Damião, um rapaz recém chegado a um seminário, foge de lá, “às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. (...) ...antes de 1850” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 378), procurando abrigo na casa de Sinhá Rita, uma viúva de “quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como diabo” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380). Alcides Villaça observa que o conto foi publicado em 1899 e que a situação é “datada, não arbitrariamente, de ‘antes de 1850’” (VILLAÇA, 2006, p. 19).
Sem vocação para ser padre, Damião pede asilo e ajuda de Sinhá Rita – que inicialmente se nega – para não voltar ao seminário. Mas a viúva propõe-se a ajudar, conversa com o padrinho do rapaz, o Senhor João Carneiro, a fim de que vá ter com o pai do seminarista.
Sinhá Rita possui uma “escola” em sua casa, onde recebe meninas que aprendem a fazer renda de bilro, além de ensinar também as suas crias. Dentre estas crias, está Lucrécia, “uma negrinha magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda. Contava onze anos. (...) tossia, mas para dentro, surdamente, a fim de não interromper a conversação” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 381).
A menina, ao final do conto, é castigada pela vara de Sinhá Rita pelo fato de ter rido durante uma conversação com as amigas da viúva, em que o rapaz conta anedotas, “uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos”, em que a negrinha
“esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 381).
O rapaz resolve apadrinhá-la e protegê-la, mas, como estava sob o jugo da ama de Lucrécia, desiste de impedir o castigo contra a menina, uma vez que Sinhá Rita poderia mudar de idéia sobre sua volta para o seminário, por isso entrega a vara com que castigaria a negrinha.
A data em que se passa a narrativa não é definida, mas coincide com a data do conto “Pai contra mãe” – por volta de 1850: “Não sei bem o ano; foi antes de 1850” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 378).
3.1 Servilismo e autoritarismo
De acordo com Sidney Chalhoub, “a ideologia dos senhores e as relações de dependência provocam situações de violência e humilhação” (2003, p. 134). Este parece ser o caso do conto. “O caso da vara” descreve como eram tratadas as crias de Sinhá Rita, mais especificamente o caso de Lucrécia, a negrinha de cicatriz na testa e mão esquerda queimada, ameaçada pela vara e pelos castigos de sua ama. Assim como em “Pai contra mãe”, existe a temática do castigo para as crias desobedientes. Os castigos não são tão cruéis quanto a máscara de flandres, o ferro ao pescoço ou a gorilha – como descritas em Pai contra mãe. Sinhá Rita utiliza uma vara – “Lucrécia, olha a vara!” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 381) – e há, ainda, indícios de que a menina tenha sofrido
castigos mais violentos, uma vez que apresenta cicatriz no rosto e queimadura na mão. Pelo tom e ênfase que o narrador dá a este detalhe, as marcas parecem ser resultado de alguma desobediência.
Na casa, imperam a autoridade de Sinhá Rita e o medo de suas criadas. Para Joaquim Nabuco, “os costumes, pelo fato da transição necessária das raças que coabitam em um mesmo lar, tornam-se uma mescla de selvageria e de educação, dominada pelo medo e pelo servilismo” (NABUCO, 1999, p. 05). A “selvageria” a que Nabuco se refere é o tratamento dado aos escravos, pois os castigos que recebem são da mais pura crueldade a que pode chegar um ser humano. O medo, em “O caso da vara”, paira no ambiente como uma sombra cinza e densa. A negrinha Lucrécia está sempre encolhida e seu comportamento é como o de um animal acuado, sempre amedrontado pelo castigo que está por vir.
