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2. Methods

2.5 Data processing

No Relatório Delors (2006, p. 101), a partir da proposição dos quatro pilares sobre a educação para o século XXI, o autor salienta que o aprender a conhecer ou a dimensão instrumental do conhecimento, o aprender a fazer ou a dimensão técnica do conhecimento, o aprender a conviver ou o exercício do reconhecimento da diferença e não desigualdade, estão

alicerçados no aprender a Ser: “o desenvolvimento tem por objeto a realização completa do

homem, em toda a sua riqueza e na complexidade das suas expressões e dos seus compromissos: indivíduo, membro de uma família e de uma coletividade, cidadão e produtor,

inventor de técnicas e criador de sonhos”. A educação deve se apresentar como “viagem interior, cujas etapas correspondem às da maturação contínua da personalidade”. Faz parte,

portanto, do projeto de vida do indivíduo.

Enorme desafio. A ênfase que encontramos, na formação inicial de professores, é a do ensino e do domínio de técnicas. Somente estas instâncias, o saber e o fazer, no entanto, não garantem o aprendizado do Ser, conforme preconiza o Relatório Delors. Todavia, este aprendizado do Ser está alicerçado, no caso, no contexto de formação que nos remete às transformações vivenciadas pelas alunas e todos os sujeitos envolvidos no processo. Não

podemos prescindir das instâncias do saber e fazer, mas em conjunto, com estas, é preciso construírmos a condição do Ser, projeto que diz respeito à condição humana.

Os professores entrevistados32 evidenciaram ampla dedicação ao trabalho de formação, mas, ressaltaram e partilharam suas dúvidas e preocupações com relação ao processo. Apesar de acreditarem no trabalho realizado, o resultado deste se apresenta incógnito, visto não garantir às alunas excelência em sua prática pedagógica, mesmo tendo sido formadas sob as diretrizes curriculares do Instituto. Evidentemente que neste contexto encontramos somente indicativos, pois os elementos curriculares não abrangem a dimensão integral da formação; esta deve ser entendida, no meu entender, como auto-eco-formação, no viés dos construtos teóricos da auto-eco-organização, proposto por Morin (1999).

Por outro lado, o suporte de auxílio às alunas que se habilitam a cursar o Normal é satisfatório. O Instituto dispõe, mesmo com todas as dificuldades apontadas, de infra- estrutura, de condições básicas para desenvolver o curso. Contudo, a contemporaneidade requer outras condições, que não necessariamente de cunho financeiro e infra-estrutural, remetendo-nos ao investimento na pessoa humana. Este não pode ser mensurado, mas pode ser apreciado quando encontramos os alunos superando os obstáculos.

É uma preocupação evidenciada pelos professores formadores a maneira como as alunas irão desenvolver-se profissionalmente, desempenhando, segundo o olhar destes, a profissão satisfatoriamente. Segundo uma professora:

A única coisa que deixo para elas, que é uma contribuição que cada uma vai levar da forma que achar melhor, que foi meu modo de ser enquanto professora, com elas. Enquanto professora, enquanto supervisora, a minha preocupação foi constante em que elas levassem sempre coisas novas para as crianças, mudanças. Então, o meu modelo enquanto professora seja modelo melhorado por elas. Que elas superem o mestre. Que minhas discípulas me superem.

Na superação, a esperança de investimento na melhoria das aulas lecionadas, na melhoria do próprio aprendizado e do desenvolvimento pessoal. Importante ressaltar que, para que esta superação possa ocorrer, é necessário acreditar no potencial de poder realizar mais e melhor.

32 Remeto o leitor à Apêndice E, na qual expus fragmentos de falas, representativas, das opiniões do professores formadores com relação à formação no geral e ao Curso Normal, no particular.

O sujeito em formação, no caso enfocado, esteve alicerçado no equilíbrio que as alunas necessitavam construir ao longo da experiência, culminando com o período de estágio. O equilíbrio se fez necessário, entre as exigências do curso e as exigências pessoais frente aos desafios, encontrados no cotidiano escolar, que traduziam a complexidade da atuação do Ser Professor. Para obterem êxito no empreendimento, necessitaram equacionar teoria/prática, levando em conta a subjetividade de seus alunos e a sua própria subjetividade.

Além destes desafios encontrados na Escola, as exigências dos familiares das alunas se faziam presentes, ilustradas no comentário desta aluna:

Eu sou uma adolescente. Dezessete anos. Muitas vezes exigem coisas que realmente garotas da minha idade não fazem. (Exemplo?) Várias coisas. Até minha mãe: - Tu já é uma professora. Mas ela não vê o lado de que eu sou uma menina de dezessete anos. Eles exigem muitas coisas de mim, tanto minha família, na escola, a professora XXXX, os planos, tudo. Mas eu estou tentando levar, eu acho que é bom até para mim porque eu estou amadurecendo.

O estado emocional de certas alunas, beirando à crise, fez-me compreender os consideráveis obstáculos que estas encontraram ao longo de suas trajetórias, levando-as, por vezes, a tomada de atitudes frente a situações-limites que se impuseram na trajetória do estágio e significaram profundas alterações no rumo do estágio:

A professora era muito grosseira com os alunos, ela gritava. Ela falou para mim: - Pára de passar estas coisas, tem que passar contas porque eles, no futuro serão cobradores, serão não sei o quê. Não é isto que eu quero para mim no meu estágio porque o objetivo do estágio é que a gente traga coisas novas para os alunos e eles possam aprender assim. Aí eu mudei de escola.

Entretanto, encontrei também nas entrevistas, o relato da experiência formadora, que

provocou mudanças substanciais no sujeito em formação: “Estou preparado para qualquer

coisa agora, mudei para „caramba‟ mesmo, no decorrer do magistério e agora no estágio.

Está sendo uma aprendizagem de vida, muito grande”.

Os momentos formativos passam a ser fundadores na experiência de viver o desafio culminante do curso. Mesmo que não se pretenda seguir a profissão, a experiência vivida fica para sempre, tornando-se fundadora do ser/estar no mundo: “experiências que tu vais

obtendo, momentos que se tornam inesquecíveis, coisas que tu vais levar para sempre, tu não

O movimento de equilíbrio não deve levar à estagnação, mas à estabilização, permitindo que as alunas tratem com os diversos fatores externos que compõem as relações que elas estabeleceram e procurem, a partir disto, tornar o desafio realizável. Para encontrarem a estabilização, necessitaram dialogar com as exigências curriculares do curso de formação; com o desafio de formarem crianças e/ou adolescentes, seus alunos; com seus receios, dúvidas, medos, anseios, sonhos; com as questões relacionadas à escola de aplicação, tais como: pais dos alunos, com a regente da turma, equipe diretiva.

São elementos condicionantes, apesar de não determinantes, na condução que as alunas darão à experiência formadora. São fatores negociados que, conforme se organizam, tornam-se elementos satisfatórios ou não, ocasionando ou não transtornos que, por vezes, inviabilizam o prosseguimento do estágio.