Aqui notamos um pressuposto iluminista que presume a superação do atraso pela detenção do saber.

184 Para uma análise aprofundada e específica sobre o ciclo de circulação deste periódico educacional em Minas

escrito Numero especial commemorativo. Na base da moldura encontram-se os ramos de café que são amarrados com um laço em sua base. Todos esses elementos simbólicos remetem a uma interpretação da instrução pública como uma preocupação oficial em regimes políticos distintos, mas não parecem sugerir uma ruptura com o passado.

Ao analisar a capa dessa revista comemorativa, Biccas (2008) interroga sobre as questões que suscitariam a disposição dos símbolos em torno de Dom Pedro I com as seguintes indagações: “existiria um equilíbrio entre as realizações educacionais promovidas pelo império e pela república?” (BICCAS, 2008, p. 105) ou, alternativamente, ela se pergunta se os símbolos do império e da república representariam uma oposição entre a escola antiga e a moderna. E finaliza questionando se a junção dos dois símbolos pelo laço e a amarração explicitariam um tensionamento ou uma aproximação entre o velho e o novo? Para a pesquisadora todas estas questões aparecem na composição do conteúdo que compõe aquela edição da Revista. Diante dessas reflexões, perguntamos qual seria o lugar de Minas na educação brasileira conforme a Revista comemorativa?

Figura 12 – Revista do Ensino, Anno III – n. 23, outubro de 1927.

Esse número da Revista insere-se no contexto dos festejos que ocorreram em Belo Horizonte, mais especificamente no estádio do América Futebol Clube e contaram com um público de mais de 6 mil pessoas, conforme afirmam Vidal e Faria Filho (2002). O público assistiu a uma intensa programação185 preparada especialmente para aquela ocasião com mais de 2.000 alunos e escoteiros da capital que, em suas performances, realizaram desfiles, jogos, exercícios físicos e, ainda, coroaram o evento com sua formatura solene.

O governo aproveitou o momento oportuno para levar adiante a reforma186 Francisco Campos com o Decreto 7.970, exatamente no dia 15 de outubro de 1927 pelo presidente Antônio Carlos de Andrade, o secretário do interior Francisco Campos e o inspetor da instrução pública, Mário Casasanta.

O texto de Emílio Mineiro, responsável pelas estatísticas educacionais do estado, é estampado na terceira página com o seguinte título: “328.659 alumnos freqüentam as nossas escolas primárias” e, no subtítulo, vemos o enunciado: “Ligeiro esforço estatístico sobre o ensino primário em Minas”. Nele o autor elabora sua argumentação a partir da instalação da República trazendo os dados estatísticos para demonstrar e comemorar o crescimento do ensino primário em Minas, pois, segundo ele, a matrícula passou de pouco mais de 43 mil para mais de 230 mil alunos em três décadas. Ele constata que “No primeiro decennio de vida republicana (1890-1900) pequeno foi o numero de escolas creadas em Minas” (MINEIRO,1927, p. 512), entretanto, seu julgamento é benevolente com o passado, pois reconhece que “por esse facto não merecem censuras os governantes de então, Cesario Alvim, Affonso Penna, Bias Fortes e Silviano Brandão, estadistas eminentes que, ao depois, nos mais altos postos da administração do paiz, ergueram o nome de Minas Geraes às maiores culminâncias!...”. E continua sua defesa do passado: “É o periodo da organização política do Estado, da mudança da Capital de Ouro Preto para Bello Horizonte. A província desvencilha- se das malhas estreitas da centralização para a vida viril de Estado autônomo, quase soberano!” (MINEIRO, 1927, p. 512).

Tendo feito as devidas pazes com o passado, o autor conclui seu texto:

Hoje, ainda a meio caminho do 4º decennio, quando no Brasil inteiro é commemorado o centenário da lei de 15 de outubro de 1827, que mandou crear nas

185 Vidal e Faria Filho (2002, p.34) afirmam que ocorreram “pequenos, mas intensos festejos” em outros locais

da capital, como na Escola Normal, nas escolas infantis, na escola da Força Pública, etc.

