Como Deus opera de forma necessária e imutável e não coage o ser humano? Para explicar o paradoxo “tudo que fazemos é feito não por livre-arbítrio, e,
sim, por mera necessidade” (LUTERO, 1993, p. 48), Lutero faz a distinção entre “necessidade de imutabilidade” (immutabilitas) e “coação” (coactionis). Assim, o ser humano, que ainda não foi alcançado pela graça divina, isto é, não tem participação com o Espírito de Deus, não é forçado com violência a fazer o mal, ou efetuá-lo contra sua própria vontade. Pelo contrário, assim o faz de livre e espontânea vontade acompanhada por prazer. Ao mesmo tempo, por si só, ele não tem forças suficiente para operar mudanças ou deixar de fazê-lo e seguir em outra direção, de modo a fazer somente o bem por causa do pecado que o colocou em estado de alienação espiritual.
Conforme Schwambach (2008, p. 88), “com coação, isto é, com uma pressão ou violência que alguém sofra fora dele mesmo, a vontade cativa não tem nada a ver. Quem é coagido, é justamente obrigado a fazer algo contra a sua vontade ou a deixar de fazer algo que muito queria fazer”. Desse modo, “Deus não coage ninguém, não obriga ninguém a fazer algo contra a sua vontade, não salva ninguém contra a sua vontade, mas atrai a pessoa, conquista e transforma a vontade desta a partir da força poderosa e ressuscitadora de mortos da Palavra pregada” (Ibidem). Assim, para Lutero
[...] quando tiver sido provado que a nossa salvação dependente unicamente da obra de Deus, sem nossas forças e desígnios – o que espero provar abaixo, no corpo deste debate –, não segue claramente que, quando Deus não está em nós com sua obra, todas as coisas que fazemos são más e nós necessariamente obramos coisas sem valor para a salvação? Se não somos nós, e, sim, tão- somente Deus que opera a salvação em nós, não operamos nada de salutar antes da obra dele, quer queiramos, quer não. Digo ‘necessariamente’, não ‘por coação’, mas, como dizem eles, ‘por necessidade de imutabilidade, não de coação’. Isso é: quando o ser humano está sem o Espírito de Deus, não faz o mal por violência, contra a vontade, como se fosse arrastado pelo pescoço, do mesmo modo que um ladrão ou bandido é levado para o castigo contra a vontade, mas o faz espontaneamente, com vontade e com prazer. Ora, por suas próprias forças ele não pode abandonar, reprimir ou mudar esse prazer ou vontade de fazer, mas continua tendo vontade e prazer. Mesmo que para fora seja coagido à força a fazer outra coisa, interiormente a vontade permanece adversa e ele se indigna com quem o coage ou lhe resiste. Não se indignaria, contudo se fosse mudada e se conformasse à força de boa vontade. É isso que chamamos há pouco de ‘necessidade de imutabilidade’, isso, é o fato da vontade não poder mudar-se e voltar-se para outro lugar; antes, é mais estimulada a querer quando se lhe resiste. Prova disso é sua indignação. Ela não faria isso se fosse livre ou tivesse um livre- arbítrio. (LUTERO, 1993, p. 48).
Dentro deste contexto, Schwambach (2008, p. 89, destaque nosso) explica o seguinte:
Quando Lutero fala da vontade cativa, ele fala, em vez de coação da vontade, em uma immutabilitas – imutabilidade – da vontade humana. De um lado, essa imutabilidade significa que, após a queda, o ser humano não consegue mudar a direção e o alvo da sua vontade em relação à salvação. Como um rio com todas as suas ondas violentas e suas águas turbulentas não consegue, com toda a sua força, mudar a direção e o curso da água, i. é, fazer com que a água corra de baixo para cima, do vale para o morro, assim também o ser humano não consegue mudar o curso de sua vontade em relação à salvação por si mesmo. Em todas as suas opções, mesmo as boas, ele acabará optando sempre pela inimizade com Deus. E isso o ser humano não consegue mudar por suas próprias forças, por ser escravo do pecado, por estar morto em seus delitos e pecados. Liberdade cativa é, portanto, justamente essa incapacidade de mudar o curso e a direção da vontade em relação às coisas salvíficas, é a imutabilidade da vontade em sempre optar pelo afastamento de Deus.
