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3. Transportplanlegging og endringer i transportsystemet –

4.6 Datainnsamling - Intervjusituasjonen

A respeito do transporte ferroviário, foram publicados na Secção Industrial 64 textos entre 1875 e 1889. Os conteúdos são tratados em séries e podem ser divididos em cinco: dis- cussões sobre a via Sapucaí (quatro textos), discussões sobre rotas e dados das estradas de ferro de São Paulo (três textos), inaugurações (seis textos); e, a maior delas e tema deste capí- tulo, discussões a respeito das bitolas (em dois períodos: 1875 favorável à estreita e 1876 em diante favorável à larga) – 38 textos; e discussões sobre a economia do Brasil e suas relações com o transporte ferroviário (três textos). Outros dez textos analisados não se encaixam nas categorias anteriores.

Publicar em séries significa estender a discussão de um tema por várias edições, conti- nunando a abordagem de um mesmo tema. Pressupõe-se que, em edições seguintes, os textos retomariam as discussões anteriores para que os leitores retomassem as ideias principais dis- cutidas pelo redator. Isso, no entanto, não é comum. Considerando o montante destas publica- ções, apenas 14 apresentam introduções, retomadas ou contextualizações que caracterizam os assuntos discutidos anteriormente aos leitores. Assim, excluindo-se estes últimos dez textos que não foram publicados em série e o primeiro texto de cada série, restam 49 textos que de- mandariam tal contextualização. Os 14 que a possuem representam 28,5%.

A maior parte, portanto, foi publicada sem contextualizações ou apresentações da dis- cussão da série para o leitor. As datas de publicação não são subsequentes, ou seja, as séries não foram publicadas diariamente, mas de forma espaçada entre os dias da semana. Além de não contextualizar os temas tratados em edições anteriores, a distância entre um texto e outro pode ter prejudicado compreensão abrangente.

Na série sobre a via Sapucaí, a média entre publicações é de um texto para cada dois dias. Se observarmos os textos das séries principais referente às bitolas, a primeira série, em 1875, tem média de um texto a cada quatro dias. A segunda série, que se inicia no final de 1876 e se prolonga até março de 1877, tem média de uma publicação a cada cinco dias. Este intervalo é bastante grande para que o leitor retenha as informações de publicações anteriores. A seguir, exemplifica-se isso.

Figura 6. Final da publicação de 30/03/1875 Figura 7. Início da publicação de 02/04/1875

Fonte: A Província de São Paulo – ed. 66 Fonte: A Província de São Paulo – ed. 69

Mesmo com três dias entre as publicações, a edição de dois de abril traz a continuação do texto sem retomar as discussões de 30 de março. Isso mostra que os longos textos produzi- dos para a série eram divididos na redação, não pelo autor. Era publicado o quanto cabia na edição de cada dia. A seguir, há outro exemplo desta transição sem contextualização:

Figura 8. Final da publicação de 25/04/1875 Figura 9. Início da publicação de 27/04/1875

Fonte: A Província de São Paulo – ed. 88 Fonte: A Província de São Paulo – ed. 89

O subtítulo “Velocidade adquirida em estrada de bitola estreita” é o mesmo em ambos os textos, ou seja, a segunda publicação pertence ao mesmo texto, é uma continuação literal dos argumentos anteriores. Tanto que a expressão “este pezo” faz referência ao que estava sendo tratado na edição de dois dias antes: a relação da resistência das curvas com as bitolas.

Por outro lado, as séries também traziam, eventualmente, introduções e contextualiza- ções dos assuntos tratados em edições anteriores. É o caso do exemplo da figura 10.

Figura 10. Reprodução da publicação de 04/01/1877 Fonte: A Província de São Paulo – ed. 579

Neste caso, o autor retoma as principais abordagens do artigo anterior antes de iniciar a nova discussão. Os dois primeiros parágrafos se prestam a isso. Nota-se o constante uso da primeira pessoa do plural nas narrativas e grafia anterior às simplificações ortográficas suge- ridas pela Academia Brasileira de Letras no início do século XX. Assim, as regras gramaticais seguiam o português oficial de Portugal, que mantinha grandes influências do latim.

Outra característica dos textos da época é a apologia da ciência e tecnologia como propulsoras do progresso, coincidindo com a visão positivista que na época predominava, celebrando o conhecimento científico como única fonte “verdadeira” de conhecimento. As referências às ciências e aos cientistas buscavam sustentação para os argumentos apresenta- dos, sugerindo que, se os temas tinham respaldo científico ou haviam sido aprovados por ci- entistas, isto lhes conferia legitimidade.

Exemplo deste enaltecimento da ciência é encontrado no discurso proferido pelo Barão Homem de Mello e publicado na “Província” em dez de julho de 1877 na Secção Industrial. O autor defende que as “conquistas do espirito humano e os progressos realisados pelas scien- cias, diz o profundo philosopho Sir Humphry Davy, têm de agora em diante o dom da perpe- tuidade e não são mais susceptiveis de ficar perdidos para a humanidade.” (A PROVÍNCIA, ed. 720, 1877, p. 1).