186 Para uma compreensão das articulações das Reformas Francisco Campos em Minas e Fernando de Azevedo,

no Distrito federal, com as comemorações do I Centenário da lei de 1827 e as reverberações deste processo na constituição do passado e do futuro da história da educação brasileira veja o instigante texto de Vidal e Faria Filho (2002).

cidades, villas e logares populosos das Provincias escolas de primeiras letras, Minas, galhardamente, comparece entre co-irmãos e no quadro abaixo prova, com a evidencia convincente dos algarismos, que toda a extensão dos seus 575 mil kms. quadrados estão instaladas milhares de escolas, entoam hymnos festivos à lei memorável que mandou crear em seu immenso território escolas de primeiras letras, 328.659 alumnos! (MINEIRO, 1927, p. 512, grifos originais).

Além de se remeter ao centenário da criação da primeira lei da instrução pública no país, Emílio Mineiro enfatiza uma visão bastante positiva, a partir da suposta autoridade numérica, que em todo o imenso território encontram-se escolas instaladas. Essa última afirmação pode ser relativizada considerando as diferenças regionais na expansão das escolas que normalmente concentram-se nos locais de maior população.

Bento Ernesto Junior (1927) ao dissertar sobre “A escola primaria” refere-se também à participação de Minas no centenário da escola primária, para ele:

Minas participa de coração desse contentamento, de vez que já póde, presa do mais santo dos orgulhos, apresentar resultados bem positivos da dedicação do seu esforço em prol da dignificação da escola primaria na terra das montanhas, nesse particular podendo desassombradamente sujeitar-se ao confronto com suas irmãs da federação” (ERNESTO JUNIOR, 1927, p. 532).

Observe que é repetida no discurso da Revista a ideia de comparação entre os estados situando Minas entre aqueles que mais se destacam no que diz respeito ao desenvolvimento do ensino. E reiterando o discurso progressista do ensino pela evidência dos dados, assegura:

Os números estatísticos, registrando o grau de expansibilidade que, entre nós, ha adquirido o ensino primário, são extremamente consoladores, como são as notas officiaes dando conta da feição progressista assumida pelas nossas escolas para a primeira instrucção, mau grado, - mostrando uns e outras o muito que já fizemos, - desvendarem o muito que precisamos fazer (ERNESTO JUNIOR, 1927, p. 532). .

Sandoval Soares de Azevedo (1927), secretário do interior do governo Mello Vianna escreve “Aos educadores” conclamando-os para a construção da grandeza do Brasil a partir de uma prática abnegada, missionária e apostólica. O trecho a seguir é evidência desse tipo de discurso religioso:

Semeadores do Ideal, batalhaes, ha cem annos, sem descanso, nem fraqueza, apezar das rudezas do meio, das incertezas materiaes da vida, pela terra que se modela á imagem de vossa bravura moral, rica de idealismo sagrados. Daes, sem receber, ha um seculo, no amor de vosso coração, na generosidade de vossa alma, o heroismo de vossa dedicação, - com a exaltação de nosso passado – a confiança nesse futuro – que creastes – e já amanhece no esplendor triunphal do presente brasileiro. Como ha

vinte seculos, na Judéa, renovais o milagre da humildade: tocaes de luz e religiosidade o apostolado anonymo de vosso sacerdocio que fundaes a própria nacionalidade. (AZEVEDO, 1927, p. 510).

A dimensão heroica do educador, bem como a sua santificação, dá ao professor uma missão quase espiritual a ser desempenhada, o que acaba por negar o saber às camadas populares e, ao mesmo tempo, retira o caráter profissional do trabalho docente e o (re)conhecimento de que o professor tem direitos de exercer sua prática em condições dignas de trabalho (VEIGA, 1992)187.

Vale ressaltar que em Minas Gerais as questões religiosas e políticas constituem-se em “um caso à parte”, como constata Biccas (2008). Ela exemplifica essa constatação com o fato de que, após a implantação do governo provisório no país, houve o retorno do ensino religioso nas escolas públicas devido às pressões católicas. O apoio da Igreja Católica dava sustentabilidade ao governo no período pós-revolução. No caso de Minas Gerais as tensões entre o Estado e a Igreja Católica eram amenizadas, pois os liberais que ocupavam cargos estratégicos na administração oficial eram “quase todos católicos” (BICCAS, 2008, p. 61)188.

