3. Population and methods
3.3 Data collection
1- Pelo fato de você ter 40 anos de extensão conhece bem todas as fases pelas quais a extensão passou, neste sentido, existia alguma política de imagem, produção fotográfica, para determinado fim pedagógico? Ou para determinado fim externo de publicação ou de demonstração do trabalho que estava sendo realizado?
Tais políticas eram abordadas nos Planos diretores da Acar, de 1948, ela tinha como objetivo buscar, naquela época, uma integração entre pesquisa, extensão e produção, sendo que no meio deste trio existia um projeto, que se chamava Bem-estar social. Então era uma idéia inovadora há 60 anos passados, pois não se olhava apenas a propriedade, mas também a família, não era somente fomento agrícola, que vigorava na época em que a questão da produção superpunha a questão da família dentro do espaço rural. Quando a Acar veio para o Brasil o mundo vivia um colapso socioeconômico, a Europa dizimada, um pouco da África, diversos problemas com comida, problemas industriais, o Japão dizimado, e o que sobrou mais poderoso ainda foi os EUA, que detinha 50 % do PIB mundial. Os EUA deveriam socorrer a Europa ( plano Marshall), totalmente industrializado, desenvolvendo tecnologia de ponta, e os outros países sofrendo os seus próprios problemas internos. Sedo assim o mundo voltou os olhos para a América latina, ai surgiu a proposta de uma extensão rural com um olhar para a família, com uma política ainda incipiente. A visão extensionista vinha acoplada de algumas condicionantes, tecnologia, renda, bem-estar social. A renda muito focada em quatro tipos de crédito, o supervisionado, que atendia demandas da agricultura e pecuária, mas também da família, credito orientado, juvenil e habitacional rural. Então tínhamos técnicos capacitados para acionar todos estes créditos, para atender todos os aspectos do extensionismo, sendo assim esta empresa já nasceu inovadora. Assim, você pode notar os efeitos que tinha esta política na qualidade de vida das famílias assistidas. Foi uma empresa inovadora também no aspecto de como trabalhar com a família rural. Estávamos trazendo de certa forma uma doutrina, uma visão de um país desenvolvido que precisaria ser adaptado a condições políticas, econômicas, sociais minimamente no Brasil, então foi preciso qualificar o extensionista para que ele pudesse trabalhar no meio rural. Estradas péssimas, poeira no verão, barro nas chuvas, eletrificação praticamente inexistente, um sistema de pesquisa agropecuário, que por mais esforço, ainda deixavam muitas perguntas sem resposta, o nível cultural dos agricultores. Sabe-se que a cultura tem profunda influência na adoção de inovação, os preconceitos rurais, que era necessário aprender a conviver como eles. Não existiam tantos meios de comunicação, exceto o rádio, que foi um grande instrumento da extensão rural. O Brasil era um país tradicionalista, pouco inovador, era um pais resistente, éramos obrigados a fazer o estudo de realidade rural, em que se levantava todos os dados, em todos os aspectos. Talvez até com certo amadorismo, talvez muito mais por amor do que por conhecimento neste tipo de assistência. Mas enfim o que quero dizer é que a empresa firmou uma filosofia. A empresa passou por muitas turbulências, mas a sua filosofia, o seu espírito nunca mudou, infelizmente ela dependeu de recursos federais, municipais, inicialmente internacional, portanto
mudanças ocorrem. Não se pode fazer um bom trabalho ignorando-se o poder político. Não se faz um trabalho sem poder político. E toda inovação custa dinheiro, se você quer mudar é preciso pagar por isso. A inovação tem o custo da rotina mais x. A empresa atualmente tem a mesma logística de quando foi fundada. Atingimos 803 municípios, não tem nada igual no Brasil.
2- Obviamente que a empresa sofreu dificuldades e turbulências durante todos estes anos, mas fotografia esteve presente desde a primeira vez que se praticou a extensão no Brasil, com o registro ininterrupto de todas as atividades. Como você interpreta este fato?
A fotografia teve importância significativa na historia da extensão rural do Brasil. Na instituição, tanto na vertente técnica, fotografando as culturas e todos os outros aspectos, com profissionais altamente qualificados. Todo este apoio logístico da comunicação visual foi justamente, para que as pessoas, incluindo os pesquisadores, alinhassem a linguagem, a fotografia tem esse mérito, se bem tirada ela fala por si mesmo. A pessoa vê, se você colocar uma foto de um café de qualidade ele é inconfundível. A fotografia tem uma dimensão, técnica, cultural, tecnológica.
3- Sempre existiu financiamento para este trabalho de produção fotográfica?
A empresa sempre teve recursos para investir, ate porque buscava outras parcerias também. Depois vieram os primeiros parques gráficos, inclusive um foi doado direto da Alemanha. Mas a instituição se manteve em pé o tempo todo como uma empresa importante, porque ela tinha uma das coisas mais indispensáveis numa vivencia democrática, o direito de expor suas idéias, reuniões para debater, discutir, avaliar.
4- Existia autonomia para produzir estas imagens?
Quando se trabalha dentro da porteira da fazenda é preciso cuidado, existe risco, apesar da Emater não vender, não comprar, nem transportar nada, a grande matéria prima é o conhecimento, que deve ser transformado em produtos agrícolas, da agricultura familiar, mas também do artesanato. Nós tentamos transmitir o conhecimento de forma prática. Se isto funciona ou não isto precisa ser pesquisado. Bons extensionistas provocam, procuram e inovam.
5- Como você analisa a nova extensão rural?
Já agora no século 21 temos uma nova extensão, é a nova Emater. Teremos uma extensão mais dialógica ou mais técnica? Os dois juntos, pois são 70 milhões de pessoas no mundo por ano, e elas precisam de alimento de qualidade e água, assim você tem uma possibilidade maior de viver. São as prioridades. Nós estamos vivendo mais, portanto vamos consumir mais. Hoje existe muita pressão sobre os níveis de consumo dos recursos naturais, principalmente para imitar os países ditos desenvolvidos. Esta pressão sobre os recursos naturais derivam do aumento da longevidade humana. A agricultura não produz alimento somente, mas é preciso entender a multifuncionalidade da agricultura, como um dos fatores de transformação social, pelos seus diversos aspectos. É preciso fazer de uma nova leitura do espaço rural. Uma visão de
sustentabilidade com o uso inteligente dos recursos naturais. É neste cenário que a extensão rural vai ser chamada a participar no século 21.