Além de autoritária, Sinhá Ritá é uma mulher vaidosa, o que se confirma em duas passagens do texto. A primeira é quando sente-se lisonjeada por Damião ter lhe escolhido como sua protetora. Ela ainda tenta “chamá-lo a outros sentimentos”, afirmando que “a vida de padre era santa e bonita” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380), o que é em vão. Na segunda passagem, Sinhá Rita sente seus brios feridos, pois Damião diz que não adiantaria conversar com João Carneiro – ele duvidava que o padrinho lhe atendesse. Sinhá Rita esbraveja: “Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não”. E ordenou que um moleque fosse à casa de João avisar-lhe que ela precisava conversar com ele: “e se não estivesse em casa, perguntasse onde podia ser encontrado, e corresse a dizer-lhe que precisava muito de lhe falar imediatamente” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380). A viúva,
para alimentar seus brios, aceita a empreitada de ajudar o moço fugido: “Sinha Rita, que sempre pôde, passa a querer, animada não pela solidariedade e compaixão, mas pela vaidade e pelo capricho” (VILLAÇA, 2006, p. 25).
A relação de dependência é clara neste texto. Sinhá Rita é uma mulher influente nas redondezas onde mora e todos lhe têm muito respeito. João Carneiro foi chamado por um moleque a comparecer à casa da viúva, que lhe dá a ordem de conversar com o pai de Damião. O padrinho do rapaz é relutante em ter com seu compadre, pois, como afirma o narrador, ele “era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 378). Porém, Sinhá Rita foi taxativa, e, assustado, João fica sem saber como agir:
(...) lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais íntimos do compadre, sem certeza do resultado; e se este fosse negativo, outra luta com Sinhá Rita, cuja última palavra era ameaçadora: “digo-lhe que ele não volta”. Tinha de haver por força um escândalo. João Carneiro estava com a pupila desvairada, a pálpebra trêmula, o peito ofegante. Os olhares que deitava a Sinhá Rita eram de súplica, mesclados de um tênue raio de censura (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 382).
A autoridade de Sinhá Rita e o temor de João Carneiro eram tamanhos que o homem pensa que “um decreto do papa dissolvendo a igreja, ou, pelo menos, extinguindo os seminários, faria acabar tudo em bem” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 382); ou que a morte do afilhado “era uma solução, – cruel, é certo, mas definitiva” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 382). Sua autoridade, neste momento, estava acima do maior representante da igreja. Além da viúva, havia
também a possibilidade de seu compadre irritar-se com a idéia de tirar o filho do seminário. Assim, Carneiro encontrava-se numa situação um tanto delicada.
Damião também é regido por certa dependência a Sinhá Rita; mesmo compadecido com a negrinha Lucrécia, ele se vê obrigado a entregar a vara a Sinhá Rita, porque estava nas mãos dela a ajuda para não voltar ao seminário. Além disso, o rapaz também sofria a repressão paterna; ao pedir ajuda à viúva, Damião recebe como resposta a recusa, embora a senhora volte atrás em sua decisão posteriormente: “Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto em negócios de sua família, que mal conheço; e então seu pai, que dizem que é zangado!” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 379).
A submissão do rapaz diante de ordens de Sinhá Rita aparece não só na ocasião em que deve entregar a vara, mas também quando a senhora pede que ele conte a anedota que fez rir a escrava Lucrécia para as cinco amigas que a visitavam todas as tardes, para o café da tarde. “Damião não teve remédio senão obedecer” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 383). Embora satisfeito com as risadas que arrancou das moças, “não esqueceu Lucrécia e olhou para ela, a ver se rira também. Viu-a com a cabeça metida na almofada para acabar com a tarefa” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 383).
Mesmo sabendo que Sinhá Rita havia mandado João Carneiro falar com seu pai, Damião temia uma resolução muito severa: “com certeza, o pai fê-lo [João Carneiro] calar, mandou chamar dois negros, foi à polícia pedir um pedestre, e aí vinha pegá-lo à força e levá-lo ao seminário” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 384). O afilhado não confiava no padrinho para resolver o caso. A protetora do seminarista fugido assume para si aquela causa, pedindo-lhe “que sossegasse,
que aquele negócio agora era dela” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 384). Havia se tornado uma questão de honra e, possuidora de um gênio forte, Sinhá Rita afirma: “Hão de ver para o quanto presto! Não, que eu não sou de brincadeiras!” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 384).