Acompanhando a tendência excessivamente católica da gestão do Estado, a Revista do

Ensino, em seus números 74, 75, 76 e 77 nos anos de 1931 e 1932, elegeu o ensino do

catecismo como eixo central de sustentação da publicação. Biccas (2008) destaca que, nos números citados, a Revista do Ensino adotou “feições de um catecismo” com lições e ilustrações de passagens bíblicas em seu interior (BICCAS, 2008, p. 112).

Apesar de a publicação da Revista de 1927 anteceder os números citados por Biccas (2008), há uma linha de continuidade nos números 23 (1927) e nos números 74 a 77 (1931 e 1932) do periódico inscrita sob a égide do catolicismo. Assim é que podemos nos referir à vinculação ao trabalho do professor como missão, tal como a de Jesus Cristo, que perpassa outros escritos da publicação, como, por exemplo, no poema “Lição da Pátria” de Alberto de Oliveira (1927):

187 Catani (2000), ao apresentar os estudos sobre profissão docente no Brasil, aponta a tese datada de 1991 da

professora Elza Nadai que analisa a ideia de “educação como apostolado” presente entre os professores nos de 1930 a 1970 (NADAI, Elza. A educação como apostolado: história e reminiscências (1930-1970). São Paulo: 1991. Tese (Livre-Docência) – Univerisdade de São Paulo, 1991). No referido estudo são analisadas representações, imagens e símbolos elaborados por um grupo de educadores que estudou ou trabalhou nas escolas secundárias, normais e superiores. Constata-se que ligados à imagem do trabalho docente indicado como missão e apostolado encontram-se educadores que tiveram sua trajetória marcada “por lutas, desilusões, resistências, sofrimentos, mas que ainda assim [viam-se como privilegiados] pela alta missão que [desempenhavam]” (CATANI, 2000, p 590). Desse modo, podemos ver como o discurso missionário associado ao professor ainda está arraigado no imaginário dos docentes pesquisados.

188 Biccas (2008) refere-se à dois católicos fervorosos que sucederam na administração da Instrução Pública em

CHAMAI,

como Jesus outr‟ora, os pequeninos,

Falai-lhes do Brasil, entre louvores e hymnos, Dai grande lição! (OLIVEIRA, 1927, p. 515).

A alusão aos aspectos religiosos da publicação é aqui reforçada por ser a explicação para o tipo de discurso que a Revista do Ensino vai produzir em relação ao passado na realização da reforma de 1927. “A escola antiga”, texto de Leopoldo Pereira (1927), trata das mudanças da escola e do prestígio do professor ao longo do tempo e conclui que as transformações foram positivas. Ao tratar da memória e da forma como ela reelabora o passado, reforça o caráter indulgente dos mineiros com as realizações passadas:

Cada idade, cada geração tem sua concepção peculiar da vida e com ella seus costumes; nós condemnamos o que vamos reformando, mas se as ultimas acquisições nos parecem sempre melhores, a imaginação, revoando pelo passado, se apraz em reconstrui-lo com o pitoresco que inevitavelmente lhe achamos, e não raro sentimos saudades (PEREIRA, 1927, p. 524).

O discurso do professor Leopoldo Pereira, ao refletir sobre a memória, avalia o passado e com ele se apraz, nesse sentido, utiliza-se do mesmo recurso avaliativo presente no número comemorativo da Revista do Ensino: a indulgência. É nesse sentido que concordamos com Vidal e Faria Filho (2002) quando eles constatam que a reforma mineira foi tolerante com a escola antiga ao inscrevê-la em uma perspectiva renovada, porém dentro da tradição cristã e católica.

Não por acaso, em Minas, o 15 de outubro é ocasião de júbilo e celebração; a festa dá lugar ao novo e à tradição. Atualizando um passado que não lhes parece hostil, os reformadores mineiros afirmam a continuidade, o passado e o presente a partir de uma visão cristã e católica da realidade social (VIDAL E FARIA FILHO, 2002, p. 48).

