“Repensar a inserção social da Psicologia, implica também repensar a colocação da dimensão do profissional no seio da formação” (HOLANDA, 1997, p.11)
A qualidade da formação do psicólogo é uma preocupação constante da categoria. Desde sua regulamentação como profissão no Brasil pela Lei Federal nº 4.119, de 27 de agosto
de 1962, a Psicologia passou por um longo processo objetivando sistematizar a formação do futuro psicólogo. Antes mesmo dessa data, pesquisas já eram realizadas sobre a formação. Em 1953, Anita de Castilho e Marcondes Cabral, da USP, publicaram o primeiro artigo contemplando a questão da formação. No ano seguinte, Carolina Bori abordou em seu artigo “Um curso de estatística aplicada à experimentação psicológica” a importância da estatística e da experimentação na formação do psicólogo (CÂNDIDO & MASSIMI, 2012).
Ferreira Neto (2004) ressalta o estudo de Sílvia Lesser Pereira, em 1975, pela USP, como um pioneiro sobre a formação em Psicologia. Segundo o autor, neste trabalho, Pereira constata que é comum a insatisfação em relação aos cursos entre alunos e professores e que a formação daquele momento se prendia às formas tradicionais de utilização da Psicologia.
Anos depois, em pesquisa realizada pelo CFP em 1988 - “Quem é o psicólogo brasileiro?” –, fica claro que a insatisfação dos psicólogos em relação à sua formação ainda se apresenta (BORGES-ANDRADE, 1988). No conjunto de possíveis dificuldades específicas no exercício da Psicologia, a “formação e experiências” foi a categoria de maior incidência. Não apenas os psicólogos consideram que o que foi aprendido na graduação foi insuficiente, como recorrem à formação complementar para alicerçar a sua prática profissional.
Resultados semelhantes foram evidenciados por Bardagi et al. (2008) em pesquisa realizada com 79 alunos egressos do curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As autoras identificaram que 52% dos psicólogos que participaram do estudo se sentiam não ou “mais ou menos” preparados para atuar ao final do curso, enquanto os outros 48% afirmavam se sentirem preparados.
Isso se manteve em nova pesquisa realizada sobre a profissão do psicólogo no Brasil realizada pelo GT Psicologia Organizacional e do Trabalho da ANPEPP ao discorrer que:
[...] os psicólogos reconhecem uma distância significativa entre as suas aprendizagens na graduação e as demandas do exercício profissional. Os desafios da qualificação profissional e as defasagens entre o que é necessário para bem exercer a profissão (BASTOS et al., 2010, p.268)
Ao realizar um levantamento sobre a formação, Valle Cruces (2008) resume os principais problemas detectados:
[...] a expansão desenfreada de cursos na área; e a sua precária qualidade, pois muitos deles priorizam a teoria e o preparo técnico, dando pouca possibilidade de estágio e pouca ênfase à investigação; além do enfoque na clínica curativa e individualizada, centrada quase sempre na psicanálise, uma das fontes teóricas predominantes no treinamento dos futuros profissionais (p.241).
Consideramos que para falar de formação é necessário falar de profissão. Para Holanda (1997), formação e o exercício profissional constituem um processo contínuo e, por isso, é necessária uma parceria que “envolva um empenho mútuo na direção de uma formação adequada para o futuro psicólogo” (HOLANDA, 1997, p.12) entre as entidades formadoras e os Conselhos de Psicologia. Os cursos de graduação de Psicologia têm a enorme responsabilidade de formar os futuros psicólogos, por outro lado, é função dos Conselhos, entre outras coisas, “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de Psicólogo” e “zelar pela observância do Código de Ética Profissional” (BRASIL, 1971).
Nos dias de hoje, o Documento do CFP sobre a Formação de Psicólogas e Psicólogos (GRUPO DE TRABALHO FORMAÇÃO, 2012) adiciona que apesar da grande função do Conselho na atuação sobre a formação do psicólogo, é responsabilidade imediata dos centros universitários e associações científicas e profissionais, como a ANPPEP (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia) e ABEP (Associação Brasileira de Ensino de Psicologia), cuidar dessas questões.
