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A ironia continua no nome do personagem principal, “Cândido”, que remete à pureza, à doçura e à ingenuidade; ironia ao nomeá-lo desta forma, pois representa a crueldade e a dor, já que o ofício de Cândido Neves nada tem de

inocência ou doçura. Ao contrário, Cândido representa um sistema cruel, que torturou pessoas e condenou milhares à morte devido ao exagero nos castigos adotados. Cândido Neves é descrito, no início do conto, como um homem forte, robusto, embora não muito dado a aprender ofícios e a trabalhar. No decorrer da narrativa, o protagonista transforma-se em um caçador de escravos derrotado que, apenas por um golpe de sorte, consegue capturar uma fugitiva. Cândido, um homem fisicamente forte, mas derrotado pelas circunstâncias, representa, também, a força e a decadência do sistema escravocrata.

Em artigo publicado na revista Nossa História, Jefferson Cano aponta um paralelo entre a História e os personagens Pedro e Paulo, os gêmeos de Esaú e Jacó, romance publicado em 1904:

Um dos motivos do conflito entre eles era a divergência de opinião política, porém o monarquismo de Pedro e o republicanismo de Paulo não apenas caracterizavam estes personagens, mas serviam para caracterizar os dois regimes. (...) passado e presente, como aqueles personagens, opunham-se em tudo, porém eram gêmeos (CANO, 2005, p. 79).

O mesmo paralelo acontece com a família Neves: Cândido há muito não se ocupava de um emprego, passando a família, assim, por grave crise financeira. Força e decadência conviviam num cabo de força. De um lado, os senhores tentando manter o regime escravocrata, de outro, abolicionistas e simpatizantes da causa lutando pela liberdade dos cativos.

A indisposição de Cândido para o trabalho era tão visível que até mesmo as amigas de Clara, com um quê de inveja, foram contra o casamento: “Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo

que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 485).

Clara trabalhava cada vez mais, fazendo costuras com sua tia, para arcar com as despesas domésticas. Foi ela, junto com sua tia, quem sustentou a família por muito tempo, pois nem sempre Cândido conseguia levar dinheiro para casa: “não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha emprego certo” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 486).

Observa-se aqui, como em “Mariana”, a mulher ganhando mais espaço e assumindo cada vez mais o lugar masculino quanto ao provimento do lar. Em “Mariana”, a mãe tem o lugar de senhora da casa: é ela quem administra o lar, inclusive a parte que toca à disciplina dos escravos; em “Pai contra mãe”, é Clara quem trabalha para garantir o sustento da família. Candinho, como era conhecido em família, possui papel de coadjuvante diante do orçamento doméstico.

Com a notícia de que a família aumentaria, Clara passou a trabalhar ainda mais que antes. Além de precisar do dinheiro das costuras para a sobrevivência da família, a futura mãe cosia roupas para o bebê que esperava: “a esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança“ (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 486).

Dívidas de aluguel os despejaram da casa onde moravam. A família Neves − assim como Pedro e Paulo, que representam Monarquia e República,

como exemplifica Jefferson Cano − simboliza a decadência de um sistema já ultrapassado. Com todas as idéias de abolicionismo e pressão por parte dos que as defendiam, começava a ficar difícil manter a escravidão e não ceder aos apelos daqueles que queriam ver livres os escravos no Brasil.

Dessa forma, pode-se observar o enfraquecimento da escravidão quando Tia Mônica diz para Cândido que ele deveria encontrar um ofício que lhe rendesse dinheiro certo: “Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintém” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 487). Machado ironiza usando na fala da tia de Clara os ofícios que Candinho já havia tentado exercer sem sucesso por causa de seu “caiporismo”. Cândido só arrecadava dinheiro quando havia fuga de escravo e, ainda assim, se o recuperasse. Seu ofício estava próximo do fim, assim como o sistema escravocrata. Ora, se havia cada vez menos escravos no Brasil, havia menos ainda possibilidade de escravos fugirem. Sobre Dom Casmurro, afirma Luiz Roncari, no ensaio Dom Casmurro e o retrato do país:

O Dom Casmurro também parece não retratar outra coisa: um primeiro ensaio desastroso de mudança no plano do microcosmo familiar, equivalente ao que se passou no macrocosmo da vida política e institucional (RONCARI, 2004, p. 85).

No caso da família Neves, o plano do microcosmo familiar representa o cenário nacional, onde a escravidão já apresentava traços de perda de força.

