3. Stylized Numerical Analysis
3.2 Data and parametrization
Não podemos entender a formação das mulheres sem falar das relações de gênero na sociedade angolana, dentro da cultura bantu antes do contato com as culturas ocidentais. Uma análise voltada ao gênero se torna importante, em virtude de se tratar da formação que promove mudanças na vida das pessoas. Maria da Conceição Neto assevera:
(...) não basta ter em consideração as eventuais diferenças de classe, de estatuto socioprofissional, de religião, de raça, de etnia etc; para compreender uma sociedade, em cada circunstância é preciso igualmente olhar para o setor feminino e o setor masculino dos grupos sociais e as relações que se estabelecem entre eles214.
A observação da historiadora Maria da Conceição se torna relevante, porque a compreensão sobre as relações de gênero nos ovimbundu passa necessariamente pela
213 UANHENGA XITU – Agostinho A. Mendes de Carvalho. Op. cit, p.78-79. 214 NETO, Maria da Conceição. Op. cit p.12.
análise dos papéis exercidos pelos homens e mulheres na cultura bantu. As relações entre homens e mulheres nos ovimbundu, não só passavam pela distribuição de papéis, mas também pelo reconhecimento de que todos os papéis são vitais na sociedade. E que a aceitação dos papéis concorriam para o domínio social, político, econômico e religioso, para além do valor tradicionalmente reconhecido na formação das novas gerações215.
Para Maria da Conceição a reflexão do relacionamento entre homens e mulheres se faz necessária contribuindo assim na luta contra o subdesenvolvimento, contra a dominação, contra as ideologias e preconceitos, que desvalorizam o papel preponderante das mulheres em todas as esferas sociais. Nisso, uma reflexão crítica passa a ser condição essencial para o processo da libertação das mulheres e intervenção social, para o desenvolvimento das comunidades e sociedades. Quando não se têm em conta esses dois setores (mulheres e homens) numa intervenção social, as conseqüê ncias prejudiciais e por vezes irreparáveis216.
As relações de gênero em quase todas as sociedades são nítidas. Em Angola, se verifica aspectos que submetem as mulheres a situações de inferioridade em relação aos homens. Por exemplo, em muitas famílias, a ma ior parte das decisões são tomadas com o consentimento do marido, a mulher deve obediência ao homem.
Na cultura, os casos de esterilidade eram pouco tolerados. Uma vez confirmada a esterilidade na mulher, a família ou os parentes exerciam pressão sobre o casal. Casos de tolerância se verificavam quando a esterilidade fosse no homem. A mulher estéril é tida como vergonha para o marido, tristeza para ela e para seus parentes. Os parentes do marido instigam o marido a arranjar outra mulher capaz de procriar217.
Após o término do comércio exterior, a lavoura era trabalhada em separado. O marido tinha sua lavra e a mulher outra. A produção agrícola do marido era destinada para a compra ou aquisição de bens considerados de maior valor, por exemplo, mobiliário, gado e outros bens. A produção da mulher era destinada ao consumo diário da família composta, em média, por seis pessoas.
Assevera André S. Dialamícua ao dizer que mulheres eram responsáveis pela cultura agrícola para o consumo local. Os homens assumiam a responsabilidade do cultivo de produtos para a venda, porém a responsabilidade mais íntima com o campo e a
215NETO, Maria da Conceição. Op. cit, p.12. 216 Idem, p.12.
217Ministério da Administração do Território. 1º Encontro nacional sobre a autoridade tradicional em
plantação era competência das mulheres e os homens passavam mais tempo em visita ao campo218.
No que diz respeito à formação nas escolas das igrejas e outras instituições, no período colonial, se constata que a prioridade foi dada aos homens. Percebe-se que a mulher é produtora e asseguradora da economia nas sociedades do continente africano, caso ela queira investir seu tempo na formação, automaticamente a economia se desestrutura219.
Muitas mulheres se destacaram na sociedade. Cita-se a rainha Nzinga Mbandi e suas irmãs, mulheres que participaram nos movimentos de libertação de Angola, assim como outras que marcaram seu desempenho no espaço público da sociedade angolana. Estas mulheres além de terem exercido cargos públicos, gozavam de certa consideração na tomada de decisões em situações limites220.
