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2. Materials and methods

2.3 Data collection, procedures and equipment

O Centro de Ensino Fundamental 10 de Ceilândia está localizado próximo ao metrô da Ceilândia Leste, e encontra-se em um local de classe média baixa que registra, segundo a docente, alguns casos de tráfico de drogas e brigas de gangues. A escola é bem protegida, possui dois guardas escolares e vários portões de acesso às salas de aula. A professora de Educação Física possui as

chaves que abrem esses portões, pois a quadra é cercada por grades que impedem os alunos que chegam atrasados à escola ou que não têm aula atrapalhem a Educação Física.

FIGURAS 5 - Visão da quadra da escola

Ela nomeia a escola de “CAJE”, Centro de Atendimento Juvenil Especializado, por achar que os alunos estão presos devido a tantos portões que devem ser abertos para se ter acesso às salas de aula e à quadra.

FIGURA 6 - Portões que cercam a quadra: portão da saída e os outros dois portões de acesso à diretoria e às salas de aula

Essa estrutura física da escola pode comprovar o que foi exposto no capítulo desta dissertação que expõe o corpo escolarizado, no qual os alunos devem reconhecer na escola, o local de seu engajamento social e nesse caso ter um espaço físico que parece reproduzir uma prisão já mostra desde cedo, o que pode acontecer caso algum deles se envolva com o que ocorre nos arredores da escola, controlando assim seus corpos e contribuindo para a formação de seres submissos.

Com isso, observa-se que grande parte dos alunos possuem um corpo carregado por ações que devem ser cumpridas e interiorizadas, que podem levar à docilidade, como por exemplo, a obrigação de seguir rigidamente às regras impostas pela direção da escola: entrar em silêncio pelo portão principal, portando a carteirinha escolar (quem a esquece é impedido de freqüentar as aulas e não têm acesso ao segundo portão que conduz ao pátio, ou seja, deve voltar para casa perdendo um dia de aula), usar uniforme (nenhum aluno entra na escola sem o uniforme que é composto pela camiseta e bermuda ou calça jeans, essa mesma vestimenta é obrigatória nas aulas de Educação Física), que muitas vezes impede a expansão dos gestos e dos movimentos corporais. Segundo a professora foi solicitado à escola que os alunos entrassem no ambiente escolar com roupas adequadas para atividades físicas, no entanto, o pedido foi negado. Outra opção encontrada era trocar de roupa antes da Educação Física, mas essa opção foi descartada, pois os alunos perdiam muito tempo nesse processo.

Não pretende-se com essa afirmação negar a importância das regras estabelecidas pela direção escolar, mas ressaltar que a rigidez em seu cumprimento leva a punições coercivas muitas vezes prejudicando o processo de ensino e aprendizagem, pois se um aluno não uniformizado ou que esqueceu a carteirinha não tem o direito de entrar na escola, com o passar do tempo ele usará esse pretexto, com aval da direção, para “faltar” a aula prejudicando sua aprendizagem. Essa padronização do uniforme escolar, por exemplo, que

impede a expansão dos gestos corporais nas aulas de Educação Física, demonstra que as engrenagens da escola continuam impondo que os alunos se vistam iguais, independente do tipo de aula que irão praticar, talvez por faltar compromisso da escola com a Educação Física.

Os alunos identificam e aprendem a seguir várias regras que podem colaborar para o desenvolvimento de um autocontrole sobre suas ações no âmbito escolar, e que, em maior ou menor grau, representam algum tipo de sacrifício, corporal ou não. No entanto, a disciplina escolar não pode ser imposta de forma arbitrária, ela deve servir como instrumento que auxilie à tomada de consciência dos alunos, tornando-os aptos a exercerem a auto-reflexão sobre o que está sendo informado, colaborando assim, no processo emancipatório.

Essas delimitações que ocorrem no espaço escolar, a começar por sua arquitetura, distribuição dos espaços, organização das salas e da administração escolar, além do uso do uniforme e dos sinais sonoros determinando os tempos de entrada, intervalo e final das aulas, são estratégias da arquitetura dos arranjos físicos que vão submetendo os alunos e seus corpos a práticas disciplinares, que serão codificadas e decodificadas pela direção da escola e professores. Assim, a partir das decodificações da corporeidade, os alunos serão aperfeiçoados à disciplina e à ordem que a escola impõe para poder assim, exercer o controle sobre eles. Essas são manifestações de uma sociedade que se caracteriza pelo disciplinamento.

O espaço da escola é limpo e bem cuidado. Possui dezenove salas, um laboratório de informática, um laboratório de ciências, diretoria, cozinha, cantina, sala dos professores, banheiros, pátio e uma horta. Existem murais na escola que são confeccionados pelos próprios alunos, com auxílio dos professores. O mural que estava exposto durante a fase exploratória da pesquisa referia-se às olimpíadas de Pequim e foi feito por meio de um trabalho interdisciplinar entre os professores. Cada disciplina, que possui 50 minutos de duração, tem sua sala de aula específica e ao término de cada horário toca um

sinal para que os alunos se desloquem para o local onde terão a próxima aula. Os alunos já estão habituados com essa rotina e trocam de sala de forma organizada disciplinarmente, sem confusão e sem demora.

A sala da Educação Física é a última do corredor, próxima ao portão de acesso à quadra. O comportamento dos alunos nessa sala é de total quietude, ficam sentados em duplas de forma enfileirada, sem levantar-se, conversando baixo a espera da chamada que é sempre feita pela professora no início das aulas, ela também expõe o que será feito na quadra, muitas vezes não deixando espaço para a criação de atividades pelos alunos que aceitam os comandos pacificamente.

FIGURA 7 - Alunos na sala de aula de Educação Física após a aula prática

A quadra onde é realizada a aula de Educação Física foi reformada recentemente com o dinheiro do PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola), sendo agora uma quadra poliesportiva. O estacionamento de carros dos professores que ficava atrás da quadra, foi retirado para ampliar o espaço para a Educação Física (mas na verdade esse espaço é utilizado pelos alunos que não

querem fazer as atividades propostas pela professora e pelos alunos que por ventura não tenham aula). O material pedagógico para a Educação Física é composto por bolas que foram adquiridas a partir de uma gincana realizada pela professora, cones, colchonete e jogos de tabuleiro para os dias de chuva (esses foram comprados pela professora).