4 Metode og datagrunnlag
4.4 Databehandlingsprogram for analyse av datasett 1
Sinto, como historiadora e como mulher, que esta história perdida precisa ser recobrada. As mulheres devem ter sua história. As corajosas pioneiras feministas do Brasil do século XIX e suas sucessoras precisam ser conhecidas por esta geração.61
[...] resgatar parte da obra dessas esquecidas e, principalmente, mostrar que, apesar da ausência desses nomes nas histórias literárias do século XX, elas existiram e foram atuantes, a seu modo, em sua época.62
É inegável, na atualidade, a importância social, cultural e política dos estudos na área de resgate e visualização de textos produzidos por grupos ditos minoritários, no caso específico, o da mulher. Esses estudos iniciaram uma reflexão sobre a escrita feminina, reavaliando a própria história literária através da recuperação dos textos produzidos. Na medida em que essas vozes foram caladas ou consideradas menores, constatou-se o empobrecimento da literatura e da própria história da humanidade.
Há no Brasil, principalmente a partir da década de 70 do século XX, um grande projeto cujo objetivo é resgatar textos de autoria feminina. As publicações contribuíram significativamente para construir a nossa História. Todavia, por fatores os mais diversos, as escritas femininas estiveram sempre na invisibilidade. O presente estudo, portanto, acrescenta mais um tijolo no projeto de feição multidisciplinar que se concentra na construção de uma tradição literária feminina brasileira. Nessa perspectiva, são bastante lúcidas as palavras de Clarisse Fukelman:
Para dar conta da literatura produzida pela mulher no século passado devemos alargar o instrumental teórico, valorizando a interdisciplinaridade, e introduzir novas categorias que nos permitam lidar adequadamente com tal tipo de texto.63
A especificidade da produção literária feminina brasileira, que será examinada, direciona o projeto citado para uma tendência teórica filiada aos estudos arqueológicos de recuperação da história silenciada da produção feminina e, ainda, à análise dos paradigmas patriarcais e logocêntricos da literatura canônica. Nessa linha teórica estão os trabalhos de pesquisadoras brasileiras, tais como, Constância Lima Duarte, Heloísa Buarque de Hollanda,
61 HAHNER, June E. Prefácio. In: ______. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 10.
62 MUZART, 2000, p. 19
63 FUKELMAN. Clarisse. Palavra de mulher. In: FUNCK, Susana Bornéo (org). Trocando idéias sobre a mulher
Ívia Alves, Luzilá Gonçalves, Norma Telles, Rita Terezinha Schmidt e Zahidé Muzart, entre tantos outros que poderiam ser aqui citados.64
Em 1970, os estudos literários sobre a mulher começam a ser realizados no Brasil, ainda que de forma esporádica e individual. Dentro do fenômeno cultural, estabelecido no ano citado, o princípio de alteridade e a divergência de vozes dentro da sociedade irão refletir intensamente nos estudos que buscam reconstituir a história das sociedades por outras vozes, dando visibilidade a questões recalcadas dentro das áreas dos estudos acadêmicos.
O GT Mulher na Literatura, originado no ano de 1986, e os Encontros Nacionais, ocorridos entre 1987 e 1989, tornam-se mais sistemáticos nos anos de 1990 e início do século XXI. Eles representam um marco no que se refere às respostas práticas, em termos de produção científica, das reuniões realizadas nos congressos da ANPOLL, e nos seminários nacionais Mulher e Literatura. Dos encontros, congressos e seminários resultou, além dos anais, uma produção intelectual que registra as discussões mais recentes em torno da questão da escrita feminina do passado à contemporaneidade.
As autoras e/ou organizadoras são professoras, pesquisadoras e feministas do século XX, que, como Sherazade, quebraram uma norma ao desmontarem um estereótipo construído para excluir, das histórias da literatura, as obras de autoria feminina. Não há motivos justificáveis para essa exclusão, apesar dos “normatizadores de plantão” insistirem num valor estético que, afirmam eles, os textos femininos não teriam, e, portanto, o crivo masculino não aprova(va). As pesquisadoras audaciosas enveredaram por um projeto de revisão da história literária e como resposta ao processo estabelecido produziram livros que salvaram as obras do passado, do sequestro ou do limbo em que se encontravam. São antologias, coletâneas biográficas e dicionários cujo objetivo se pauta em resgatar a ousadia das escritoras de outros tempos que fizeram história, ao se inserirem no espaço público, em um momento quando a atividade literária só era permitida aos homens. Ressalto, porém, que os textos e obras escolhidas, a fim de respaldar este estudo, não são os primeiros trabalhos. Muito antes, desde o século XIX, já existia a preocupação com o resgate de textos de autoria feminina.65
64 Além dessa bibliografia específica, a fundamentação teórica também se apoiará em áreas afins como Sociologia e História que contribuirão para elucidar a problemática Literatura/Cultura/Resgate.