É inegável a relação entre formação e profissão, porém ainda não se superou o pensamento dicotômico, e estas instâncias indissociáveis não têm sido trabalhadas como tal. Holanda (1997) exemplifica que, já que deve ser garantida a ética do psicólogo, o ideal seria que durante a formação fosse proporcionado ao estudante condições para que construa o seu compromisso ético e desde então assuma um papel como transformador social. E, Paiva e Yamamoto (2010) afirmam que, ao isolarmos profissão e formação, temos como resultado não apenas “formações insuficientes e desconectadas da realidade social” (p.156), mas também geramos insegurança e angústia para os psicólogos ao se inserirem nos diversos campos de atuação.
A formação deve servir de resposta às novas demandas da atuação profissional ao ser um espaço de construção de superações das práticas já estabelecidas. Algumas mudanças na profissão podem ser identificadas, mas será que elas refletem na formação?
Segundo Bastos e Achcar (1994), dentre os principais eixos de transformação da prática do psicólogo, tem-se que a concepção do fenômeno psicológico passa do plano individual para o contexto sociocultural, que a busca do conhecimento para embasar a prática de unidisciplinar tende a virar multidisciplinar, assim como a natureza da intervenção tende para a atuação multiprofissional, saindo do plano isolado do psicólogo. Os autores acrescentam que a intervenção não foca mais apenas no indivíduo, mas começa a olhar para os contextos e grupos, deixando o caráter remediativo para um caráter preventivo. Também afirmam que é assumida uma postura crítica da psicologia frente aos seus conhecimentos e técnicas, que houve
uma mudança na população atendida, somando os segmentos socialmente excluídos. Por fim, o compromisso do profissional pela transformação social passa a ser colocado como importante. Porém, Gonçalves e Bock apontavam em 1996 que “a formação dos psicólogos não parece estar caminhando nesta direção” (GONÇALVES e BOCK, 1996, p.148). As autoras afirmam que as mudanças identificadas no trabalho de Bastos e Achcar (1994) pouco têm sido absorvidas pelos currículos de Psicologia e que ainda se está transmitindo um modelo de atuação baseado na visão liberal de homem deslocado de sua realidade social.
Segundo Bock (1997), a formação dos psicólogos tem sido dominada pela visão liberal, assim, os psicólogos têm-se formado na perspectiva da naturalização do homem e do individualismo. Assim, ela coloca uma série de elementos para basear a construção de um novo projeto de formação crítica, são eles: pluralidade, estímulo à pesquisa, criatividade, interdisciplinaridade, formação generalista, treino da prática e, fundamentalmente, uma formação colada à realidade brasileira. Este último ponto é confirmado por Mancebo (1997), ao afirmar que os cursos são alheios às necessidades brasileiras.
Convergindo nesta mesma visão de Psicologia, Azerêdo (2002) acredita que para responder às demandas da realidade brasileira, o grande desafio da Psicologia é introduzir a dimensão política na formação com o objetivo de alcançar uma nova prática de pensamento que atue contra o sistema de desigualdade. O que é corroborado pelo Grupo de Trabalho Formação do CFP (2012) ao afirmar que um dos maiores problemas da formação do psicólogo brasileiro é a ausência de um projeto ético-político para a profissão.
O Grupo de Trabalho Formação afirma que “o CFP está consciente da defasagem ético-política no que tange à questão teórica e técnica da formação do psicólogo” (2012, p.7) e que urge a necessidade de uma adequação da formação às novas demandas sociais. Adequar a formação às demandas sociais implica-nos definir quais delas são foco da nossa atuação. Para tanto, Bicalho et al. (2009) afirmam que:
[...] é preciso adquirir a clareza de que nosso trabalho profissional é também um trabalho político, nunca isento nem neutro. Nossas práticas envolvem uma concepção de mundo, de sociedade, de homem, de humano, exigindo um posicionamento sobre a finalidade da intervenção que fazemos, a qual envolve a certeza de que nossas práticas têm sempre efeitos, exigindo que tomemos, portanto, posições (p.33). Concordamos com Holanda (1997) ao afirmar que formação e profissão são indissociáveis. Parto do pressuposto da necessidade de um projeto político para a Psicologia, pois, se quisermos construir uma nova formação, precisamos ter um projeto de profissão. E, se quisermos ter um projeto de profissão, devemos nos perguntar: que psicologia o Brasil precisa?