3 Methodology
3.2 Data collection
Nesta seção, faz-se uma observação importante em relação à delicadeza do tema abordado com as crianças. Como indica Rossetti-Ferreira (2006):
Em nosso ponto de vista, a situação que envolve indivíduos abrigados ou adotivos, por ser complexa, multideterminada e contextual, necessita de análises que ultrapassem a fronteira do individual. As considerações referentes ao processo desenvolvimental da criança que passa pelo processo de abrigamento ou adoção vai muito além da perspectiva da criança, sem, no entanto, perdê-la de vista. Ao olhar para ela, devem-se considerar como fundantes os processos que envolvem os familiares (biológicos e adotivos), a organização social e política, além das instituições sociais de suporte; as concepções, mitos e lendas sobre a adoção que permeiam não só o cotidiano das pessoas, como o próprio campo da psicologia e que estão contribuindo para constituir as relações das pessoas com essas crianças. Não é possível
pensar nos processos restringindo-nos à criança individualmente e nem à ruptura mãe-criança biológica. (p. 51).
Dessa forma, diante da complexidade que envolve a temática e o estudo com crianças, houve a escolha por trabalhar com a perspectiva teórico-metodológica da Rede de Significações (RedSig), em cuja base está uma articulação das idéias de Lev Vigotski, Henri Wallon, Urie Bronfenbrenner, Jerome Bruner, entre outros, cujos conhecimentos estão articulados de forma a avançar em um novo olhar, já assumido pela pesquisadora autora deste trabalho, anteriormente, em sua fundamentação teórica.
Tal perspectiva vem sendo elaborada com o foco na investigação e compreensão do processo de desenvolvimento humano e tem como base dois fundamentos básicos: a complexidade desse processo e a constituição semiótica do sujeito. Assim, entende como essencial considerar o sujeito da pesquisa em interação, interdependente do meio e das outras pessoas, compreendendo o desenvolvimento dentro de um paradigma da complexidade, reconhecendo a diversidade, as múltiplas perspectivas possíveis e o contínuo devir das situações. Os momentos desenvolvimentais são analisados de forma ecológica e sistêmica, no sentido de que o desenvolvimento deve ser percebido em contexto, havendo nesse processo múltiplas interações em que uma teia de relações significativas, uma malha de elementos de natureza semiótica, vai sendo produzida ininterruptamente e dialeticamente por meio de constantes negociações de papéis e posições sociais e de significados sobre si, o outro e o mundo (Rossetti-Ferreira, 2006; Rossetti-Ferreira et al., 2004; Silva & Rossetti-Ferreira, 2002). Faz-se clara a imagem de que: “Em um movimento alternado, do tipo figura e fundo, reconfiguram-se a
desenvolvimento, com emergência de novas emoções e significações.” (Rossetti- Ferreira, 2004, p. 17, grifo no original).
A metáfora da rede faz referência, justamente, à idéia de que o humano tece ao longo de sua existência uma rede de significados e sentidos presentes no incessante ato de significar (significa-ação), estruturando um universo semiótico de produção e transação de seus elementos, constituinte de e constituído por cada sujeito ao longo do seu processo infinito de desenvolvimento (Rossetti-Ferreira et al. 2004).
A pessoa integrada a essa rede é múltipla, pois os outros, os meios e as vozes também o são, bem como o são as posições permutadas entre todos na prática discursiva. Essa mesma multiplicidade dialógica de vozes, outros e posições, paralelo e simultaneamente, submetem o sujeito e o preservam livre para o novo – posicionamentos e significações diversas e inovadoras (Rossetti-Ferreira et al. 2004). Com isso, formam-se no decorrer da vida humana resistências tanto em relação a discursos e práticas hegemônicas quanto em relação às suas transformações, promovendo permanências e mudanças nesse percurso (Silva & Rossetti-Ferreira, 2002).
Assim, configura-se como uma perspectiva evolutiva e histórica que contempla, em seu olhar, micro e macrodimensões em que o sujeito está envolvido e que aceita contradições, oposições e conflitos como próprios do desenvolvimento, procurando integrar supostas polaridades, como: mente e corpo, biológico e social, pensamento e sentimento, interior e exterior, semiótico e concreto, sujeito independente e assujeitado (Rossetti-Ferreira, 2004). A partir disso o pesquisador também irá além do objeto de estudo focalizado isolado, buscando articulá-lo com suas mediações históricas e culturais, apreciando-o em rede (Rossetti-Ferreira et al., 2008).
A partir da Rede de Significações, o pesquisador, diante dos dados, trabalha com eles admitindo suas imprecisões, ambigüidades e contradições, que não se restringem aos fenômenos do campo, mas do próprio corpo teórico já estabelecido e em construção, sendo necessário que além de habilidade para se trabalhar com o concreto, tenha a disposição e traquejo para lidar com o vago e insuficiente. É preciso, em uma situação de pesquisa, preocupar-se, ao mesmo tempo, com o esforço descritivo dos vários elementos da situação e a busca pelos processos de composição do fenômeno, das referências e relações temporais entre os fatores identificados e descritos (Rossetti- Ferreira et al., 2008).
A RedeSig, de acordo com Rossetti-Ferreira et al. (2008), pode estar presente em todas as fases de um estudo, ou como instrumento de construção do corpus, ou na exploração e análise dos dados... E, neste estudo é utilizada como “lente” através da qual se enxergou os sujeitos da pesquisa, seu contexto e a relação desses com a pesquisadora. Assim, considerando que esse olhar foi o ponto de partida de toda a configuração do trabalho, tal perspectiva atravessou o que era fundamental para o mesmo, perpassando desde as escolhas de embasamento teórico até as decisões e percursos metodológicos, detalhados adiante.