65 A exemplo temos: AZEVEDO, Josefina Álvares de. Galeria ilustre: mulheres célebres, (1897); SABINO, Ignez. Mulheres illustres do Brasil, (1899); OLIVEIRA, Andradina de. A mulher rio-grandense e escritoras
mortas, (1907); BRITO, Cândida de. Antologia feminina: escritoras e poetisas contemporâneas, (1929);
BITTENCOURT, Adalgisa. Mulheres e livros, (1948); TACQUES, Alzira Freitas. Perfis de musas, poetas e
prosadores brasileiros, (1956-1958); GUIMARÃES, Rute. Mulheres célebres, (1963); GALEANO, Henriqueta. Mulheres admiráveis, (1965); BITTENCOURT, Adalgisa. Dicionário biobibliográfico de mulheres ilustres, notáveis e intelectuais do Brasil, (1969), (III volumes); GALENO, Henriqueta. Mulheres do Brasil, (1971) - (IV
Tais publicações contestam um projeto androcêntrico que foi construído para olvidar as obras escritas por mulheres. Ao resgatar as produções de nossas primeiras escritoras, revisam a história literária tendo como alicerce teórico os estudos da crítica feminista e sua confluência com as relações de gênero.
Na década de 70, ocorre a formação de pequenos grupos informais de estudo sobre o assunto Mulher e Literatura. O ano de 1975 inaugura uma nova fase do movimento feminista no Brasil, com a Conferência Mundial promovida pelas Nações Unidas, naquele ano. A reorganização do movimento feminista nacional contribui para o crescimento das reivindicações por parte dos grupos ditos minoritários. Luíza Lobo,66 avaliando o decênio da literatura feminina no Brasil, constata que, entre os anos 1975-85, as mulheres buscam se libertar dos papéis tradicionais, tanto no plano social quanto no literário. Segundo a ensaísta, nesse período, a participação feminina na literatura brasileira aumentou de forma impressionante. É a efetiva possibilidade de se recontar a nossa história a partir de micronarrativas, por meio das quais o papel dos grupos “ex-cêntricos” é repensado numa perspectiva menos absoluta e mais plural; entendendo os segmentos não como meros espectadores, mas como sujeitos que contribuem e interferem efetivamente na construção da nossa realidade social e cultural.
A organização institucional dos estudos sobre a mulher data do ano de 1985, quando é criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher & das Delegacias de Mulheres. Nesse mesmo ano, na Universidade Federal de Santa Catarina, ocorre o seminário regional sobre a
Mulher na Literatura, pontapé inicial para os encontros nacionais dos anos posteriores.
O difícil acesso ao material referente às escritoras do passado e a dificuldade de localização dos textos produzidos por elas são questões tratadas pelas pesquisadoras. Em um ensaio67 publicado no ano de 1994, Ria Lemaire defende que a escrita e o ensino de história literária no ocidente tem se mostrado “um fenômeno estranho e anacrônico”. A história literária tradicional repete a sucessão de escritores brilhantes, como a genealogia das sociedades patriarcais do passado pautava-se na seqüência cronológica de guerreiros heróicos. Nos dois casos, “as mulheres foram eliminadas ou apresentadas como casos excepcionais, mostrando que, em assuntos de homem, não há espaço para mulheres normais”. A ensaísta contesta a assertiva, dizendo que esse tipo de historiografia, definida em termos patrilineares,
66 LOBO, Luíza. Dez anos de literatura feminina brasileira. In: ______. Crítica sem juízo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993.
67 LEMAIRE, Ria. Repensando a história literária. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.) Tendências e
com ênfase excessiva na paternidade cultural, precisa ser desconstruída em dois vieses: a desestabilização do sujeito masculino e, conseqüentemente, do “herói” das obras literárias e do mito de uma única literatura.