O catolicismo não está presente somente nas práticas religiosas e privadas. Ele impregna as falas oficiais e perpassa as práticas das instituições estatais, como a escola por exemplo. A palavra pregnância, utilizada pela autora Eliane Marta Teixeira Lopes (2012), ao sintetizar sua análise sobre a pertinência de se considerarem as mentalidades (VOVELLE, 2004) como uma possibilidade de diálogo para tratar das permanências na educação mineira, parece ser um termo muito adequado quando analisamos a identidade mineira formulada dentro de uma tradição religiosa, especialmente católica.

Considerando as críticas189 feitas às mentalidades, Lopes (2012) avalia que tal abordagem permite ver de perto as memórias, as heranças, as perdas, as rupturas, a tradição nas crenças, nos valores e nas representações, pois é “nas mentalidades que está a educação” (LOPES, 2012, p. 166). Para a autora a história da educação, “ainda que venha em escalas, está inscrita na longa duração, pois lida mais com as permanências do que com as mudanças” (LOPES, 2009, p. 417).

Esforço de síntese: as Minas e as Gerais como síntese do progresso

A identidade mineira, que buscamos perscrutar nesse capítulo em um conjunto definido de publicações, revela por sua vez, não por acaso, arrazoados discursos articulados que se reforçam mutuamente produzindo uma determinada maneira de ver o estado de Minas Gerais, seu espaço físico, sua definição de limites geográficos, sua ordem social, a permanência ou pregnância da religiosidade, suas potencialidades, enfim, seu passado, seu presente e seu futuro. Na análise vimos despontar um conjunto de informações que se fizeram presentes a partir de diversos documentos: estatísticas de recenseamentos, informações dos municípios, fotografias, publicações oficiais de revistas, mapas cartográficos e, especialmente por meio das estatísticas de ensino.

Em sua totalidade, as publicações fizeram parte de um duplo movimento: o empenho em esquadrinhar e fabricar um conjunto de conhecimentos sobre as diversas áreas de Minas e, ao mesmo tempo, em elaborar uma identidade para o estado unindo as Minas e as Gerais numa única e harmônica representação, a despeito das muitas fraturas e diferenças regionais (BOMENY, 1994; WIRTH, 1982). Ainda que as publicações analisadas insistam na produção de um movimento ascendente e inesgotável rumo ao progresso, é preciso perceber as assimetrias, os avanços e os retrocessos desse processo que fez consolidar no imaginário nacional conceitos a princípio bem contraditórios como, por exemplo, habilidade política,

189 A autora declara que “a afirmação da vocação hegemônica da história, a dimensão metodológica, a labilidade

da noção de mentalidades” é que sustentam as críticas sobre as mentalidades (LOPES, 2012, p. 159). Não cabe aqui uma regressão a essa questão, apenas gostaria de trazer um exemplo dessa crítica. Robert Darnton (1986) elabora crítica à mentalidade e menciona especialmente a questão do terceiro nível cujo objetivo é “medir comportamentos através de contagens” (DARNTON, 1986, p. 330). Os historiadores das mentalidades esbarram na forma de interpretar a cultura e, para isso, Darnton sugere um diálogo maior com a antropologia que “[trabalha] a partir da crença de que os símbolos são partilhados” (DARNTON, 1986, p. 333). Para ele o universo simbólico é ao mesmo tempo social e cultural. O autor retoma e aprofunda essa crítica no livro O beijo

de Lamourette: mídia, cultura e revolução (DARNTON, 2010) destacando a excessiva confiança na intuição no

manejo de fontes esparsas; além de sugerir que as atitudes não seguem variáveis sociais e econômicas, havendo grau de autonomia nas forças culturais, tal como sugeriam os mestres da História Cultural: Huizinga, Burckhart e Lucien Febvre (DARNTON, 2010, p. 302-303).

equilíbrio, prudência, burocratização de procedimentos, institucionalização do ensino e racionalização nos modos de ordenamento das informações sobre a vida mineira. Assim, Minas Gerais busca integrar os dilemas da modernidade dialogando com valores opostos, como a tradição, o analfabetismo, a população rústica sertaneja.