Em tempos passados, as mulheres não falavam em público, entretanto, eram solicitadas a emitirem suas opiniões diante de quaisquer problemas em virtude da sua capacidade de ação, rápida reflexão e resposta em tempo oportuno221.
O seu papel no lar se apresentava ambíguo, na medida em que tinha restrições ao mesmo tempo exercia autonomia em alguns aspectos, como por exemplo, na educação dos filhos, guardar segredos no lar222. Constatava-se que as mulheres, mesmo na condição de submissão, procuravam defender os homens ou os maridos, muitas vezes preferiam sofrer para salvaguardar a estrutura familiar e posição social. De acordo com Elvira Moisés da Silva:
(...) a mulher desempenha papel preponderante na vida política institucional e na política do lar. Ela é articuladora de todos os momentos da vida familiar e até protetora do marido e não o marido protetor desta223.
Atualmente, se verificam mudanças, principalmente nas cidades, graças aos esforços das mulheres nas suas organizações e alguns homens, que têm levado a cabo estudos sobre as relações de gênero e igualdade social para as comunidades e lideranças.
218 DIALAMÍCUA, André Sunda. In: Ministério da Administração do Território. 1º Encontro Nacional sobre
a autoridade tradicional em Angola. Luanda Angola, Editorial Nzila, 2003, p.434.
219 Idem p.434.
220 SILVA, Elvira Moisés. Provérbio de Mulher e Sobre a Mulher na Cultura Bantu e na Bíblia. São
Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, dissertação de mestrado, 1997, p.97.
221Idem, p.97. 222 Idem, p.97. 223Idem, p.97.
As organizações políticas das mulheres OMA224, LIMA225, AMA226, Rede Mulher, Ministério da Família e Promoção da Mulher, Sociedades das Mulheres das igrejas e mulheres de outras organizações, têm lutado para reverter o quadro no que diz respeito ao gênero na sociedade ango lana. O governo angolano tem mostrado simpatia e interesse em apoiar as atividades das mulheres, exigindo que elas ocupem 30% dos cargos nos ministérios governamentais, em todos os segmentos da sociedade. A essas medidas, contrapõe-se a real situação de que poucas mulheres tiveram a oportunidade de ter a formação que se exige, pois sempre foram as que se sacrificaram para a sobrevivência das famílias, comunidades e sociedade. Elas são a base geradora da economia, constituem a força de trabalho agrícola, força de trabalho no mercado paralelo e oficial. Também são mães contribuindo assim na perpetuação das gerações.
É nessa convivência que se articularam as relações de gênero na vida das sociedades tradicionais e ocidentais na África. Ligada a questão de gênero está a formação na cultura angolana.
2.2.2– A formação na cultura angolana
No processo da formação a cultura não pode ser isolada.Victor Cajibanga, sociólogo, numa das reflexões sobre cultura, dizia que como pessoas e membros de comunidades condicionadas por cultura, aprendida na família, na sociedade e nas instituições que contribuíram para a formação das convicções e modos de viver, não deve ser ignorada, pois ela não é estática e imutável. Cada pessoa é produtora da cultura e contribui para a sua mudança e alteração. Victor Cajibanga diz que os pais são diferentes dos filhos, porque se deseja ser diferente e se constrói diferentes respostas aos desafios e problemas que se apresentam. Admite-se que os desafios e problemas são diferentes em cada época227. Nesse contexto, Victor Cajibanga define cultura como sendo:
(...) conjunto de soluções que um povo desenvolve ao longo dos tempos, para dar respostas às necessidades. Têm a ver com valores, modelos de comportamento,
224OMA - Organização da Mulher Angolana no partido MPLA - Movimento Popular de Libertação da
Angola.
225LIMA - Libertação da Mulher Angolana no partido UNITA-União Nacional para Independência Total da
Angola.
226AMA- Associação da Mulher Angolana no partido FNLA -Frente Nacional para Libertação da Angola. 227CARITAS DE ANGOLA; IGREJA EVANGÉLICA CONGREGACIONAL EM ANGOLA; OIKOS
Cooperação e Desenvolvimento. Jango formação para a transformação em Angola: Formação de Formadores 2000-2001. Luanda Angola, 2001, p.33.
estilos de vida, modos de estar e regras que fundamentam e regulam o comportamento individual e social228.