Rita Terezinha Schmidt68 afirma que o resgate das obras de autoria de mulheres, relegadas pela crítica, implica em definir os termos de uma outra lógica, outra plausibilidade, outra narrativa cultural. Esse trabalho faz-se necessário na medida em que traz à tona uma discussão atual e polêmica acerca da “literatura feita por mulheres”, obscurecida à sombra da escrita masculina por uma questão de discriminação em relação ao texto feminino.
Em outro artigo, sob o ponto de vista da Crítica Cultural, Rita Schmidt discorre sobre os mecanismos de coerção da construção identitária. Ela, assim, destaca a capacidade que os sujeitos “relegados e silenciados” têm de, num determinado momento histórico que lhes favorece, acionar uma “memória emancipada” tornando consciente aquilo que foi por determinação, também histórica, suprimido da lembrança. A ensaísta questiona a tradição de uma genealogia masculina e suas práticas sociais e culturais que definiram a narrativa feminina como elemento periférico da cultura, através do exame do romance Moses, man of
the mountain, de Zora Neale Hurston, publicado em 1939. Conforme Rita, a escritora afro-
americana reescreve o mito bíblico de Moisés, denunciando as práticas coersivas dirigidas à mulher. Depois de uma análise aprofundada dos mecanismos opressivos que calaram a mulher, descritos por Hurston em sua narrativa, Schmidt conclui que os textos escritos por mulheres inscrevem “atos de resistência”. Assim se manifesta Schmidt:
Nesse sentido, a emergência do outro da cultura, ou seja, as mulheres narradoras silenciadas pelas práticas narrativas dominantes da cultura patriarcal, sinaliza um novo episteme narrativo em que novos saberes, para além de limites sagrados e seculares impostos pela tradição, atualizam um novo sujeito engajado na reconceptualização de si e do mundo.69
Célia Ferreira, em artigo que se encontra em um livro de nome politicamente sugestivo, Refazendo nós, discute resgate e valor estético. Segundo a autora, a linha de pesquisa “Resgate de escritoras” coloca em questão os discursos transmitidos pelas histórias da literatura, persistentes em manter os nomes de autoras no esquecimento. A pesquisadora
68 SCHMIDT, Rita Terezinha. Para que crítica feminista? (Anotações para uma resposta possível). In: VI SEMINÁRIO NACIONAL MULHER E LITERATURA, 11 a 13 de set. de 1995, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: NIELM, p. 138-149.
69 SCHMIDT, Rita Terezinha. Em busca da história não contada ou: o que acontece quando o objeto começa a falar? In: CAMPOS, Maria do Carmo; INDURSKY, Freda. Discurso, memória, identidade. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2000, p. 105.
enfatiza que essa discussão sempre vem à tona quando aparece uma publicação norteada pela intenção de retirar tais escritoras “da poeira de bibliotecas pouco visitadas pelo público leitor”.70 Conforme a ensaísta, para as pesquisadoras tal fato é motivo de grandes
comemorações, entretanto, para os seguidores do crítico e professor norte-americano Harold Bloom, estaria apenas confirmando a tese do ressentimento.
A redescoberta dessas escritoras, diferente do perpassado em forma de omissão pelas histórias literárias, comprova que seus textos levam em conta pressupostos teóricos. Eles são concernentes aos discutidos como novidade em termos de literatura na época quando foram escritos. Até mesmo, as escritas femininas do período apresentam temas e questões muito mais revolucionários do que aqueles tratados pelos homens.