Em 12 de fevereiro de 1875, outro texto tinha a mesma intenção: “A corporação scien- tifica que assim procedeu tem títulos reaes para ser ouvida com atenção, e o governo mesmo costuma consultal-a em casos idênticos.” (A PROVÍNCIA, ed. 30, 1875, p. 1). Isso corrobora para o fomento do pensamento positivista emergente na época, conforme descrito na seção 2.4 desta tese.

Do total de 64 textos analisados da Secção Industrial a respeito do transporte ferroviá- rio, sete possuem este tipo de menção apologética da ciência (11%), dez enaltecem a tecnolo- gia como elemento do progresso (15,6%) e nove estão comprometidos com a exaltação da província de São Paulo (14%) declarada como a mais promissora, a mais desenvolvida ou a melhor província do país. A figura 11 retrata tanto a valorização da tecnologia como ferra- menta do progresso quanto o enaltecimento de São Paulo.

Figura 11. Reprodução da publicação de 09/11/1875 Fonte: A Província de São Paulo – ed. 243

O texto retrata a inauguração da linha que liga Mogi das Cruzes à malha ferroviária da província de São Paulo, transmitindo a ideia de progresso através das linhas de ferro e do te- légrafo. Para o jornal, trata-se de uma “nova éra de prosperidade pelo baptismo do progresso.” (A PROVÍNCIA, ed. 243, 1875, p. 1). Nos parágrafos seguintes, alinhado ao pensamento pro- gressista, destaca também o papel de São Paulo no desenvolvimento do país, agregado à “co- lonisação de immigrantes, á instrucção, á expansão da imprensa e demais instrumentos da educação intellectual, á sincera tolerancia e liberdade religiosa, á franquia de direitos indis- pensaveis á convivencia e fraternisação de todas as crenças e nacionalidades” (A PROVÍN- CIA, ed. 243, 1875, p. 1). No final do século XIX, a imigração era objeto de duas discussões: a substituição do trabalho escravo – que a “Província de São Paulo” apoiava – e ideologia de “branqueamento” da população. Ainda que não declarada, acabou se tornando uma política de

Estado. O artigo 1º do Decreto 528 de 1890 facilitava a entrada de estrangeiros no país, exceto indígenas da Ásia ou da África, que dependeriam de aprovação do Congresso (BARALDI, 2014). Paraleamente, esta época, bem como as décadas seguintes, assistiram ao auge das polí- ticas higienistas de saúde e às teorias médicas e antropológicas que associavam a miscigena- ção à degeneração. Essas políticas de “branqueamento” foram praticadas em toda a América, incluindo Brasil, Argentina e Chile.

O enaltecimento da província de São Paulo é claro também na introdução de texto publicado em cinco de janeiro de 1875, que defende:

Se é certo que no Brasil os melhoramentos impõem-se vagarosamente, não é menos certo que na provincia de São Paulo as cousas marcham de outro modo, e que nós Paulistas podemos congratularmo-nos da audacia e felicidade com que temos levado avante commettimentos que ainda ha bem pouco tempo pareciam superiores a nossos recursos. Especialmente no que diz respeito á viação ferrea, parece que temos dado testemunho de nós, e que temos procurado provar estarmos na America, tendo diante dos olhos o invejável exemplo dos americanos do norte. (A PROVÍNCIA, ed. 2, 1875, p. 1)

Neste texto, o objetivo do autor é pontuar São Paulo como promissora devido ao avan- ço nas construções das linhas férreas. A província recebe financiamento do governo imperial e a economia interna abraça a iniciativa. A população recebe bem os trabalhadores e o resul- tado são diversos benefícios econômicos.

Textos desta natureza revelam também a ideologia capitalista do jornal, com argumen- tos a favor da iniciativa privada. No dia 24 de outubro de 1875, por exemplo, o jornal não atribui créditos ao subsídio de juros realizado pelo governo para o financiamento das obras e garante “o historico d‟essa festa industrial, que mais uma vez vem confirmar o poder da inici- ativa particular, e o progresso de nossa bella provincia.” (A PROVÍNCIA, ed. 232, 1875, p. 1). Este texto retrata a festa de inauguração do ramal de Capivari, considerado importante para a época, atraindo figurões políticos e valorizando a iniciativa privada.

Em outro exemplo, de 27 de setembro de 1878, texto reflete a respeito da regulamen- tação da estrada de ferro D. Pedro II, do Rio de Janeiro com ligação a São Paulo. Para o autor, a regulamentação brasileira seria uma tradução mal feita da regulamentação francesa, não abrangendo pontos essenciais que competem ao Brasil. “Pensamos que estas e outras innova- ções ficariam muito bem aos cuidados da iniciativa particular, como se usa na França [...]” (A PROVÍNCIA, ed. 1080, 1878, p. 1).