Na descrição da entrada do moço fugido na casa de Sinhá Rita, já se pode observar o ambiente e se notar que a senhora era uma proprietária de escravos:
Sinhá Rita olhava para ele espantada, e todas as crias, de casa, e de fora, estavam sentadas em volta da sala, diante das suas almofadas de renda, todas fizeram parar os bilros e as mãos. Sinhá Rita vivia de ensinar a fazer renda, crivo e bordado. (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 379).
Lucrécia parece ser o que se chamava de “escravo de ganho”23, e Sinhá Rita, um exemplo de senhora que acaba tirando proveito dos filhos de seus escravos, ensinando-lhes algum “ofício” e disso fazer lucro. O próprio nome da escrava remete a “lucro”, como afirma Alcides Villaça: “Lucrécia (etimológica e ironicamente: a que lucra)” (VILLAÇA, 2006, p. 26).
Assim como em “Mariana” e “Pai contra mãe”, “O caso da vara” descreve o tratamento dado aos escravos e os castigos a que eram submetidos no caso de desobediência, o que aparece em três ocasiões distintas. Numa delas, quando a viúva chama um moleque para levar um recado a João Carneiro, o
narrador utiliza a expressão “bradou-lhe”, o que dá a impressão de que Sinhá Rita fala em tom de voz mais alto que o normal: “bradou-lhe que fosse à casa do Sr. João Carneiro chamá-lo já e já” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 380).
A segunda ocasião se dá no momento em que Lucrécia ri da anedota contada por Damião e esquece o trabalho. A negrinha ouve o grito de sua senhora e prepara-se para receber o açoite: “A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à noitinha a tarefa não estivesse pronta, Lucrécia receberia o castigo de costume” (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 381). A expressão “castigo de costume” marca a freqüência com que Sinhá Rita castigava suas crias para manter a disciplina e a eficiência no trabalho. A escravinha acaba não terminando o trabalho junto com as demais crias e aí segue a última passagem, que demonstra uma senhora cruel, prepotente e autoritária:
Sinhá Rita chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava acabada, ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha.
– Ah, malandra!
– Nhanhã, nhanhã! pelo amor de Deus! por Nossa Senhora que está no céu.
– Malandra! Nossa Senhora não protege vadias!
Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu para dentro; a senhora foi atrás e agarrou-a.
– Anda cá!
– Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha. – Não perdôo, não. Onde está a vara?
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha, debatendo-se, chorando e pedindo; a outra dizendo que não, que havia de castigar (MACHADO DE ASSIS, 1998, p. 385).
Sendo assim, “O caso da vara” mostra a relação entre um senhor e suas crias; mostra também que estas relações podem ir além, pois, neste conto, é clara a extensão do poder de um senhor de escravos influente. Sinhá Rita não comandava apenas as escravas que estavam sob seu jugo; as pessoas que estavam à sua volta e que dependiam dela de alguma forma também curvavam-se diante de sua vaidade e de seu autoritarismo. É o caso de Damião, que dependia dela para não voltar ao seminário, e de João Carneiro, que temia a senhora decerto pela influência que ela exercia.
3.2. Alguns aspcetos do conto
Para o escritor Julio Cortázar, no ensaio “Alguns aspectos do conto”, este gênero literário é
um gênero de tão difícil definição, tão esquivo nos seus múltiplos e antagônicos aspectos, e, em última análise, tão secreto e voltado para si mesmo, caracol da linguagem, irmão misterioso da poesia em outra dimensão do tempo literário (CORTÁZAR, 1974, p. 149).
Cortázar compara o conto com a fotografia, afirmando que, assim como a fotografia, o conto recorta
um fragmento da realidade, fixando-lhe limites, mas de tal modo que esse recorte atue como uma explosão que abra de par em par uma realidade muito mais ampla, como uma visão dinâmica que transcende espiritualmente o campo abrangido pela câmara (CORTÁZAR, 1974, p. 150).
O conto possui um “limite físico”, distinto do romance, que pode se alongar por muitas páginas mais. Por isso o autor faz comparações entre conto e fotografia e entre romance e cinema: cada um fazendo representações dentro de seus limites e elementos combinados. Esta combinação de elementos é, no conto, a significação (assunto ou tema), a intensidade (somente o necessário a se narrar) e a tensão (clima de envolvimento).