2.3 Arminda: “nem todos os filhos vingam”

Joaquim Nabuco afirma que a escravidão viola os princípios da propriedade pelo fato de fazer com que o escravo não seja propriedade de si mesmo – um direito básico do ser humano. Através de alguns argumentos feitos em A Escravidão, retrata a forma como eram tratados os escravos e como eram privados das necessidades básicas de um ser humano. Observando-se as privações por que passa a escrava Arminda, há de se notar a perfeita aplicação destas observações feitas pelo abolicionista:

Quereis mais saber em que a escravidão viola os santos princípios da propriedade? Roubando-a ao escravo que nem se domina a si, nem possui na terra seu descanso, seu sono, seu corpo, sua vida, seu sangue, sua alma, sua honra. Não possui seu descanso porque ele é um arbítrio de feitor, que às vezes o faz trabalhar sem fôlego. Não possui seu sono porque ele é regrado pelo chicote sem atenção às dores do dia. Não possui seu corpo porque os senhores podem tirá-lo impunemente cansando-os, martirizando-os, deixando-os sem socorro nas doenças, sem alimento de todos os modos, enfim, porque se tem o visto. Não possui seu sangue porque ele corre sob o azorrague. Não possui sua alma porque não pode ter as luzes da ciência, do bem e de Deus. Não possui enfim sua honra porque nasceu infamado e ao passo que suas mulheres estão entregues à promiscuidade das senzalas suas filhas moças são a partilha da luxúria dos senhores (NABUCO, 1999, p. 8-9).

A escravidão foi responsável por grande desestruturação familiar. No caso de Arminda, seu direito à maternidade é violado no momento em que é capturada e, ao ser entregue ao seu dono, aborta o filho na porta de casa. Nas palavras de Joaquim Nabuco,

a família, como o direito à família, não é violada nela [na escravidão]; como a mesma família não é ultrajada e vilipendiada, a escravidão ataca-a porque não a permite, porque a relaxa, porque a dissolve: ataca a família na dignidade da mãe porque a açoita, na honra da mãe porque a viola, no amor da mãe porque apaga-o, na vida da mãe porque a rouba (...) (NABUCO, 1999, p. 04).

Os escravos não eram donos de suas vontades, por isso a violação no direito à propriedade. Ainda em Nabuco, tem-se a seguinte passagem:

A escolha da vontade era seguida do ato: a liberdade reconhecia-se na sua obra. Com os escravos deu-se o oposto: nos menores atos a atividade ficou reprimida, não podendo o ato exterior conformar-se com a escolha. Querer para eles não é poder: assim habituaram-se a não considerarem livres na vontade porque não o eram na ação: a atividade resumida a determinações sem realização possível, abafada pelo temor, pelo despotismo, suicidou-se ou antes morreu à míngua (NABUCO, 1999, p. 22).

Antes de o escravo nascer, sofre na mãe. Desde as vísceras da mãe está ele condenado à sua morte. (...) As entranhas, que o geraram, figuram nos apontamentos do senhor comum, como uma máquina produtora: ele mesmo é intercalado entre os lucros prováveis até o dia em que o batismo recebe um nome, que é um número de galé. O partus sequitur ventrem, máxima do direito romano, é o incentivo à luxúria dos brancos. Pouco se importam estes em engrossar o patrimônio dos amigos com filhos seus, que jamais reconhecerão. Assim considerada pela força produtiva de seu ventre, a negra é tratada como a árvore seca ou como a árvore carregada. No primeiro caso é um objeto ruim, destinado a perecer; no segundo é um valor econômico que se perpetuará na descendência (NABUCO, 1999, p. 27-8).

Dessa maneira, após a reflexão feita pelo abolicionista, percebe-se que Machado trata da indiferença que havia a respeito da maternidade das escravas. Para o senhor de Arminda, o feto morto deixado na porta de sua sala não passava de mais um dos que não sobreviveu às barbáries impostas pelo sistema escravocrata. A mãe também não passava de mais uma, que dali a alguns dias poderia estar grávida novamente – lucro fácil para um proprietário que teria mais um escravo sem precisar desembolsar nada para sua compra.

Ao mencionar a sugestão da tia de Clara de levar o filho para a Roda, o narrador explica que ela já o havia insinuado, “mas era primeira vez que fazia com tal calor, – crueldade, se preferes” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 489). Sendo assim, o ato de tia Mônica equivale ao de Candinho, uma vez que ele pensava mais na recompensa, para, de alguma forma, estabilizar a situação da família, mesmo que por tempo limitado, do que na mãe que desejava tanto quanto ele a vinda de um filho. O que pesava na atitude de tia Mônica era a possibilidade do abalo que o filho de Clara e Cândido faria à fraca estrutura familiar.