Assim, a vontade do homem está cativa por causa do seu estado alienado devido ao pecado de Adão. Este estado levou o ser humano a se tornar inimigo de Deus. Somente a ação soberana de Deus por meio da graça poderá livrá-lo desta alienação espiritual. E quando a graça é operada no homem para fins de salvação, não se dá por coação, mas o leva “a querer o que Deus quer” e a tomar “suas decisões pautadas na vontade de Deus” (SCHWAMBACH, 2008, p. 88) espontaneamente, como afirma Lutero:
Por outra parte, se Deus opera em nós a vontade, por sua vez, mudada e blandiciosamente tocada pelo Espírito de Deus, quer e faz por puro prazer, propensão e espontaneidade, não por coação, de modo que não pode ser mudada para outra coisa por nada que lhe seja contrário nem ser vencida ou coagida pelas portas do Inferno34;
antes, continua querendo e amando o bem e tendo prazer nele, assim como anteriormente quis e amou o mal e teve prazer nele. Também isso o prova a experiência: quão invencíveis e constantes são os homens santos! Quando são coagidos pela força a fazer outra coisa, são ainda mais estimulados a querer [o bem], assim como o fogo é mais inflamado do que extinto [pelo] vento. Assim sendo, também aqui não há qualquer liberdade ou livre-arbítrio para voltar- se para outro lugar ou querer outra coisa enquanto perdurarem o Espírito de Deus e a graça de Deus no ser humano. Em suma: se
34 Inferno: “lugar que se destina ao suplício eterno das almas dos condenados (segundo o
estamos sob o deus deste século [Ef. 2.2s]35, sem a obra e o Espírito
do Deus verdadeiro, somos mantidos cativos à vontade dele, como diz Paulo a Timóteo [2 Tm. 2.26]36, de modo que só podemos querer
o que ele quer. Pois ele é aquele homem forte e armado que guarda sua casa de modo que os seus estejam em paz [Lc. 11.21s]37, para
que não suscitem contra ele qualquer sentimento ou pensamento. Do contrário, o reino de Satanás, dividido contra si mesmo, não subsistirá. Cristo, porém, afirma que ele subsiste [Lc. 11.18]38. E
fazemos isso com vontade e com prazer, segundo a natureza da vontade. Se ela fosse coagida, não seria vontade, pois a coação é antes, uma não-vontade [noluntas, no original], por assim dizer. Todavia, se vem um mais forte e, tendo-o [Satanás] vencido, nos toma como seu despojo, mais uma vez, por seu Espírito, somos seus servos e cativos (ainda que isso seja uma liberdade régia), de modo que queremos e fazemos com prazer o que ele quer (LUTERO, 1993, p. 48-49).
Há também outra passagem bíblica no livro de Apocalipse que mostra claramente que Deus não exerce coação no homem, quando diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap. 3.20). Essa passagem nos mostra que não há invasão por parte de Deus no coração humano, ele apenas bate na porta e convida, sem coagir. Schwambach elucida a questão da seguinte forma:
[...] Deus não nos coage, mas atrai. ‘Non cogit, sed trahit’. Ele envolve o ser humano com toda a sua razão, de corpo e alma, com sentimentos, emoções e sentidos. Não há cooperação, não há sinergismo e nem há coação. O ser humano, não é, diz Lutero, como ‘lápis et truncus’, como pedra e o tronco de uma árvore na mão de Deus. O ser humano não é mera marionete. Quando Deus age, ele atrai e conquista, transformando o querer, a vontade e todos os sentidos do ser humano, de maneira que um novo querer – antes nunca havido – se manifeste nele. Ele o envolve com o agir do Espírito Santo. [...] Mesmo ativos, somos passivos, teologicamente falando. Se olharmos apenas a dimensão antropológico-psicológica, percebemos apenas que estamos sendo ativos – estamos fazendo algo. Se olharmos a perspectiva teológica, temos que interpretar o que está acontecendo conosco como uma espécie de passividade –
35
“nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar [Satanás], do espírito que agora atua nos filhos da desobediência, entre os quais também todos nós andávamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Ef. 2.2s).
36 “mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos
por ele para cumprirem a sua vontade” (2 Tm. 2.26).
37 “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus
bens. Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava e lhe divide os despojos. Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Lc. 11.21s).
38 “Se também Satanás estiver dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? Isto, porque
sofremos a ação de Deus em nós. O problema surge, pelo fato de – empiricamente falando – não temos como provar o agir de Deus em nós e de conseguirmos detectar na nossa auto-percepção apenas nossa ação ou atividade, mas não necessariamente o agir de Deus, permeado em nossa decisão, sentimentos, ações (SCHWAMBACH, 2008, p. 97-98).
Quando Lutero diz: “mesmo ativos, somos passivos” fica mais bem explicitado em outra fala luterana colhida no outono de 1533, por Dietrich citado por Febvre (2012, p. 79): “‘O cristão é passivo perante Deus, passivo perante os homens. De um lado, recebe passivamente; de outro, sofre passivamente. De Deus recebe os benefícios; dos homens os malefícios...”. Portanto, na concepção de Lutero, Deus não invade e nem obriga ninguém a servi-lo ou andar em seus caminhos e estatutos. O cristão se entrega e “desfruta de Deus. Abre-se inteiramente a Ele. Deixa-se penetrar por Ele, passivamente: passive, sicut mulier ad conceptum [passivamente, como a mulher para a concepção]” (FEBVRE, 2012, p. 80). Diferentemente, Satanás domina e escraviza o ser humano, mantendo-o num cativeiro espiritual. Se o homem é passivo diante de Deus e dos homens, ainda mais o será diante de Satanás, tendo em vista que, sua intenção última é de “matar, roubar e destruir” (Jo 10.10). Veremos que a saída deste cativeiro somente se dará por meio da intervenção e do poder divino. Isso porque o homem não consegue perceber que está sendo coagido e alienado pelo pecado e pelo mal, por causa da cegueira espiritual que o cerca.
Em seguida, abordamos como Erasmo e Lutero concebem o livre-arbítrio humano.