“O caso da vara” possui apenas oito páginas24; mas é um texto muito intenso, em que o narrador se limita a contar os fatos mais importantes e a angústia por que passam seus personagens – Damião, Lucrécia e João Carneiro. A angústia de Damião se dá pelo fato de estar fugido do seminário, dependendo de Sinhá Rita para que não retorne. O personagem se vê diante de uma situação sem solução: sente pena da escrava que leva uma surra, mas não pode fazer nada, pois está obrigado a entregar a vara a Sinhá Rita porque estava em suas mãos a ajuda para não voltar ao seminário – ele não poderia contrariá-la, já que correria o risco de perder o valioso auxílio. Lucrécia sofre com os castigos de sua senhora. E João Carneiro se vê pressionado pelo autoritarismo de Sinhá Rita para ir à casa do pai de Damião, além de temer a reação que o compadre teria.
Um conto deve chamar a atenção desde suas primeiras páginas, dado o condensamento de seu limite físico. Para Cortázar, concordando com um escritor argentino amante do boxe, “nesse combate que se trava entre um texto apaixonante e o leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto que o conto deve ganhar por knock-out” (CORTÁZAR, 1974, p. 152). Além disso, a significação de um conto está na ocasião em que ele “quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta” (CORTÁZAR, 1974, p. 153).
“O caso da vara” já começa numa situação tensa, com a fuga de Damião do seminário. Os adjetivos utilizados para demonstrar o pavor do rapaz diante da possibilidade de ser padre são contundentes: vagando desnorteado pelas ruas do Rio de Janeiro, o rapaz encontrava-se “vexado”, “espantado”, “medroso”, “fugitivo”. O conto continua muito intenso, até o seu desfecho. Damião passa por momentos de angústia, como, por exemplo, quando seu padrinho é mandado por Sinhá Rita à casa de seu pai para avisar que ele não voltaria mais para o seminário. Lucrécia, a cria castigada, também passa por estes momentos durante a trama. É ameaçada e castigada com a varinha por sua senhora.
Muitas vezes, não é o tema que imprime a um conto significação, mas o tratamento literário que lhe é dado, “a técnica empregada para desenvolvê- lo” (CORTÁZAR, 1974, p. 153). Eis a diferença entre o bom e o mau contista: Machado, muitas vezes, aborda temas corriqueiros, mas se utiliza de linguagem e tratamento literário que fazem de seus contos verdadeiras obras de arte e representações de um cotidiano presente em determinado recorte temporal. O
bom contista combina a vivência humana e a capacidade de escrever, o que é o caso de Machado de Assis.
Cortázar então questiona as razões de um contista para a escolha do tema. Eis a resposta:
Parece-me que o tema do qual sairá um bom conto é sempre
excepcional, mas não quero dizer com isto que um tema deva ser
extraordinário, fora do comum, misterioso ou insólito. Muito pelo contrário, pode tratar-se de uma história perfeitamente trivial e cotidiana. (...) um bom tema é como um sol, um astro em torno do qual gira um sistema planetário de que muitas vezes não se tinha consciência até que o contista, astrônomo das palavras, nos revela sua existência (CORTÁZAR, 1974, p. 154).
Machado encontra-se nesses “mandamentos do bom contista”, visto que os temas de sua escolha prendem o leitor não pela importância do que é abordado, mas sim pela engenharia das palavras e da combinação dos elementos literários que utiliza.
