• No results found

determinados peixes fornecidas pêlos pescadores e as levantadas na literatura científica.

Quadro 2.10 – Interpretação dos pescadores sobre os aspectos da ecologia trófica dos peixes.

COMPREENSÃO DOS PESCADORES

ECOLOGIA TRÓFICA

O surubim come traíra, piau, curimba e mandím”.

ICTIOFAGIA

O tucunaré ninguém come. São muito bravos. A piaba todos os peixes comem.

PREDAÇÃO DE TOPO/ PREDAÇÃO BASAL

O dourado é valente, violento, é predador.

PREDAÇÀO DE TOPO

O tucunaré e a corvina comem os filhotes deles e dos outros.

CANIBALISMO/ PREDAÇÃO RECÍPROCA

O mandím come caramujo, besouro que cai na água.

ALIMENTO DE ORIGEM ALÓCTONE

O Genipapo é o alimento preferido da matrinchã.

ALIMENTO DE ORIGEM ALÓCTONE

Quadro 2.11 - Compreensão do pescador e informações coletadas na literatura científica, relativas à dieta alimentar de determinados peixes.

Gênero ou espécie popular

“CEL” sobre o hábito alimentar

Espécie Científica Conhecimento Científico

Detalhamento

Traíra Peixe, fiação Hoplias

malabaricus;

Hoplias lacerdae

Carnívoro (Sato et al, 1988)

A análise do conteúdo estomacal de Hoplias

malabaricus mostrou o ítem

“peixes” como o mais representativo, com frequência relativa de ocorrência de 94, 4%, seguida de insetos, 5,6%. Para os estômagos analisados de H. larcadae, a frequência relativa de ocorrência de peixes foi de 75% e insetos, 25%. (SATO et al, 1988).

Cascudo Lodo na pedra, terra Hypostomus francisci; Hypostomus cf margaritifer; Hypostomus sp; Rhinelepis aspera Limnívoro (CEPED/PROTAN,1 989) Liminívoros de cadeia alimentar primária (CEPED/PROTAN,1989).

“São iliófagos, vivem no fundo do ambiente onde raspam o substrato para se alimentarem “(MELO & SATO, 1992). Surubim Peixe, fiação, peixe

pequeno

Pseudoplatystoma coruscans

Piscívoro (SATO & GODINHO, 1999)

Pseudoplatystoma coruscans,

tem hábito alimentar essencialmente piscívoro”. (SATO, Y, & GODINHO, 1999). Mandím- amarelo Cascalho, pedra pequena, inseto, caramujo, besouro. Pimelodus maculatus

Onívoro (MELO & SATO, 1992)

“Têm hábito alimentar onívoro”. “Seu regime alimentar é misto. Os itens mais frequentes são larvas de dípteros e coleopteros; moluscos; larvas de Trichoptera e microcrustáceos (SOUSA, 1988).

Piranha Peixe, inseto; o que achar na frente, o que cair na água ela come.

Pygocentrus piraya

Carnívoro, com tendência generalista

(GOMES, 2002)

Os dados referentes a P. Piraya na represa de Três Marias sugerem que os indivíduos jovens são mais generalistas, ingerindo não somente peixes, mas também insetos principalmente de origem terrestre, enquanto os maiores demonstraram tendência a especialização, ingerindo somente pedaços de peixes.

Curimatá -pioa; curimatá-pacu

(zulega) Curimatá

Lodo, barro, terra Prochilodus affinis; Prochilodus marggravii, Prochilodus vimboides Iliófago MENIM & MIMURA (1992)

Este peixes têm um regime iliófago, considerado como um misto de limnívoro e fitófago, uma vez que os alimentos destes peixes são de origem heterogênea e são constituídos por lodo, detritos orgânicos e organismos vegetais. (MENIM & MIMURA, 1992).

Corvina Peixe pequeno Pachyurus francisci e Pachyurus squamipinis Carnívoro (CEPED/PROTAN,1 989)

As presas mais encontradas na alimentação de Phachyurus

squamipinnis são os peixes de

pequeno porte. Os insetos são presas secundárias (MOURÃO & TORRES, 1988)

Pirambeba Peixe, filhote, tudo. Serrasalmus brandtii

Carnívoro (CASTELLA & FACCIO, 1988.

Serrasalmus brandtii apresenta

dieta predominantemente carnívora-insetívora (BEDÊ et alii, 1993)

Tucunaré Peixe pequeno; piaba, alevino, fiação, curvina; curimatá;

piranha; tucunaré; traíra.

