2. Methodology
2.4. Data Gathering through the Internet
Lafargue foi um marxista francês, neto de uma mulata de Santo Domingo por parte de pai e de uma índia caribenha com um judeu de origem francesa por parte de mãe. Nascido em Cuba, Lafargue muda-se para Bordeaux, França, ainda quando criança, lugar onde irá se formar como médico. Na verdade, o término de sua graduação só vai acontecer em Londres, pois foi expulso de Paris “depois de propor, num congresso de estudantes contra o Segundo Império de Luís Napoleão, a supressão das cores oficiais francesas e sua substituição por uma bandeira e fitas vermelhas.” (Chauí, 2012, p. 82). Foi na Inglaterra que se encontrou pela primeira vez com Engels e Marx, cuja filha, Laura, iria desposar anos depois.
Assim sendo, Lafargue foi o principal responsável por disseminar as teorias marxistas na França51, e, como ressalta Chauí (2012), sendo colaborador direto do sogro e de Engels,
50 “Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto era de quinze
horas de duração. Algumas crianças cumpriam, às vezes, essa jornada, e para outras a duração era de doze horas. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi- lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças afastadas do crime (...). Lembro-me de uma velha duquesa exclamando: ‘O que querem os pobres com esses feriados? Eles deviam estar trabalhando.’. Hoje em dia as pessoas são menos francas, mas o sentimento persiste, e é fonte de boa parte de nossa confusão econômica.” (Russel, 1935/2002, p. 29).
51 Em nota para o artigo “Os fundamentos da ideologia burguesa à luz do Marxismo” (1884), o
tradutor de uma das edições de O Direito à preguiça diz: “Lafargue desempenha um papel importante na divulgação do Marxismo na França” (Simões, 1977, p. 127),referindo-se a uma série de artigos publicados entre 1884 e 1893.
ajudou também na elaboração e redação do programa do Partido Operário Francês52. Em 1880, ele publica na “revista guedista L’Égalité” (Chauí, 2012, p. 84) uma série de artigos que depois serão reorganizados de forma a compor o famoso panfleto revolucionário O direito à
preguiça.
Antes de mais nada, é preciso ressaltar a escolha do termo “preguiça” feita por Lafargue, uma vez que ela não é simplesmente um reflexo de sua postura ateia, ou anti-cristã. Inicialmente, o autor queria nomear o seu panfleto como o direito ao ócio ou ao lazer, mas no final decidiu-se pela palavra “preguiça”, de forma que o primeiro nome dado ao manifesto foi
O direito à preguiça, com o subtítulo, refutação da religião de 1848. Chauí (2012) ressalta que Lafargue escolhe esse termo conscientemente, de maneira a se contrapor àquilo que identifica como sendo a religião do trabalho, isto é, o credo burguês utilizado para controlar a mente dos proletários, tornando estes por sua vez, como nomeia Olgária Matos (2003), idólatras e subservientes do deus Progresso. Dessa forma, a escolha do vocábulo “preguiça” é feita no sentido de configurar uma crítica debochada da moral religiosa, no caso, da religião do trabalho capitalista (trabalho assalariado). Escreve Lafargue: “(...) os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o trabalho. Homens cegos e limitados, quiseram ser mais sábios que o próprio Deus deles; homens fracos e desprezíveis, quiseram reabilitar aquilo que até mesmo o Deus deles amaldiçoara” (1880/2003, p.19).
Uma escolha que Chauí (2012) indica como “duplamente consistente” (p. 86). Primeiramente, a escolha desse temática é condizente com os estudos que Lafargue realizava na época, a respeito das origens das religiões. Naquele momento o pensador se questionava, indignadamente, porque o ser humano aceitava de bom grado o domínio da razão e da ciência na transformação da natureza, mas não tolerava qualquer explicação racional para a realidade social e histórica. A única explicação para tal desatino é que a razão aplicada à História e à economia elucidaria os problemas sociais – algo nada vantajoso para a iniciativa capitalista –, sendo mais interessante, nesses assuntos, permanecer nas trevas do dogmatismo religioso do que questionar as reais condições e direções das políticas econômicas e sociais.
52 No discurso do funeral de Paul e Laura Lafargue, em 3 de Dezembro de 1911, Lénine destaca a
importância de Lafargue para o socialismo marxista: “(...) os operários conscientes e todos os sociais- democratas da Rússia aprenderam a estimar profundamente Lafargue como um dos mais dotados e profundos divulgadores do marxismo (...)” (citado por Simões, 1977, p. 9).
Nessa religião do Deus Progresso, haveriam dois deveres principais: “o dever de renúncia e o dever de trabalhar.” (Lafargue, 1886-1887/1977, p. 155). Renunciar o direito à terra, renúncia da propriedade sobre o trabalho e renúncia do próprio corpo e da própria existência, uma vez que “a partir do momento em que passo a porta da oficina, já não me pertenço, sou o objeto do patrão” (p. 155). Uma “religião” que prolongou a Quaresma para todo o ano, restringindo todas as necessidades da carne e as aspirações do espírito, eliminando grande parte dos feriados e celebrações e encarcerando o homem numa rigidez monolítica.
