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Para fins de esclarecer um pouco mais a questão da temporalidade e apresentar elementos para uma discussão que será realizada no capítulo 4, esboçaremos algumas ideias sobre a transferência para Freud. Mais particularmente, a atuação da transferência.

Agieren, acting out, ou atuação, conforme tradução de Laplanche & Pontalis (2008). É em Recordar, repetir e elaborar, que Freud (1914a/1996) introduz o conceito de atuação (seguindo a tradução citada), o qual tem o seu significado dentro do trabalho de análise. Freud (1914a/1996) descreve o objetivo do tratamento como o preenchimento de hiatos na memória e qualifica a dinâmica como a superação de resistências decorrentes do recalcamento.

Freud (1914a/1996) aponta uma forma especial do acontecer no tratamento, na qual o paciente atua no lugar de recordar. No lugar de reproduzir uma lembrança, o sujeito repete o que se passou em sua infância, sem saber que o está fazendo. Freud (1914a/1996) chamou este modo de “recordar” de compulsão à repetição. Em Recordar, repetir e elaborar são feitas correlações entre a compulsão à repetição, a transferência e a resistência. Assim, é também a transferência uma fração de repetição e a repetição em

82 si mesma é transferência para o presente do passado esquecido para a relação com o analista (FREUD, 1914a/1996).

A resistência também é um papel desempenhado pela repetição. Quanto mais forte a resistência, mais ostensivamente o recordar será substituído pela atuação (repetição). “O paciente retira do arsenal do passado as armas com que se defende contra o progresso do tratamento – armas que lhe temos de arrancar, uma por uma” (FREUD, 1914a/1996, p. 167). Sob os auspícios da resistência, o paciente repete aquilo que deixou recalcado. Tanis (1995) sublinha o caráter pulsional da transferência, sendo isto o que possibilita a emergência do desejo infantil, que carrega as marcas da história do sujeito. Assim, falamos da pulsão que, em sua força constante, dá ao inconsciente a atemporalidade e faz exigências para que o psiquismo dê conta das demandas do passado que retorna. Diante dos fatos, Freud (1914a/1996) conclui que inicialmente o analista deve abordar a neurose como se se tratasse de um impulso atual e não algo proveniente do passado. Assim, o paciente vive o passado como algo pertencente à atualidade e o papel do analista então é leva-lo a retomar a recordação (FREUD, 1914a/1996).

Frente à ideia da atuação no tratamento psicanalítico e a natureza pulsional da transferência, podemos retomar Roussillon (2004) em seu conceito de pulsão mensageira. Para Roussillon (2004), a pulsão é endereçada a um objeto e, aqui, a outro- sujeito, o sujeito da transferência, por quem a pulsão busca ser reconhecida.

Freud (1914a/1996) diz que compete ao analista fazer o trabalho terapêutico sobre a atuação do paciente, remontando-o ao passado. O sujeito repete no contexto do tratamento uma parte de sua vida real e, por isso mesmo, não se trata de um acontecimento inócuo. Roussillon (2004) considera que recentemente os dispositivos de cuidados de orientação psicanalítica foram ampliados em grande medida, o que fez com

83 que abarcassem determinadas situações clínicas em que estão em voga o ato, o comportamento e a interação. Assim, fala-se da extensão da escuta ao material não- verbal e da ação entendida como mensagens que foram atuadas sobre o objeto em busca de sentido. O ato passa a não ser entendido como impróprio ao processo de subjetivação, nem excluídos da escuta clínica (ROUSSILLON, 2004).

No espaço da clínica contemporânea, em que se abrem as possibilidades de uma ampliação da escuta nas quais estão incluídas as problemáticas narcísico-identitárias, o comportamento se presta a produzir efeitos na interação com o outro-sujeito que os acolhe e os reflete. Isso possibilita que as ações ganhem valor intersubjetivo, antes que o valor intrasubjetivo potencial lhe seja proporcionado. Inicialmente o comportamento não é direcionado a alguém em particular. Quando introduzido na sessão de análise, o comportamento começa a tomar um valor interativo, tornando-se uma mensagem agida para o analista, na medida em que o afeta. Dessa forma, o comportamento recebe o valor de uma forma de transferência, na intersubjetividade do comportamento e o efeito da ação sobre o outro (ROUSSILLON, 2004).

Neste momento, faz-se necessário distinguir a intersubjetividade que descrevemos acima a respeito da ação específica e a que acabamos de descrever. Coelho Jr. & Figueiredo (2004) definem como intersubjetividade interpessoal a respeito do que acontece no início da vida, como os atos e gestos que somente tem seu sentido completo na interação com outra pessoa. É por meio da resposta de seu ato por outra pessoa que o indivíduo pode se dotar de um “mim” (COELHO JR. & FIGUEIREDO, 2004, p. 22). Green (2000) entende que o conceito de intersubjetividade toma corpo quando se pensa no tratamento psicanalítico, em que há dois mundos internos em interação, o que inclui a transferência. Deste modo, a atuação, enquanto transferência dentro do contexto psicanalítico e que implica a subjetividade do analista, diferencia-se da ação específica.

84 Freud (1914a/1996) vê a necessidade de que o paciente atue dentro de certos limites na transferência, para que sua neurose comum possa ser transformada no que denominou de ‘neurose de transferência’ (p. 170). A ideia é que a transferência crie, entre a neurose e a vida real, uma área intermediária que possibilite o trânsito entre ambas. É importante notar que esta área intermediária é composta pelo infantil cuja inscrição na realidade psíquica – o que comparece na relação transferencial – se deu por ocasião da formação do psiquismo (TANIS, 1995). Pelas reações que envolvem repetição no âmbito da transferência, é possível que sejam percorridos caminhos de outrora a fim de despertar lembranças que, após levantadas as barreiras da resistência, surgem sem maiores problemas (FREUD, 1914a/1996).

O tratamento analítico opera, então, sobre a transferência, fazendo com que o sujeito possa recordar um passado que retorna em suas atitudes frente ao analista e suas ações em geral. Se considerarmos as ideias de Roussillon (2004) neste interim, as ações que se desenrolam no tratamento psicanalítico aconteceriam antes mesmo de seu início e por ocasião da análise podem ter acesso à possibilidade de serem inseridas numa dinâmica intersubjetiva.