Cichla monoculus Piscívoro (GOMES, 2002)

“A dieta de Cichla monoculus caracterizou-se por ser predominantemente piscívora, sem variações quanto a época do ano ou mesmo quanto ao tamanho dos indivíduos. A predação sobre espécies de

peixes de pequeno porte foi observada, sendo inclusive registrada a ingestão de um jovem da mesma espécie. (GOMES, 2002).

(Baseado em THÉ, 1999)

MARQUES (1995) também encontrou um conhecimento muito detalhado entre os pescadores maritubanos sobre a ecologia trófica dos peixes. Para ele, tal cognição compartilhada, leva-os à adequação de táticas e estratégias ao rico contexto presa/predador, para o qual, todo um conjunto de material e equipamentos torna-se necessário. Nas pescas em ambientes lóticos, onde se utilizam diversos aparelhos e iscas, o sucesso do pescador/predador vai depender em grande parte das manipulações das cadeias tróficas dos seus peixes/presas. Neste sentido, o conhecimento detalhado da ecologia trófica dos peixes adquire um caráter utilitário, pois a utilização correta do ítem alimentar/isca otimizará o esforço de pesca. No caso dos pescadores de represa, apesar de utilizarem principalmente redes, o conhecimento sobre a ecologia trófica dos peixes também é importante, pois permite-lhes saber não só o que os peixes comem, mas onde e quando eles ocorrem, facilitando a escolha correta do melhor sítio de pesca e aumentando sua eficiência.

Com respeito à pesca na represa de Três Marias, os pescadores identificaram a diminuição de outras espécies após a introdução do tucunaré, relacionadas à sua eficiência como predador: tucunaré acaba com a produção/desova dos outros peixes.

Notou-se um aparente dilema entre os pescadores relacionado à importância do tucunaré na pesca. Apesar de a maioria deles concordar que a entrada do tucunaré no reservatório foi um dos principais motivos para a queda de outras espécies existentes na represa, o tucunaré, apreciado pelo sabor, é muito procurado pelos compradores, e atualmente uma das espécies mais importantes como fonte de renda para o pescador do reservatório. No Quadro 2.12 demonstra-se o conhecimento ecológico local sobre o tucunaré dos pescadores da represa de Três Marias.

Para os pescadores do trecho de rio do Alto-Médio São Francisco, o tucunaré também está relacionado ao desaparecimento de várias espécies nativas, devido à sua presença em lagoas marginais. O tucunaré tem sido encontrado nestes locais por introdução sem controle realizada pelos proprietários de fazendas que utilizam a água das lagoas para irrigação.

Moço, o negócio é o seguinte...esse pessoal, eles botaram um tal de tucunaré pra acabar com as ovas da piranha e esse peixe, ele acaba com tudo, ele não come só a ova de

piranha não. Ele come surubim, curimatá, dourado, ele come tudo. Ele tem infestado tudo, tanto que ele é um peixe que a gente quase não vê ele, aqui no rio. Ele gosta mais de lagoa (marginal)...antes o rio enchia, entrava nessas lagoas aí e soltava todos os peixes. Hoje tem muita lagoa aí que tem peixe mas tá tudo preso e os donos não deixam pescar, é proibido pelo IBAMA, então esse peixe (tucunaré) vai produzindo lá e lagoa merginal e ele mesmo vai acabando com tudo (alevinos de outros peixes).

É sabido que o tucunaré, devido à sua eficiência como predador e ao seu sucesso na colonização de novos habitats, pode provocar alterações danosas ao meio ambiente. Segundo GODINHO e FORMAGIO (1992), 50% das espécies nativas pertencentes à comunidade de peixes da Lago Dom Helvécio do Parque Estadual do Rio Doce (MG), desapareceram devido a introdução do tucunaré e da piranha (Pygocentrus sp) no referido lago. Na represa de Três Marias, o tucunaré vem sendo capturado desde 1982 e sua participação na pesca aumentou cerca de 500% no período entre julho de 1985 e junho de 1987 (SATO e GODINHO, 1988). Para MAGALHÃES et alii (1996), o tucunaré encontrou condições bastante favoráveis à sua sobrevivência e disseminação na represa de Três Marias, fato que torna preocupante a sua presença entre as espécies nativas, podendo causar um desequilíbrio ictiofaunístico e ecológico do ecossistema.

Quadro 2.12 - Modelo científico e conhecimento local sobre oTucunaré (Cichla monoculus), para a represa de Três Marias, MG.

FENÔMENO