O tema Mulher e Literatura continua marginalizado, tanto que Zahidé Muzart espanta- se ao ser convidada para participar do livro Histórias da literatura, organizado por Maria Eunice Moreira. O título, bem como os artigos que compõem o livro, é uma proposta coerente de ampliação no horizonte dos estudos na área. Apesar da surpresa inicial, as palavras da ensaísta se traduzem em felicitações à iniciativa. Zahidé Muzart considera alguns aspectos referentes à editora Mulheres e ao seu projeto de publicar antologias sobre escritoras do século XIX.71
A necessidade de rever o cânone é a empreitada de muitas intelectuais que estão à frente dos projetos voltados ao tema Mulher e Literatura. Profissionais, ligadas à docência e à pesquisa universitária, afirmam, na introdução de muitos livros produzidos nessa área de estudos, que as pesquisas iniciadas por elas somente se concretizaram por meio do apoio de suas instituições de origem e de órgãos governamentais de fomento à pesquisa. Muitas apontam o CNPq como principal responsável pelo financiamento de seus projetos e aludem à importância do esforço coletivo, organizado individualmente por cada uma das especialistas provenientes de regiões de todo o país. Além disso, as pesquisadoras destacam a importância de arquivos e coleções particulares, bibliotecas e hemerotecas. Elas asseguram que seus projetos foram motivados pela constatação de que a mulher escritora está ausente nas histórias da literatura brasileira. Salientam a relevância que as literaturas produzidas por mulheres vêm assumindo desde as reuniões do GT A Mulher na Literatura, da ANPOLL, e os seminários
70 FERREIRA, Célia. Resgate de escritoras e revisão da história da literatura. In: BRANDÃO, Isabel; MUZART, Zahidé L. Refazendo nós: ensaios sobre mulher e literatura. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003, p. 73.
71 MUZART, Zahidé L. Feminismo e Literatura ou quando a mulher começou a falar. MOREIRA, Maria Eunice. (org.) In: Histórias da literatura: teorias, temas e autores. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003, p. 262.
nacionais A Mulher na Literatura. Os eventos estimularam os estudos sobre gênero e incentivaram as publicações das obras.
No dicionário Ensaístas brasileiras, publicado em 1993, há mais de 600 verbetes, apresentados em ordem alfabética, com bibliografia das autoras e um significativo número de textos sobre a recepção crítica. No prefácio intitulado O que querem os dicionários?, Heloísa Buarque de Hollanda reflete sobre a preocupação das dicionaristas em romper com a lógica do silenciamento, denunciando a estigmatização da presença feminina na literatura. A estudiosa ressalta que a prática de publicar dicionários, antologias e coletâneas é atividade antiga entre as mulheres. Desde muito cedo, as pesquisadoras do passado descobriram a necessidade de registrar os nomes das mulheres para salvá-las do esquecimento. De acordo com Heloísa Buarque de Hollanda: “Hoje, a tendência arqueológica, uma das linhas de força da crítica literária feminista contemporânea, formaliza esta preocupação e lhe dá sustento científico”.72
Mary Del Priore, na apresentação de A história das mulheres no Brasil, caracteriza o livro como obra pioneira e de referência e convida o leitor a fazer uma “viagem através do tempo” para conhecer as “irmãs do passado”. Para essa empreitada, escolheu pesquisadores de diversas áreas, proporcionando ao leitor a compreensão do universo feminino, a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Segundo a organizadora, a idéia do livro partiu do editor da Contexto, editora responsável por possibilitar as melhores condições para o desenvolvimento do projeto. Nos vinte textos que compõem o livro, as ensaístas73 recuperam a história das mulheres desde o século XVI até o XX. Os ensaios abordam questões do cotidiano feminino relatado pelos viajantes do século XVI, sexualidade e homoerotismo femininos, família, maternidade, pobreza, violência, trabalho feminino, escrita feminina, entre outros temas recorrentes no século XX.
Na leitura, sobressai a rejeição ao determinismo biológico, ressaltando os elementos culturais, sociais, políticos e econômicos que influenciaram as relações entre homens e mulheres, a ênfase na complexidade e diversidade das experiências femininas e, ainda, as relações das mulheres através das tensões e contradições que se estabeleceram em diferentes épocas. Para tanto, valem-se de vários tipos de documentos tais como processos inquisitoriais, leis, crônicas de viagem, atas de batismo e casamento, diários, fotos, cartas, testamentos,
72 HOLLANDA, Heloísa Buarque de; ARAÚJO, Lúcia Nascimento. Ensaístas Brasileiras: mulheres que escreveram sobre literatura e artes de 1860 a 1991. Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p. 16.
73 Uso o adjetivo no feminino, por uma questão de posicionamento político e, também, respeitando o princípio de serem em maioria mulheres. Ressalto, entretanto, que cinco ensaios são escritos por homens.
jornais, etc. Enfim, uma quantidade surpreendente de materiais que possibilitaram o contorno de uma imagem bem mais nítida do universo feminino.
