No passado os estudos das lucernas centraram-se essencialmente numa definição tipo-morfológica, o que produziu abundantes e valiosos resultados. A informação potenciada pela estratigrafia e pelos “contextos selados” deve complementar a aferição de cronologias para estes materiais de modo mais fiável, e em especial das produções locais e regionais.
As variações com que nos deparamos nas produções de lucernas a nível regional, analisadas conjuntamente com o esquema de comércio e transporte, fazem com que as propostas de datação apresentadas pelas diferentes tabelas existentes possam ser consideradas de certo modo relativas. Este dado pode ser constatado através da comparação dessas tabelas, tendo em conta os contextos geográficos em que se baseiam. As lucernas da Praça da Figueira vêm ajudar a compreender um pouco esta dinâmica regional, através da interpretação dos “contextos selados” datados. Nas fossas com formação no século I, as lucernas de produção local encontram-se ausentes (embora este dado seja sempre relativo), encontrando-se abundantemente representadas nos “contextos selados” das sepulturas de finais do século II e do século III.
Este dado parece vir reforçar a ideia de que a produção de lucernas na região de Olisipo ter-se-á iniciado apenas no século II, com as formas de disco do tipo Dr.-Lamb 20, copiando modelos importados essencialmente do Norte de África. A presença do molde da forma Deneauve VG (Est. XXIX, nº 198) parece apontar para uma tentativa de produção de formas de volutas ainda no século I ou já no início da centúria seguinte, embora não esteja corroborada por fragmentos identificativos desta tipologia, aliás ausentes do registo.
Até a data ainda falta o reconhecimento de centros produtores de lucernas nesta região, com a excepção da olaria da Quinta do Rouxinol (FILIPE, et all. 2009) que produziu lucernas de produção manual de qualidade e volume de compulsão bastante reduzidos. Contudo, a análise macroscópica das pastas de fabrico do conjunto da Praça da Figueira permitiu aferir a existência de três grupos (DI, DII e DIII), potencialmente indicadores de mais do que uma olaria produtora à escala do Baixo Tejo, tendo por base a comparação das pastas a que atribuímos como produção regional com fragmentos anfóricos, cerâmica comum e de olaria de construção igualmente imputados a fabricos “olisiponenses”.
Falta, de igual modo, atestar a amplitude de distribuição das lucernas com esta origem dentro do padrão elaborado por Harris (1980), ou seja, se se tratam de centros produtores com uma influência comercial apenas dentro do aro de Olisipo (o que corresponderia ao padrão I) ou com uma distribuição mais ampla (padrão II).
No Norte de África, está comprovada arqueologicamente a existência de produções locais de lucernas dos tipos Dr.-Lamb. 20 e 27/28 que se iniciam no século II, mas prolongam-se ao longo de todo o século III, e a sua exportação à distância, caso de Olisipo. Bu Njem (Líbia), acampamento militar romano que se encontra balizado cronologicamente entre os anos de 201 e 259/263, apresenta uma grande quantidade de modelos de disco, nomeadamente da forma Dr-Lamb. 20, que coexistem com o tipo Dr.-Lamb, 27/28 ao longo do século III, demonstrando que a produção local destas morfologias não termina nos finais da segunda centúria (REBUFFAT, 1987, p.85). No mesmo local a marca CIVNDRAC, fortemente representada na Praça da Figueira e que é geralmente datada do século II, surge em 2 exemplares de Dr.-Lamb. 20, assim prolongando a utilização desta “assinatura” até ao século III em fabricos norte africanos. Reforçando este tipo de entendimento, na necrópole de Raqqada (Tunísia), foram detectadas de igual modo lucernas de produção local das formas Dr.-Lamb. 20 e 27/28, que coexistem entre si em contextos selados datados dos finais do século II e ao longo do século III (ENNABLI, 1987, p.91).
Estes dois exemplos articulam-se com a dinâmica de produção e consumo em Olisipo e, consequentemente, ajudam a compreender a extensão das cronologias das produções locais destas formas encontradas na Praça da Figueira, que, de acordo com as tabelas tipo-morfológicas disponíveis, apontam uma datação do século II para a forma Dr.-Lamb.20, e o século II até inícios do século III para a forma 27/28. O prolongamento das cronologias, comprovado nas próprias regiões de produção, implica igualmente uma extensão nos locais de consumo, caso de Olisipo, assim como das produções regionais efectuadas com base nas formas oriundas do Norte de África.
Nos “contextos selados” da necrópole noroeste, as lucernas da região de Olisipo coexistem com estas produções africanas do século III, prolongando assim também a cronologia do fabrico local das formas Dr.-Lamb. 20 até ao século III.
A atribuição de uma cronologia de ocupação da Praça da Figueira, tem que ter em consideração todos estes factores de produção e comercialização das lucernas. A
diacronia ocupacional deste espaço urbano preenche, no essencial, todo o Período Romano Alto e Médio Imperial: verifica-se a presença de fabricos atribuídos ao inicio do século I, no caso lucernas da classe de volutas do tipo Dr.Lamb. 9, sendo a sub- variante B a mais ancestral identificada, com início de produção tibéria, e de importação itálica; as formas mais tardias identificadas pertencem ao tipo Dr.-Lamb. 30B produzido ao longo do século III; deverá valorizar-se, igualmente, a total ausência de lucernas do Período Republicano, como de exemplares africanos tardios, do tipo Dr.-Lamb. 31, produzido a partir do século IV.
A dinâmica comercial associada a uma cidade portuária como Olisipo é demonstrada pela quantidade e diversidade de mercadorias de importação. No caso das lucernas, podemos distinguir duas fases, de acordo com a relação quantitativa das diversas origens dos produtos. Num primeiro momento, que se explana ao longo do século I, predominam as importações itálicas, que coexistem com as formas oriundas da Baetica, que com elas competem mas sempre com quotas substancialmente mais reduzidas. A partir do século II, as importações de origem norte-africana vão-se afirmar nos mercados da foz do Tejo, enquanto as produções executadas na Península Itálica sofrem uma quebra progressiva nas exportações para Lisboa.
Assim, o contributo do conjunto de lucernas da Praça da Figueira para o conhecimento de Olisipo, pode resumir-se a três aspectos de maior relevância a destacar.
Constatou-se que as produções regionais, de muito maior simplicidade estética, utilizaram modelos tipológicos que, no quadro de outras produções forâneas, encerram datações mais recuadas. O tratamento das lucernas colectadas em ambiente funerário comprovou que estes tipos formais perduraram regionalmente até momentos bem mais tardios, bem dentro do século II e III, o que terá impacto futuro na análise de contextos onde se venha a verificar o seu aparecimento.
Os “contextos selados”, nomeadamente as sepulturas, documentam uma maior presença de lucernas na segunda e terceira centúria da Era, onde coexistem de forma equilibrada importações com produções regionais. Aparte a questão cronológica, não parece reconhecer-se nenhum padrão de escolha baseado nesta característica, mas o enquadramento social e económico dos indivíduos sepultados pode ter condicionado a representatividade de cada um dos grupos.
Neste último âmbito, os valores proporcionados pelos exemplares colectados em ambiente não funerário comprovam que os fabricos regionais assumiram uma importância relativa, menor, face às lucernas de origem forânea, o que se justificará pelas facilidades de aprovisionamento de uma cidade portuária de grande actividade no período dado. Considerada a frequente atestação das produções importadas com datas dos séculos II e III no Vale do Tejo, este elemento demonstra o papel de Olisipo no Alto Império como importante centro redistribuidor de lucernas para a Lusitania ocidental e meridional.
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