O Congresso de Lausanne, ao se preocupar com o evangelho e a cultura dos que evangelizam e dos evangelizados, definiu da seguinte maneira a cultura: como sistema de crenças sobre Deus, a realidade, significado da vida; valores que têm a ver com o verdadeiro, bom, bonito, normativo; de costumes ligados ao relacionamento com os outros, comportar, falar, orar, vestir, trabalhar, fazer comércio, comer, trabalhar na lavoura; e de instituições que expressam estas crenças, valores e costumes entre elas: governo, igrejas, templos, família, escolas, hospitais, fabricas229.
As experiências mostraram que existem tendências nos processos de formação de impregnar os conteúdos com a cultura adquirida, isso desde tempos passados. A humanidade, desde o passado, elaborou uma série de técnicas e artes de formar as gerações de acordo com a cultura. As áreas de conhecimentos conhecidas desde há muito, eram as artes de culinária, agricultura, cerâmica, pecuária, tecelagem, puericultura, medicina, educação e artesanato. As pessoas eram formadas segundo as necessidades que a vida exigia em cada sociedade. Para Lauro de Oliveira Lima grande parte da evolução das artes se baseou na substituição progressiva de modelos de ação do senso comum, por modelos tecnológicos baseados na pesquisa científica, com influência da racionalização no comportamento prático. A modernização consiste, pois, em dar bases científicas a essas
atividades, em inventar novas técnicas, que tornam eficientes e econômicas o processo de produção230.
Ao longo dos tempos, a formação tem sido efetuada de maneira formal e não formal, onde crianças ou adultos, aprendem dos pais, dos mais velhos ou de indivíduos mais experientes pela observação, repetição e execução das tarefas necessárias para a realização e satisfação da vida dos indivíduos na sociedade. Com relação a este assunto, Ely Chinoy assevera:
Por meio de repetidos esforços para imitar os mais velhos e pelo processo do ensaio e do erro, não raro as vistas atentas de alguém, a criança aprendia a executar as tarefas que dela seriam exigidas quando chegasse à idade adulta231.
228CARITAS DE ANGOLA; IGREJA EVANGÉLICA CONGREGACIONAL EM ANGOLA; OIKOS
Cooperação e Desenvolvimento. Op. cit, p.33.
229 Comissão de Lausanne. O evangelho e a cultura. Londres Inglaterra, Abu Editora S/C e Visão Mundial,
1985, p.10-11.
230 LIMA, Lauro de Oliveira. Para que servem as escolas? Petrópolis Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1995, p.
24.
Ainda segundo Ely Chinoy, as normas sociais, as crenças e costumes tradicionais e os padrões morais se absorviam no curso da vida cotidiana e eram completadas por instrução explícita de pessoas indicadas232. Os ofícios eram transmitidos de pais para filhos, por exemplo, os rapazes eram instruídos na carpintaria, cerâmica, cestaria, na construção de casas, pontes, o ofício de transfo rmar o ferro em objetos de uso no dia a dia como a fabricação da enxada, do machado, da catana, do sacho, do cajado e de vários outros objetos. A formação era transmitida de forma a perpetuar o conhecimento de geração em geração, com vista à divisão de tarefas diferenciadas entre homens e mulheres233.
As pessoas aprendiam ouvindo e observando, para moldar o seu comportamento na vivência comunitária. Constata-se que em todas as sociedades, tanto antigas como modernas, a formação é contínua ao longo da vida das pessoas. Ely Chinoy, descrevendo a aprendizagem e instrução como processo contínuo ao longo de toda a vida do indivíduo, explicita o seguinte:
(...) a educação, no sentido mais lato, não se limita à sala de aulas, nem termina, como nos recordam os chavões familiares, ao completar-se o período escolar. Faz parte do complexo de socialização, que transforma a criança num ser social, capaz de participar da vida da sociedade, e continua enquanto lhe for preciso aprender a adaptar-se a novas circunstâncias e a desempenhar novos papéis234.
Neste sentido, nas sociedades antigas e modernas, a escola foi se tornando historicamente um espaço tanto social quanto de aprendizagem ou formação que não se limita nesse espaço, porém continua fora dele. Atualmente, tem se verificado de forma espetacularmente drástica e acelerada mudanças que ocorrem, nessas antigas artes235.