A história das mulheres é relacional, inclui tudo que envolve o ser humano, [...]. Nessa perspectiva, a história das mulheres é fundamental para se compreender a história geral: a do Brasil, ou mesmo aquela do ocidente cristão.74
Em 1999, Zahidé Muzart publica, pela editora Mulheres,75 uma obra com quase 1000 páginas. É o primeiro volume de Escritoras brasileiras do século XIX.76 Nele encontram-se
51 escritoras brasileiras resgatadas do mais profundo silêncio. A pesquisadora promove a reescrita das histórias da literatura brasileira do século XIX e da historiografia produzida no século XX. O projeto ousado de Zahidé Muzart nos permite vislumbrar uma nova história da literatura no Brasil e constitui daqui pra frente uma referência no campo da crítica feminista brasileira.
No texto introdutório, Zahidé Muzart define seu trabalho, e de sua equipe de pesquisadoras, como uma faina de “revolver escombros e garimpar entulhos, que só pode ser levada a cabo com paciência e boa dose de paixão”. O trabalho de resgate das autoras desaparecidas de nossa história literária corre contra a ação corrosiva do tempo e busca, por entre as ruínas, o legado daquilo que desapareceu. O que está morto na história pode ressuscitar. Assim sendo, a realização dessa viagem ao século XIX, praticamente desconhecido do leitor brasileiro no século XXI, resulta, para mim, em um novo modo de olhar para a tradição literária brasileira.
As estudiosas que ressuscitam as escritoras do passado, em Escritoras brasileiras do
século XIX, questionam a representação produzida pela voz dos escritores e historiadores
homens. Portanto, os textos reunidos pelas pesquisadoras desconstroem uma representação homogênea do lugar da mulher, seja na história, seja na literatura do século XIX. Eles
74 DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. 2. ed., São Paulo: Contexto, 1997. p. 8.
75 A editora Mulheres é um empreendimento pessoal de Zahidé L. Muzart. Ela cria em 1996, em Santa Catarina a editora que objetiva recuperar a produção da mulher brasileira no século XIX. Sua iniciativa facilitou o acesso a textos, ensaios e romances esgotados e impulsionou a pesquisa sobre o século XIX, visto que depois das publicações, o número de dissertações de mestrado e de teses de doutorado sobre a literatura de autoria feminina aumentou em todas as instituições do país. Hoje, já são oferecidos 43 títulos distribuídos nas séries ensaios, romances, cartas, poesias e viagens. Muitos já estão esgotados. No ano de 2005, o livro Ensaístas Brasileiras concorreu ao prêmio Jabuti, oferecido pela Academia de Letras do Brasil. Há inclusive um artigo da própria Zahidé, no qual ela traça uma retrospectiva da criação da editora. Cf. MUZART, Zahidé. Histórias da editora Mulheres. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, set.-dez. 2004. Também é possível verificar no site:<http://www.scielo.br/scielo.php. Acesso em 16 ago. 2007.
76 MUZART, Zahidé L. (Org.) Escritoras brasileiras do século XIX. 2. ed. revisada. Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2000. v.I.
também acabam por solapar qualquer idéia que equivocadamente pudéssemos ter de uma identidade comum a unir todas essas escritoras.
É evidente a contribuição de Zahidé Muzart para a rearticulação de uma sociedade na qual as diferenças possam ser respeitadas, enquanto identidades diversas e múltiplas, e onde elas possam emergir enquanto elemento contestador do discurso totalizante. A relevância dessa obra reside no fato de propiciar um espaço dentro da literatura para a produção literária feminina do século XIX. A visibilidade das novas vozes registra a vida cultural por um outro viés, diferente do estabelecido pelo olhar exclusivamente masculino. Os estudos arqueológicos de recuperação da história silenciada da produção feminina e a leitura aprofundada das obras das escritoras revelam a contribuição delas ao ambiente social, cultural e político no tempo em que viveram.
Na esteira de suas companheiras de pesquisa, Lizir Arcanjo Alves publica, em Salvador, Mulheres escritoras na Bahia. Na “Apresentação”, informa ao leitor, o objetivo do trabalho de “resgatar a produção literária feminina de toda uma época em que pouco ou quase nenhum valor se lhe dava, exatamente por ser de mulher”.77 Na coletânea, a autora recupera