Machado costura o texto de uma forma a equivalerem-se os comportamentos de Cândido e Mônica – comportamento abominado pelo protaganista, mas tão vivenciado por ele mesmo. A situação seria praticamente a mesma, não fosse a escrava fugida a pessoa em que Cândido deveria se colocar no lugar. A cogitação sobre o destino incerto do filho de Cândido foi a certeza do filho de Arminda: “seria maior miséria, podendo suceder que o filho [de Cândido] achasse a morte sem recurso” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 492).

Cândido Neves nem pensa no filho que a mulata carregava em seu ventre, pois só pensava no próprio filho, que havia deixado na farmácia para poder correr atrás da fugitiva. A mulher ainda tenta, em vão, suplicar pelo amor que seu algoz tivesse por um filho: “Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe pelo amor dele que me solte; eu serei sua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 493).

Mas Cândido não precisava de uma escrava e sim da quantia pela recompensa do resgate; ele ainda insulta a escrava: “Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 493).

Ele só não havia se dado conta de que o ato de entregar seu bebê à Roda era uma espécie de fuga também. Cândido fugia da responsabilidade, mesmo que inconscientemente e a contragosto. Se fosse um homem centrado, dado a aprender algum ofício e investir num emprego certo, não precisaria passar por situação tão extrema.

Cândido então entregou a escrava ao seu dono, na Rua da Alfândega, que lhe passou a recompensa: duas notas de cinqüenta mil-réis.

Preocupado com o filho que o esperava, ele saiu às pressas em direção à farmácia, “sem querer conhecer as conseqüências do desastre” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 494).

Chegando em casa com o filho, ele recebeu algumas palavras duras de tia Mônica; não pelo filho que trazia de volta, mas pela escrava: “[Tia Mônica] disse, é verdade, algumas palavras duras contra22 a escrava, por causa do aborto,

além da fuga” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 494).

No pensamento da tia, era um erro uma escrava fugir e abortar, mas nesse momento ela não se lembrou de que havia sugerido o abandono do bebê dos sobrinhos. E Cândido, sem pensar na vida que havia impossibilitado de nascer, beija seu filho, agradecendo, ainda, à fuga que lhe tinha rendido a recompensa e o direito de ter o bebê consigo: “Cândido Neves, beijando o filho entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava ao aborto” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 494).

A violência sofrida pelos escravos foi notada e relatada na literatura feita por estrangeiros que passavam pelo Brasil. Com a abertura dos portos, a passagem pela cidade do Rio de Janeiro – espaço em que se passa “Pai contra mãe” e os outros contos nesta dissertação analisados – era necessária e, na chegada, os visitantes deparavam-se com cenas estranhas aos seus olhos. Segundo Eneida Maria Mercadante Sela, “é patente que a escravidão foi um tema que perpassou a grande maioria dos registros que compõem o heterogêneo da literatura de viagem sobre o Brasil oitocentista” (SELA, 2006, p. 194).

Sela cita, dentre os que formam a literatura de viagem sobre o Brasil, nomes como Jean-Baptiste Debret, Auguste de Saint-Hilaire e Gilbert Mathison, em que se encontravam,

condensadas, várias das tópicas mais comuns no conjunto dos relatos oitocentistas sobre a cidade: o susto com a multidão negra e seus emblemas – rostos feios, marcas corporais, seminudez, uma língua estranha e incômoda, canções incompreensíveis e, por fim, o acinte dos castigos físicos (SELA, 2006, p. 195).

Em trecho de Mathison citado por Sela, nota-se a importante observação do estrangeiro sobre a situação dos escravos que circulavam pela cidade, no que diz respeito aos castigos: “Quando um viajante pisa no Rio, sua atenção será naturalmente atraída pela aparência dos negros. (...) o ranger das correntes, e as coleiras de ferro usadas por criminosos ou fugitivos nas ruas” (MATHISON apud SELA, 2006, p. 194).

Sendo assim, é notória a validade e a precisão com que Machado relata a vida destes negros que viviam na cidade do Rio de Janeiro; negros como Arminda, por exemplo.

Assim como em “Mariana”, “Pai contra mãe” retrata o desdém com que as pessoas livres em sua maioria tratavam os cativos ou o juízo de valor que faziam deles. Mesmo estando em situação semelhante à de Arminda – a luta pela sobrevivência de um filho –, Cândido não se comove e pouco se importa com o filho morto da fugitiva.

Além disso, a fragilidade pela qual a escravidão passava naquele momento é representada na figura de Arminda. De um lado, o pai que luta para não ter de abandonar o filho e deixá-lo na roda dos enjeitados; do outro, a mãe que tenta garantir seu direito à maternidade. Nesta disputa, somente um poderá sair vencedor: “nem todos os filhos vingam”.