Em Angola, a preocupação com a formação remontava de longo tempo, por isso criaram escolas onde formavam membros da comunidade. Transmitiam conhecimentos, ensinavam a arte de esculpir e dançar, por exemplo, os ovimbundu particularmente eram escultores de animais, arte que era de mestres para jovens interessados. Esta prática durou séculos antes da ocupação européia236.
232 Idem, p.533. 233Idem, p.534. 234 Idem, p.534.
235 LIMA, Lauro de Oliveira. Op. cit, p. 25.
236MANUEL, Tiago. Ciências da Religião – Cadernos de Pós-Graduação. Adolescência e fé. In: Questões
As escolas, embora não tivessem configuração igual aos dias atuais, desempenhavam o papel de instituição educativa e de formação. Nesta época, a preocupação das sociedades e comunidades consistia em educar e instruir as gerações para uma vida condigna e responsável. Na África e em Angola o processo de formação começava desde cedo, isto é, as crianças eram integradas ao processo da vida comunitária nas instituições específicas que são escolas, embora não tivessem configuração moderna, onde começavam as sucessivas etapas da vida das pessoas caracterizadas pelo nascimento, a puberdade, o casamento, para situar cada membro da comunidade e formá-la para a vida religiosa e social.
O processo de formação tornava a pessoa apta para o exercício dos seus direitos e responsabilidades dentro da comunidade. As crianças aprendiam diversas questões, desde a origem das comunidades, sua constituição social, a vida em sociedade, que se articula através do amor e da solidariedade, atividades predominantes e necessárias para a vida, a ligação dos vivos com os espíritos dos antepassados237.
Apesar do exposto, se pretende falar detalhadamente sobre a instituição educativa em Angola, nos povos ovimbundu. Os ovimbundu tinham uma instituição educativa denominada Onjango. O onjango era o centro educacional para a formação comunitária. O povo se reunia para discutir assuntos de interesse geral da comunidade e a transmissão do reportório cultural. No que diz respeito ao onjango, João Pedro, em seu artigo apresenta o seguinte:
Naquilo que é a cultura tradicional do povo Ovimbundu, o onjango é uma grande herança dos antepassados, pois constitui um dos símbolos que enaltece a sua tradição, mormente os ritos, hábitos e costumes. De facto, o onjango é por assim dizer, a casa dos ensinamentos e do aprendizado da vida das comunidades. É lá onde se discutem os problemas, onde os mais-velhos transmitem a sua experiência aos mais jovens, e também onde se geram os sobas238.
O Onjango era construído de pau-a-pic. O Soma Chitonga na Embala ou o ancião responsável pela formação na aldeia, todas os dias tinha a responsabilidade de escolher um tema específico a ser abordado, arranjar lenha e preparar as condições para o bom andamento dos estudos e acomodação das pessoas que se reuniam nas sessões no Onjango. Os estudos davam-se à noite, após o jantar 239. Os métodos eram variados, e por isso os conhecimentos também eram transmitidos por meio das sabedorias populares, fábulas e
237 MANUEL, Tiago. Op. cit. p.20.
238 PEDRO, João. O Onjango na tradição dos povos umbundu. http.//www.ritosdeangola.com.br.
julho/agosto 2000. Informações capturadas em junho de 2004.
adivinhas. As práticas da agricultura, artes, resolução de conflitos familiares, conflitos matrimoniais e a iniciação eram ensinamentos que se davam no Onjango. Em resumo, o
onjango era considerado a escola onde se recebe, os ensinamentos da vida na comunidade
– a academia de música, a sala de reuniões dos membros do governo, a sala das refeições dos já iniciados, a sala onde se conserva o fogo desde a fundação da aldeia ou da ombala, o lugar onde se transmite a tradição de geração a geração, o tribunal da aldeia, o clube dos homens240.
As mulheres freqüentavam lugares específicos, Ociwo, que também servia de escola para a educação e formação das gerações novas. Ali aprendiam e ensinavam agricultura, artes e as demais atividades cotidianas atribuídas às mulheres, das quais se destacam algumas: socar milho ou outros cereais, preparar alimentos e cozinhá-los, transportar água, catar lenha no mato, limpar a casa e os utensílios.