As publicações organizadas por Teixeira de Freitas atuando no Serviço de Estatística Geral, na década de 1920, podem ser destacadas como forma privilegiada de diagnóstico e, portanto, de representação da vida mineira. A operação censitária e a ocupação do posto de direção do serviço de estatística possibilitaram-lhe um afinamento nas percepções sobre o estado devido ao contato com as informações individuais que foram sendo sistematizadas em conjunto nas publicações oficiais, lançando-o em lugar de destaque na produção dessa identidade mineira. Muitas de suas análises sobre Minas Gerais foram tomadas como propostas de soluções futuras para o país. O tom das publicações não deixou de dar ênfase ao que Chauí (2006) chama de mito fundador: a percepção dos mineiros como religiosos, acolhedores, pouco afeitos ao regionalismo fragmentário e prontos para o moderno assentado sobre a tradição que marcam, por exemplo, as relações de compadrio na montagem da estrutura burocrática da capital. Estes valores parecem atravessar os tempos na constituição da identidade de Minas Gerais.

No âmago da discussão é possível localizar um debate bastante vivo na década de 1920 sobre a questão da modernidade como promotora do progresso do país. Nesse sentido é possível localizar sujeitos como Arthur Bernardes, por exemplo, que, naquele momento, entendia a importância do conhecimento estatístico no ordenamento da nação. Essa sensibilidade alinhava-se ao discurso e conhecimento técnico de Teixeira de Freitas, que realizou análises afinadas sobre a imagem de Minas como síntese do progresso e das potencialidades, e, assim, propôs mudanças para colocar o país nos trilhos da modernidade reelaborando a sua imagem. Tais análises foram levadas ao âmbito nacional na diáspora de mineiros para a capital federal em 1930 (da qual Freitas participa), quando houve mudança da primeira geração dos modernistas mineiros para a capital federal, onde atuaram na elaboração e na implementação do sistema educacional de educação de “cuja herança ainda somos tributários” (BOMENY, 2005, p. 141). É dessa forma que não seria exagero afirmar que o projeto de nação implementado na década de 1930, especialmente nos âmbitos da educação e da cultura (particularmente no campo da memória), é um projeto de matriz eminentemente mineiro. A representação do que se fez em Minas Gerais será a ponte para a constituição da nação, com destaque para as estatísticas de educação. No próximo capítulo trataremos sobre o

ordenamento do nacional a partir dos aportes de uma estrutura burocrática que produziria os dados da educação.

E finalizamos com uma lúcida citação do discurso de Teixeira de Freitas, em uma homenagem dos funcionários do serviço de estatística em agradecimento a Melo Viana pela instituição daquela repartição, em 6 de setembro de 1926. Além de resumir as intenções do que seria feito, posteriormente, no âmbito nacional e descrever os meios e os espaços que foram mobilizados para a construção de uma nova percepção sobre a estatística em Minas Gerais, demonstra a inserção de Freitas no debate sobre a nacionalidade existente naquele contexto.

Havemos de dar a Minas, muito breve, a estatistica à altura da sua civilização, isto é, uma estatistica com que lhe seja motivo de orgulho, que lhe revele os fructos do seu labutar sem treguas pela grandeza do Brasil e que lhe constitua ao mesmo tempo o

melhor instrumento de progresso. Emquanto que, tentando e tornando a tentar,

empregando sempre os meios suasorios, aproveitando avaramente todos os resultados obtidos por mais demorados e insignificantes que pareçam ser, focalizando repetidamente os objectivos estatisticos em formularios, em cartas, em officios, em annuarios, em relatorios, em artigos, em conferencias, e illustrando-os graphicamente, - uma a uma se vão vencendo as difficuldades interpostas, vêm ao nosso encontro os melhores caminhos para o exito, começa a crystalizar-se em nosso beneficio uma nova mentalidade publica, tornando-se perceptiveis e rectificaveis os erros porventuras commettidos em principio, aprimora-se a technica em razão das exigencias do meio, e entra de formar-se um ambiente sympathico e eminentemente