No primeiro capítulo trouxemos uma pequena contextualização histórica a respeito da psicanálise aplicada à adolescência, ou à “psicanálise do adolescente” (EMMANUELLI, 2005, p. 28). Apesar da ampla extensão das publicações sobre o tema, não foi sem discussão acerca de sua pertinência que chegamos ao patamar atual. Como disse Ruffino (1993), a adolescência se inicia como tema de outras disciplinas e trazê-la para o âmbito “(...) da teoria psicanalítica exige um caminho tortuoso” (p. 31).
Um dos motivos de trazer um esboço da visão histórica do enfoque da adolescência por psicanalistas é para justificar a abordagem da psicanálise no contexto da socioeducação. Aliás, nós buscamos na presente dissertação iniciar um diálogo com outras áreas do conhecimento a respeito da possibilidade da psicanálise se aproximar da prática socioeducativa, similarmente ao que sugere Gurfinkel (1995) em relação à aproximação entre metapsicologia e clínica da toxicomania. Gurfinkel (1995) diz de aproximação em detrimento da aplicação da psicanálise, pois no encontro das disciplinas, em nosso caso, psicanálise e prática socioeducativa, ambas são problematizadas, sendo a ação recíproca o objeto de investigação.
87 Por ora, cabe-nos apenas reproduzir a advertência de Fonagy (2003) no sentido de buscar a preservação dos “(...) valiosos elementos de compreensão a que chegaram as várias gerações de psicanalistas” (p. 320).
Kupfer & Voltolini (2005) parecem concordar com Gurfinkel (1995) quando falam a respeito da elaboração de indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento infantil de orientação psicanalítica. Kupfer & Voltolini (2005) dizem:
Não é uma pesquisa para ampliar os horizontes da psicanálise, não é uma pesquisa em psicanálise, e sim uma pesquisa de psicanálise aplicada que poderá reverter secundariamente em benefício da psicanálise, ao balançar, por exemplo, algumas certezas (...) com base em pressupostos já consagrados pela psicanálise (p. 360-361).
Em seu livro Educação impossível, Mannoni (1977) critica o conservadorismo de determinados psicanalistas franceses que se diziam “empenhados numa prática revolucionária” (p. 166, n. 20), mas os quais fazem com que a psicanálise seja reduzida tão-somente ao estatuto de uma técnica subsidiária, sem que haja o questionamento da teoria pela prática e vice-versa.
A respeito do conceito de adolescência na psicanálise, Matheus (2004) considera que se trata de um campo de pesquisa que põe em relevo certos fundamentos da teoria psicanalítica. Como foi mencionado no capítulo 2, Matheus (2004) fala ainda que o conceito de adolescência em psicanálise é adolescente, não por ser incompleto ou insuficiente para lidar com a realidade – crítica que pressuporia a ideia de uma teoria psicanalítica completa –, mas por sua vocação de questionamento do estabelecido. Ou seja, o adolescente sendo tomado como aquele que duvida de determinadas certezas de outrem (e próprias também), pode ser o adjetivo de uma teoria da adolescência no contexto da psicanálise. É curiosa a ideia de que uma teoria da adolescência adolescente (MATHEUS, 2010) corrobore as visões apresentadas por Gurfinkel (1995), Kupfer & Voltolini (2005) e Mannoni (1977) sobre a aplicação da psicanálise a outro campo no tocante ao questionamento das bases da teoria psicanalítica. Assim, perguntamo-nos se
88 uma teoria de psicanalistas sobre a adolescência não seja, também, uma aplicação da teoria psicanalítica. Todavia, não é uma questão simples, porque os psicanalistas trabalharam com adolescentes em contexto da clínica, de onde derivaram suas teorias, especialmente os mais recentes – a forma de produção teórica da psicanálise.
Para ilustrar os questionamentos feitos pela adolescência à psicanálise, apresentaremos uma discussão que iniciamos no segundo capítulo, a respeito de um dos pontos em que autores divergem acerca da adolescência: a genitalidade. Em A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade, Freud (1923b/1996) reconhece que nem sempre os avanços realizados em sua teoria da sexualidade “(...) admitem ser fundidos em um todo inteiramente não contraditório” (p. 157). Diante disto, permitimo-nos fazer a hipótese de uma fase genital da infância e uma organização genital da sexualidade pós-puberdade, denotando não a contradição no pensamento freudiano, mas sua complexidade.
A complexidade também é patente quando vemos outros autores que discutem a adolescência. Blos (1962/1998a) fala sobre o aumento quantitativo da pulsão, mas com a qualidade genital. Ou seja, Blos (1962/1998a) considera que a genitalidade se apresenta após a puberdade. Alberti (1996), apoiada na crítica operada por Lacan em relação ao objeto total e à genitalidade (Marty, 2008), fala somente de um aumento quantitativo da pulsão durante a puberdade. Rassial (1999a; 1999b), também de orientação lacaniana, pensa que devido à puberdade o corpo do adolescente é genitalizado, dando-lhe acesso ao gozo genital; gozo diferente daquele ao qual renunciou na infância, mas que, por ser orientado pelo falo, também é parcial. Marty (2008) diferencia o fálico da infância e o genital da adolescência. Laplanche (2001) fala de pulsão sexual e instinto sexual concordando com Gutton. Roussillon (1999) põe em relevo a experiência do orgasmo que faz uma revolução na vida do adolescente,
89 deixando um pouco de lado a genitalidade propriamente dita para falar dos modos de satisfação pulsional. Para aumentar a fecundidade do diálogo entre as diversas concepções, poder-se-ia seguir a recomendação de Tanis (1995) e falar da relação das diferentes teorias com o infantil. Enfim, é uma discussão extensa que, se deixarmos, compõe assunto para uma dissertação.
Nós trouxemos a genitalidade a título de ilustração, mas ainda se pode levar o debate para diversas outras questões, por exemplo: o caráter bifásico da sexualidade, a puberdade como deflagradora do processo adolescente, a posterioridade, o próprio estatuto do infantil na psicanálise, o complexo de Édipo em seu início e fim, a diferenciação dos sexos, os processos de identificação, o grupo de pares, a violência, etc. Enumeramos apenas algumas possibilidades de pesquisa para demonstrar que estamos meio a um campo de amplas discussões a respeito da teoria psicanalítica (ou das teorias psicanalíticas). Discussões que não podemos empreender no momento, mas que somente têm a enriquecer nossas concepções a respeito da adolescência5.
Posto o incerto lugar que a adolescência ocupa no âmbito da psicanálise, podemos avançar no sentido de continuar a argumentação a respeito da socioeducação.