Elvira Moisés da Silva, na sua dissertação de mestrado onde analisa provérbios utilizados em Angola, revela que na educação a mulher ocupava um lugar de destaque, ao transmitir conhecimentos e experiências acumuladas que constroem a vida em sociedade.
A transmissão sendo oral exigia da transmissora ou do transmissor maior responsabilidade, porque além do conhecimento a ser passado, também se evidenciava o valor da mulher e do homem na cadeia transmissora, levando em conta a fidelidade das memórias individuais e coletivas241.
Isso acontecia nos Onjango, Ociwo, acampamentos de iniciação, reuniões, atividades em coletivo, festas etc.
Tornaram-se mestres ao contarem para as gerações suas experiências acumuladas ao longo da história e ensinarem às crianças seus deveres e educá-las no caminho que deviam andar.
Além de serem educadoras de filhas e filhos de todas as faixas etárias, as mulheres socializavam experiências e problemas.
240MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO DO TERRITÓRIO – MAT. Op. cit p.103. 241 SILVA, Elvira Moisés. Op. cit, p.19.
Acrescenta Elvira que também fazia parte do programa a abordagem de assuntos ligados a:
(...) questões como o corpo e a sexualidade, trazendo à tona as dificuldades que vivenciam numa sociedade construída sob-pilar masculino. Apresentam em comum suas dific uldades sobre problemas da fertilidade, ritos de iniciação das mulheres para a vida matrimonial e a reprodução. Discutem nas suas rodas as fábulas sobre como controlar a fertilidade e como participar nos ritos artesanais em épocas férteis242.
No cotidiano, as mais velhas e os mais velhos, as tias e os tios também assumiam responsabilidade de educar as moças e os moços, pois estes ao invés dos pais, aprofundavam a abordagem ligada à sexualidade sem constrangimentos. As mulheres, depois do preparo da última refeição do dia, que é o jantar, levavam a comida dos maridos ao onjango, onde os homens compartilhavam e faziam juntos as refeições. Ali, no onjango, os homens repartiam a comida que cada mulher trazia. Os hóspedes, os viajantes que passavam pela aldeia, eram convidados a fazer parte da refeição em comum e dos estudos a serem tratados depois da refeição no mesmo onjango. A comida mal preparada, sem o gosto desejado ou do jantar trazido com atraso no onjango, era entregue às crianças. Esta era a forma de repreender as mulheres e sem dúvida, isso, as deixava humilhadas, pois se transmitia que a comida não foi consumida pelos maridos no onjango. Por isso, as mulheres tinham que aprimorar constantemente seus dotes culinários, através da formação com as outras mulheres, para agradar os maridos. Os homens sabiam exatamente as mulheres que dominavam a culinária e a preparação dos alimentos em termos de arte.
Quanto à construção do onjango, qualquer local podia servir para a construção do mesmo, desde que fosse escolhido pelo Soba, por um líder da comunidade ou uma outra pessoa digna de respeito, irrepreensível, a quem a comunidade responsabilizava pela escolha do lugar. O lugar indicado pela pessoa responsabilizada podia ser aceito por todos porque se acreditava que a terra pertencia aos antepassados e ninguém reivindicaria pela posse do terreno escolhido. Pelo contrário, os supostos donos do terreno sentiam-se honrados em ceder o terreno para a construção do onjango ou ombala Para tal pegava-se um pouco de barro preto e algumas folhas da raiz denominada limbui e se colocam debaixo do tronco principal que segura o teto243. O Onjango era construído de pau-a-pic, coberto de
242 SILVA, Elvira Moisés. Op. cit. p.19. 243 PEDRO, João. Op. cit, p.1.
capim, no centro um tronco que suporta os troncos do teto. O espaço interior do Onjango é de suma importância pelo papel que a estrutura desempenha na vida da comunidade e também de segundo João Pedro, a área central do onjango encerra um significado
especial, pois enaltece espiritualmente a presença dos antepassados244.
A construção do onjango, seja na embala ou na aldeia, obedecia a certo ritual que consistia nas formalidades de evocar os espíritos dos antepassados. O ritual terminava com a festa onde as pessoas bebiam e comiam as iguarias preparadas, porém antes das pessoas