Em segundo lugar, Chauí (2012) destaca que a escolha do vocábulo “preguiça”, ao invés do termo “ócio” ou “lazer”, é também consistente (e Lafargue a expõe no prólogo do seu panfleto) “na conjuntura histórica” de seu tempo (p. 87). Mais especificamente, por conta do uso deliberado da religião cristã pela burguesia em alguns momentos decisivos da história francesa do século XIX. No caso, o marxista cita o discurso de Sr. Thiers, de 1849, que queria tornar a “influência do clero todo-poderosa, pois conto com ele para propagar esta boa filosofia que ensina que o homem está aqui para sofrer” (Lafargue, 1880/2003, p. 15). Chauí (2012) também menciona um caso parecido, ocorrido em 1872, quando McMahon – referindo-se ao uso da religião feito pela burguesia no “dia seguinte à grande derrota operária de 1871” (p. 87) – colocou a França, e a empresa capitalista, sobre a proteção do Sagrado Coração de Jesus, protegendo a República e a unidade nacional contra a ameaça da “gangrena” socialista.
De acordo com os apontamentos da filósofa brasileira, haveria no texto de Lafargue a exaltação, ou elogio da preguiça, no sentido de ela ser capaz de promover a conscientização de classe dentre os operários,expondo a burguesia em seus costumes, escancarado a mentira e a alienação que existe por trás do trabalho assalariado. Portanto, a preguiça aparece como um recurso retórico, utilizado para flexionar uma denúncia e um deboche contra essa religião do trabalho, no sentido de revelar como a sua moralidade servia tão somente para sustentar a alienação, o sofrimento do proletariado e os interesses da classe burguesa.A reivindicação pelo direito à preguiça revela que o lucro capitalista nada mais é do que trabalho não pago, sendo a pobreza a consequência direta da exploração da força de trabalho do operário. Em outras palavras, o indivíduo não seria pobre porque é preguiçoso, ou vagabundo, ou mal
trabalhador; ele é pobre pois é forçado a vender a sua força de trabalho. Tendo de abrir mão do seu “saber-fazer” e do seu corpo, é forçado pelo movimento exploratório a abdicar também de sua liberdade e dos produtos que ele mesmo produziu. Não deveríamos nos envergonhar
pela improdutividade ou pela tendência ao repouso; o que prejudica a vida é a exploração e a necessidade de vender a mão-de-obra.
Nas palavras de Olgária Matos (2003): a luta pelo direito à preguiça é uma luta pela conscientização dos operários, no sentido de mostrar-lhes quão “fracos e desprezíveis o são todos os que desfiguraram sua natureza ociosa, a do paraíso, tornando-se industriais e dóceis” (p. 7). Afinal, que “estranha loucura” é essa que faz o homem aceitar o dogma exploratório da valorização do trabalho assalariado; algo que só lhes trouxe desgraça e morte? Lafargue é enfático ao pontuar o seu assombro com o obscurantismo irracional de seus contemporâneos:
E dizer que os filhos do Terror se deixaram degradar pela religião do trabalho ao ponto de aceitarem depois de 1848, como uma conquista revolucionária, a lei que limitava a doze horas o trabalho nas fábricas; proclamavam, como um princípio revolucionário, o direito ao trabalho. Que vergonha para o proletariado francês! Tão-somente escravos teriam sido capazes de tal baixeza. Seriam necessários vinte anos de civilização capitalista para um grego dos tempos heroicos para conceber tal aviltamento. (Lafargue, 1880/2003, p.27)53
Pois é o trabalho que deixa o operário fraco e vulnerável aos desmandos do empresário capitalista:“Trabalhando, fazem crescer sua própria miséria e sua miséria nos dispensa de impor-lhes o trabalho pela força da lei” (Lafargue, 1880/2003, p.35). O autor recusa-se a aceitar o credo segundo o qual o homem deve sofrer na labuta; para ele, o trabalho na sociedade capitalista – portanto, o trabalho alienado, o trabalho explorado, mal ou não pago, e que por isso consegue gerar lucro para o proprietário dos meios de produção – “é a causa de toda degeneração intelectual, de toda deformação orgânica” (p. 19).
Nesse panfleto habilmente arquitetado, Lafargue apela para que o trabalhador banhe suas angústias e feridas no bálsamo da preguiça, reformando assim o seu corpo esgotado e deformado pelos grilhões da exploração capitalista54. Pois, se “o proletariado, traindo seus ‘instintos’, esquecendo-se da sua missão histórica, deixou-se perverter pelo dogma do trabalho” (p.23), era preciso acordá-lo desse pesadelo servil. Ao exortar a classe operária o
53Chauí (2012) destaca alguns paralelos entre essa obra de Paul Lafargue e o Discurso da servidão
voluntária de La Boétie (1548), principalmente no tocante à indagação: de onde os algozes retiram as forças para escravizar as massas se não delas mesmas? No tocante à tradição sociológica que o antecede, diversos dos questionamentos de Lafargue tiveram como inspiração alguns trabalhos de seu sogro, como os “Manuscritos econômicos de 1844, sobre o trabalho alienado; de outro, a análise do trabalho assalariado, no primeiro volume de O capital.” (Chauí, 2012, p. 91). Como notamos anteriormente, Lafargue muito provavelmente teve contatos com as ideias de Marx, até mesmo antes de elas serem publicadas.
54 Chauí (2012) ressalta a habilidade literária de Lafargue apresentada nesse panfleto, apontando a sua
destreza no uso das ferramentas da retórica. Além disso, menciona alguns estudos que o apontam como o precursor da crítica literária marxista, dando início à estética marxista.
autor revela à mesma quão desastrosa fora a loucura de proclamar pelo direito ao trabalho, de lutar pelo direito a se empobrecer, de sua loucura religiosa e subserviente. Não seria preciso apenas acabar com o capital e os capitalistas, mas, principalmente, com a consciência servil dos trabalhadores (Matos, 2003).