“O caso da vara” é um exemplo desses aspectos que Cortázar aborda em seu ensaio. Este conto possui um tema corriqueiro – o servilismo, uma escravinha castigada por sua senhora, um rapaz que recorre a uma senhora influente para resolver um problema e culmina com certa inversão de papéis dos personagens: Damião havia chegado desesperado em busca de auxílio e passou a se ver diante de uma escrava ameaçada por sua senhora e a vara, rogando por ajuda:
A última cena repõe elementos dramáticos bastante familiares ao leitor do conto. Ele por certo se lembrará do estado em que Damião chegou à casa da viúva e das súplicas, ainda sem argumento, que lhe dirigiu. Agora, tanto o apelo de “me acuda, seu sinhô moço”, que Lucrécia lança ao aturdido rapaz, quanto ao de “nhanhã, nhanhã! pelo amor de Deus! por Nossa Senhora que está no céu!”, que a menina dirige à furiosa senhora, expressam a aflição da desvalida e ressoam algo da condição inicial do seminarista desesperado, que “falou com paixão”. A simetria entra aqui, porém, para acentuar as diferenças de condição entre o astuto rapazinho de família, que desperta para o engenho ativo das ações necessárias, e a subjugada menina escrava, que ou tosse ou ri “para dentro”, presa do domínio absoluto, ou grita por piedade, em inúteis clamores (VILLAÇA, 2006, p. 28).
Mas, diante da figura que estava com seu destino nas mãos, “por interesse ou por necessidade (como distinguir entre ambos?), Damião deixa de cumprir seu voto secreto de compromisso com Lucrécia – que tanto precisou de seu amparo. Fica evidente o abismo que há entre a intenção e o gesto, entre a formulação abstrata do intento virtuoso e sua transformação no ato que inclui o preço do sacrifício” (VILLAÇA, 2006, p. 29). Encontra-se, então, impotente e o que lhe resta é entregar a vara a Sinhá Rita.
Assim, o conto revela que, diante dessas diversas relações que Machado apresenta, envolvidas nesse sistema de servilismo e obediência, não são somente os escravos que sofrem as conseqüências do autoritarismo de seus senhores, mas também as pessoas que se encontram penalizadas diante de seu sofrimento, que acabam por não poder agir, estando também fazendo parte dessa “política de favores” tão comum durante o regime.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A economia brasileira, durante o século XIX, foi sustentada pela força do trabalho escravo. Negros trazidos da África vieram para o Brasil com o objetivo de trabalhar em lavouras e, mais tarde, passaram a exercer diversas funções dentro das propriedades das famílias da elite brasileira.
Esse trabalho forçado resultou em grande violência sobre os negros. A relação que havia entre senhores e peças de sua propriedade era, na maioria das vezes, brutal; os negros sofriam com castigos desumanos e, além disso, surgiam ofícios que sustentavam esse tratamento – como é o caso dos feitores e caçadores de escravos fugidos –, já que a prática era oficializada pelo governo.
Os contos nesta dissertação analisados relatam como se davam essas relações, o tratamento dado ao escravo e como a sociedade percebia o sistema escravocrata.
Em “Mariana”, Machado de Assis relata o caso da escrava que se apaixona pelo seu dono, não podendo viver este sentimento. O escritor mostra como se dava a relação de dependência e como devia ser o comportamento de uma “peça” pertencente à propriedade de um senhor. O conto mostra, ainda, que, mesmo se sentindo culpado por uma desgraça que ocorre em sua propriedade – o suicídio da escrava, no caso –, a questão passa a ser secundária, pois o que importa mesmo é o bem-estar do sinhozinho branco diante do acontecido. Não há mais peso na consciência, conseqüentemente, não há com o que se preocupar, pois a morte de um escravo era algo absolutamente comum e normal.
“Pai contra mãe” trata da violência sofrida pelos negros. Castigos e modus operandi do caçador de escravos fujões são descritos com detalhes, além de o texto mostrar também o início da decadência do escravismo no Brasil. Existe um paralelo entre o personagem e o sistema, o primeiro representando o segundo.
O mesmo acontece com “O caso da vara”: os castigos e a maneira como “se deve” tratar um escravo desobediente ou pouco produtivo são presenciados por um rapaz que foge de um seminário, assim como a autoridade exercida sobre as crias de uma senhora prepotente e vaidosa.
Os contos aqui abordados remetem ao mesmo recorte temporal: a década de 1850, quando a mão-de-obra utilizada nas mais diversas atividades era escrava. Há de se notar a importância do tema abordado pelo escritor, visto que o Brasil já passava por pressões externas (a Inglaterra, por exemplo) e internas (os movimentos abolicionistas) para que se extinguisse a escravidão. O contexto em